KENEALLY, Thomas. A Lista de Schindler (Um Heri do Holocausto) 
Traduo de TATI MORAES. 4a EDIO EDITORA RECORD. Rio de Janeiro,1994. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto o Reich, acossado pelas sucessivas derrotas, enviava diariamente 60 mil seres humanos aos fornos de Auschwitz, o industrial alemo Oskar Schindler abrigava milhares de judeus em sua fbrica, de onde ele finalmente os transferia em segurana para a Tchecoslovquia. Um lugar na "lista de Schindler" significava, no mnimo, esperana de futuro para um prisioneiro judeu.
No decorrer daqueles anos de guerra, Schindler despendeu imensa fortuna em subornos para a SS e em alimentos e remdios adquiridos no mercado negro para os seus prisioneiros. Levando uma vida cheia de riscos, manejou com incrvel habilidade os cordes que o ligavam a autoridades alems. Ningum jamais compreendeu o que o impeliu a arriscar a prpria vida para salvar tantos estranhos. E  este mistrio  juntamente com o relato de seus inacreditveis atos e seu imenso valor moral  que marcar indelevelmente o nome de Oskar Schindler nas pginas da Histria.
Romancista, dramaturgo e produtor, Thomas Keneally passou dois anos entrevistando sobreviventes Schindler juden em oito pases, inclusive Austrlia, Israel, Estados Unidos, Polnia, Alemanha Ocidental e ustria. Baseado nesses depoimentos e nos testemunhos que se encontram na Seo de Lembrana dos Mrtires e Heris, no Yad Vashem, ele realizou esta espantosa recriao de um episdio histrico, narrado com toda a nfase de uma fico. Agraciado com o Prmio Booker, da Inglaterra, A Lista de Schindler tornouse um dos maiores sucessos cinematogrficos de Steven Spieiberg, considerado pela Associao dos Crticos de Nova York e de Los Angeles o melhor filme de 1993. 
 memria de Oskar Schindler, e a Leopold Pfefferberg, que, pelo seu zelo e persistncia, fez com que este livro fosse escrito.  
Pg.07
NOTA DO AUTOR 
Em 1980, entrei numa loja de malas em Beverly Hilis, Califrnia, e perguntei os preos de pastas para documentos. A loja pertencia a Leopold Pfefferberg, um sobrevivente Schindler. Foi sob prateleiras de mercadorias de couro italiano importado que ouvi pela primeira vez a histria de Oskar Schindler, um alemo bon vivant, especulador, homem sedutor, e  sinal tpico de sua personalidade contraditria como salvou um segmento de uma raa condenada durante aqueles anos agora conhecidos pelo nome genrico de Holocausto.
Este relato da espantosa histria de Oskar se baseia, em primeiro lugar, nas entrevistas com cinquenta sobreviventes Schindler em sete naes  Austrlia, Israel, Alemanha Ocidental, ustria, Estados Unidos, Argentina e Brasil.  incrementado por uma visita, na companhia de Leopold Pfefferberg, a locais mencionados em destaque no livro: Cracvia, cidade de adoo de Oskar; Plaszvia, cenrio dos torpes trabalhos forados de Goeth; a Rua Lipowa, Zablocie, onde ainda se situa a fbrica de Oskar; Auschwitz-Birkenau, de onde Oskar arrancou suas prisioneiras. Mas a narrativa se baseia tambm em documentos e outras informaes fornecidos pelos poucos associados de Oskar na poca da guerra, que ainda podem ser encontrados, bem como pelos seus muitos amigos do ps-guerra. Numerosos testemunhos relativos a Oskar, depositados pelos Judeus Schindler no Yad Vashem,a Autoridade de Recordao de Mrtires e Heris, amplificam este relato, assim como os depoimentos por escrito de fontes privadas e um contexto de documentos e cartas de Schindler, alguns fornecidos pelo Yad Vashem, outros por amigos de Oskar.
O estilo e o esquema adotados nos romances tm sido frequentemente usados por autores modernos para contar uma histria verda-
Pg.08
deira. Foi o caminho que decidi seguir aqui  no s por ser de romancista a minha nica profisso, mas porque a tcnica do romance me pareceu adequada a um personagem da ambiguidade e magnitude de Oskar. Contudo, tentei evitar qualquer fico, pois assim fazendo iria adulterar o relato, e procurei separar a realidade dos mitos que se criam em torno de um homem da envergadura de Oskar. Por vezes se
fez necessrio uma reconstruo razovel das conversaes que Oskar e outros poucos relataram. Mas a maioria dos contatos e entendimentos, e todos os eventos se baseiam nas recordaes detalhadas dos Schindlerjuden (Judeus Schindler), do prprio Schindler e de outras testemunhas dos incrveis salvamentos por ele efetuados.
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a trs sobreviventes Schindler  Leopold Pfefferberg, o juiz Mosh Bejski, da Suprema Corte de Israel, e Mieczyslaw Pemper  que no somente transmitiram suas rememoraes de Oskar ao autor e lhe forneceram certos documentos que contriburam para a exatido da narrativa, mas tambm leram o rascunho do livro e sugeriram algumas correes. Muitos outros, quer fossem sobreviventes Schindler ou aqueles que conheceram Oskar no ps-guerra, deixaram-se entrevistar e forneceram generosamente informaes atravs de cartas e documentos. Nessa lista esto includos Frau Emilie Schindler, Sra. Ludmila Pfefferberg, Dra. Sophia Stern, Sra.Helen Horowitz, Dr. Jonas Dresner, Sr. e Sra. Henry Rosner, Leopold Rosner, Dr. Alex Rosner, Dr. Idek Schindel, Dra. Danuta Schindel, Sra. Regina Horowitz, Sra. Bronislawa Karakuiska, Sr. Richard Horowitz, Sr. Shmuel Springmann, o falecido Sr. Jakob Sternberg, Sr.Jerzy Sternberg, Sr. e Sra. Lewis Fagen, Sr. Henry Kinstlinger, Sra.Rebecca Bau, Sr. Edward Heuberger, Sr. e Sra. M. Hirschfeld, Sr. e Sra. Irving Glovin e muitos outros. O Sr. e Sra. E. Korn no somente relataram suas rememoraes de Oskar mas foram para mim um estmulo constante. No Yad Vashem, Dr. Josef Kermisz, Dr. Shmuel Krakowski, Vera Prausnitz, Chana Abells e Hadassah Mdlinger proporcionaram amplo acesso aos testemunhos de sobreviventes Schindler e ao material fotogrfico e de vdeo.
Finalmente, gostaria de render homenagem aos esforos do falecido Sr. Martin Gosch no sentido de levar ao conhecimento do mundo o nome de Oskar Schindler e transmitir meus agradecimentos  sua viva, Sra. Lucille Gaynes, pela sua cooperao neste projeto.
Atravs da assistncia de todas essas pessoas, a espantosa histria de Oskar Schindler aparece pela primeira vez detalhadamente. 
TOM KENEALLY
Pg. 09 
A Lista de Schindler (Um Heri do Holocausto)  
Pg.11
Prlogo 
Outono de 1943  

Em pleno outono na Polnia, um rapaz alto, envergando um elegante sobretudo por cima de um dinner jacket, em cuja lapela trazia uma vistosa Hakenkreuz (sustica) de ouro e esmalte preto, emergiu de um luxuoso edifcio de apartamentos na Rua Straszewskiego, nas circunvizinhanas do antigo centro de Cracvia. O seu chofer o esperava, com a respirao condensada pelo frio, junto  porta aberta de uma imensa limusine Adier, que reluzia apesar da escurido da rua.
 Cuidado com a calada, Herr Schindler  advertiu o chofer.
 Est mais glida do que um corao de viva.
Ao observar essa pequena cena de inverno, estamos em terreno seguro. O rapaz alto iria usar at o fim de seus dias jaquetes, iria  sendo praticamente um engenheiro  ser sempre agraciado com veculos lustrosos e  embora alemo e, neste ponto da histria, alemo de alguma influncia  ser, enquanto vivesse, o tipo de homem a quem um chofer polons podia dirigir uma discreta piada em tom de camaradagem. 
     Mas no ser possvel apreender toda a histria com a simples descrio desses pormenores caractersticos. Pois se trata da histria do triunfo pragmtico do bem sobre o mal, um triunfo em termos rigorosamente mensurveis, estatsticos e nada sutis. Quando se considera o outro lado da fera  quando se relata o previsvel sucesso que o mal geralmente alcana   fcil ser perspicaz e deturpar, a fim de evitar um anticlmax.  fcil mostrar a inevitabilidade com que o mal adquire o que se poderia chamar de propriedade da histria, ainda que o bem possa terminar com uns poucos e imponderveis triunfos, tais como dignidade e autoconhecimento. A fatal malcia humana  a matria-prima dos narradores, o pecado original, o fluido materno dos histo- 
Pg.12
riadores. Mas  um empreendimento arriscado escrever sobre a virtude.
Com efeito, "virtude"  uma palavra to perigosa que temos de nos apressar em explicar: Herr Oskar Schindler, arriscando os seus reluzentes sapatos na glida calada daquele velho e elegante bairro de Cracvia, no era um rapaz virtuoso no sentido convencional. Nessa cidade, ele instalara sua amante alem numa casa e mantinha um prolongado caso com sua secretria polonesa. Sua mulher, Emilie, preferia passar a maior parte do tempo no lar em Morvia, ainda que de vez em quando fosse visitar o marido na Polnia.  preciso que se diga isso em favor de Oskar: com todas as suas mulheres ele se mostrava um amante polido e generoso. Mas na interpretao usual de "virtude", essas qualidades no servem como desculpa.
Alm disso, era dado a bebidas. s vezes bebia por simples prazer, outras vezes com companheiros, burocratas, membros da SS para obter informaes mais concretas. Era capaz, como poucos, de se manter alerta enquanto bebia, de no perder a cabea. Tambm isso  segundo uma rgida interpretao de moralidade  nunca foi desculpa para farras. E ainda que o mrito de Herr Schindler esteja bem documentado,  um trao da sua ambiguidade o fato de que ele trabalhava dentro ou, pelo menos, na periferia de um esquema corrupto e selvagem, que enchia a Europa de campos de variada e dura desumanidade e criava uma submersa e muda nao de prisioneiros. Portanto, talvez seja melhor comearmos experimentalmente com um caso ilustrativo da estranha virtude de Herr Schindler e dos locais e pessoas que o levaram a agir naquele sentido.
No final da Rua Straszewskiego, o carro passou sob a negra massa do Castelo Wawel, de onde o advogado Hans Frank, o bem-amado do Partido Nacionalsocialista, governava a Polnia. Luz alguma brilhava no palcio do gigante mau. Nem Herr Schindler nem o seu chofer lanaram sequer um olhar aos baluartes quando o carro rumou na direo do rio. Na Ponte Podgrze, os guardas, postados acima do Vstula congelado para impedir a passagem de guerrilheiros e infratores do toque de recolher entre Podgrze e Cracvia, estavam habituados ao veculo, ao rosto de Herr Schindler, ao Passierschein apresentado pelo chofer. Herr Schindler atravessava frequentemente aquela barreira, indo da sua fbrica (onde mantinha tambm um apartamento)para o centro da cidade; ou ento do seu apartamento na Rua Straszewskiego para a sua usina no subrbio de Zablocie. Estavam tambm habituados a v-lo  noite, em trajes formais ou semiformais, a caminho de algum jantar, festa ou encontro amoroso. Talvez, como era o caso nessa noite, rumando uns dez quilometros para fora da cidade,onde se situava o campo de trabalhos forados de Plaszvia para jantar
Pg.13
com o SS Hamptsturmfhrer Amon Goeth, um libertino altamente colocado. Herr Schindler gozava a fama de ser generoso com presentes de bebidas no Natal, portanto o seu carro tinha permisso para entrar sem formalidades no subrbio de Podgrze.
 verdade que nessa fase de sua histria, apesar de uma preferncia por boa comida e bons vinhos, Herr Schindler encarava o jantar com o Comandante Goeth com mais desagrado do que satisfao. Com efeito nunca houvera ocasio em que se sentar e beber em companhia de Amon no lhe fosse uma perspectiva repelente. Entretanto, havia na repulsa de Herr Schindler algo de picante, um antigo, excitante senso de abominao  algo como a sensao que causa, numa pintura medieval, a vista dos justos lado a lado com os malditos. Uma emoo que, por assim dizer mais o aguilhoava do que acovardava.
No interior forrado de couro preto do Adler, que corria ao lado dos trilhos do bonde, no local onde at recentemente fora o gueto judaico, Herr Schindler - como sempre  fumava um cigarro atrs do outro. Mas a sua Mancira de fumar era calma. Jamais se via tenso nas suas mos; sua atitude era elegante; seus modos sugeriam que ele sabia de onde viriam o prximo cigarro e a prxima garrafa de conhaque. Somente ele poderia nos dizer se tinha de se fortalecer com uns goles de seu frasco de bolso, ao passar pela silenciosa e sombria aldeia de Prokocim, onde se via, parada junto ao leito da estrada para Lww,uma fileira de vages de gado, que poderiam estar transportando soldados de infantaria ou prisioneiros, ou at mesmo  embora fosse pouco provvel  gado. 
J no subrbio, talvez a uns dez quilometros do centro da cidade,o Adler dobrou  direita e entrou numa rua chamada  por ironia Jerozolimska. Nessa noite de marcantes contornos congelados, Herr Schindler notou  primeira vista, abaixo da colina, uma sinagoga em runas, e depois as formas nuas do que naqueles dias equivalia  cidade de Jerusalm, o Campo de Trabalhos Forados de Plaszvia, a cidade de casernas de 20.000 judeus inquietos. Os SS ucranianos e Waffen cumprimentaram cortesmente Herr Schindler, pois ele era to conhecido ali como na Ponte Podgrze.
Quando se achou no mesmo nvel que o Prdio da Administrao, o Adler avanou por um caminho margeado por sepulturas judaicas. At dois anos atrs, o acampamento fora um cemitrio judaico.O Comandante Goeth, que se dizia poeta, usara na construo daquele campo todas as metforas que lhe ocorreram. Essa metfora de tumbas arrebentadas percorria a extenso do campo, dividindo-o em dois,mas no se estendia a leste para a villa, ocupada pelo prprio Comandante Goeth.
Pg.14
 direita, depois da caserna dos guardas, erguia-se uma antiga construo morturia dos judeus. Parecia proclamar que ali toda a morte era natural, causada pelo desgaste, que todos os mortos estavam devidamente enterrados. Na realidade, o local era agora usado como a estrebaria do comandante. Embora estivesse habituado ao cenrio,  possvel que este ainda provocasse em Herr Schindler a reao de uma ligeira tosse irnica. Admissivelmente, se algum fosse reagir a cada aspecto irnico da nova Europa, essa reao passaria a fazer parte de sua bagagem. Mas Herr Schindler possua uma imensa capacidade de carregar consigo tal bagagem.
Nessa noite, um prisioneiro chamado Poldek Pfefferberg encaminhava-se tambm para a residncia do comandante. Lisiek, a ordenana de dezenove anos, fora  caserna de Pfefferberg munido de passes assinados por um oficial graduado da SS. O problema do rapaz era o fato de que a banheira do comandante estava com um anel encardido em seu interior, e Lisiek tinha medo de ser espancado, quando o Comandante Goeth fosse tomar o seu banho matinal. Pfefferberg, que fora professor no curso secundrio de Lisiek em Podgrze, trabalhava na garagem do campo e tinha acesso a solventes. Assim, acompanhado por Lisiek, ele foi at a garagem e apanhou um esfrego e uma lata de detergente. Aproximar-se da residncia do comandante era sempre uma aventura duvidosa, mas significava a chance de receber comida de Helen Hirsch, a maltratada empregada judia de Goeth, moa generosa que tambm fora discpula de Pfefferberg.
Quando o Adler de Herr Schindler se encontrava ainda a cem metros da vilia, os ces comearam a latir  o dinamarqus, o fila e todos os animais mantidos em canis atrs da casa. A construo era de forma quadrada, com um sto. As janelas do sobrado davam para uma varanda. Contornando todas as paredes havia um terrao com balaustrada. Amon Goeth gostava de sentar-se ao ar livre no vero.Desde que chegara a Plaszvia aumentara de peso. No prximo vero seria um rotundo adorador do sol. Mas naquela verso particular de Jerusalm, ele estaria a salvo de pilhrias.
Um Unterscharfhrer SS (sargento), exibindo luvas brancas, estava nessa noite postado junto  porta da entrada. Bateu continncia e introduziu Herr Schindler na casa. No saguo, Ivan, a ordenana ucraniana, apanhou o sobretudo e o chapu-coco de Herr Schindler. Este apalpou o bolso de cima do palet para se certificar de que estava com o presente para o seu anfitrio: uma cigarreira folheada a ouro adquirida no mercado negro. Amon estava to bem de finanas, especialmente negociando com jias confiscadas, que se ofenderia se recebesse algo menos que um folheado a ouro.
Pg.15
Ao p das portas duplas, que abriam para a sala de jantar, os irmos Rosner estavam extraindo melodias, Henry de um violino, Leo de um acordeo. Por ordem de Goeth, eles tinham posto de lado as roupas esfarrapadas, que usavam durante o dia na oficina de pintura do campo, e envergado os trajes de noite, mantidos em sua caserna para eventos como aquele. Oskar Schindler sabia que, embora o comandante admirasse a msica dos Rosner, estes nunca se sentiam tranquilos, quando tocavam na vilia. J conheciam bem Amon. Sabiam que ele era imprevisvel e dado a execues ex tempore. Assim, tocat vam com cautela, no receio de que sua msica, de repente, inexplicavelmente, se tornasse ofensiva.
	 mesa de Goeth essa noite iriam sentar-se sete homens. Alm do prprio Schindler e do anfitrio, os convidados incluam Julian Scherner, chefe da SS para a regio de Cracvia, e Rolf Czurda, chefe da diviso em Cracvia da SD, o Servio de Segurana do falecido Hey drich. Scherner era um Oberfhrer  um posto entre coronel e general-N de-brigada, para o qual no existe equivalente no Exrcito; Czurda,l, um Obersturmbannfhrer, equivalente a tenente-coronel. Goeth era um  Hauptsturmfhrer, ou seja, capito. Scherner e Czurda eram os conK vidados de mais alta categoria, pois aquele campo estava sob a sua autoridade. Eram ambos alguns anos mais velhos do que o Comandante Goeth, e o chefe de polcia SS Scherner parecia positivamente um hot toem j maduro, com seus culos, cabea calva e leve obesidade. Ainda assim, em virtude dos hbitos extravagantes do seu protegido, a diferena de idade entre ele e Amon no parecia ser significativa.
O mais velho do grupo era Herr Franz Bosch, um veterano da Primeira Guerra, gerente de vrias oficinas, legais e ilegais, dentro de Plaszvia. Era tambm conselheiro econmicode Julian Scherner e tinha interesses comerciais na cidade.
	Oskar sentia desprezo por Bosch e pelos dois chefes de polcia, Scherner e Czurda. Contudo, a cooperao deles era essencial  existncia de sua peculiar fbrica em Zablocie, e assim constantemente mandava-lhes presentes. Os nicos convidados por quem ele sentia alguma simpatia eram Julius Madritsch, proprietrio da fbrica de uniformes Madritsch, dentro do campo de Plaszvia, e Raimund Titsch, seu gerente. Madritsch era cerca de um ano mais moo do que Oskar e o Comandante Goeth. Homem empreendedor, porm humano; se lhe pedissem para justificar a existncia de sua rendosa fbrica dentro do campo, argumentaria que mantinha quase quatro mil prisioneiros empregados e portanto a salvo das usinas de matana. Raimund Titsch, quarenta e poucos anos, retrado e de fsico franzino (que provavelmente deixaria cedo a reunio), contrabandeava para dentro do campo
Pg.16
caminhes de alimentos para os seus prisioneiros (empreendimento que poderia custar-lhe uma permanncia fatal na priso de Montelupich, a cadeia da SS, ou ento Auschwitz) e tinha o mesmo ponto de vista de seu patro.
Tal era o grupo de convidados para o jantar na villa do Comandante Amon Goeth. 
As quatro convidadas, muito bem penteadas e usando roupas caras, eram mais jovens do que qualquer dos homens, e todas prostitutas de alta categoria. Alems e polonesas, de Cracvia. Algumas delas compareciam regularmente queles jantares. O seu nmero permitia certa opo de escolha para os dois oficiais superiores. Majola, a amante alem de Goeth, em geral ficava em seu apartamento na cidade duran- te aqueles festejos de Amon. Considerava tais jantares como orgias mas- culinas e, portanto, ofensivas  sua sensibilidade.
	No havia dvida de que,  Mancira deles, os chefes de polcia e o comandante gostavam de Oskar. Achavam, contudo, haver algo de estranho nele. Talvez estivessem dispostos a considerar essa impresso como motivada pela origem de Oskar, um alemo da regio Sudeta, entre a Bomia e a Silsia  a mesma diferena de Arkansas para Manhattan ou de Liverpool para Cambridge. Havia dvidas a respeito de sua mentalidade, embora ele fosse bom pagador, sempre pronto a fornecer mercadorias escassas, soubesse beber sem se embriagar e tivesse s vezes um senso de humor um tanto ousado. Era a espcie de homem para quem se sorria e cumprimentava do outro lado da sala, mas no era necessrio trat-lo efusivamente.
 bem provvel que os membros da SS tivessem se dado conta da chegada de Schindler ao notar frisson entre as quatro moas. Os que conheceram Oskar naquela poca falam do charme magntico que  ele exercia especialmente sobre as mulheres, com as quais seus sucessos eram escandalosamente constantes. Os dois chefes de polcia, Czurda e Scherner, voltaram-se para Schindler, talvez procurando um meio de atrair tambm a ateno das moas. Goeth adiantou-se para estender-lhe a mo. Era to alto quanto Schindler, e sua obesidade, anormal para um homem de trinta e poucos anos, era ainda mais acentuada pe-a altura e fsico atltico. O rosto no tinha marcas especiais, a no ser pelos olhos avinhados. O fato era que o comandante costumava ingerir uma quantidade imoderada do conhaque local. 
Contudo, os sinais de excesso de bebida no eram to marcantes nele como em Herr Bosch, o gnio da economia da SS em Plaszvia. O nariz de Herr Bosch era de um vermelho arroxeado; o oxignio que deveria correr-lhe nas veias do rosto havia muito passara a alimentar a intensa chama azul de todo aquele lcool. Cumprimentando-o, Schindler 
Pg.17
teve a certeza de que nessa noite, como de costume, Bosch iria ler-lhe um pedido de mercadorias.
 Que seja bem-vindo o nosso industrial!  exclamou Goeth, e ento apresentou-o formalmente s moas. No decorrer da cena, os nos Rosner tocaram melodias de Strauss, os olhos de Henry fixandoatravs das cordas de seu violino o canto mais vazio da sala e Leo sorrindo de olhos baixos para as teclas de seu acordeo.
Enquanto beijava a mo das moas, Herr Schindler sentiu certa piedade delas, pois sabia que mais tarde  quando comeassem as brincadeiras de palmadinhas e ccegas  as palmadas podiam deixar verges e as ccegas arranharem a pele. Mas, por enquanto, o Haupts- turmfhrer Amon Goeth, um sdico quando embriagado, portava-se io um exemplar cavalheiro vienense.
As conversas antes do jantar foram banais. Falou-se na guerra e, quanto o Chefe da Segurana Czurda se empenhava em garantir a alemzinha alta que a Crimia estava totalmente dominada, o chefe da SS Scherner contava a outra moa que um jovem, que ele conhece Hamburgo, bom sujeito, Oberscharfhrer na SS, tinha perdido as duas pernas na exploso de uma bomba lanada pelos guerrilheiros dentro de um restaurante em Czestochowa. Schindler conversou sobre assuntos industriais com Madritsch e seu gerente Titsch. Havia entre os trs empresrios uma amizade genuna. Herr Schindler sabia que o franzino Titsch adquiria ilegalmente, no mercado negro, grandes quantidades de po, que destinava aos prisioneiros da fbrica de uniformes Madritsch. Tal gesto era de mera humanidade, pois na opinio Schindler os lucros na Polnia eram bastante altos para satisfazer o mais inveterado capitalista e justificar gastos ilegais na aquisio de um pouco mais de po. No caso de Schindler, os contratos com a Rustungsinspektion, a Inspetoria de Armamentos  organismo que propunha lances e concedia contratos para a manufatura de todos os artigos necessrios ao Exrcito alemo  tinham sido to numerosos que ele ultrapassa seu desejo de ser bem-sucedido aos olhos do pai. Infeliz- mente, Madritsch, Titsch e ele prprio eram-os nicos que compravam regularmente po no mercado negro.
Pouco antes de Goeth avisar que o jantar estava servido, Herr Bosch aproximou-se de Schindler, tomou-o pelo cotovelo, como ele previra e o conduziu para junto  porta, onde se achavam os msicos, como se esperasse que as impecveis melodias dos Rosner abafassem conversa.
0s negcios vo bem, pelo que vejo  disse Bosch. Schindler sorriu para o SS.
 Ah, ento est dando para perceber, Herr Bosch?
Pg.18

  claro  replicou Bosch. Era evidente que Bosch andara consultando os boletins oficiais da Junta de Armamentos, onde eram mencionados os contratos concedidos  fbrica de Schindler.
 Eu estava pensando  disse Bosch, inclinando a cabea  que, em vista do seu atual surto de prosperidade, graas, afinal de contas, aos nossos muitos xitos nas frentes de combate... Eu estava pensando se o senhor no gostaria de fazer um gesto generoso. Nada de maior. Apenas um gesto.
  claro  respondeu Schindler. Sentia a nusea de estar sendo usado e, ao mesmo tempo, uma sensao prxima do regozijo. O departamento do chefe de polcia Scherner por duas vezes usara a sua influncia para tirar Oskar Schindler da priso. Os auxiliares do chefe iriam sentir-se ainda mais na obrigao de repetir a providncia.
 A minha tia em Bremen, pobrezinha, teve a sua casa bombar-deada  explicou Bosch.  Tudo foi arrasado. A cama nupcial. Os aparadores. Todas as louas e panelas. Pensei que talvez pudesse lhe arranjar uns utenslios de cozinha. E talvez uma ou duas terrinas  aquelas sopeiras grandes fabricadas na sua DEF.
Deutsche Emailwaren Fabrik (Fbrica Alem de Utenslios Esmaltados) era o nome do prspero negcio de Herr Schindler. DEF era a sigla usada pelos alemes, mas poloneses e judeus abreviavam o nome da fbrica para Emalia.
 Acho que posso dar um jeito  concordou Herr Schindler.  Quer que a mercadoria seja consignada diretamente para sua tia ou para o senhor?
 Para mim, Oskar  respondeu Bosch, sem sequer um sorriso.  Quero mandar-lhe junto um carto.
  claro.
 Ento est combinado. Digamos meia grosa de tudo... pratos de sopa e de servir, cafeteiras. E uma meia dzia daquelas terrinas.
Inclinando a cabea para trs, Herr Schindler riu abertamente, embora com certo enfado. Mas, quando falava, o seu tom era afvel. E realmente isso fazia parte da sua natureza. Sempre estava disposto a presentear. Mas o fato era que os parentes de Bosch pareciam ter uma grande tendncia para serem bombardeados.
 Sua tia dirige um orfanato?  perguntou Oskar.
Bosch tornou a fit-lo nos olhos; no havia nada de furtivo naquele bbado.
 Ela  uma mulher idosa e sem recursos. Poder negociar os artigos que sobrarem.
 Direi  minha secretria que providencie a remessa.
 Aquela garota polonesa? A bonita?
Pg.19
 Sim, a bonita  concordou Schindler.
Bosch tentou soltar um assobio mas os nervos de seus lbios haviam afrouxado com o excesso de conhaque, e apenas conseguiram emitir um estranho sopro.
 Sua mulher  disse ele de homem para homem  deve ser uma santa.
 Sim, uma santa  admitiu Herr Schindler secamente. No se importava de fornecer mercadorias a Bosch, mas lhe desagradava ouvi-lo falar sobre sua mulher.
 Diga-me  disse Bosch  como consegue que sua mulher no interfira? Ela deve saber... e, no entanto, voc parece capaz de control-la muito bem.
A afabilidade desapareceu do semblante de Schindler. O seu desagrado era bvio. Contudo, o tom rosnado de irritao no diferiu muito de sua voz normal.
 Nunca discuto assuntos particulares  declarou.
 Oh, perdoe-me  desculpou-se apressadamente Bosch.  No tive a inteno...  E continuou pedindo desculpas incoerentes.
Herr Schindler no prezava Herr Bosch o suficiente para lhe explicar que, naquela altura de sua vida, no se tratava de controlar ningum, que o desastre matrimonial do casal era antes de tudo decorrente do temperamento asctico de Frau Emilie Schindler e do temperamento hedonista de Herr Oskar Schindler. Haviam-se casado de livre e espontnea vontade, apesar de essa unio ter sido desaconselhada. Mas a irritao de Oskar contra Bosch era mais profunda do que ele prprio estava disposto a admitir. Emilie era muito semelhante a Frau Louisa Schindler, a falecida me de Oskar. Herr Schindler pai abandonara Louisa em 1935. Assim, Oskar tinha a sensao visceral de que, ao falar com descaso do casamento Emilie-Oskar, Bosch estava tambm aviltando o casamento dos pais.
Bosch continuava desdobrando-se em desculpas. Bosch, que tinha a mo enfiada na gaveta de todas as mquinas registradoras de Cracvia, estava agora suando frio de medo de perder a sua meia grosa de utenslios de cozinha.
Os convidados sentaram-se  mesa. Uma sopa de cebolas foi servida por uma criada. Enquanto todos comiam e conversavam, os irmos Rosner continuavam a tocar, aproximando-se mais da mesa, mas no to perto que pudessem atrapalhar os movimentos da criada ou de Ivan e Petr, as duas ordenanas ucranianas de Goeth. Schindler, sentado entre a moa alta, de quem Scherner se apropriara, e uma po- lonesa de rosto meigo e fsico delicado que falava alemo, reparou que as duas olhavam para a criada. Esta usava o tradicional uniforme domstico,
Pg.20
vestido preto e avental branco, mas em seu brao no havia nenhuma estrela judaica, ou risco de tinta amarela nas costas. Entretanto, era judia. O que atrara a ateno das outras moas era o estado de seu rosto. Em seu queixo via-se uma equimose, e seria de se imaginar que Goeth tivesse vergonha de exibir para os seus convidados uma criada em tais condies. Ambas as moas e Schindler notaram tambm, alm da pisadura no rosto, um alarmante vergo arroxeado, que a gola do vestido nem sempre escondia, na juno do pescoo fino com o ombro.
No somente Amon Goeth no procurou desviar a ateno geral da pessoa da criada, como virou sua cadeira para ela, ordenando-lhe,com um gesto de mo, que se aproximasse, exibindo-a para os presentes. Fazia seis semanas que Schindler no vinha quela casa, mas sabia pelos seus informantes que a relao entre Goeth e a criada era de uma estranha crueldade. Quando se achava com amigos, ele se referia a ela como assunto de conversa. S a escondia quando era visitado por oficiais graduados de fora da regio de Cracvia. 
 Senhoras e cavalheiros  anunciou ele, imitando o tom de um embriagado mestre-de-cerimnias num cabar  quero apresentar-lhes Lena. Aps cinco meses em minha casa, ela agora est se saindo bem na cozinha e comportando-se adequadamente.
 Posso ver pelo seu rosto  disse a moa alta  que ela deve ter sofrido uma coliso com a moblia da cozinha.
 E logo a cadela poder sofrer outra coliso  retorquiu Goeth, com uma risada jovial.  Sim, outra coliso, no  mesmo, Lena?
 Ele no  mole com mulheres  comentou o chefe SS, piscando para a sua parceira. A inteno de Scherner talvez no fosse racista, pois ele no se referira a mulheres judias, mas sim s mulheres em geral. Mas sempre que Goeth se lembrava da origem de Lena  que ela era mais severamente punida, quer em pblico, diante dos convidados, quer mais tarde, depois de todos se terem retirado. Scherner,sendo mais graduado do que Goeth, poderia ordenar ao comandante que parasse de espancar a criada. Mas isso no seria polido para com o seu anfitrio e poderia vir a perturbar as amistosas reunies na villa. Scherner vinha ali no como oficial superior, mas como amigo, companheiro de orgias, apreciador de mulheres. Amon era um sujeito esquisito, mas ningum como ele para organizar festinhas.
Em seguida foi servido arenque com molho e mocot de porco admiravelmente preparados e apresentados por Lena. Com a carne foi servido um pesado vinho tinto hngaro; os irmos Rosner puseram-se a tocar ardentes czardas, e o ar na sala de jantar esquentou, fazendo com que todos os oficiais despissem as jaquetas. Falou-se de novo em 
Pg.21 
contratos de guerra. Perguntaram a Madritsch, o fabricante de fardas, como ia a sua fbrica em Tarnow. Estava conseguindo tantos contratos na Inspetoria de Armamentos quanto a sua fbrica em Plaszvia? Madritsch passou a pergunta a Titsch, o seu magro e asctico gerente.De repente, Goeth pareceu preocupado, como um homem que se lembrou no meio do jantar de algum detalhe urgente de negcio, que deveria ter sido acertado durante o dia.
As moas de Cracvia pareciam entediadas. A jovem polonesa de lbios lustrosos, que no poderia ter mais do que 18 ou 20 anos, pousou a mo na manga de Schindler.
 Voc no  militar?  perguntou ela,  Deve lhe assentar muito bem uma farda.
Todos-se puseram a rir  inclusive Madritsch, que em 1940 passara algum tempo fardado, at ser dispensado porque seus talentos de empresrio eram mais importantes para o esforo de guerra. Mas Herr Schindler era to influente que nunca fora ameaado pela Wehrmacht:
 Ouviram isso?  perguntou o Oberfhrer Scherner aos presentes.  A mocinha est imaginando o nosso industrial como um soldado. O soldado Schindler em Kharkov, comendo sua marmita, com um cobertor sobre os ombros!
 vista da elegncia impecvel de Schindler, realmente o quadro era discrepante, e o prprio Schindler ps-se a rir.
 Aconteceu com...  disse Bosch, tentando estalar os dedos aconteceu com  qual era mesmo o nome dele l em Varsvia?
 Toebbens  informou Goeth, saindo inesperadamente de sua alienao.  Aconteceu com Toebbens. Quase.
 Oh, sim  disse o chefe da SD Czurda  Toebbens escapou por pouco.  Toebbens era um industrial de Varsvia, mais importante do que Schindler ou Madritsch.  Heini (o apelido de Heinrich Himmler) foi a Varsvia e ordenou ao chefe dos armamentos da zona:"Tire aqueles judeus fedidos da fbrica de Toebbens e convoque Toebbens para o Exrcito e... mande-o para a Frente. Quero dizer a Frente de Combater Depois recomendou ao meu colega de Varsvia que examinasse os livros de Toebbens ao microscpio!
Toebbens era muito querido na Inspetoria de Armamentos, que sempre o favorecera com contratos de fornecimento para o Exrcito;por sua vez, ele retribua esse privilgio com uma profuso de presentes. Os protestos do pessoal da Inspetoria de Armamentos tinham conseguido salvar Toebbens, contou solenemente Scherner, e depois voltou-se com uma piscadela para Schindler.
Isso nunca aconteceria em Cracvia, Oskar. Ns todos gostamos demais de voc. 
Pg.22
Imediatamente, talvez para demonstrar a afeio calorosa que a mesa inteira dedicava ao industrial Herr Schindler, Goeth ps-se de p e entoou sem palavras um trecho da melodia de Madame Butterfly,que os irmos Rosner estavam executando to caprichosamente quanto qualquer arteso em qualquer fbrica ameaada, em qualquer gueto ameaado.
A essa hora, Pfefferberg e Lisiek, a ordenana, se achavam no andar acima esfregando o anel de sujeira na banheira de Goeth. Podiam ouvir a msica dos Rosner e o rudo das risadas e conversas.  hora do caf, a infeliz Lena trouxe a bandeja para os convidados e se retirou s pressas para a cozinha.
Madritsch e Titsch beberam rapidamente o seu caf e desculparam-se por terem de se retirar. Schindler preparou-se para fazer o mesmo.A garota polonesa esboou um gesto de protesto mas aquela casa no tinha atrativos para ele. Na Goethhaus tudo era permitido, mas para Oskar, que sabia dos extremos do comportamento da SS na Polnia,cada palavra que ali se dizia, cada copo que ali se bebia, era repugnante, sem falar em qualquer entretenimento sexual. Mesmo que ele levas-se uma das moas para cima, no poderia se esquecer de que Bosch e Scherner e Goeth estavam desfrutando os mesmos prazeres  nas escadas ou num banheiro ou quarto  executando os mesmos movimentos. Schindler, que no era nenhum monge, preferia ser um monge a ter que dormir com uma mulher chez Goeth.
Conversou por cima da cabea da moa com Scherner, comentando as notcias da guerra, os bandidos poloneses, a probabilidade de um mau inverno, dando a entender  pequena que Scherner era para ele como um irmo, e que nunca roubaria a mulher de um irmo.Mas, ao dizer-lhe boa-noite, ele lhe beijou a mo. Viu que Goeth, em mangas de camisa, esgueirava-se para fora da sala de jantar, encaminhando-se para as escadas, apoiado a uma das moas, que se sentara ao seu lado durante o jantar. Oskar pediu licena e foi atrs do comandante. Pousou a mo no ombro de Goeth. Os olhos de Goeth
esforaram-se para focalizar Schindler.
 Oh  balbuciou ele  j vai, Oskar?
 Tenho de voltar para casa  disse Oskar. Em casa, esperava-o Ingrid, sua amante alem.
 Voc  um tremendo garanho  observou Goeth.
 No da sua classe  replicou Schindler.
 Tem razo, sou imbatvel. Ns vamos... aonde vamos ns? E virou a cabea para a moa, mas respondeu  sua prpria pergunta.
Vamos  cozinha para ver se Lena est limpando tudo direito.
Pg.23
 No  disse a moa, rindo.  No  isso que vamos fazer.
 E encaminhou-o para as escadas. Era um gesto de solidariedade da parte dela, a fim de proteger a jovem brutalizada, na cozinha.
Schindler observou-os  o oficial volumoso, a jovem esguia sustentando-o  subirem cambaleando as escadas. Goeth dava a impresso de que a melhor coisa que teria a fazer era dormir at a hora do almoo do dia seguinte, mas Oskar conhecia a espantosa constituio do comandante e o relgio que funcionava dentro dele. s 3:00 horas da madrugada, Goeth seria bem capaz de decidir levantar-se e escrever uma carta ao seu pai em Viena. s 7:00 da manh, depois de ter dormido apenas uma hora, ele estaria na varanda, de rifle em punho, pronto a atirar em qualquer prisioneiro retardatrio.
Quando a moa e Goeth chegaram ao primeiro patamar, Schindler atravessou o saguo e dirigiu-se para os fundos da casa.Pfefferberg e Lisiek ouviram o comandante chegar muito mais cedo do que esperavam, entrando no quarto e falando com a moa que o acompanhava. Em silncio, eles apanharam o seu equipamento de limpeza, esgueiraram-se pelo quarto e tentaram escapulir por uma porta lateral. Ainda de p e capaz de v-los, Goeth recuou  vista do esfrego, suspeitando que os dois homens fossem assassinos. Entretanto,quando Lisiek adiantou-se e comeou uma trmula explicao, o comandante compreendeu que se tratava de meros prisioneiros.
 Herr Commandant  disse Lisiek  quero inform-lo de que na sua banheira havia um colarinho.
 Ah  disse Amon , ento voc recorreu a um especialista em limpeza?  E fez um sinal para o rapaz se aproximar.  Venha,meu querido.
Hesitante, Lisiek adiantou-se e levou uma bofetada to violenta que caiu esparramado no cho. Amon repetiu o convite, como se pudesse ser divertido para a moa ouvi-lo falar em termos carinhosos com  os prisioneiros. O jovem Lisiek levantou-se e tornou a aproximar-se do comandante para uma nova bofetada. Quando ele se ergueu pela segunda vez, Pfefferberg, um prisioneiro experiente, sabia que podia esperar que qualquer coisa acontecesse  os dois serem levados para o jardim e sumariamente fuzilados por Ivan. Ao invs, o comandante simplesmente esbravejou contra eles e lhes ordenou que sassem; os dois prontamente sumiram.
Quando Pfefferberg soube alguns dias depois que Amon matara Lisiek com um tiro, presumiu que fosse por causa do incidente do banheiro. Na verdade, tinha sido por uma questo totalmente diferente a ofensa de Lisiek fora atrelar um cavalo numa charrete para Bosch,sem primeiro pedir permisso ao comandante.
        Pg.24
Na cozinha da casa, a criada, cujo nome verdadeiro era Helen Hirsch (Goeth chamava-a de Lena por preguia), ergueu os olhos e deparou com um dos convidados do jantar. Soltou na mesa o prato com restos de carne que tinha nas mos e perfilou-se com trmula rapidez.
 Herr...  Olhou para o dinnerjacket de Schindler e buscou um ttulo para ele.  Herr Direktor, eu estava apenas pondo de lado os ossos para os ces de Herr Comandante.
 Por favor  disse Schindler  no tem que me dar satisfaes, Frulein Hirsch.
E deu a volta na mesa. No parecia querer agarr-la mas ela temia as suas intenes. Se bem que Amon se comprazesse em espanc-la, o fato de Helen ser judia a salvara de um franco ataque sexual. Mas havia alemes que no eram to discriminadores quanto Amon em questes sexuais. Todavia, o tom de voz desse homem no era o mesmo a que ela estava acostumada, nem mesmo ao de oficiais da SS e NCO que vinham  cozinha queixar-se de Amon.
 No me conhece?  perguntou ele, como se fosse um jogador de futebol, astro do cinema ou um virtuose do violino, cuja conscincia de sua prpria celebridade se ofendia com o fato de algum no o reconhecer.  Sou Schindler.
 HerrDirektor  balbuciou ela, curvando a cabea.   claro que j ouvi falar... e o senhor j esteve antes aqui. Lembro-me...
Ele passou o brao pela cintura dela. Podia sentir a tenso do corpo da moa, quando lhe tocou o rosto com os lbios.
 No  a espcie de beijo que voc est receando  murmurou ele.  Se quer saber, estou beijando-a por piedade.
Ela no pde conter as lgrimas. Herr Direktor beijou-a agora com fora na testa,  Mancira de despedidas polonesas em estaes de estrada de ferro, um ruidoso beijo tpico da Europa Oriental. Helen viu que tambm ele tinha lgrimas nos olhos.
 Este beijo  algo que lhe estou transmitindo de. . .  E, com um gesto da mo indicou a turba de honestas criaturas l fora no escuro, dormindo em catres amontoados ou escondidas nas florestas para quem, ao absorver os espancamentos de Hauptsturmfhrer Goeth, ela de certa forma atuava com pra-choque.
Schindler soltou-a e tirou de dentro do bolso uma grande barra de chocolate. Em sua substncia, parecia tambm algo de antes da guerra.
 Esconda isso  advertiu ele.
Aqui tenho mais comida  respondeu ela, como se fosse uma questo de amor-prprio inform-lo de que no estava passando fome. E, com efeito, a comida era a menor de suas preocupaes. Ela
Pg.25 
sabia que no sobreviveria ao trato na casa de Amon, mas no seria por falta de alimentao.
 Se no quiser comer o chocolate, troque-o por outra coisa. Por que no procura se fortalecer?  Ele recuou um passo e examinou-a.
 Itzhak Stern falou-me a seu respeito.
 Herr Schindler  murmurou a jovem, baixando a cabea e chorando discretamente por alguns segundos.  Herr Schindler, ele gosta de me bater diante daquelas mulheres. No meu primeiro dia aqui,espancou-me porque joguei fora os ossos do jantar. Desceu ao poro durante a noite e perguntou-me onde estavam os ossos para os seus cachorros. Foi a minha primeira sova. Eu disse a ele... no sei por que falei; agora eu no abriria mais a boca... "Por que est me batendo?" E ele respondeu: "Estou batendo em voc porque me perguntou por que estou batendo."
Helen abanou a cabea e encolheu os ombros, como se estivesse reprovando a si mesma por falar demais. No queria dizer mais nada;no podia relatar todos os espancamentos de que fora vtima, suas mltiplas experincias com os punhos do Hauptsturmfhrer.
 As circunstncias em que est vivendo so horrveis, Helen disse Schindler em tom confidencial, curvando-se para ela.
 No importa  respondeu ela.  J aceitei o meu destino.
 Aceitou?
 Um dia ele vai me matar com um tiro.
 Schindler fez que no com a cabea, e ela julgou que era um encojamento bem precrio para lhe dar esperanas. Subitamente, o traje elegante de Schindler e seu ar saudvel pareceram-lhe uma provocao.
Pelo amor de Deus, Herr Direktor, eu vejo as coisas. Na segunda -feira estvamos em cima do telhado, o jovem Lisiek e eu, arrancando o gelo. E vimos o Herr Commandant sair pela porta da frene descer os degraus do ptio, bem abaixo de onde nos achvamos.E ali mesmo, ele puxou o revlver e atirou numa mulher que estava passando. Uma mulher carregando uma trouxa. Ela no parecia mais magra  ou mais gorda ou mais rpida ou mais lenta do que qualquer pessoa. No pude entender a razo. O tiro atravessou-lhe a garganta. Apenas uma mulher que passava. Quanto mais se conhece Herr Commandant, mais a gente se convence de que o comportamento dele obedece a regras de espcie alguma. No posso dizer para mim mesma: "Se eu seguir essas regras, estarei a salvo..."
Schindler tornou-lhe a mo e apertou-a com fora.
Escute, minha cara Frulein Helen Hirsch, apesar de tudo, isto ainda  melhor do que Majdanek ou Auschwitz. Se conseguir iter com sade...
Pg.26
 Pensei isso, que no haveria esse problema na cozinha do comandante. Quando me tiraram da cozinha do campo e me destacaram para c, as outras mulheres ficaram com inveja  respondeu ela, com um sorriso.
Schindler passou a falar mais alto. Parecia um professor enunciando um princpio de fsica.
 Ele no vai mat-la, porque voc lhe oferece muitos divertimentos, minha cara Helen. Tantos divertimentos que nem permite que voc use a estrela de judia. No quer que saibam que ele est se divertindo com uma judia. Atirou naquela mulher porque ela no significava nada para ele, era apenas uma a menos de uma srie, que nem o ofendia nem o agradava. Est compreendendo? Mas voc... Isso no
 decente, Helen. Mas  a vida.
Algum mais, Leo John, o adjunto do comandante, lhe dissera o mesmo. John era um Untersturmfhrer SS  equivalente a segundo-tenente. "Ele no a matar", dissera John, "at o final, Lena, porque voc representa muito divertimento para ele." Dito por John, o comentrio no produzira o mesmo efeito. Herr Schindler estava condenando-a a uma dolorosa sobrevivncia.
Ele pareceu compreender que a deixara perturbada. Murmurou palavras de encorajamento. Tornaria a procur-la. Tentaria livr-la.
 Livrar?  perguntou ela.
 Sim. Livr-la do comandante  explicou ele  levando-a para a minha fbrica. Certamente j ouviu falar na minha fbrica. Tenho uma fbrica de artefatos esmaltados.
 Oh, sim!  respondeu ela como uma criana de cortio, falando na Riviera.  A Emalia de Schindler. J ouvi falar.
 Mantenha-se com sade  repetiu ele. Parecia ter certeza,quando falava, de que aquela seria a soluo, baseando-se no conhecimento das futuras intenes de Himmler, de Frank.
 Est bem  concordou ela.
Dando-lhe as costas, Helen se dirigiu para o guarda-loua e o arrastou para a frente, numa demonstrao de fora que espantou Schindler, tratando-se de uma jovem to frgil. Removendo um tijolo da parede que ficava atrs do guarda-loua, ela retirou um punhado de dinheiro  zloty de ocupao.
 Tenho uma irm na cozinha do campo  explicou ela.   mais moa do que eu. Quero que o senhor a resgate com este dinheiro,para que ela jamais seja colocada num vago de gado. Creio que o senhor costuma saber de antemo dessas coisas.
          Tratarei pessoalmente do caso  falou Schindler, porm com displicncia, no  como uma promessa solene.  Quanto dinheiro tem voc?
Pg.27 
 Quatro mil zlotys.
Ele apanhou as economias da moa e enfiou-as no bolso. Estariam mais seguras com ele do que num nicho atrs do guarda-Ioua de Amon Goeth.
Assim comea perigosamente a histria de Oskar Schindler, envolvido com nazistas gticos, com hedonistas SS, com uma frgil e brutalizada jovem e com uma figura de certa forma fictcia, to popular como a da prostituta de corao de ouro: o bom alemo.
Por um lado, Oskar tratou de conhecer a verdadeira face do sistema, a face hidrfoba por detrs do vu de decncia burocrtica. Sabe mais cedo do que a maioria das pessoas ousaria reconhecer o que Sonderbehandiung significa; que embora a palavra queira dizer 'Tratamento Especial", significa pirmides de cadveres cianticos em Belzec,Sobibor, Treblinka e no complexo a oeste de Cracvia, conhecido pelos poloneses como Oswiecim-Brzezinka, mas que ser denominado no Ocidente pelo seu nome alemo, Auschwitz-Birkenau.
Por outro lado, ele  um comerciante, um homem de negcios por temperamento, e no cospe abertamente no olho do sistema. J conseguiu reduzir as pirmides de cadveres, e, embora no saiba o quanto nesse ano ou no prximo elas iro crescer em nmero e tamanho, ulItrapassando o Matterhorn, sabe que o Holocausto vir. Embora no possa prever que mudanas burocrticas iro ocorrer em sua construo, ainda assim presume que sempre haver espao e necessidade de mo-de-obra judaica. Portanto, durante sua visita a Helen Hirsch, ele insiste: "Conserve sua sade." E l fora, no sombrio Arbeitslager (campo de trabalho) de Plaszvia, judeus vigilantes dizem a si mesmos que regime algum - com a sua mar em vazante  pode se dar ao luxo  desperdiar uma abundante fonte de mo-de-obra gratuita. So os que  no conseguem se aguentar, que cospem sangue, que so acometidos de disenteria que so transportados para Auschwitz. O prprio Herr Schidler ouviu prisioneiros, na Appellplatz do campo de trabalho de Plaszvia, respondendo  chamada matinal, murmurarem: "Pelo menos  ainda estou com sade", num tom que na vida normal s os velhos usam.
Assim, naquela noite de inverno j se havia iniciado o engajamento pratico de Herr Schindler no salvamento de certas vidas humanas. Ele j estava tremendamente comprometido; j burlara leis do Reich, o que lhe poderia ter valido numerosas vezes o enforcamento, a decapitao , o confinamento nas frias cabanas de Auschwitz ou Grss-Rosen.Mas no sabe ainda o quanto aquilo tudo vai lhe custar. Embora j tenha
gasto uma fortuna, no sabe a extenso do custo futuro.
Pg.28
Para no forar de incio a credibilidade, a histria comea com um ato cotidiano de bondade  um beijo, uma voz branda, uma barra de chocolate. Helen Hirsch nunca tornaria a ver os seus 4.000 zlotys no numa forma em que pudessem ser contados e colocados em sua mo. Mas at hoje ela considera uma questo de somenos importncia que Oskar fosse to negligente em prestao de contas.
Pg.29 
Captulo l
As divises blindadas do General Sigmund List, rumando da Sudetenlndia para o norte, tinham tomado Cracvia, a prola do sul da Polnia, em ambos os seus flancos, em 6 de setembro de 1939. E foi no rastro das divises que Oskar Schindler entrou na cidade, que seria a sua ostra nos prximos cinco anos. Embora logo no primeiro ms ele tivesse demonstrado a sua antipatia pelo nacional-socialismo, ainda assim previa que Cracvia, com a sua rede ferroviria e suas indstrias ainda modestas, ia ser uma cidade privilegiada pelo novo regime. Ele prprio no seria mais um simples vendedor. Agora ia ser um magnata.
No  fcil de imediato descobrir na histria da famlia de Oskar as origens do seu impulso de salvar vidas. Nasceu em 28 de abril de 1908, no Imprio Austraco de Franz Josef, na montanhosa provncia de Morvia do antigo reino austraco. Sua terra natal era a cidade industrial Zwittau, para a qual, no comeo do sculo XVI, certas oportunidades comerciais tinham atrado de Viena os antepassados dos Schindler.
Herr Hans Schindler, o pai de Oskar, aprovara o regime imperial,considerava-se culturalmente um austraco, e falava alemo  mesa,ao telefone, nas conversas de negcios, em momentos de ternura. Contudo, quando, em 1918, Herr Schindler e os membros de sua famlia se viram cidados da Repblica Tchecoslovaca de Masaryk e Benes,isso no pareceu incomodar em demasia o pai, e muito menos seu filho de dez anos. O menino Hitler, segundo assevera o homem Hitler,ainda na infncia vivia atormentado com o abismo existente entre a unidade mstica da ustria e da Alemanha e a diviso poltica dos dois pases. Tal neurose nunca amargurou a infncia de Oskar Schindler. 
Pg.30
A Tchecoslovquia era uma pequena repblica to frondosa e isolada que os cidados de lngua alem aceitaram sem relutncia a condio de minoria, ainda que mais tarde a depresso e alguns desmandos governamentais tivessem provocado certos atritos.
Zwittau, terra natal de Oskar, era uma pequena cidade coberta de p de carvo, nas faldas da cadeia de montanhas conhecida como as Jeseniks. As colinas que a cercam eram em parte desmaiadas pela indstria e, em parte, florestadas por larios, espruces e pinheiros. Devido  comunidade Sudetendeutschen, que falava o alemo, havia uma escola pblica alem, frequentada por Oskar. Ali ele fez o Curso de Realgymnasium fundado para formar engenheiros  de minerao,mecnica, urbanismo  a fim de atender s necessidades industriais da regio. O prprio Hans Schindler era proprietrio de uma fbrica de maquinaria agrcola, e a educao de Oskar fora um preparo para essa herana.
A famlia Schindler era catlica, assim como a do jovem Amon Goeth, por essa ocasio completando tambm o Curso de Cincias e prestando exames em Viena.
Louisa, a me de Oskar, praticava com ardor a sua f, e suas roupas todos os domingos conservavam o aroma do incenso, que subia em espirais de fumaa na missa da Igreja de St. Maurice. Hans Schindler era o tipo de marido que impele a mulher para a religio. Por seu lado, ele gostava de conhaque; de frequentar cafs. A emanao de conhaque, bom tabaco e indubitvel materialismo se exalava daquele bom monarquista, Herr Hans Schindler.
A famlia morava numa residncia moderna, cercada de jardins, do lado oposto ao da zona industrial. O casal tinha dois filhos, Oskar e Elfriede. Mas no restam testemunhas de que tenha sido um lar especialmente ditoso, exceto nos termos mais gerais. Sabemos, por exemplo, que Frau Schindler no gostava que o filho, como o pai, fosse um catlico negligente.
Mas no pode ter sido um lar amargurado. Do pouco que Oskar contava de sua infncia no havia nada de sombrio no seu passado.O sol brilha entre os pinheiros do jardim. H ameixas maduras naqueles princpios de vero. Se ele passa parte de alguma manh de junho assistindo a uma missa, nem por isso volta para casa com muito senso do pecado. Vai tirar o carro do pai da garagem e comea a regular o motor. Ou ento, sentado num degrau dos fundos da casa, passa horas mexando no carburador de sua motocicleta.
Oskar tinha uns poucos amigos judeus da classe mdia matriculados pelos pais na escola pblica alem. Esses meninos no eram retrgrados Ashkenazim  ortodoxos de lngua idiche  mas os filhos 
Pg.31
multilinguais, pouco dados a ritos religiosos, de comerciantes judeus. Do outro lado da Plancie de Hana, nas Colinas Beskidy, nascera Sigmund Freud, filho de uma famlia judia do mesmo padro, pouco antes do nascimento de Hans Schindler em Zwittau, filho de uma famlia solida origem alem.
A histria de Oskar parece sugerir algum incidente marcante em sua infncia, em que ele teria tomado a defesa de um menino judeu perseguido na escola. Mas  bem pouco provvel que tal tenha acontecido se aconteceu, preferimos ignorar o evento, pois pareceria uma coincidncia excessiva dessa histria. Alm disso, um judeuzinho salvo de um soco no nariz nada prova. O fato  que o prprio Himmler iria queixar-se num discurso a um dos seus Einsatzgruppen que cada alemo  tinha um amigo judeu. '"O povo judeu vai ser aniquilado',diz todo  membro do Partido. "Sem dvida, faz parte do nosso programa a eliminao dos judeus, o extermnio da raa  disso nos encarrregamos .' E ento surgem oito milhes de dignos alemes, e cada um deles tem o seu bom judeu. Concordam em que todos os outros so uma escria, mas aquele seu judeu  Classe A."
Procurando ainda encontrar,  sombra de Himmler, alguma motivao  para os futuros entusiasmos de Oskar, descobrimos um vizinho dos Schindler, um rabino liberal chamado Dr. Felix Kantor. O rabino Kantor fora discpulo de Abraham Geiger, o liberador alemo judasmo, que afirmava que no era crime, e at digno de louvor, lesmo tempo alemo e judeu. O Rabino Kantor no era um rigido erudito de aldeia. Vestia trajes modernos e falava alemo em Chamava o seu local de oraes de "templo" e no pelo antigo |de "sinagoga". O seu templo, em Zwittau, era frequentado por judeus doutores, engenheiros e proprietrios de fbricas txteis. Quando viajavam, contavam a outros comerciantes: "Nosso rabino  o Dr. Kantor - ele escreve artigos no somente para jornais judaicos em Praga Brno, mas tambm para outros dirios."
Os dois filhos do Rabino Kantor frequentavam a mesma escola que o filho de seu vizinho alemo Schindler. Ambos os meninos eram inteligentes o bastante para, eventualmente, talvez, se tornarem dois raros professores judeus da universidade alem de Praga. Esses prodgios de cabelo cortado  escovinha e falando alemo corriam de calas curtas pelos jardins de vero, perseguindo Oskar e Elfriede e sendo por eles perseguidos. E Kantor, ao v-los aparecer e desaparecer entre as sebes de teixos, poderia ter pensado que tudo estava acontecendo conforme haviam previsto Geiger e Graetz e Lazarus e todos aqueles outros judeus-alemes liberais do sculo XIX. "Somos pessoas esclarecidas, recebidas por nossos vizinhos alemes  o Sr. Schindler 
Pg.32
chega a fazer na nossa frente comentrios desabonadores sobre polticos tchecoslovacos. Somos eruditos seculares bem como intrpretes compreensivos do Talmude. Pertencemos no somente ao sculo XX como tambm a uma antiga raa tribal. No somos ofensivos nem nos ofendem."
Mais tarde, em meados dos anos trinta, o rabino iria revisar essa estimativa otimista e chegar  concluso de que seus filhos jamais iriam cair nas boas graas dos nacional socialistas devido apenas ao diploma de um autor de filosofia em lngua alem  que no havia nenhum nivelamento de tecnologia do sculo XX, no qual um judeu pudesse encontrar o seu refgio, como tambm jamais haveria uma espcie de rabino aceitvel para os novos legisladores alemes. Em 1936, toda a famlia Kantor mudou-se para a Blgica. Os Schindler nunca mais souberam deles. 
Raa, sangue, solo pouco significavam para o adolescente Oskar. Era um desses meninos para quem um modelo de motocicleta  a coisa mais fascinante do universo. E seu pai  mecnico por temperamento parece ter encorajado o zelo do filho por motores envenenados. No seu ltimo ano do curso secundrio, Oskar andava em disparada por Zwittau num Galloni 500cc vermelho. Erwin Tragatsch, um colega de classe, via com indizvel inveja o Galloni vermelho percorrendo ruidosamente as ruas da cidade e atraindo a ateno dos pedestres na praa. Para os irmos Kantor, tambm era um prodgio  no apenas o nico Galloni na cidade, no apenas o nico Galloni italiano 500cc na Morvia, mas provavelmente o nico veculo do seu tipo em toda a Tchecoslovquia.
Na primavera de 1928, os ltimos meses de adolescncia de Oskar e preldio de um vero em que ele iria se apaixonar e decidir casar-se, apareceu na praa da cidade numa Moto-Guzzi 250cc, tipo que, fora da Itlia, s havia outras quatro na Europa, e mesmo essas de propriedade de corredores internacionais: Giessier, Hans Winkler, o hngaro Joo e o polons Kolaczkowski. Na certa havia habitantes da cidade que abanavam a cabea e diziam que Herr Schindler estava mimando demais o filho.
Mas aquele seria o mais doce e inocente vero de Oskar. Um rapazola apoltico com a cabea protegida por um capacete de couro, acelerando o motor da Moto-Guzzi, disputando corridas com as equipes locais nas montanhas da Morvia, filho de uma famlia para quem o auge da sofisticao poltica era acender uma vela por Franz Josef.Logo em seguida, um casamento ambguo, uma recesso econmica,dezessete anos de poltica fatdica o aguardavam. Mas no rosto do corredor 
Pg.33
nenhuma premonio, apenas a careta achatada pelo vento de um corredor que  por ser um novato e no um profissional, por no ter ainda estabelecido os seus recordes  tem mais condies de pagar o preo do que os mais velhos, os profissionais, os corredores que precisam bater recordes. 
A primeira competio de Oskar foi em maio, a corrida de montanha entre Brno e Sobeslav. Era uma corrida de alta categoria, e assim pelo menos o brinquedo caro que o prspero Herr Hans Schindler dera ao filho no iria enferrujar numa garagem. O rapaz chegou em terceiro lugar em sua Moto-Guzzi vermelha, atrs de dois Terrots que haviam sido "envenenados" com motores ingleses Blackburne.
Na sua prxima competio, ele se afastou mais de sua cidade, indo correr no circuito de Altvater, nas montanhas da fronteira saxnia. Walfried Winkler, o campeo alemo de 250cc, participou da corrida, assim como o seu veterano rival Kurt Henkelmann, num DKW refrigerado a gua. Todos os corredores saxes da maior categoria Horowitz, Kocher e Kliwar  eram participantes; estavam de volta os Terrot-Blackburnes e alguns Coventry Eagles. Havia trs Moto-Guzzis, inclusive a de Oskar Schindler, bem como os corredores mais destacados da classe 350cc e um BMW 500cc.
Aquele dia foi quase o melhor, o mais perfeito da carreira de Oskar. Manteve-se logo atrs dos primeiros colocados durante as etapas iniciais da corrida, esperando para ver o que ia acontecer. Aps uma .,hora, Winkler, Henkelmann e Oskar tinham deixado para trs os saxnios e as outras Moto-Guzzis abandonaram a corrida devido a falhas mecnicas. No que Oskar supunha ser a penltima etapa, ele ultrapassou Winkler e deve ter sentido, to palpvel quanto o cho e  rpida viso de pinheiros, a iminncia de sua carreira como corredor uma equipe de fbrica, e a vida de constantes viagens, que isso iria proporcionar.
Ento, no que ele presumiu ser a ltima etapa, Oskar ultrapassou Henkelmann e ambos os DKWs, cruzou a linha e reduziu sua velocile. Devia ter havido algum sinal enganoso dos dirigentes, porque pblico pensou tambm que a corrida estava encerrada. Quando Oscar se deu conta de que a prova no tinha terminado  que ele cometam erro de amador  Walfried Winkler e Mita Vychodil j o haviam ultrapassado, e at o exausto Henkelmann conseguira faz-lo rder o terceiro lugar.
Em sua casa, ele foi recebido como um campeo. Exceto por um blema tcnico, tinha vencido os melhores corredores da Europa. 
Tragatsch presumiu que as razes por que fora encerrada a caryde Oskar como corredor de motocicleta tinham sido de ordem 
Pg.34
econmica. Isso  bem provvel, pois naquele vero, depois de um namoro de apenas seis semanas, ele fez um casamento precipitado com a filha de um fazendeiro, e com isso perdeu o apoio do pai, que era tambm o seu patro. 
A moa com que Oskar se casou era de uma aldeia situada a leste de Zwittau, na Plancie de Hana. Fora educada num convento e tinha um temperamento discreto, que Oskar admirava em sua prpria me. O pai da moa, um vivo, no era nenhum campons rude mas um fazendeiro educado. Na Guerra dos Trinta Anos, os antepassados austracos da famlia tinham conseguido sobreviver s peridicas batalhas e devastaes, que assolavam aquela plancie frtil. Trs sculos mais tarde, numa nova era de riscos, a jovem descendente da famlia aceitou um malcombinado casamento com um rapaz inexperiente de Zwittau. Tanto o pai da noiva como o de Oskar desaprovaram muito o enlace.
Hans no gostou porque podia ver que Oskar tinha repetido o erro do seu prprio casamento. Um marido sensual, de temperamento desabrido, procurando demasiado cedo na vida a paz ao lado de uma jovem educada em convento, gentil, desprovida de sofisticaes.
Oskar conhecera Emilie numa festa em Zwittau. Ela estava de visita a amigos de sua aldeia de Alt-Molsein. Evidentemente Oskar conhecia a aldeia, pois j estivera vendendo tratores naquela zona.
Quando correram os proclamas do casamento nas igrejas paroquiais de Zwittau, algumas pessoas consideraram o casal to malcombinado que comearam a procurar outros motivos que no o amor.  possvel que j naquele vero a fbrica de maquinaria agrcola de Schindler estivesse em m situao, pois era ligada  manuf atura de tratores a vapor de um tipo considerado obsoleto pelos agricultores.Oskar estava colocando grande parte de seu salrio no negcio, e agora  com Emilie  vinha um dote de meio milho de reichsmarks,capital nada desprezvel sob qualquer condio. As suspeitas dos mexericos, porm, no tinham fundamento, pois naquele vero Oskar estava apaixonado. E como o pai de Emilie no via razes para crer que o rapaz iria se estabelecer e ser um bom marido, pagou apenas uma frao do meio milho do dote.
Quanto a Emilie, encantava-a a ideia de se ver livre da enfadonha Alt-Molsein, casando-se com o bonito Oskar Schindler. O amigo mais ntimo de seu pai fora o maante padre da parquia; Emilie crescera servindo-lhes ch e ouvindo-lhes apreciaes ingnuas sobre poltica e teologia. Se ainda estivssemos procurando conexes judaicas significativas, encontraramos algumas na infncia de Emilie  o mdico da aldeia que tratava de sua av, e Rita, neta de Reif, dono de um armazm 
Pg.35 
Durante uma de suas visitas  casa da fazenda, o padre dissera ao pai de Emilie que no convinha uma menina catlica manter uma amizade mais estreita com uma judia. Emilie resistiu ao veredicto do padre. A amizade com Rita Reif iria sobreviver at certo dia de 1942,quando nazistas locais executaram Rita diante do armazm.
Depois de casados, Oskar e Emilie instalaram-se num apartamento em Zwittau. Para Oskar, a dcada de 30 deve ter parecido um mero eplogo do seu glorioso engano na corrida da Altvater, no vero de 1928.Fez seu servio militar no Exrcito tchecoslovaco e, embora isso lhe fornecesse a oportunidade de guiar um caminho, logo descobriu que odiava a vida militar  no por motivos pacifistas mas por causa do desconforto. De volta ao lar em Zwittau, ele abandonava Emilie noites a fio para ficar at tarde em cafs, como se fosse solteiro, conversando com moas que no eram nem discretas nem educadas em conventos. Em 1935, o negcio da famlia foi  falncia, e nesse mesmo ano o pai de Oskar abandonou Frau Louisa Schindler e passou a morar num apartamento. Oskar odiou-o por isso e passou a falar mal do pai, durante os chs na casa de suas tias. At mesmo nos cafs ele denunciava a traio de seu pai contra uma boa esposa. Ao que parece, Oskar no enxergava a semelhana entre o casamento fracassado dos pais e o seu prprio em vias de fracasso.
Devido aos seus bons contatos comerciais, sua sociabilidade, seu talento em promover vendas, a capacidade que tinha de beber sem se embriagar, apesar de estar o pas em plena depresso, ele conseguiu um emprego de gerente de vendas na Moravian Electrotechnic. O escritrio central da companhia ficava na melanclica capital provinciana de Brno e Oskar viajava diariamente entre Brno e Zwittau. Gostava da sua vida de viajante. Era em parte o destino que prometera a si mesmo, ao ultrapassar Winkler no circuito de Altvater.
Quando sua me faleceu, ele retornou s pressas para Zwittau e se postou junto com as tias, a irm, Elfriede, e a mulher Emilie, de um lado da sepultura, enquanto o traidor Hans se mantinha isolado,  ao lado do padre, na cabeceira do esquife. A morte de Louisa viera cimentar a inimizade entre Oskar e Hans. No ocorria a Oskar  s as mulheres o percebiam  que Hans e Oskar eram na realidade dois irmos separados pelo acidente da paternidade.
Na ocasio do funeral, Oskar estava usando o emblema Hakenkreuz do Partido Sudeto Alemo de Konrad Henlein. Tanto as tias como Emilie desaprovavam esse procedimento mas no com muita convico, pois era algo que a maioria dos jovens alemes-tchecos usava quela estao. Somente os socialdemocratas e os comunistas no exibiam 
Pg.36 
o emblema ou no eram membros do partido de Henlein, e Deus sabe que Oskar no era nem comunista nem socialdemocrata, mas sobretudo um vendedor. A verdade  que, quando se procurava um gerente de companhia alem, a vista do emblema decidia favoravelmente o negcio.
Contudo, mesmo com o seu livro de encomendas aberto e o lpis anotando ativamente, tambm Oskar  em 1938, nos meses que precederam a invaso da Sudetenlndia pelas divises alems  sentiu que estava se operando uma grande mudana na Histria, e se deixou seduzir pela ideia de participar daquela mudana.
Fossem quais fossem os seus motivos para aderir a Henlein, parece que assim que as divises penetraram na Morvia, ele teve uma desiluso imediata com o nacionalsocialismo, to total e rpida quanto a desiluso que sentia aps o casamento. Talvez tivesse esperado que a potncia invasora iria permitir que fosse fundada uma fraternal Repblica Sudeta. Mais tarde, ele iria revelar o quanto o horrorizara o tratamento do novo regime  populao tcheca, inclusive a apropriao de propriedades tchecas. Os seus primeiros atos documentados de rebeldia ocorreriam logo no incio do conflito mundial, e no resta dvida de que o Protetorado da Bomia e Morvia, proclamado por Hitler, do Castelo de Hradschim, em maro de 1939, deixou-o surpreso por essa clara e imediata exibio de tirania.
Alm disso, as duas pessoas, cujas opinies ele mais respeitava Emilie e Hans  no se deixaram enganar pela grandiosa hora teutnica e ambos consideraram que Hitler no alcanaria os seus fins. A opinio dos dois no era fundamentada mas tampouco era a de Oskar. Emilie simplesmente acreditava que Hitler seria punido por querer assumir o papel de Deus. Herr Schindler pai, cuja posio fora transmitida a Oskar atravs de uma de suas tias, argumentava com princpios histricos bsicos. Logo nas imediaes de Brno ficava o trecho do rio onde Napoleo tinha ganho a Batalha de Austerlitz. E que destino tivera o triunfal Napoleo? Tornara-se um joo-ningum, plantando batatas numa ilha distante no meio do oceano Atlntico. O mesmo aconteceria quele sujeito. O destino, segundo Herr Schindler pai, no era uma corda infindvel. Era um pedao de elstico. Quanto mais se esticava para a frente, mais violentamente se era jogado para trs. Era isso que a vida, um casamento fracassado e a falncia econmica tinham ensinado a Herr Hans Schindler.
Mas seu filho, Oskar, talvez no fosse ainda um inimigo definido do novo regime. Certa noite, naquele outono, Herr Schindler filho compareceu a uma festa em um sanatrio nas colinas que circundavam Ostrava, prximo da fronteira polonesa. A anfitri era a diretora do 
Pg.37
sanatrio, cliente e amiga de Oskar. Ela o apresentou a um bem-apessoado alemo chamado Eberhard Gebauer. Os dois conversaram sobre negcios e as futuras atuaes previsveis da parte da Inglaterra,Frana e Rssia. Depois se retiraram, com uma garrafa, para um quarto desocupado, por sugesto de Gebauer, a fim de poderem falar com mais franqueza. Foi ento que Gebauer se identificou como oficial do servio de inteligncia Abv/ehr, do Almirante Canaris, e ofereceu ao seu novo conhecido a chance de trabalhar para a Seo Exterior da Abwhr. Oskar tinha contatos comerciais na Polnia, em toda a Galcia e na Silsia. Estaria ele de acordo em fornecer  Ab\vehr informaes militares daquela regio? Gebauer disse que soubera, por intermdio de sua amiga anfitri, que Oskar era inteligente e socivel.Com esses dons, ele poderia realizar um bom trabalho, no somente mediante suas prprias observaes quanto a instalaes industriais e militares da regio, mas tambm no recrutamento de poloneses germnicos, em restaurantes e bares, ou em contatos comerciais.
Os apologistas do jovem Oskar poderiam dizer, mais uma vez, que ele aceitou trabalhar para Canaris porque, como agente da Ab\vehr,.ficava isento de servir no Exrcito. Era esse em grande parte o atrativo ifla proposta. Mas ele deve tambm ter acreditado que seria bom um Avano alemo na Polnia. Como o elegante oficial bebendo sentado cama a seu lado, o nacionalsocialismo ainda devia merecer a aproo de Oskar, apesar de ele desaprovar a Mancira como o movimenestava sendo conduzido. Para Oskar, talvez Gebauer possusse um rto fascnio moral, pois ele e seus colegas da Abv/ehr se consideram uma nonesta elite crist. Embora essa posio no os impedisse planejar uma invaso militar na Polnia, permitia-lhes sentir desD por Himmler e os SS, com quem eles acreditavam sofismadatc estar em competio para controlar a alma da Alemanha.
Mais tarde, um bem diferente grupo do servio de inteligncia consideraria os informes de Oskar dignos de elogios. Em suas viagens  Polnia pela Abwehr, ele demonstrava um dom para extrair informadas pessoas, especialmente em ambientes sociais  a uma mesa ttar, em coquetis. No sabemos a natureza exata ou a importncia que Oskar apurava para Gebauer e Canaris, mas ele acabou gostando muito de Cracvia e descobrindo que, embora se tratasse de uma concentrao industrial, era tambm uma linda cidade medieval cercada por metalrgicas e indstrias txteis e qumicas.
Quanto desmotorizado Exrcito polons, os seus segredos eram bem aparentes. 
Pg.38 
Captulo 2 
Em fins de outubro de 1939, dois jovens oficiais graduados entraram na loja de J.C. Buchheister & Co., na Rua Stradom, em Cracvia, e insistiram em comprar algumas peas de um tecido caro que queriam remeter para a Alemanha. O vendedor judeu atrs do balco, com uma estrela amarela costurada no peito, explicou que Buchheister no vendia diretamente ao pblico mas sim a fbricas de roupas e varejistas. Os militares no se deixaram dissuadir. Quando chegou o momento de pagar a compra, eles maliciosamente a saldaram com uma cdula bvara de 1858 e um vale de ocupao do Exrcio alemo datado de 1914. "Dinheiro perfeitamente vlido", disse um deles ao contador judeu. Os dois eram rapazes de aspecto saudvel, tendo passado toda a primavera e vero em manobras, alcanando logo no incio do outono um triunfo fcil e, mais tarde, toda liberdade de ao de conquistadores numa cidade afvel. O contador concordou com a transao e esperou que ^les sassem da loja para guardar o dinheiro na caixa registradora.
Mais tarde, no mesmo dia, um jovem gerente alemo de contabilidade, funcionrio da astuciosamente chamada Agncia de Crdito do Leste, nomeado para requisitar e dirigir negcios dos judeus, visitou a loja. Era um dos dois funcionrios alemes destacados para a Buchheister. O primeiro chamava-se Sepp Aue, o supervisor, homem de meia-idade, sem maiores ambies, e o segundo aquele furo. O rapaz inspecionou os livros e a caixa registradora. Apanhou o dinheiro sem valor. O que significava aquele dinheiro de pera cmica?
O contador judeu narrou a sua histria; o gerente de contabilidade acusou-o de ter substitudo as velhas notas pelo zloty atual. Mais tarde ainda naquele mesmo dia, subindo ao escritrio da companhia 
Pg.39
no andar de cima, o furo informou a Sepp Aue sobre o ocorrido e disse que deviam chamar a Schutzpolizei.
Tanto Herr Aue quanto o jovem contador sabiam que o resultado de tal providncia seria o contador judeu ser levado para a priso da SS na Rua Montelupich. O furo achava que tal procedimento seria um excelente exemplo para os outros empregados judeus da Buchheister. Mas a ideia perturbou Aue, que tinha uma vulnerabilidade secreta, pois uma de suas avs era judia, embora ningum at ento houvesse descoberto isso.
Aue mandou um contnuo com uma mensagem ao chefe contador da companhia, um judeu-polons chamado Itzhak Stern, que estava acamado  com gripe, em casa. Aue fora nomeado para o cargo por questes polticas e pouca experincia tinha de contabilidade. Queria que Stern comparecesse ao escritrio para resolver o impasse das peas de linho. Tinha acabado de mandar o recado para a casa de Stern em Podgrze, quando seu secretrio entrou no escritrio e anunciou que um certo Herr Oskar Schindler estava esperando l fora, sob a alegao de que tinha um encontro marcado. Aue foi at a ante-sala e deparou com um rapaz alto, plcido como um cachorro, fumando tranquilamente. Os dois tinham-se conhecido numa festa na noite anterior. Oskar estava acompanhado de uma alem sudeta chamada Ingrid, Treuhnder, ou supervisora, de uma companhia judaica de ferragens, da mesma forma que Aue era o Treuhnder da Buchheister. Os dois formavam um casal glamouroso, Oskar e a sudeta, elegantes, francamente apaixonados um pelo outro, com muitos amigos na Abwehr.
Herr Schindler estava tentando fazer carreira em Cracvia.
 Txteis?  sugerira Aue.  No se trata apenas de uniformes. O mercado domstico polons  bastante amplo e expandido para sustentar a todos ns. Convido-o a visitar a Buchheister  propusera ele a Oskar, sem saber o quanto iria lamentar no dia seguinte a sua camaradagem alcoolizada.
Schindler podia perceber que Herr Aue possivelmente estava lamentando o seu convite da vspera.
 Se no  conveniente, Herr Treuhnder sugeriu Oskar... Herr Aue negou com veemncia e levou Schindler para visitar o depsito e, do outro lado do ptio, a diviso de tecelagem, onde grandes rolos de tecido iam sendo lanados para fora das mquinas. Schindler perguntou se o Treuhnder tivera problemas com os poloneses. No, respondeu Sepp, os poloneses cooperavam. Um pouco espantados, talvez. Afinal, no se tratava de uma fbrica de munies.
Schindler to obviamente tinha o ar de um homem com boas conexes que Aue no pde resistir  tentao de test-lo. Conhecia Oskar 
Pg.40 
 pessoas da Junta Suprema de Armamentos? Conhecia, por exemplo, o General Julius Schindler? Talvez o General Schindler fosse um seu parente? Isso no faz nenhuma diferena, respondera Schindler, conciliatrio. (Na verdade, o General Schindler no tinha nenhum parentesco com ele.) Comparado a outros, o general no era to mau sujeito, observara Oskar.
Aue concordou. Mas ele prprio nunca teria a oportunidade de jantar ou tomar um drinque com o General Schindler; essa era a diferena.
Os dois retornaram ao escritrio, encontrando no caminho Itzhak Stern, o contador-chefe da Buchheister, esperando sentado numa cadeira fornecida pelo secretrio de Aue, assoando o nariz e procurando conter acessos de tosse. Ele se ps de p, colocou as mos uma sobre a outra no peito, e, com olhos imensos, viu os dois conquistadores se aproximarem, passarem na sua frente e entrarem no escritrio. Ali Aue ofereceu um drinque a Schindler e depois, pedindo licena, deixouo junto  lareira e saiu para falar com Stern.
Stern era muito magro; havia nele um certo ar de fria erudio. Tinha as Manciras de um erudito talmdco e tambm de intelectual europeu. Aue contou-lhe a histria do contador e dos dois militares e o que o jovem contador alemo tinha presumido. Depois tirou do cofre a cdula bvara de 1858 e o vale de ocupao de 1914.
 Julguei que talvez o senhor tivesse estabelecido um processo de contabilizao para resolver uma situao como esta  disse Aue.
 Devem estar acontecendo muitos casos anlogos agora em Cracvia.
Stern tomou as cdulas e examinou-as. Sim, declarou ele, realmente tinha um processo para solucionar o problema. E, sem sorrir ou piscar um olho, aproximou-se da lareira na extremidade da sala e atirou as cdulas no fogo.
 Anoto essas transaes na coluna de lucros e perdas sob o ttulo de "amostras grtis"  completou ele. (Tinha havido muitas amostras grtis desde setembro.)
Aue gostou do estlo seco e eficiente de Stern para resolver impasses legais. Comeou a rir, ante as feies magras do contador, as complexidades da prpria Cracvia, a sagacidade provinciana de uma cidade pequena. S um habitante do lugar saberia como agir. No escritrio Herr Schindler continuava sentado necessitando de informaes locais.
Aue fez Stern entrar no escritrio do gerente para conhecer Herr Schindler, que se pusera de p junto  lareira, segurando distraidamente um cantil aberto. A primeira coisa que Stern pensou foi: "Este no  um alemo manejvel." Aue usava o emblema do seu Fhrer, uma 
Pg.41
Hakenkreuz em miniatura, com certa displicncia, como se se tratasse de um emblema de clube de ciclismo. Mas o emblema de Schindler era do tamanho de uma moeda e refletia a luz do fogo em sua superfcie esmaltada de preto. Isso, e o aspecto saudvel do rapaz eram bem os smbolos dos desgostos outonais de Stern, um judeu-polons gripado.
Aue fez as apresentaes. De acordo com o edital j emitido pelo Governador Frank, Stern declarou de sada:
 Tenho a dizer-lhe, meu senhor, que sou judeu.
 Muito bem  resmungou Herr Schindler.  Pois eu sou alemo. E aqui estamos ns!
"Muito bem", quase ecoou Stern por trs de seu leno encharcado. "Neste caso, revogue o edital."
Pois Itzhak Stern era um homem  mesmo naquele momento, apenas sete semanas aps ter sido instalada a Nova Ordem na Polnia  submetido no somente a um, mas a muitos editais. Hans Frank, Governador-Geral da Polnia, j havia programado e assinado seis editais restritivos, deixando outros para o seu governador distrital, Dr. Otto Wchter, um Gruppenfhrer (equivalente a major-general) implementar. Stern, alm de declarar sua origem, tinha tambm de carregar consigo um carto de registro marcado com uma lista amarela. As Ordens do Conselho, proibindo o preparo de kosher de carnes e determinando trabalhos forados para judeus, j estavam em vigor havia trs semanas, no momento em que Stern tossia diante de Schindler. E a rao oficial de Stern como Untermensch (subumano) era pouco mais do que a metade da rao de um polons no-judeu, embora este ltimo fosse tambm considerado Untermensch.
Finalmente, obedecendo a um edital de 8 de novembro, tinha-se iniciado o registro geral de todos os judeus-cracovianos, o qual devia encerrar-se no dia 24.
Stern, com o seu esprito calmo e abstrado, sabia que os editais iriam continuar, restringindo cada vez mais sua vida e sua prpria respirao. A maioria dos judeus-cracovianos esperava essa onda de editais. Iriam ser criados transtormos na vida cotidiana  judeus dos shtetis trazidos para a cidade a fim de escavar carvo; intelectuais enviados ao campo para colher beterrabas. Haveria tambm matanas espordicas por algum tempo, como a de Tursk, quando uma unidade de artilharia da SS mantivera um grupo de pessoas trabalhando o dia inteiro numa ponte, e depois as conduzira  noite para a sinagoga da aldeia, onde as fuzilara. De quando em quando ocorriam casos semelhantes. Mas a situao iria ser contornada: a raa sobreviveria por meio de peties ou subornando as autoridades. Era um velho processo que funcionava desde o Imprio Romano e continuaria funcionando  
Pg.42 
No final das contas, as autoridades civis necessitavam dos judeus especialmente numa nao em que havia um judeu para cada on pessoas.
Entretanto, Stern no se mostrava otimista. No presumia qu( legislao logo se estabeleceria num plano de severidade negocivel. Pois aqueles eram os tempos mais difceis de suportar. Assim, embora soubesse que a onda vindoura seria diferente, tanto em substncia e como em grau de intensidade, j previa um futuro bastante sombrio pensava:  muito fcil para voc, Herr Schindler, ter pequenos gestos generosos de igualdade..."
 Este homem  disse Aue, apresentando Itzhak Stern   brao direito de Buchheister. Tem boas conexes na comunidade de negcios, na Cracvia.
No cabia a Stern discutir a opinio de Aue. Ainda assim, pens ( que talvez o Treuhnder estivesse dourando a plula para o distinto visitante.
Aue pediu licena para sair da sala.
A ss com Stern, Schindler murmurou que ficaria grato se o contador pudesse dizer-lhe o que sabia sobre o comrcio local. Testam Oskar, Stern sugeriu que talvez Herr Schindler devesse dirigir-se a funcionrios da Agncia de Crdito.
 No passam de ladres  retorquiu Herr Schindler.  E tambm so burocratas. Eu gostaria de certa amplitude.  Depois encolheu os ombros.  Sou um capitalista por temperamento e no goste me sujeitar a regulamentaes.
Assim, Stern e o capitalista declarado comearam a conversar.E  Stern provou ser uma boa fonte; parecia ter amigos ou parentes e todas as fbricas de Cracvia  txteis, roupas, confeitos, marcenria, artigos de metal. Herr Schindler ficou impressionado e tirou o envelope do bolso do palet.
 Conhece uma companhia chamada Rekord?  perguntou ele Itzhak Stern conhecia. Estava falida. Fabricava artigos esmaltados . Desde a falncia algumas das mquinas de prensar metais havia sido confiscadas, e agora, praticamente inativa, produzia  sob administrao de um parente dos antigos donos  uma mera frao ( sua capacidade. O seu prprio irmo, continuou Stern, representa uma companhia sua que era uma das principais credoras da Rekord Stern sabia que era permitido revelar certo grau de orgulho fraten e em seguida mostrar desaprovao.
 A fbrica era muito mal administrada  completou ele.
Schindler deixou cair o envelope no colo de Stern.
       Este  o balancete deles. Diga-me qual  a sua opinio.
Pg.43  
          Stern alegou que evidentemente Herr Schindler devia obter tambm o parecer de outros. 
            Sim,  evidente  replicou Oskar.  Mas apreciaria muito ter a sua opinio. 
       Stern leu rapidamente o balancete; aps uns trs minutos de estudo, sentiu um estranho silncio no escritrio e ergueu os olhos; Herr Oskar Schindler fitava-o atentamente.
Havia, naturalmente, em homens como Stern um dom ancestral para reconhecer um bom goy, que podia ser usado como pra-choque ou refgio parcial contra a selvageria de outros. Era um instinto que lhe indicava uma zona potencial de proteo. E daquele momento em diante, a possibilidade de Herr Schindler ser um refgio iria permear a conversa, como uma vislumbrada, intangvel, promessa sexual pode permear a conversa entre um homem e uma mulher numa reunio social. Era uma sugesto da qual Stern tinha mais conscincia do que Schindler, e nada de explcito seria dito com receio de prejudicar um esboo de conexo. 
   um negcio perfeitamente vivel  disse Stern.  O senhor podia conversar com o meu irmo. E agora,  claro, existe a possibilidade de contratos militares...
 Exatamente  murmurou Herr Schindler.
Pois quase no mesmo instante aps a queda de Cracvia, mesmo antes de terminar o cerco de Varsvia, o Governo-Geral da Polnia tinha criado uma Inspetoria de Armamentos, cuja funo era assinar contratos com fabricantes adequados para o fornecimento de equipamentos ao Exrcito. Numa fbrica como a Rekord, era possvel fabricar utenslios para rancho e cozinha de campanha. Stern sabia que a Inspetoria de Armamentos era chefiada pelo General-de-Diviso Julius Schindler da Wermacht. Era o general aparentado com Herr Os" kar Schindler?, perguntara Stern. Infelizmente no, tinha respondido Schindler, mas dando a entender que preferia que Stern guardasse segredo sobre a revelao.
De qualquer forma, continuou Stern, a produo precria da Rekord estava rendendo mais de meio milho de zlotys por ano, mquinas novas prensadoras de metal e fornos podiam ser adquiridos com relativa facilidade. Tudo dependia do acesso de Herr Schindler a crditos.
Ferro esmaltado, disse Schindler, era mais da sua alada do que txteis. Suas atividades anteriores haviam sido no ramo de mquinas agrcolas e ele entendia de prensadoras a vapor e similares.
No ocorreu mais a Stern perguntar por que um elegante empresrio alemo desejava conversar com ele sobre opes de negcios. Encontros 
Pg. 44
como aquele haviam acontecido em toda a histria de sua tribo, e no eram bem explicados como transaes normais de negcios.Estendeu-se mais em suas observaes, explicando como a Corte Comercial iria estabelecer uma remunerao para o arrendamento da massa falida. Arrendamento com uma opo para compra  era melhor do que ser um Treuhnder. Um Treuhnder mero supervisor, ficava totalmente sob o controle do Ministrio das Finanas.
Stern baixou a voz e arriscou-se a dizer:
 O senhor sofrer restries quanto aos empregados que lhe ser permitido contratar...
 Como sabe disso tudo?  perguntou Schindler.  A respeito de intenes finais?
 Li num exemplar do Berliner Tageblatt. Ainda  permitido a um judeu ler jornais alemes.
Schindler ps-se a rir, estendeu a mo e pousou-a no ombro de Stern.
 Tem certeza disso tudo?  perguntou ele.
Na realidade, Stern sabia dessas coisas porque Aue tinha recebido uma diretriz do Secretrio de Estado do Reich, Eberhard von Jagwitz,do Ministrio das Finanas, delineando as providncias a serem adotadas para "arianizar" o comrcio. Aue tinha deixado a cargo de Stern analisar o memorando. Von Jagwitz informara mais com tristeza do que com raiva que ia haver presso da parte de outras agncias do Governo e do Partido, tais como a RHSA de Heydrich, ou do Escritrio Central de Segurana do Reich, para arianizar no apenas os proprietrios de companhias mas tambm a administrao e a mo-de-obra.Quanto mais depressa os Treuhnders conseguissem extirpar empregados judeus especializados, tanto melhor  sempre, naturalmente,levando em conta a manuteno da produo a um nvel aceitvel.
Finalmente, Schindler tornou a pr no bolso os balancetes da Rekord, levantou-se e conduziu Itzhak Stern para a sala principal do escritrio da companhia. Os dois ficaram parados ali por algum tempo,em meio de datilgrafos e funcionrios, discutindo filosoficamente, como era hbito de Oskar. Foi ali que ele abordou a questo de o cristianismo ser baseado no judasmo, assunto que, por algum motivo, talvez mesmo por causa de sua amizade de infncia com os Kantor, em Zwittau, o interessava. Chegara mesmo a publicar artigos em jornais sobre religio comparativa. Oskar, que erroneamente se julgava um filsofo, tinha encontrado um entendido no assunto. Stern, um erudito que alguns consideravam um pedante, julgou a compreenso de Oskar superficial, uma mente benigna por natureza porm sem muita capacidade conceitual. No que Stern estivesse disposto a lamentar-se. Estabecera-se 
Pg.45 
firmemente entre os dois uma divergente amizade. A Stern ocorreu uma analogia, como ao prprio pai de Oskar, com relao a imprios anteriores, e ele exps suas prprias razes para acreditar que Adolf Hitler no teria xito em seu intento.
Essa opinio escapou da boca de Stern antes de ele ter tempo de reprimi-la. Os outros judeus no escritrio baixaram a cabea e mantiveram os olhos pregados no seu trabalho. Schindler no pareceu perturbado com o comentrio.
Mais para o final da conversa dos dois, Oskar disse algo que era uma  novidade. Em pocas como essa, observou ele, devia ser difcil para  as igrejas continuar dizendo aos fiis que o seu Pai do Cu se preocupava at com a morte de um msero pardal. Herr Schindler acrescentou que detestaria ser padre nos dias de hoje, quando uma vida tinha menos  valor do que um mao de cigarros. Stern concordou, mas citou , no esprito moral da discusso, que a referncia bblica de Schindler  poderia ser resumida num verso talmdico que dizia que "aquele  salva a vida de um homem salva a vida do mundo inteiro.
  claro,  claro  murmurou Oskar Schindler.
Com ou sem razo, Itzhak sempre acreditou que foi naquele momento  que ele deixou cair a semente que iria germinar no esprito de Oskar. 
Pg.46 
Captulo 3 
Existe outro judeu da Cracvia que relata um encontro com Schidler naquele outono  e de como quase o matou. O nome homem era Leopold (Poldek) Pfefferberg. Era comandante uma companhia do Exrcito polons durante a recente trgica campanha. Depois de sofrer um ferimento na perna na batalha pelo Rio San ele estivera manquejando pelo hospital polons em Przemysl, ajudando os outros feridos. No era mdico, mas sim professor de educa fsica formado na Universidade de Cracvia e, portanto, com algum conhecimento de anatomia. Resiliente, cheio de confiana em si, tinha vinte e sete anos e era de constituio vigorosa.
Juntamente com algumas centenas de outros oficiais poloneses capturados, Pfefferberg estava a caminho da Alemanha, quando o seu trem parou em sua cidade natal, Cracvia, e os prisioneiros foram levados para a sala de espera da primeira classe, a fim de ali estacionarem aguardando novo transporte. A casa dele ficava a uns dez quarteires da estao. Rapaz de esprito prtico, parecia-lhe inadmissvel que conseguisse ir at a Rua Pawia para apanhar o bonde, que o deixaria em casa. O guarda de aspecto rstico da Wehrmacht  porta parecia uma provocao.
Pfefferberg trazia no bolso um documento assinado pelo diretor do hospital alemo em Przemysl, declarando que ele tinha licena de se locomover pela cidade em ambulncias, cuidando dos feridos de ambos os exrcitos. O documento era espetacularmente formal, selado e assinado. Pfefferberg resolveu exibi-lo ao guarda.
 Sabe ler alemo?  perguntou Pfefferberg.
Esse tipo de manobra tinha de ser feito do modo certo. Era preciso ser jovem e persuasivo; manter, inabalado pela derrota sumria,um 
Pg.47 
ar de segurana tpico da natureza polonesa  algo que corria nas veias de oficiais poloneses, at mesmo entre os raros judeus que tinham ingressado no Exrcito.
 Claro que posso ler alemo  disse o guarda, piscando os fixos. Mas depois de pegar o documento e segur-lo como quem no sabe em absoluto ler  segur-lo como se fosse um pedao de po, ouviu de Pfefferberg a explicao de que aquele documento lhe dava direito de sair para cuidar de enfermos. S o que o guarda podia ver era uma proliferao de carimbos oficiais. Um documento e tanto.Com um gesto de cabea, ele indicou a porta.
Nessa manh, Pfefferberg era o nico passageiro do bonde. No eram ainda seis horas da manh. O condutor recebeu sem comentrio o preo da passagem, pois na cidade ainda havia muitas tropas polonesas que a Wehrmacht no tinha classificado. Os oficiais eram apenas obrigados a se registrarem.
 O bonde fez a volta do Barbakan, atravessou os portes da antiga muralha, desceu a Rua Florianska rumo  Igreja de Santa Maria, cruzou a praa central, e dentro de cinco minutos chegava  Rua Grodzka . Ao se aproximar do apartamento de seus pais no n 48, ele saltou do bonde, como fazia desde menino, antes de funcionarem os freios,deixou que o impulso do salto, acrescido pelo do bonde, o projetasse  um rudo surdo contra o batente da porta.
Aps sua fuga, Poldek tinha vivido com relativo conforto em apartamentos de amigos, visitando de vez em quando o apartamento da Rua Grodzka. As escolas israelitas abriram por um curto espao de tapo  tornariam a ser fechadas dentro de seis semanas  e ele chegou  a voltar ao seu emprego de professor. Tinha certeza de que a Gestapo levaria algum tempo para encontr-lo, e por isso requereu carns de rao. Comeou tambm a negociar com jias  por conta prpria-no mercado negro, que operava na praa central de Cracvia, nas arcadas do Sukiennice e sob as torres desiguais da Igreja de Santa Maria . O comrcio era ativo, entre os prprios poloneses porm ainda mais para os judeus-poloneses. Os carnes de rao que recebiam, cheios de cupons pr-cancelados, davam-lhes direito a apenas dois teros da carne e metade da manteiga distribudos aos cidados arianos, ao passo  todos os cupons de chocolate e arroz vinham cancelados. E assim  mercado negro que operara durante sculos de ocupao e as poucas decadas de autonomia polonesa tornou-se o alimento, a fonte de renda  e o meio mais disponvel de resistncia para respeitveis cidados burgueses, especialmente aqueles que, como Leopold Pfefferberg, sabiam atuar nas ruas.
 Presumiu que logo estaria viajando pelos percursos de esqui em 
Pg.48 
torno de Zakopane nos Tatras, cruzando a fina faixa de terra da Eslovquia rumo  Hungria ou Romnia. Estava bem equipado para a jornada: tinha sido membro do time polons de esqui. Numa das prateleiras mais altas do fogo de porcelana, no apartamento de sua me, ele escondera uma elegante pistolinha 22  arma que lhe serviria tanto para a fuga planejada, como no caso de ser acuado dentro do apartamento pela Gestapo.
Com a sua pistolinha de cabo de madreprola, Pfefferberg quase matou Oskar Schindler num frio dia de novembro. Vestido com um terno de jaqueto, com o emblema do Partido na lapela, Schindler decidira ir procurar a Sra. Mina Pfefferberg, me de Poldek, para lhe propor um trabalho. As autoridades de habitao do Reich lhe haviam reservado um moderno e bonito apartamento na Rua Straszewskiego, anteriormente de propriedade dos Nussbaum, uma famlia judaica. Tais alocaes eram efetuadas sem qualquer indenizao para o ex-proprietrio. No dia em que Oskar foi procurar a Sra. Mina Pfefferberg, ela prpria estava temerosa de que o mesmo fosse acontecer com o seu apartamento na Rua Grodzka.
Vrios amigos de Schindler afirmariam mais tarde  embora no fosse possvel prov-lo  que Oskar tinha ido procurar os Nussbaum expulsos de sua moradia na Rua Podgrze e lhes dera uma quantia de quase 50.000 zlotys como compensao. Com esse dinheiro, ao que se supe, os Nussbaum compraram a sua fuga para a lugoslvia. Os 50.000 zlotys significavam uma marcante divergncia; antes do Natal Oskar teria outros gestos similares de divergncia. Efetivamente, alguns amigos diriam que a generosidade era uma doena em Oskar, um impulso frentico, uma de suas paixes. Costumava dar a motoristas de txi gorjetas que eram o dobro do que marcava o relgio. Mas  preciso notar tambm que ele considerava injustas as autoridades de habitao do Reich e disse isso a Stern, no quando o regime comeou a ter problemas mas j naquele outono to favorvel aos nazistas.
De qualquer forma, a Sra. Pfefferberg no tinha a menor idia do que viera fazer em seu apartamento o alto e elegante alemo. Teria vindo bater  sua porta  procura de Poldek, que no momento estava escondido na cozinha? Ou quem sabe para se apossar do apartamento e do negcio de decorao da Sra. Pfefferberg, de suas antiguidades e tapearias francesas?
Com efeito, por ocasio da festa de Hanukkah em dezembro, a polcia alem, por ordem da agncia de habitao, viria bater  porta da famlia e expuls-la, tremendo de frio, para a calada da Rua Grodzka. Quando a Sra. Pfefferberg pedira para tornar a entrar no apartamento e apanhar o seu capote, a permisso lhe fora recusada; quando 
Pg.49 
o Sr. Pfefferberg encaminhara-se para o seu escritrio a fim de apa nhar um antigo relgio de ouro, levara um soco no queixo. 'Testemunhei coisas terrveis no passado", tinha dito Hermann Gring, "motoristas e gauleiters tm lucrado tanto com essas transaes que agora j devem ter por volta de meio milho." O efeito dessas apropriaes fceis, como o relgio de ouro do Sr. Pfefferberg, sobre a fibra moral do Partido poderiam preocupar Gring. Mas naquele ano na Polnia,o estilo da Gestapo era no prestar contas do que encontrasse nos apartamentos.
Todavia, quando Schindler foi bater na porta do apartamento dos Pfefferberg no segundo andar, a famlia ainda ali residia. A Sra. Pfefferberg e o filho estavam conversando em meio de peas de tecidos e rolos de papel de parede, quando ouviram bater na porta. Poldek no ficou preocupado. Havia duas entradas no apartamento  a porta comercial e a da cozinha ficavam cada uma de um lado de um patamar.Indo at a cozinha, ele espiou pela porta entreaberta o visitante. Notou a alta estatura do desconhecido, o elegante talhe de sua roupa, e voltou  sala de estar para dizer  sua me que tinha a impresso de que o homem era da Gestapo. Quando ela o deixasse entrar pela porta comercial, Poldek sempre teria tempo de fugir pela cozinha.
A Sra. Pfefferberg tremia. Estava, naturalmente, de ouvido atento a rudos no corredor. Pfefferberg tinha apanhado a pistola e a enfiara no cinto. A sua inteno era combinar o rudo de sua sada com o da entrada de Schindler. Mas parecia uma tolice fugir sem saber o que o alemo queria. Havia a possibilidade de ser preciso matar o homem, e ento seria necessrio combinar a fuga da famlia para a Romnia.
Se a presso magntica do momento tivesse impelido Pfefferberg a puxar o gatilho da pistola, a morte, a fuga, as represlias seriam consideradas normais e prprias da poca. A morte de Schindler seria brevemente lamentada e prontamente vingada. E isso teria sido, evidentemente, o sumrio fim de todas as potencialidades de Oskar. E l em Zwittau, a pergunta das pessoas seria: ''Qual foi o marido que matou Herr Schindler?"
A voz surpreendeu os Pfefferberg. Era calma, polida, adequada a uma transao comercial, at mesmo a um pedido de favor. A famlia tinha-se habituado nas semanas anteriores ao tom de decreto, de pronta expropriao. Mas o daquele homem parecia fraternal, o que poderia significar coisa pior.
Pfefferberg tinha-se esgueirado da cozinha e estava escondido por detrs das portas duplas da sala de jantar. Podia ver por uma fresta o visitante.
Pg.50
   a Sra. Pfefferberg?  perguntou o alemo.  Foi-me recomendada por Herr Nussbaum. Acabo de tomar posse do apartamento na Rua Straszewskiego, e gostaria de redecor-lo.
Mina Pfefferberg mantinha o homem  porta. Respondeu com ta incoerncia que o filho teve pena dela e apareceu na soleira, com o palet abotoado sobre a arma. Convidou o visitante a entrar e, ao mesmo tempo, murmurou em polons palavras tranquilizadoras  sua me.
Oskar Schindler ento se identificou. Era preciso agir com calma,pois o alemo podia perceber que Pfefferberg estava executando uma manobra primordial de proteo. Schindler demonstrou o seu respeito, dirigindo agora a palavra ao filho, como se se tratasse de um intrprete.
 Minha mulher vai chegar da Tchecoslovquia -- explicou ele  e eu gostaria de redecorar o apartamento no estilo que ela gosta.
Acrescentou que os Nussbaum tinham mantido o apartamento em excelentes condies, mas decorado num gosto em que predominavam os mveis pesados e as cores sombrias. A Sra. Schindler dava preferncia a um estilo mais leve  um pouco francs, um pouco sueco.
A Sra. Pfefferberg se recompusera o bastante para dizer que no sabia  eram dias muito agitados aqueles, com a proximidade do Natal. Poldek percebeu que havia nela uma resistncia instintiva em aceitar um cliente alemo; mas os alemes deviam ser, naquele momento,os nicos com suficiente confiana no futuro para se interessarem por decorao. E a Sra. Pfefferberg precisava de um bom contrato  seu marido fora despedido do emprego e agora trabalhava por uma ninharia na agncia de habitao do Gemeinde, o escritrio judaico de previdncia social.
Dois minutos depois, os dois homens j conversavam como se fossem amigos. A pistola no cinto de Pfefferberg era agora arma reservada para uma futura e remota emergncia. No restava dvida de que a Sra. Pfefferberg iria. decorar o apartamento de Schindler sugeriu que Pfefferberger talvez gostasse de ir at seu apartamento para discutir  outros negcios.
 H a possibilidade de o senhor me aconselhar na aquisio de ercadoras locais  disse Schndier.  Por exemplo, esta sua bonita nisa azul... No sei como procurar sozinho artigos assim.
A sua ingenuidade era uma manobra, mas Pfefferberg compreendeu.
 As lojas, como deve saber, esto vazias  insinuou Oskar.Pfefferberg era o tipo de homem que sobreviveria, apostando alto.
 Herr Schindler, essas camisas so extremamente caras. Espero compreenda. Custam vinte e cinco zlotys cada uma.
Pg.51 
Ele tinha multiplicado por cinco o preo. Imediatamente, no rosto de Schindler surgiu um malicioso sorriso de compreenso  porm no muito acentuado para no pr em risco a tnue amizade, ou lembrar a Pfefferberg a pistola que trazia escondida sob o palet.
 Provavelmente, poderia conseguir-lhe algumas camisas  continuou Pfefferberg  se me der o nmero que o senhor usa. Mas receio que os meus contatos exijam dinheiro adiantado.
Schindler, ainda demonstrando com os olhos que estava a par do golpe, tirou do bolso a carteira e entregou a Pfefferberg 200 reichmark .A quantia era tremendamente exagerada e, mesmo aos preos inflacionados de Pfefferberg, teria dado para comprar camisas para um dezena de magnatas. Mas Pfefferberg nem pestanejou.
 Precisa me dar as suas medidas  concluiu ele.
Uma semana depois, Pfefferberg levou uma dzia de camisas de seda ao apartamento de Schindler na Rua Straszewskiego. L deparou com uma bonita alem que lhe foi apresentada como Treunder de uma indstria de ferragens em Cracvia. Depois, numa  outra noite,Pfefferberg avistou Oskar na companhia de uma beldade polonesa loura e de grandes olhos azuis. Se existia uma Frau Schindler, ela no apareceu mesmo depois de a Sra. Pfefferberg ter redecorado o apartamento. O prprio Pfefferberg passou a ser uma das mais constantes conexes de Schindler com o mercado de artigos de luxo  sedas, mveis, jias  que florescia na antiga cidade de Cracvia.
Pg.52
Captulo 4
A vez seguinte em que Itzhak Stern se encontrou com Oskar Schindler, foi numa manh em princpios de dezembro. Schindler j dera entrada  sua proposta  Corte Comercial de Cracvia e agora podia visitar tranquilamente os escritrios da Buchheister; depois de conferenciar com Aue, postou-se junto  escrivaninha de Stern,bateu palmas e anunciou, numa voz que j parecia embriagada:
 Amanh, vai comear. As ruas Jozefa e Izaaka vo saber de tudo!
Havia realmente as ruas Jozefa e Izaaka na Kazimierz. Havia-as em todo gueto e Kazimierz era o local do antigo gueto de Cracvia,uma ilha cedida no passado  comunidade judaica por Kazimier o Grande agora um subrbio aninhado num brao do Rio Vstula.
Herr Schindler curvou-se sobre Stern, que sentiu o seu hlito de conhaque e ficou na dvida: Sabia Herr Schindler que algo estava para acontecer na Rua Jozefa e na Rua Izaaka? Ou estaria apenas citando nomes ao acaso? De qualquer forma, Stern sentiu-se enjoadamente frustrado. Herr Schindler estava alardeando um pogrom, sem uma base positiva, como que para pr Stern de sobreaviso.
Era o dia 3 de dezembro. Quando Oskar disse "amanh", Stern presumiu que ele estivesse usando a palavra no no sentido de 4 de dezembro mas nos termos que bbados e profetas sempre usam, como algo que aconteceria ou provavelmente iria acontecer dentro em breve. Muito poucos daqueles que a ouviram, ou que souberam da advertncia alcoolizada de Herr Schindler, deram-lhe crdito. Alguns fizeram suas malas naquela noite e levaram suas famlias para Podgrze, do outro lado do rio.
Oskar sabia que corria um risco transmitindo aquelas informaes. 
Pg.53 
Recebera-as de pelo menos duas fontes, de novos amigos. Um era um oficial ligado  equipe de auxiliares do chefe de polcia da SS, Hermn Toffel, policial com o posto de Wachtmeister (sargento); o outro, Dieter  Reeder, pertencia  equipe do chefe Czurda da SS. Ambos os contatos  eram caractersticos entre oficiais amistosos, com quem Oskar
cultivava amizade.
Mas, naquele dia de dezembro, ele no soubera explicar a Stern os motivos de estar transmitindo aquela informao. Mais tarde diria que no perodo da Ocupao Alem da Bomia e Morvia, testemunhara tantas expropriaes de propriedades de judeus e tchecos, sua remoo  fora das reas sudetas consideradas alems, que ficara  curado de qualquer lealdade  Nova Ordem. A revelao a Stern, muito mais do que a no confirmada histria a respeito dos Nussbaum,  uma prova muito mais positiva de sua atuao.
Schindler deve tambm ter nutrido a esperana, assim como os Judeus de Cracvia, que o furor inicial do regime iria afrouxar e permitir que as pessoas respirassem. Se os reides e incurses da SS nos meses seguintes pudessem ser mitigados com avisos de antemo, ento talvez a sanidade voltasse a se estabelecer na primavera. Afinal, tanto
Oskar quanto os judeus diziam a si mesmos que os alemes eram uma nao civilizada.
Entretanto, a invaso da Kazimierz pela SS despertou em Oskar uma repulsa fundamental  no uma repulsa que chegasse a afetar diretamente o nvel de sua vida comercial, ou amorosa, ou seus jantares com amigos, mas uma repulsa que, quanto mais claras se tornavam as  intenes do novo regime, o impulsionaria, obcecaria, levando-o em sua exaltao a arriscar-se cada vez mais. A finalidade da operao era em parte a apropriao de jias e peles. Haveria alguns despejos de casas e apartamentos na zona mais abastada entre Cracvia e Kazimierz. Mas, alm desses resultados prticos, aquela primeira Aktion ia ser uma advertncia dramtica aos atemorizados habitantes daquele bairro judaico. Com esse objetivo, contou Reeder a Oskar, um pequeno destacamento de homens da Einsatzgruppe juntamente com membros da SS local e da polcia de campanha entrariam em caminhes na Kazimierz.
Seis Einsatzgruppen tinham vindo para a Polnia com o exrcito invasor. A sua denominao tinha significao sutil. "Grupos de Tarefa Especial"  uma traduo aproximada. Mas a palavra amorfa Einsatz  tambm rica em nuanas  de desafio, de provocao, de nobre contenda. Esses esquadres eram recrutados no Sicherheitsdienst (SD  Servio de Segurana) de Heydrich. De antemo, eles sabiam que a sua tarefa era ampla. O seu lder supremo dissera seis semanas antes 
Pg.54 
ao General Wilhelm Keitel que "no Governo Geral da Polnia ter de haver uma dura luta pela existncia nacional, que no permitir restries legais de espcie alguma". Na elevada retrica de seus lderes, os soldados do Einsatz sabiam que uma luta pela existncia nacional significava guerra aos judeus e outras raas, assim como o prprio Einsatz, Tarefa Especial de Cavaleiros, significava o cano quente de uma espingarda.
O esquadro Einsatz destacado para ao na Kazimierz naquela noite era de elite. Deixariam aos tarefeiros da SS o trabalho srdido de revistar as moradias em busca de anis de diamante e casacos forrados de peles. Eles prprios tomariam parte numa atividade mais radicalmente simblica de destruir os instrumentos da cultura judaica  isto , as antigas sinagogas de Cracvia.
Havia semanas que os componentes do Einsatz estavam se exercitando, assim como os Sonderkommandos SS (Esquadres Especiais),tambm destacados para essa primeira Aktion em Cracvia, e a polcia de segurana do chefe Czurda. O Exrcito negociara com Heydrich e os chefes de polcia mais categorizados um adiamento de operaes at a Polnia passar da administrao militar  civil. A transmisso de autoridade fora agora efetuada, e em todo o pas os Cavaleiros de Einsatz e os Sonderkommandos receberam ordem de atacar, com um justo senso de racismo histrico e indiferena profissional, os antigos guetos judaicos.
No final da rua estava situado o apartamento de Oskar, e l tambm se erguiam as fortificaes rochosas do Castelo de Wawel, de onde governava Hans Frank. Para que se possa compreender a futura atuao de Oskar na Polnia,  preciso examinar a ligao entre Frank e os jovens membros da SS e da SD, e depois entre Frank e os judeus de Cracvia.
Em primeiro lugar, Hans Frank no tinha autoridade direta sobre aqueles esquadres especiais que iriam invadir a Kazimierz. As foras policiais de Heinrich Himmler, onde quer que atuassem, faziam sempre a sua prpria lei. Frank no s reprovava esse poder independente, como no concordava com ele em terreno prtico. Abominava tanto quanto qualquer outro membro do Partido a populao judaica e considerava a agradvel cidade de Cracvia intolervel devido  quantidade de judeus que a habitavam. Pouco tempo antes ele se queixara, quando as autoridades tinham tentado usar o Governo-Geral, e especialmente Cracvia com o seu entroncamento de estrada de ferro, como despejo de judeus das cidades da Wartheland, Lodz e Poznan. Mas no acreditava que os Einsatzgruppen ou os Sonderkommandos, com os seus mtodos, pudessem trazer alguma soluo para o problema. 
Pg.55 
Era opinio de Frank, partilhada por Himmler divagaes mentais de "Heini"), que deveria haver um s vasto campo  de concentrao para judeus, pelo menos na cidade de Lublin e cercanias, ou, ainda melhor, na Ilha de Madagscar.
Os prprios poloneses sempre haviam acreditado em Madagscar, Em 1937, o Governo polons tinha enviado uma comisso para estudar aquela ilha de picos altos to longe de suas sensibilidades europ]ias.O Ministrio Colonial francs, a que pertencia Madagscar, estava disposto a negociar, de governo para governo, essa nova colonizao, pois uma Madagscar com uma densa populao judaica seria um grande mercado de exportao. Oswaid Pirow, Ministro da Defesa da frica do Sul, tinha atuado por um tempo como intermedirio entre Hitler e a Frana na questo da ilha. Assim, Madagscar, como soluo, tinha um alvar respeitvel. Havia um interesse financeiro da parte de Hans nessa soluo e no no Einsatzgruppe. Pois aqueles reides e massacres espordicos no podiam arrasar a populao subumana da Europa Oriental. Durante o tempo da campanha em torno de Varsvia,o Einsatzgruppe tinha enforcado judeus nas sinagogas da Silsia,haviam-nos destrudo com o suplcio da gua, tinham-lhes invadido os lares nas noites de Sabbath ou dias de festa, cortado os seus cachos rituais de orao, tocado fogo em seus tallis, haviam-nos fuzilado contra uma parede. O efeito fora quase nulo. Segundo Frank, havia muitos indcios na Histria de que raas ameaadas em geral venciam os genocdios. O falo era mais rpido que o fuzil.
O que ningum sabia  nem os participantes do debate, os finalmente educados rapazes do Einsatzgruppe dentro de um caminho, os no to distintos membros da SS em outro caminho, os fiis nas sinagogas, Herr Oskar Schindler a caminho de seu apartamento na Rua Straszewskiego para se vestir para o jantar  o que nenhum deles sabia, e muitos planejadores do Partido mal podiam esperar, era que iria ser encontrada uma resposta tecnolgica: um desinfetante qumico composto, Zyklon B, iria substituir Madagscar como soluo.
Houvera um incidente relacionado com Leni Riefenstahl, a atriz e diretora predileta de Hitler. A caminho de Lodz com uma equipe de cinegrafstas logo depois de a cidade cair, ela presenciara uma fileira de judeus  visivelmente judeus, de longos cachos  serem executados com armas automticas. Leni fora procurar diretamente o Fhrer que se achava no quartel-general do Exrcito do Sul, e lhe fez uma cena. Era isso  a logstica, o peso dos nmeros, as consideraes de relaes pblicas faziam com que os rapazes do Einsatz fizessem papel de tolos. Mas Madagscar tambm iria parecer ridculo, uma vez que fossem descobertos meios de efetuar incurses substanciais contra a  
Pg.56 
populao subumana da Europa Central em locais determinados, com facilidades adequadas de remoo, que uma elegante diretora tinha poucas probabilidades de encontrar.
Conforme Oskar tinha avisado a Stern no escritrio da Buchheister, os SS desencadearam uma guerra econmica de porta em porta nas ruas Jakoba, Izaaka e Josefa. Invadiram apartamentos, arrastaram o contedo de armrios, arrebentaram fechaduras em escrivaninhas e penteadeiras. Arrancaram jias dos dedos e pescoos e correntes de relgios. Uma mulher que no queria entregar o seu casaco de pele teve o brao quebrado; um menino da Rua Ciemna, que queria ficar com os seus esquis, levou um tiro.
Alguns, cujos bens tinham sido roubados  ignorando que a SS estava operando fora de qualquer restrio legal , foram no dia seguinte dar queixa nas delegacias de polcia. Em algumas delegacias encontraram um ou outro oficial graduado com alguma integridade, que se mostrava embaraado e talvez at disciplinasse algum depredador. Teria de haver uma investigao para o caso do menino da Rua Ciemna e da mulher com o nariz quebrado por um cassetete.
Enquanto os SS trabalhavam nos prdios de apartamentos, o esquadro do Einsatzgruppe atacava a Sinagoga de Stara Boznca, datada do sculo XIV. Como esperavam, ali encontraram orando uma congregao de judeus tradicionais de barbas e cachos e tallis nos ombros. Juntaram um grupo de judeus menos ortodoxos nos apartamentos das imediaes e os fizeram entrar na sinagoga para apurar a reao de um grupo em presena do outro.
Entre os que haviam sido empurrados para dentro da Stara Boznca achava-se o gngster Max Redlicht, que de outra forma no teria posto os ps na sinagoga nem sido convidado para entrar. Foram todos colocados diante da Arca, dois plos da mesma tribo que, em circunstncias normais, teriam considerado uma ofensa estar na companhia um do outro. Um oficial graduado do Einsatz abriu a Arca e tirou de dentro o rolo de pergaminho do Tora. A discrepante congregao dentro da sinagoga recebeu ordem de desfilar diante do pergaminho sagrado e cuspir nele. No podia haver tapeao  a cusparada teria de ser visvel na caligrafia.
Os judeus ortodoxos se mostraram mais racionais do que os outros, os agnsticos, os liberais, os que se consideravam apenas europeus. Tornou-se claro para os homens do Einsatz que os judeus dessa classe recuavam diante do Tora, e tentavam mesmo transmitir-lhes encorajamento atravs de olhares, como que dizendo: "Vamos, somos todos muito sofisticados para dar importncia a essa tolice." Os membros 
Pg.57 
da SS tinham ouvido em seu treinamento que o carter europeu dos judeus liberais era uma fina classe, e na Stara Boznca a relutncia dos que usavam cabelos curtos e roupas contemporneas vinha provar aquela teoria.
No final, todos cuspiram exceto Max Rediicht. Os homens do Einsatzgruppe devem ter considerado isso um teste que valera a pena  ver um homem visivelmente agnstico recusar-se a repudiar um livro, que intelectualmente ele considerava uma antiga sandice tribal, mas que seu sangue lhe diz ser sagrado. Podia um judeu se libertar das tendencias de seu sangue? Podia ele pensar com tanta clareza quanto Kant?Aquele era o teste.
Redlicht no passou no teste. Pronunciou um pequeno discurso. ''J fiz muita coisa na vida. Mas isso no farei." Foi o primeiro a ser  morto com um tiro, mas depois fuzilaram todos os outros e incendiaram Stara Boznca, deixando apenas o arcabouo da mais antiga das  sinagogas polonesas.
Pg.58 
Captulo 5 
Victoria Klonowska, secretria polonesa, era a beldade do escritrio de Oskar, e imediatamente ele se envolveu num duradouro caso com ela. Ingrid, sua amante alem, devia saber de tudo, to certo como Emilie Schindler sabia a respeito de Ingrid. Pois Oskar nunca fora um amante furtivo. Em questes sexuais, era de uma franqueza que chegava a ser infantil. No que se gabasse de suas aventuras mas simplesmente no via necessidade alguma de mentir, de esgueirar-se para dentro de hotis pelas escadas de servio, bater de leve na porta de uma mulher a altas horas da madrugada. Como Oskar no fazia esforo algum para enganar suas mulheres, elas no tinham muita opo: as discusses tradicionais entre amantes tornavam-se difceis.
Com os cabelos louros arrumados no alto de seu lindo, esperto e bem maquilado rostinho, Victoria Klonowska parecia ser do tipo de jovem frvola para quem as inconvenincias da Histria significavam uma intruso temporria na vida real. Nesse outono, quando usavam roupas simples, Klonowska parecia bem ftil com uma blusa de babados e saia justa. Contudo, era astuta, eficiente e hbil. Era tambm uma nacionalista no robusto estilo polons. Mais tarde, ela iria negociar com os dignitrios alemes das instituies da SS o livramento do seu amante sudeto. Mas, por enquanto, Oskar tinha uma tarefa menos arriscada para ela.
Encarregou-a de encontrar um bom bar ou cabar em Cracvia,onde ele pudesse levar alguns amigos. No contatos, nem funcionrios graduados da Inspetoria de Armamentos. Amigos de verdade. Um local animado e que no fosse frequentado por autoridades.
Conhecia Klonowska, por acaso, um local assim?
Pg.59 
Ela descobriu um excelente poro com uma banda de jazz,  nas estreitas ruas ao norte da Rynek, a praa da cidade: um clube que sempre fora popular entre os estudantes e professores mais jovens da Universidade , mas a prpria Victoria nunca l estivera. Os homens meia-idade, que a haviam cortejado em tempo de paz, nunca se mostrariam dispostos a se meter num antro de estudantes. Quem desejasse pdia alugar uma alcova atrs de uma cortina para reunies privadas, sob pretexto de ouvir os ritmos tribais da banda de jazz. Por ter descoberto aquele local, Oskar apelidou Victoria de "Colombo". A linha do Partido considerava o jazz no somente manifestao artisticamente decadente mas expresso da subumana animalidade africana. O ump-pa-pa das valsas vienenses era o ritmo preferido dos homens da SS e membros do Partido, que faziam absoluta questo de evitar clubes de Jazz.
Por volta do Natal de 1939, Oskar organizou uma reunio no clube com um grupo de amigos. Como qualquer cultivador instintivo de contatos, jamais tivera problema algum de beber na companhia de homens de quem no gostava. Mas nessa noite os convidados eram gente de quem reamente gostava. Alm disso, naturalmente, eram todos de alguma utilidade, pois eram membros jovens mas no sem certa influncia, nas vrias agncias de ocupao; todos mais ou menos exilados duplos  no s se encontravam longe de sua ptria mas, quer no seu pas quer no exterior, estavam todos mais ou menos inquietos com o regime.
Havia, por exemplo, um jovem superintendente alemo da Diviso do Interior do Governo-Geral. Fora ele quem delimitara a fbrica de esmaltados de Oskar em Zablocie. Nos fundos da fbrica de Oskar, Deutsche Email Fabrik (DEF), ficava um terreno baldio que confinava com duas outras fbricas, uma de embalagens e outra de radiadores. Schindler gostara muito de saber que a maior parte da rea desocupada pertencia, segundo o superintendente,  DEF. Em sua cabea surgiram vises de expanso econmica. Esse superintendente,  claro, tinha sido convidado porque era um bom sujeito, porque era possvel conversar com ele e porque poderia ser til no plano de conseguir futuras licenas de construo.
O policial Herman Toffel estava presente e tambm Reeder, do Servio de Segurana, assim como um outro superintendente, jovem oficial de nome Steinhauser, da Inspetoria de Armamentos. Oskar conhecera e simpatizara com esses homens, quando havia requerido as licenas de que necessitava para pr sua fbrica em funcionamento. J bebera com eles em outras ocasies. Sempre acreditara que a melhor Mancira dedesfazer o n grdio da burocracia, excetuando o suborno, era a bebida.
Pg.60
Finalmente, havia dois membros da Abwehr. O primeiro era Eberhard Gebauer, o tenente que um ano antes tinha recrutado Schindler para a Abwehr. O segundo era o Leutnant Martin Plathe, do comando de Canaris em Breslau. Devido ao seu recrutamento atravs do amigo Gebauer, Herr Oskar Schindler tinha descoberto que Cracvia era uma cidade de muitas oportunidades.
A presena de Gebauer e Plathe teria suas consequncias. Oskar continuava inscrito nos livros da Abwehr como agente e, nos anos que permaneceu em Cracvia, manteve a equipe de Canaris em Breslau satisfeita, transmitindo-lhes informaes sobre o comportamento dos seus rivais na SS. Gebauer e Plathe consideravam como um favor, uma ddiva, o fato de Oskar ter convidado um policial, mais ou menos descontente como Toffel, e Reeder do Servio de Segurana, alm de oferecer-lhes boa companhia e bebidas.
Ainda que no seja possvel dizer exatamente o que conversaram os convidados daquela reunio,  possvel reconstituir com alguma plausibilidade as conversas, pelo que Oskar transmitiu mais tarde a respeito de cada um deles.
Foi Gebauer, naturalmente, quem fez a saudao, declarando que no lhes daria governos, exrcitos ou potentados; ao invs, lhes daria a fbrica de esmaltados do seu bom amigo Oskar Schindler. Pois, se a fbrica prosperasse, haveria mais reunies no estilo Schindler, e das melhores!
Mas, depois do brinde, a conversa desviou-se naturalmente para o assunto que confundia e obcecava todos os nveis da burocracia civil: os judeus.
Toffel e Reeder tinham passado o dia na Estao de Mogilska, supervisionando o desembarque de judeus e poloneses de trens vindos do leste. Essa gente havia sido transportada dos Territrios Incorporados, regies recentemente conquistadas, que no passado tinham pertencido  Alemanha. Toffel no estava se preocupando com o conforto dos passageiros nos Ostbahn, vages de gado, embora confessasse que eram muito frios. Mas esse tipo de transporte de populaes era uma novidade para todo mundo e os vages ainda no viajavam desumanamente repletos. O que deixava Toffel confuso era a inteno por detrs de tudo aquilo.
 H um rumor persistente  disse Toffel  de que estamos em guerra. E, em tal situao, os cidados dos Territrios Incorporados se consideram de raa muito pura para conviver com uns poucos poloneses e meio milho de judeus. O sistema Ostbahn foi planejado para entregar toda essa gente em nossas mos.
Os membros da Abwehr ouviam com um leve sorriso nos lbios.
Pg.61
Para a SS o inimigo oculto podia ser o judeu mas para Canaris o inimigo oculto era a SS.
A SS, informou Toffel, tinha requisitado toda a rede ferroviria a partir de 15 de novembro. Por sua mesa, na Rua Pomorska, tinham passado memorandos irritados dirigidos pela SS ao pessoal do Exrcito, reclamando que os militares no estavam cumprindo o prometido, tinham ultrapassado duas semanas o prazo marcado para o uso dos Ostbahn. Pelo amor de Deus, perguntava Toffel, o Exrcito no devia ter prioridade, por quanto tempo quisesse, para usar a rede ferroviria? De que outra forma poderia distribuir suas tropas a leste e oeste?, perguntava ele bebendo nervosamente. Usando bicicletas?
Oskar achou graa que os homens da Abwehr no fizessem comentrio algum. Suspeitavam ser Toffel um informante, em vez de simplesmente estar embriagado.
O superintendente e o homem da Inspetoria de Armamentos fizeram algumas perguntas a Toffel sobre aqueles trens que chegavam na Mogilska. Em breve tais movimentaes deixariam de ser assunto de discusso; o transporte de seres humanos passaria a ser um clich de medidas de repovoamento. Mas na noite da reunio de Oskar, ainda constituam uma novidade.
 Eles chamam isso  disse Toffel  concentrao.  a palavra que se encontra nos documentos. Concentrao. Eu chamo isso de maldita obsesso.
O proprietrio do clube de jazz trouxe pratos de arenque e molho. O peixe combinava bem com a bebida forte e, enquanto eles o devoravam, Gebauer falou sobre os Judenrats, os conselhos judaicos  formados em cada comunidade por ordem do Governador Frank. Em cidades como Varsvia e Cracvia o Judenrat tinha vinte e quatro membros eleitos, pessoalmente responsveis pelo cumprimento das ordens do regime. O Judenrat de Cracvia estava em funcionamento havia menos de um ms; Marek Biberstein, respeitada autoridade municipal, fora nomeado presidente da organizao. Mas Gebauer disse ter ouvido o rumor de que o Judenrat j apresentara no Castelo de Wawel uma lista de trabalhadores judeus. O Judenrat forneceria a mo-de-obra para cavar valas e latrinas e remover neve. Podia algum negar que os judeus estavam muito dispostos a cooperar?
Em absoluto, disse o engenheiro Steinhauser da Inspetoria de Armamentos. Os judeus pensavam que, se fornecessem turmas de trabalhadores, isso faria cessarem fortuitos ataques da imprensa. Ataques da imprensa levavam a espancamentos e a um ocasional tiro na cabea.
Martin Plathe concordou.
 Eles sero cooperativos para evitar coisas piores.  o seu mtodo.
Pg.62
  preciso que se compreenda isso. Sempre compraram as autoridades civis cooperando com elas e depois negociando.
Gebauer parecia estar querendo desorientar Toffel e Reeder mostrando-se mais apaixonadamente analtico a respeito de judeus do que realmente o era.
 Eu lhes digo o que para mim significa cooperao  explicou ele.  Frank assina um decreto exigindo que todo judeu no Governo-Geral use uma estrela. Esse decreto est em vigor h apenas umas poucas semanas. Em Varsvia h um judeu fabricando estrelas em plstico lavvel a trs zlotys cada uma.  como se eles no tivessem a menor ideia de que espcie de decreto  esse.  como se se tratasse de emblema de um clube de ciclismo.
Foi ento sugerido que, j que Schindler estava no comrcio dos esmaltados, talvez pudesse fabricar um emblema de luxo em esmalte e distribu-lo atravs do comrcio de ferragens, negcio que seria supervisionado pela sua namorada Ingrid. Algum observou que a estrela era a insgnia nacional deles, a insgnia de um Estado que havia sido destrudo pelos romanos e que agora s existia na mente de sionistas. Assim talvez os judeus se orgulhassem de usar a estrela.
 O fato   disse Gebauer  que eles no possuem organizao alguma para se salvar. As organizaes deles so do tipo de amainar a tempestade. Mas essa vai ser diferente. Essa tempestade ser dirigida pela SS.  De novo Gebauer falava como se, sem se entusiasmar demais, aprovasse a eficincia profissional da SS.
 Ora, vamos  ponderou Plathe , a pior coisa que pode acontecer aos judeus  serem enviados para Madagscar, que tem condies de temperatura melhores do que Cracvia.
 No creio que eles jamais vejam Madagscar  disse Gebauer.
Oskar pediu que se mudasse de assunto. Afinal, a festa no era sua?
O fato era que ele j tinha visto a mo de Gebauer pousada sobre documentos forjados, permitindo a fuga para a Hungria de um comerciante judeu, no bar do Hotel Cracvia. Talvez Gebauer estivesse cobrando o servio, embora parecesse muito sensvel moralmente para negociar documentos, vender assinaturas ou carimbos. Mas era certo que, apesar da sua atitude estudada na presena de Toffel, ele no odiava os judeus. E tampouco odiavam os outros presentes. No Natal de 1939, Oskar simplesmente achava-os um alvio, em vista da bombstica linha do Partido. Mais tarde eles teriam uma utilidade mais positiva.
Pg.63
Captulo 6
A Aktion da noite de 4 de dezembro havia convencido Stern de que Oskar Schindler era aquela raridade, um goy justo. Existe uma lenda talmdica dos Hasidei Ummot Ha-olam, os Justos das Naes que, segundo a lenda, so  em qualquer poca da Histria do mundo  trinta e seis. Stern no acreditava literalmente naquele nmero mstico mas para ele a lenda era psicologicamente verdadeira; julgava por isso que o critrio certo seria tentar fazer de Schindler um santurio vivo.
O alemo precisava de capital  a Rekord tinha sido parcialmente despojada de material de fabricao exceto por uma pequena galeria de prensas de metal, depsitos de esmalte, tornos mecnicos e fornos. Ainda que Stern pudesse exercer uma substancial influncia espiritual sobre Oskar, o homem que lhe proporcionou contatos com capital em boas condies foi Abraham Bankier, o gerente do escritrio da Rekord, cuja confiana Oskar tinha conquistado.
A dupla  o alto e sensual Oskar e o atarracado Bankier  puseram-se em campo para encontrar possveis investidores. Pelo decreto de 23 de novembro, as contas bancrias e depsitos dos judeus ficariam sob a guarda da administrao alem, com crdito fixo, sem que o cliente tivesse direito algum a juros ou a lanar mo do seu dinheiro. Alguns dos negociantes judeus mais abastados e experientes mantinham fundos secretos de dinheiro em espcie. Mas podiam prever que por alguns anos, sob o governo de Hans Frank, mesmo dinheiro seria arriscado; bens mveis  diamantes, ouro, mercadorias  eram mais aconselhveis.
Em Cracvia havia certo nmero de homens conhecidos de Bankier dispostos a fazer investimentos de capital contra a garantia de certa 
Pg.64
quantidade de produtos. A transao podia ser um investimento de 50 mil zlotys por tantos quilos de panelas e caarolas, entregues a partir de julho de 1940, em todo o decorrer do ano. Para um judeu de Cracvia, com Hans Frank no governo, utenslios de cozinha eram mais seguros e disponveis do que zlotys.
As partes desses contratos  Oskar, o investidor, com Bankier como intermedirio  no tinham papel algum assinado. Contratos formais de nada adiantavam e no representavam nenhuma garantia. No podia haver exigncia alguma quanto ao seu cumprimento. Tudo dependia da confiana que Bankier depositava naquele fabricante sudeto de artigos esmaltados.
As reunies podiam realizar-se talvez no apartamento do investidor no Centrum de Cracvia, a antiga cidade interna.  luz da transao podiam ser vistos os quadros dos paisagistas poloneses que a mulher do investidor apreciava ou os romances franceses que suas cultas e frgeis filhas adoravam. Ou, ento, o cavalheiro investidor j fora expulso do seu apartamento e residia mais modestamente no Podgrze: um homem em estado de choque  espoliado da sua morada, agora um mero empregado do prprio negcio  e tudo isso se passara em poucos meses, o ano ainda no tinha terminado.
 primeira vista, parece um enobrecimento da histria dizer que Oskar jamais fora acusado de deixar de cumprir a palavra empenhada naqueles contratos informais. No ano seguinte, ele iria ter uma briga com um varejista judeu por causa da quantidade de artigos que o homem tinha o direito de receber da fbrica na Rua Lipowa. E o varejista at o fim da vida iria afirmar que fora lesado. Mas jamais algum confirmou que Oskar deixara de cumprir um contrato.
Pois Oskar era por natureza um pagador que, de certa forma, dava a impresso de que podia fazer pagamentos ilimitados com recursos ilimitados. Mas o fato era que ele e outros oportunistas alemes iam ganhar tanto dinheiro no decorrer dos quatro anos seguintes que s um homem sfrego pela ambio do lucro teria deixado de saldar o que o pai de Oskar teria chamado de "dvida de honra".
No ano-novo, Emilie Schindler foi pela primeira vez a Cracvia para visitar o marido. Achou a cidade a mais encantadora que j conhecera, to mais agradvel e antiga do que Brno, com suas nuvens de fumaa industrial.
Ficou impressionada com o novo apartamento do marido. As janelas da frente davam para um belo cinturo verde que circundava a cidade, seguindo o traado de antigas muralhas, que h muito haviam rudo. No final da rua erguia-se a grande fortaleza de Wawel e em meio
Pg.65
de todas essas antiguidades ficava o moderno apartamento de Oskar. Olhou em seu redor os estofados e cortinas da Sra. Pfefferberg. Eram a prova tangvel dos novos sucessos do marido.
 Vejo que tem se sado muito bem na Polnia  observou ela.
Oskar sabia que Emilie estava realmente aludindo  questo do dote, que seu pai se recusara a pagar doze anos antes. De volta de uma viagem a Zwittau, ele havia retornado  aldeia de Alt-MoIstein com a informao de que o genro estava vivendo e tendo aventuras como um homem solteiro. O casamento da filha tornara-se exatamente o que ele temera e, em hiptese alguma, iria pagar o dote prometido.
Embora a ausncia dos 400 mil reichmarks tivesse alterado um pouco as perspectivas de Oskar, o fazendeiro de Alt-MoIstein no sabia o quanto a recusa do pagamento do dote magoara sua filha, tornara-a ainda mais defensiva, e que doze anos depois, quando aquele dinheiro no contava mais para Oskar, Emilie continuava pensando no seu dote.
 Minha cara, nunca precisei daquele maldito dinheiro  dizia-lhe frequentemente Oskar.
As relaes intermitentes de Emilie com Oskar parecem ter sido as de uma mulher que sabe que no pode contar com a fidelidade do marido mas ainda assim se recusa a tomar conhecimento de suas aventuras. Ela deve ter adotado uma atitude cautelosa em Cracvia, comparecendo a festas e reunies, em que amigos de Oskar certamente sabiam da verdade, podiam citar os nomes das outras multeres, nomes que ela realmente queria ignorar.
Um dia, um jovem polons  Poldek Pfefferberg, que quase havia morto o seu marido, mas ela naturalmente ignorava o incidente  bateu na porta do apartamento carregando no ombro um rolo de tapete. Era um tapete do mercado negro, importado de Istambul via Hungria, e Pfefferberg recebera de Ingrid a incumbncia de encontrar um tapete naquelas condies. Mas Ingrid tinha-se mudado provisoriamente do apartamento, enquanto durasse a visita de Emilie.
 Frau Schindler est?  perguntou Pfefferberg, que sempre se referia a Ingrid como Frau Schindler por considerar que era mais delicado.
 Eu sou Frau Schindler  respondeu Emilie, sabendo o que significava a pergunta.
Pfefferberg deu prova de habilidade, disfarando a sua gafe: na realidade, no havia necessidade de falar com Frau Schindler, embora Herr Schindler sempre falasse muito em sua esposa. Precisava falar era com Herr Schindler... sobre um negcio.
Emilie respondeu que Herr Schindler no estava em casa e ofereceu
Pg.66
a Pfefferberg um drinque, que foi recusado apressadamente. Emilie sabia tambm o que a recusa significava. O rapaz estava um pouco chocado com a vida privada de Oskar, e no achava decente aceitar uma bebida da vtima do seu cliente.
A fbrica que Oskar alugou se situava do outro lado do rio, em Zablocie, na Rua Lipowa. Os escritrios, que ficavam de frente para a rua, eram de construo moderna, e Oskar pensou na possibilidade e convenincia de instalar um apartamento no terceiro andar, embora a zona fosse industrial e no to alegre como a Rua Straszewskiego.
Quando Oskar tomou posse da Rekord, dando-lhe o novo nome de Deutsche Emailwaren Fabrik, havia quarenta e cinco empregados responsveis pela modesta produo de utenslios de cozinha. Em princpios do novo ano ele firmou seus primeiros contratos com o Exrcito, o que no constituiu surpresa. Oskar tinha cultivado relaes com vrios engenheiros influentes da Wehrmacht, que faziam parte da junta da Inspetoria de Armamentos do General Schindler. Dava-se socialmente com eles, tendo-os convidado a jantar no Cracvia Hotel. Existem fotos de Oskar sentado com esses personagens ao redor de mesas luxuosas, todos sorrindo afavelmente para a cmera, todos bem alimentados, bem bebidos, e os oficiais elegante mente fardados. Alguns deles punham os carimbos certos nas ofertas apresentadas por ele e escreviam as decisivas cartas de recomendao ao General Schindler, por pura amizade e por acreditarem que Oskar estava capacitado a cumprir os contratos. Outros eram influenciados por presentes, o tipo de presentes que Oskar sempre oferecia a funcionrios  conhaque, tapetes, jias, mveis e cestas de comestveis finos. Alm do mais, era sabido que o General Schindler conhecia e apreciava muito o seu homnimo, fabricante de esmaltados.
Agora, com o prestgio de seus lucrativos contratos com a Inspetoria de Armamentos, Oskar obteve permisso de expandir sua fbrica. No faltava espao. Adiante do saguo e escritrios da DEF ficavam dois grandes galpes industriais. Parte do espao no prdio  esquerda, passagem do saguo para o interior da fbrica, era ocupado pela atual produo. O outro prdio estava totalmente vazio.
Ele comprou mquinas novas, algumas no local, outras na Alemanha. Alm dos pedidos militares, havia um esfaimado mercado negro a ser abastecido. Oskar soube ento que poderia vir a ser um magnata. J em meados do vero de 1940, estava empregando 250 poloneses e iria ter de instituir um turno da noite. A fbrica de maquinaria
Pg.67
agrcola de Herr Hans Schindler, em Zwittau, empregava em seu apogeu 50 homens.  gratificante superar um pai, a quem nunca se perdoou.
Em determinadas ocasies, no decorrer daqueles anos, Itzhak Stern ia procurar Schindler, a fim de arranjar emprego para algum jovem judeu  um caso especial; um rfo de Lodz; ou a filha de um funcionrio de um dos departamentos do Judenrat (Conselho Judaico). Em poucos meses, Oskar j contava com 150 empregados judeus e sua fbrica tinha uma discreta reputao de refgio.
Era um ano semelhante a todos os outros anos que se sucederam at o fim do conflito mundial, em que os judeus procuravam algum emprego considerado essencial ao esforo de guerra. Em abril, o Governador Frank tinha decretado a evacuao dos judeus de sua capital, Cracvia. Era uma deciso curiosa, j que as autoridades do Reich continuavam remetendo de volta ao Governo-Geral judeus e poloneses numa mdia de 10 mil por dia. Entretanto, segundo Frank informou ao seu gabinete, as condies em Cracvia eram escandalosas. Sabia de chefes-de-diviso alemes que eram obrigados a morar em prdios de apartamentos, onde ainda havia inquilinos judeus! At oficiais mais graduados estavam tambm sujeitos  mesma escandalosa indignidade. E Frank prometeu que nos prximos seis meses tornaria Cracvia judenfrei (livre de judeus). Seria permitido um remanescente de 5 mil ou 6 mil trabalhadores judeus especializados. Todo o resto seria removido para outras cidades do Governo-Geral, Varsvia ou Radom, Lublin ou Czestochowa. Os judeus poderiam emigrar voluntariamente para a cidade de sua escolha, desde que o fizessem at 15 de agosto. Os que ainda permanecessem na cidade aps aquela data seriam transportados de caminho com um mnimo de bagagem para qualquer local que fosse da convenincia da administrao. A partir de l de novembro, declarou Hans Frank, seria possvel aos alemes de Cracvia respirarem "puro ar alemo", caminhar pela cidade sem ver as ruas e alamedas "fervilhando de judeus".
Frank no ia conseguir nesse ano reduzir a populao judaica a um nvel to baixo; mas logo que foram anunciados os seus planos, houve uma corrida dos judeus de Cracvia, especialmente os jovens, para adquirir ofcios especializados. Homens como Itzhak Stern, agentes oficiais e extra-ofciais do Judenrat, j tinham organizado uma lista de simpatizantes alemes a quem eles podiam recorrer. Schindler figurava nessa lista; assim como Julius Madritsch, um vienense que conseguira recentemente dar baixa da Wehrmacht e assumir o posto de Treuhnder numa fbrica de uniformes militares.
Pg.68
Madritsch podia ver os benefcios resultantes de contratos com a Inspetoria de Armamentos e agora tencionava abrir uma fbrica prpria de uniformes no subrbio de Podgrze. Acabaria por juntar uma fortuna ainda maior do que a de Schindler, mas no annus mirabilis de 1940 ainda era um assalariado. Sabia-se que ele era uma pessoa humana  s isso.
Em 1 de novembro de 1940, Frank j tinha conseguido retirar de Cracvia 23 mil voluntrios judeus. Alguns deles foram para os novos guetos de Varsvia e Lodz. As lacunas s mesas, o choro nas estaes de estrada de ferro podem ser imaginados; mas as pessoas aceitavam tudo docilmente, pensando: "Vamos obedecer, e isso ser um impacto maior do que eles desejam." Oskar sabia o que estava acontecendo mas, como os prprios judeus, esperava que se tratasse de um excesso temporrio.
Aquele ano seria muito provavelmente o mais atarefado da vida de Oskar  um ano durante o qual ele passou transformando um negcio falido numa companhia que as agncias governamentais podiam levar a srio. Por ocasio das primeiras nevadas, Schindler notou com irritao que num s dia 60 ou mais de seus empregados judeus deixaram de comparecer ao trabalho. Haviam sido detidos a caminho do trabalho por esquadres da SS e forados a desobstruir a neve das ruas. Herr Schindler visitou o seu amigo Toffel no quartel-general da SS na Rua Pomorska para apresentar uma queixa. Disse a Toffel que, num s dia, 125 empregados seus no tinham podido comparecer ao trabalho.
 Voc tem de compreender  disse-lhe confidencialmente Toffel  que alguns desses sujeitos da SS esto se danando para a produo. Para eles  uma questo de prioridade nacional que judeus removam a neve das ruas. Eu prprio no compreendo isso... tem um significado ritualista para eles que os judeus removam a neve. E no  s com voc, est acontecendo isso com todo mundo.
Oskar perguntou se os outros estavam tambm se queixando. Sim, respondeu Toffel. Todavia, acrescentou ele, um economista chefo do Oramento da SS e do Departamento de Construo tinha vindo almoar em Pomorska e declarado que era uma traio considerar que a mo-de-obra especializada judaica tinha alguma razo de ser na economia do Reich.
 Acho que ainda vai ter de agentar muita p de neve, Oskar. No momento, Oskar assumiu a atitude de um patriota indignado, ou talvez um oportunista indignado.
 Se querem ganhar a guerra  respondeu ele  tem de se livrar de gente desse tipo.
Pg.69
 Livrar-se da SS?  perguntou Toffel.  Pelo amor de Deus, eles so os miserveis que esto mandando.
Como resultado de tais conversas, Oskar tornou-se o advogado do princpio de que o dono de uma fbrica no podia ser impedido de ter acesso aos seus prprios empregados e que esses no deviam ser detidos ou tiranizados a caminho da fbrica, tanto na ida como na volta. Aos olhos de Oskar, tratava-se de um axioma tanto moral como industrial. E no final, iria aplicar ao mximo essa teoria na Deutsche Email Fabrick.
Pg.70
Captulo 7
Algumas pessoas das cidades grandes  Varsvia e Lodz, esta com os seus guetos, Cracvia com o compromisso de Frank de tornar a cidade judenfre  recorreram ao campo, onde poderiam passar despercebidos entre os camponeses. Os irmos Rosner, msicos cracovianos, que mais tarde teriam muitos contatos com Oskar, instalaram-se na velha aldeia de Tyniec. Esta se situava numa bonita curva do Rio Vstula, de onde se podia avistar um velho mosteiro beneditino no alto de um rochedo calcrio. Os Rosner consideraram o local suficientemente obscuro. Ali residiam uns poucos lojistas judeus e artesos ortodoxos, que pouco tinham em comum com os dois msicos. Mas os camponeses, empenhados no tedioso trabalho da colheita, mostraram-se contentes, para alvio dos Rosner, de ter msicos em sua aldeia.
Os dois tinham chegado a Tyniec, no de Cracvia, nem do grande posto militar junto aos jardins botnicos da Rua Mogilska, onde jovens SS empurravam as pessoas para dentro de caminhes, berrando deslavadas e mentirosas promessas de lhes remeter depois as suas bagagens. Tinham vindo efetivamente de Varsvia, onde haviam sido contratados para tocar na Basilisk, tinham partido um dia antes de os alemes selarem o gueto de Varsvia  Henry, Leopold e Manci, mulher de Henry, e Olek, o filho de cinco anos do casal.
A idia de uma aldeia como Tyniec, no sul da Polnia, no longe de sua nativa Cracvia, agradava aos irmos. Oferecia a opo, caso melhorassem as condies, de tomar um nibus para Cracvia e l encontrar trabalho. Manci Rosner tinha conseguido trazer sua mquina de costura, e os Rosner abriram em Tyniek uma pequena confeco de roupas.  noite, tocavam nas tavernas e assim se tornaram a sensaco 
Pg.71 
daquele vilarejo. Aldeias recebem bem e patrocinam talentos ocasionais, mesmo que sejam judeus. E o violino era, de todos os instrumentos, o mais venerado na Polnia. 
Certa noite, um Volksdeutscher (polons que fala alemo) vindo de Poznan ouviu os irmos tocando numa estalagem. O Volksdeutscher era um funcionrio municipal de Cracvia, um daqueles poloneses-alemes, em cujo nome Hitler se achara no direito de tomar o pas. 
O Volksdeutscher disse a Henry que o prefeito de Cracvia, o Obersturmbannfhrer Pavlu, e seu adjunto, o renomado esquiador Sepp Rhre, estariam visitando o campo por ocasio da colheita, e ele gostaria de providenciar para que ouvissem uma dupla to talentosa como os Rosner.
Uma tarde, quando os feixes de feno jaziam por toda parte nos campos, to silenciosos e abandonados como num domingo, um comboio de limusines atravessou a aldeia e subiu uma encosta at a propriedade de um aristocrata polons ausente. No terrao, esperavam os bem-trajados irmos Rosner; quando todas as damas e cavalheiros tinham-se sentado num salo que, em outros tempos, poderia ter sido usado para bailes, eles foram convidados a tocar. Henry e Leopold estavam ao mesmo tempo exultantes e temerosos com o capricho com que os convidados do Obersturmbannfhrer Pavlu tinham-se aparamentado para o concerto. As mulheres usavam luvas e vestidos brancos, os militares uniformes de gala, os burocratas colarinhos engomados. Quando as pessoas se preparam assim, fica mais fcil desapontlas. Tratando-se de um judeu, at mesmo causar uma decepo cultural ao regime podia constituir um crime grave.
Mas a audincia adorou o concerto. Era um pblico caracteristicamente gemtlich; apreciava Strauss, as composies de Offenbach e Lehar, as de Andr Messager e Leo Fall, O clima era de sentimentalismo.
Enquanto Henry e Leopold tocavam, as damas e cavalheiros sorviam champanha em taas, que haviam sido trazidas em cestas.
Uma vez terminado o concerto oficial, os irmos foram levados encosta abaixo para onde se achavam reunidos camponeses e soldados da escolta. Se iria haver alguma rude demonstrao racial, seria ali.Mas, de novo, quando os irmos subiram numa carroa e olharam a turba nos olhos, Henry percebeu que estavam a salvo. O orgulho dos camponeses, com razes num sentimento nacionalista  j que nessa noite os Rosner representavam um crdito  cultura polonesa  constitua uma proteo. Era como nos velhos tempos, e Henry no pde deixar de sorrir para Olek e Manci, tocando para ela, ignorando o resto das pessoas. Por alguns breves momentos, parecia realmente que o mundo havia sido pacificado atravs da msica. 
Pg.72
Quando eles terminaram de tocar, um SS de meia-idade  talvez um Rottenfhrer (oficial subalterno), pois Henry no era ainda muito familiarizado com as gradaes de postos da SS  aproximou-se deles, enquanto recebiam congratulaes, e cumprimentou-os com um esboo de sorriso.
 Espero que vocs tenham uma boa festa de colheita  disse ele e depois se retirou.
Os irmos se entreolharam. Assim que o oficial SS se afastou, eles cederam  tentao de discutir o significado daquelas palavras. Leopold disse, convencido:
  uma ameaa.
Aquilo vinha provar o que eles tinham temido em seu mago, quando o Volksdeutsche lhes dirigira a palavra  que nessa poca no convinha sobressair, ter qualquer forma de destaque.
Assim era a vida no campo em 1940- O cerceamento de uma corrida, o tdio rstico, a luta pelo trabalho, o terror ocasional, a atrao por aquele centro brilhante chamado Cracvia. Para l, os Rosner sabiam que eventualmente iriam voltar. 
No outono Emilie regressou a sua casa; quando Stem retornou ao apartamento de Schindler, foi Ingrid quem lhe ofereceu um caf. Oskar no fazia segredo de suas fraquezas e jamais poderia pensar que o asctico Itzhak Stern precisasse de alguma desculpa pela presena de Ingrid. Portanto, quando terminou o caf, Oskar foi at o aparador e apanhou uma garrafa nova de conhaque; colocou-a sobre a mesa, entre sua cadeira e a de Stern, como se este realmente fosse compartilhar da bebida.
Stern tinha vindo essa noite para contar a Oskar que uma famlia
 que chamaremos os Cs.*  o velho David e o jovem Leon C. estavam espalhando histrias sobre ele no interior das casas e at nas ruas de Kazimierz, tachando-o de gngster alemo e de escroque. Ao transmitir essas acusaes a Oskar, Stern empregou termos menos fortes.
Oskar sabia que Stern no estava aguardando uma resposta, que estava apenas transmitindo uma informao. Mas mesmo assim, naturalmente, achou que devia responder. 
            Eu poderia espalhar histrias sobre eles  disse Oskar.  Esto me  roubando de todas as Manciras. Se quiser, pode perguntar a Ingrid.
*0 motivo de se empregar aqui a inicial em vez de um sobrenome de fico  porque em Cracvia havia grande nmero de sobrenomes judeus-poloneses, e empregar um sobrenome qualquer, em vez de uma simples inicial, poderia ofender a memria de alguma famlia desaparecida ou de algum amigo ainda vivo de Oskar 
      Pg.73
Ingrid era a supervisora dos Cs., uma Treuhnder benigna, de apenas vinte e poucos anos, comercialmente inexperiente. O que se dizia era que o prprio Schindler tinha conseguido a nomeao da moa a fim de garantir um mercado comprador para os seus artigos de cozinha. Contudo, os Cs. tinham bastante autonomia em sua companhia.
Se no gostavam da idia de as autoridades da ocupao manterem a custdia dos seus negcios, ningum podia censur-los por isso.
Stern fez um gesto de mo como para afastar a sugesto de Oskar. Quem era ele para interrogar Ingrid? E, de qualquer forma, no iria obter grandes informaes da moa.
 Eles tapeiam Ingrid  explicou Oskar.  Apareceram na Rua Lipowa para receber suas encomendas, alteraram as faturas e levaram mais do que haviam pago. "Ela disse que est bem", informaram os meus empregados. Ele arranjou tudo com Ingrid."
O filho, com efeito, andava dizendo a torto e a direito que Schindler tinha mandado os SS lhe darem uma surra. Mas sua histria variava  a surra supostamente ocorrera na fbrica de Schindler, no depsito de onde o jovem C. emergira com um olho preto e dentes quebrados. Depois j a surra teria acontecido no Limanowskiego, diante de testemunhas. Um homem chamado F., empregado de Oskar e amigo dos Cs., tinha dito que ouvira Oskar andando de um lado para outro no seu escritrio na Rua Lipowa e ameaando matar o velho David C. Ainda falavam que Oskar tinha ido de carro a Stradom e feito uma limpa na caixa registradora de C.; tinha atulhado os bolsos com dinheiro, tinha dito que havia uma Nova Ordem na Europa, e isso depois de ter espancado o velho David em seu escritrio.
Seria possvel que Oskar tivesse agredido o velho David C. e o deixado de cama com tantos ferimentos? Seria possvel que ele tivesse pedido a amigos seus da polcia que atacassem Leon? Sob certo aspecto, Oskar e os Cs. eram gngsteres, vendendo ilegalmente toneladas de utenslios de cozinha, sem avisar a relao das vendas ao Transferstelle sem o uso dos necessrios cupons de mercadoria chamados Bezugschein.
No mercado negro o dilogo era rude e os humores violentos. Oskar admitia que entrara furioso na loja dos Cs., chamara pai e filho de  adres e indenizara a si mesmo na caixa registradora pelos utenslios de cozinha, que os Cs. tinham levado sem autorizao. Oskar admitia que esmurrara o jovem Leon, nada mais.
E os Cs., que Stern conhecia desde a infncia, tinham uma reputao nada invejvel. No exatamente de criminosos mas de espertalhes e, caracteristicamente, como no incidente com Oskar, defendiam-se pondo a boca no mundo quando apanhados em flagrante. 
Pg.74 
Stem sabia que as contuses de Leon no eram inveno. Leon exibia-as na rua e gostava de narrar o incidente. Realmente, tinha sido espancado pela SS, mas esse fato poderia ter vrias causas. Stern no somente no acreditava que Oskar tivesse pedido  SS aquela espcie de favor mas tambm tinha o bom senso de julgar que acreditar ou deixar de acreditar no que diziam ter acontecido nesse caso era irrelevante para os seus objetivos mais amplos. Tornar-se-ia relevante s se Herr Schindler estabelecesse um sistema de brutalidade. Para os objetivos de Stern, lapsos ocasionais no contavam. Se Oskar fosse isento de pecado, aquele apartamento no teria sido luxuosamente reformado, nem Ingrid o estaria esperando no quarto.
No entanto,  preciso acrescentar que Oskar salvaria todos eles
 o Sr. e Sra. C., Leon C., o Sr. H., a Srta. M., secretria do velho C.  e que, apesar de admitirem esse fato, continuariam insistindo em suas acusaes.
Nessa noite Itzhak Stern trouxe tambm a notcia da condenao de Marek Biberstein a uma pena de dois anos na priso da Rua Monte lupich. Marek Biberstein era, ou tinha sido at a ocasio da sua priso, o presidente do Judenrat. Em outras cidades o Judenrat j era amaldioado pela maioria da populao judaica, pois a sua principal tarefa passara a ser o preparo de listas para trabalhos forados e transferncias para os campos. Os Judenrats eram considerados pela administrao alem como os executores de sua vontade; em Cracvia, porm, Marek Biberstein e seus auxiliares ainda se consideravam os pra-choques entre Schmid, o prefeito militar de Cracvia, e depois Paviu, por um lado e por outro os habitantes judeus da cidade. No jornal alemo de Cracvia de 13 de maro de 1940, certo Dr. Dietrich Redecker dizia que numa visita que fizera ao Judenrat, ficara chocado com os tapetes e poltronas luxuosos daquela sede e a pobreza e esqualidez do bairro judaico na Kazimierz. Mas os sobreviventes judeus no se recordam do primeiro Judenrat de Cracvia como homens que se mantinham afastados da populao. Contudo, premidos por necessidades financeiras, eles tinham cometido o mesmo erro dos Judenrats de Lodz e Varsvia, permitindo aos ricos que comprassem a sua excluso das listas de trabalhos forados, induzindo os pobres a entrarem na lista em troca de sopa e po. Mas mesmo mais tarde, em 1941, Biberstein e seu conselho ainda mereciam o respeito dos judeus de Cracvia.
O primeiro quadro de membros do Judenrat era constitudo de vinte e quatro homens, em sua maioria intelectuais. Todos os dias a caminho de Zablocie, Oskar passava pelo escritrio do Judenrat na esquina de Podgrze, dentro do qual se comprimiam vrios secretariados
Pg.75
  Mancira de um gabinete, cada membro do conselho se encarregava de um aspecto diferente do governo. O Sr. Schenker era encarregado dos impostos, o Sr. Steinberg da habitao  uma tarefa essencial numa sociedade em que as pessoas vagavam de um lugar para outro, numa semana tentando a opo de refgio em alguma pequena aldeia, na semana seguinte retornando  cidade por no ter podido suportar a estreiteza dos camponeses. Leon Salpeter, farmacutico por profisso, tinha a seu cargo uma das agncias da previdncia social. Havia secretariados para alimentao, cemitrios, sade, documentao de viagem, problemas econmicas, servios administrativos, cultura e at  em vista de terem sido banidas as escolas  educao.
No incio, Biberstein e seu conselho acreditavam que os judeus que eram expulsos de Cracvia acabavam indo para lugares piores; decidiram, ento, recorrer a um antigo estratagema: o suborno. O premido tesouro do Judenrat reservou 200 mil zlotys para essa finalidade. Biberstein e Chaim Goldfluss, Secretrio da Habitao, tinham arranjado um intermedirio, no caso um Volksdeutscher chamado Reichert, que mantinha contatos com a SS e com a administrao municipal.A tarefa de Reichert era passar dinheiro a uma srie de oficiais, a comear pelo Obersturmfhrer (uma categoria SS equivalente a primeiro-tenente) Sibert, o oficial de ligao entre o Judenrat e o governo municipal. Em troca do dinheiro, seria permitido a 10 mil judeus da comunidade de Cracvia permanecer na cidade, apesar das ordens de Frank.
Talvez porque Reichert tivesse insultado os funcionrios, reservando uma porcentagem excessiva para si mesmo, ou porque os cavalheiros envolvidos na transao achassem que a maior ambio do Governador Frank de deixar sua cidade judenfrei tornasse muito perigoso o fato de aceitar subornos (a causa nunca ficou esclarecida no tribunal) mas Biberstein foi condenado a dois anos em Montelupich e Gold fluss a seis meses em Auschwitz. Quanto a Reichert, a sentena foi de oito anos. Todos sabiam, porm, que as coisas seriam muito mais suaves para ele do que para os outros dois.
Schindler abanou a cabea  idia de arriscar 200 mil zlotys na esperana de um esquema to frgil.
 Reichert  um escroque  murmurou ele. Havia apenas dez minutos tinham estado discutindo se os Cs. e ele prprio seriam escroques, e a questo permanecera em suspenso. Mas no havia dvida quanto a Reichert.  Eu poderia ter-lhes dito que Reichert  de fato um escroque  insistiu vrias vezes Oskar.
Stern comentou  com base em um princpio filosfico  que 
Pg.76 
havia ocasies em que as nicas pessoas que restavam para fazer negcios eram os escroques.
	Schindler riu com o comentrio  uma gargalhada franca, quaserstica.
Muito obrigado, meu amigo  disse ele a Stern. 
Pg.77 
Captulo 8 
 O Natal daquele ano no foi to ruim. Mas havia uma tristeza no ar, a neve era como uma interrogao na paisagem defronte do apartamento de Schindler; havia algo de imobilizado, vigilante e eterno nos telhados do Wawel l no alto, assim como nas anti- gas fachadas da Rua Kanonicza. Ningum mais acreditava numa soluo rpida  nem os soldados ou os poloneses, nem os judeus de cada lado do rio.
Nesse Natal, para a sua secretria Klonowska, Schindler comprou um poodle, um ridculo cozinho parisiense, adquirido por Pfefferberg. Para Ingrid ele deu uma jia e mandou outra para a suave Emilie, em Zwittau. Poodles eram raridade, informou Pfefferberg. Mas jias eram fceis de se adquirir. Naquele tempo havia uma grande oferta nesse mercado.
Oskar parece ter mantido suas simultneas ligaes com as trs mulheres e eventuais casos passageiros com outras, tudo isso sem sofrer as normais penalidades infligidas a um conquistador. Pessoas que frequentavam o seu apartamento no se lembram de jamais ter visto Ingrid amuada. Ela parece ter sido uma jovem generosa e afvel. Emilie, com ainda mais motivos para queixas, tinha muita dignidade para fazer as cenas que Oskar merecia de sobra. Se Klonowska nutria quaisquer ressentimentos, isso no parecia afetar o seu comportamento no escritrio da DEF, nem sua lealdade para com Herr Direktor. Seria de esperar que numa vida como a de Oskar, confrontos pblicos entre mulheres enraivecidas fossem comuns. Mas ningum entre os amigos e empregados de Oskar  testemunhas dispostas a admitir e at, em certas circunstn-cias, a rir dos seus pecados da carne  se lembra de confrontos penosos, to comuns na vida de homens bem menos afoitos do que ele. 
Pg.78 
Sugerir, como algumas pessoas chegaram a fazer, que qualquer mulher se satisfaria com a posse parcial de Oskar  menosprezar as mulheres de sua vida. O problema era, talvez, que se algum pretendesse discutir fidelidade com Oskar, em seus olhos surgia uma expresso de infantil e autntica perplexidade, como se lhe estivesse sendo proposto algum conceito tal como a Relatividade, que s poderia ser compreen-dido se o ouvinte dispusesse de umas cinco horas para se concentrar. Ora, Oskar nunca dispunha de cinco horas e jamais compreenderia.
Exceto no caso de sua me. Naquela manh de Natal, em homenagem a ela, Oskar compareceu  missa na Igreja de Santa Maria. Havia um espao acima do altar principal, onde o trptico de madeira de Wit Stwosz at poucas semanas antes havia desviado a ateno dos fiis com o seu aglomerado de divindades se acotovelando. O vazio, a marca desbotada na pedra, no local onde estivera pendurado o trptico, provocara em Schindler uma reao indignada. Algum tinha roubado o trptico e remetido para Nuremberg. Como se tornara inverossmil o mundo!
Ainda assim naquele inverno os negcios iam de vento em popa. No ano seguinte, os amigos de Oskar da Inspetoria de Armamentos comearam a discutir com ele a possibilidade de instalar um departamento de munies, para fabricar granadas antitanque. Oskar estava mais interessado em panelas e caarolas do que em granadas. Panelas e caarolas eram de fcil fabricao. Cortava-se e prensava-se o metal, mergulhando-o depois em tanques e aquecendo-o na temperatura certa. No era preciso calibrar instrumentos; a fabricao no necessitava em absoluto da preciso necessria para armas. No podia haver nenhum negcio por debaixo do pano com granadas e Oskar gostava de negcios por debaixo do pano  gostava das jogadas, do descrdito, do lucro rpido, da excluso da burocracia.
Mas, por ser de boa poltica, ele estabeleceu uma seo de munies, instalando umas poucas e imensas mquinas Hilo, para a preciso na prensagem e cinzelamento dos invlucros de granadas. A seo de munies era ainda evolucionria; levaria alguns meses de planejamento e testes de produo antes de comearem a fabricar as grana-das. As grandes Hilos, todavia, deram  fbrica de Schindler uma espcie de barreira contra o futuro incerto, pelo menos uma aparncia de indstria essencial. 
Antes mesmo de terem sido adequadamente calibradas as Hilos, Oskar comeou a ouvir aluses, atravs de seus contatos com a SS da Rua Pomorska, de que havia um projeto de criar um gueto para judeus. Transmitiu o boato a Stern. sem querer causar alarme. Ah, sim. Disse 
Pg. 79 
Stern a coisa era sabida. Algumas pessoas at desejavam que se criasse um gueto. Estaremos l dentro, o inimigo estar do lado de fora.poderemos cuidar dos nossos prprios negcios. Ningum ir nos invejar, ningum nos apedrejar nas ruas. Os muros do gueto sero o limite, a forma fixa da catstrofe.
O decreto, "Gen. Gub. 44/91", emitido em 3 de maro, foi publicado nos dirios de Cracvia e anunciado na Kazimierz por altofalantes em caminhes. Percorrendo o seu departamento de munies, Oskar ouviu um de seus tcnicos comentar a notcia:
- Eles no estaro melhor l?  perguntou o tcnico.  Como sabe, os poloneses odeiam os judeus.
O decreto usava a mesma desculpa. Como um meio de reduzir conflitos raciais no Governo-Geral, seria instalado um bairro judaico fechado. A incluso no gueto seria compulsria para todos os judeus, mas aqueles que tivessem carteira de trabalho poderiam sair do gueto para trabalhar, retornando  noite. O gueto ficaria localizado no subrbio de Podgrze, do outro lado do rio. O prazo final para dar entrada no gueto era no dia 20 de maro. Uma vez l dentro, cada um seria lotado em habitaes determinadas pelo Judenrat. Os poloneses que residiam atualmente na rea e que, portanto, teriam de se mudar, deviam procurar a sua prpria agncia de habitao para receber um apartamento em outras partes da cidade.
Um mapa do novo gueto vinha apenso ao edital. O lado norte seria limitado pelo rio, a extremidade leste pela linha da estrada de ferro para Lww, o lado sul pelos montes adiante de Rekawka, o beste pela Praa Podgrze. Uma rea bem restrita.
	Mas havia esperana de que a represso tomaria agora uma forma definida e daria s pessoas uma base com que planejar seus futuros restritos. Para um homem como Juda Dresner, negociante por atacado de tecidos da Rua Stradom, que viria a conhecer Oskar, o ano e meio anterior trouxera uma incrvel sucesso de decretos, intromisses e confiscos. Perdera o seu negcio para a Agncia de Crdito, seu carro, seu apartamento. Sua conta bancria fora congelada. As escolas de seus filhos haviam sido fechadas, ou eles tinham sido expulsos de outras. As jias da famlia, assim como o rdio, haviam sido confiscadas. Ele e sua famlia estavam proibidos de penetrar no centro de Cracvia, assim como de viajar de trem. Podiam usar apenas bondes segregados. Sua mulher, filha e filhos eram intermitentemente arrebanhados para retirar a neve das ruas e outras tarefas compulsrias. Nunca sabia quando seria forado a entrar num caminho, se a ausncia seria curta ou longa, ou que espcie de loucos armados estariam supervisionando o trabalho que o obrigariam a executar. Sob tal tipo de regime 
Pg. 80 
a vida no oferecia a menor segurana, era como escorregar para dentro de um poo sem fundo. Mas talvez o gueto estivesse no fundo, o ponto do qual seria possvel organizar algum plano.
	Alm do mais, os judeus de Cracvia estavam acostumados  de uma forma que se poderia descrever melhor como congnita   idia de um gueto. E agora que ficara decidido, a prpria palavra soava como algo ancestralmente calmante. Seus avs no tinham tido permisso de emergir do gueto de Kazimierz at 1867, quando Franz Josef assinara um decreto permitindo-lhes viver onde quisessem na cidade. Os cnicos diziam que os austracos tinham tido necessidade de abrir Kazimierz, entalada no brao do rio to perto de Cracvia, a fim de que os trabalhadores poloneses pudessem encontrar acomodaes prximas ao seu local de trabalho. No obstante, Franz Josef era ainda reverenciado pelos mais velhos da Kazimierz com tanta nfase quanto o fora no lar de Oskar Schindler, em sua infncia.
	Embora a liberdade tivesse chegado to tarde, havia ao mesmo tempo, entre os judeus mais velhos de Cracvia, uma nostalgia pelo antigo gueto de Kazimierz. Um gueto implicava esqualidez, dificuldade de moradia, compartilhar banheiros, disputas por espao para cordas de secar roupa. Contudo, tambm fazia com que os judeus se dedicassem  sua especial caracterstica: riqueza de erudio partilhada, canes e conversaes em conjunto, em cafs com fartura de idias seno de leite. Rumores tenebrosos emanavam dos guetos de Lodz e Varsvia, mas o de Podgrze, conforme fora p
lanejado, era mais fa-vorecido em questo de espao, pois, se fosse superposto num mapa do Centrum, ver-se-ia que ocupava uma rea de cerca de metade do tamanho da Cidade Velha  espao de modo algum suficiente mas que no chegava a ser um estrangulamento.
	Havia tambm no edital uma clusula tranquilizadora pela qual o governo se comprometia a proteger os judeus dos seus compatriotas poloneses. Desde princpios da dcada de 30, uma luta racial, premeditadamente organizada, prevalecera na Polnia. Quando comeou a depresso e os preos de produtos agrcolas caram, o governo polons tinha sancionado vrios grupos polticos anti-semitas, do tipo que via os judeus como a causa de todos os seus problemas econmicos. Sanacja, o Partido de Saneamento Moral do Marechal Pilsudski, depois da morte do velho marechal, tinha-se aliado ao Campo de Unidade Nacional, partido de direita anti-semita. O Primeiro-Ministro Skladkowski, na tribuna do Parlamento em Varsvia, declarara: "Guerra econmica contra os judeus? Aprovado!" Em vez de dar uma reforma agrria aos camponeses, Sanacja induzia-os a encarar as bancas de judeus no mercado como smbolo e total explicao da penria rural 
Pg. 81 
polonesa. Realizaram-se pogroms contra a populao judaica em algumas cidades, a comear por Grodno em 1935. Os legisladores poloneses tambm participaram da luta e indstrias judaicas faliram com novas leis de crdito bancrio. Grmios de artesanato recusavam judeus e as universidades adotaram uma quota, ou o que eles prprios
 muito dados  linguagem clssica  denominavam numerus clausus aut nullus (um nmero reduzido ou nulo), para o ingresso de estudantes judeus. Faculdades cederam  insistncia da Unidade Nacional para que os judeus se sentassem em bancos separados no quadrilteroe ficassem segregados no lado esquerdo nas salas de conferncia. Era muito comum, nas universidades polonesas, bonitas e brilhantes estudantes, filhas de judeus, ao sarem das salas de aula, terem o rosto retalhado por um rpido golpe de navalha desfechado por algum magro e srio jovem do Campo de Unidade Nacional.
	Nos primeiros dias da ocupao alem, os conquistadores se espantaram com a presteza com que os poloneses lhes indicavam os lares de judeus e agarravam um judeu pelos cachos religiosos, enquanto um alemo cortava com uma tesoura as barbas ortodoxas ou espetava-lhe o rosto com a ponta de uma baioneta. Portanto, em maro de 1941, o compromisso de proteger os moradores do gueto dos excessos nacionalistas poloneses foi recebido quase como verossmil.
	Embora no houvesse grandes manifestaes espontneas de alegria entre os judeus de Cracvia, ao arrumarem as bagagens para se mudar para Podgrze, havia uma estranha sensao de volta ao lar, assim como a impresso de ter alcanado um limite alm do qual, com alguma sorte, no poderiam expuls-los e tiraniz-los ainda mais. A tal ponto que mesmo judeus de aldeias nas cercanias de Cracvia, de Wieliczka, Niepolomice, Lipnica, Murowana e Tyniec se apressaram em retornar  cidade, receosos de no poderem mais penetrar no gueto depois de 20 de maro e se verem isolados num ambiente hostil. Pois o gueto era, pela sua prpria natureza, quase por definio, habitvel, ainda que sujeito a ataques intermitentes. O gueto representava estase em vez de fluxo.
	O gueto traria um pequeno inconveniente  vida de Oskar Schindler. Era costume seu sair do luxuoso apartamento na Straszewskiego, passar pelo rochedo calcrio do Castelo de Wawel, enfiado na boca da cidade como uma rolha numa garrafa, e descer atravessando Kazimierz, depois a ponte Kosciuszko e dobrar  esquerda, rumo  sua f-brica de Zablocie. Agora aquele caminho estaria bloqueado pelos muros do gueto. Era um problema de menor importncia mas tornava mais razovel a idia de manter um apartamento no andar acima do seu escritrio no prdio da Rua Lipowa. Era um bom prdio, construdo no 
Pg.82 
estilo de Walter Gropius. Muitas vidraas e claridade, elegantes tijolos cbicos no ptio da entrada.
	Sempre que fazia o percurso naqueles dias, antes do prazo de 20 de maro, entre a cidade e Zablocie, Oskar via os judeus da Kazimierz arrumando suas bagagens, e na Rua Stradom, famlias empurrando carrinhos de mo com cadeiras, colches e relgios, em direo do gueto. Os parentes daquela gente tinham vivido na Kazimierz desde o tempo em que era uma ilha separada do Centrum por um riacho chamado Stara Wisla. Na verdade, desde o tempo em que Kazimier o Grande os havia convidado a vir para Cracvia quando, em outras cidades, eles estavam sendo responsabilizados pela Peste Negra. Oskar presumia que os seus antepassados tinham chegado a Cracvia daquela mesma Mancira, empurrando carrinhos com os seus pertences, havia mais de 500 anos. Agora estavam partindo, ao que parecia com os mesmos carrinhos de mo. O convite de Kazimier tinha sido cancelado. 
	Durante aquelas longas jornadas matutinas pela cidade, Oskar notou que os planos da cidade eram de os bondes continuarem descendo a Rua Lwwska, passando pelo centro do gueto. Muros fronteirios da linha do bonde estavam sendo erguidos por trabalhadores poloneses; onde havia espaos abertos, j se levantavam muros de cimento. Ao penetrarem no gueto os bondes fechariam hermeticamente suas portas e no parariam at emergir novamente no Umwelt, o mundo ariano, na esquina de Lwwska com a Rua Kingi. Oskar sabia que, apesar disso, haveria clandestinos que apanhariam o bonde. Portas cerradas, sem parada, metralhadoras nos muros  no importava. Sob esse aspecto, os seres humanos eram incorrigveis. Gente tentando descer do bonde, a empregada fiel de algum, com um embrulho de salsichas. E gente tentaria subir no bonde, algum jovem atleta gil como Leopold Pfefferberg, com diamantes no bolso ou zlotys de ocupao ou uma mensagem em cdigo para os guerrilheiros. As pessoas se agarravam  menor chance, mesmo que fosse viajando do lado de fora, com portas cerradas, passando veloz entre muros silenciosos. 
	A partir de 20 de maro, os trabalhadores judeus de Oskar no receberiam mais salrio algum e, para viver, iriam depender inteiramente de suas raes. Em contrapartida, ele pagaria determinada quantia  SS de Cracvia. Tanto Oskar como Madritsch se sentiram inquietos com a medida, pois sabiam que um dia a guerra ia terminar e os donos de escravos, tal como acontecera na Amrica, seriam vilipendiados e despojados. A quantia que ele teria de pagar aos chefes de polcia era a estabelecida pelo Escritrio Administrativo e Econmico da SS  7.50 reichmarks pelo trabalho dirio de um trabalhador especializado e cinco 
Pg.83 
para as mulheres e os no-especializados. Esses eram salrios abaixo dos que vigoravam no mercado de trabalho aberto. Mas tanto para Oskar como para Madritsch, o desconforto moral superava a vantagem econmica. Naquele ano, a folha de pagamento era a menor das preocupaes de Oskar. Alm do mais, ele nunca fora um capitalista rgido. Em sua juventude, numerosas vezes fora acusado pelo pai de esbanjar dinheiro sem necessidade. Enquanto exercera a mera funo de gerente de vendas, possua dois carros, na esperana de que isso chegasse aos ouvidos de Hans e o chocasse. Agora, em Cracvia, ele podia se dar ao luxo de vrios carros  um Minerva belga, um Maybach, um cabriol Adler, um BMW.
	Ser prdigo e ainda assim mais rico do que o seu cauteloso pai  este era um dos triunfos que Schindler ambicionava na vida. Em tempos de abundncia, o custo da mo-de-obra no merecia cogitaes. O mesmo se dava com Julius Madritsch. A fbrica de uniformes de Madritsch ficava no lado oeste do gueto, a um ou dois quilmetros da Emalia de Oskar. Seus negcios iam to bem que ele estava em negociaes para abrir uma fbrica semelhante em Tarnow. Era tambm muito querido pela Inspetoria de Armamentos e o seu crdito to bom que lhe fora concedido um emprstimo de um milho de zlotys pelo Bank Emisyjny (Banco de Crdito).
	Ainda que isso lhes trouxesse certo desconforto tico, no  provvel que qualquer dos dois empresrios, Oskar ou Julius, se sentisse obrigado moralmente a no empregar judeus. Isso seria uma atitude, e, como ambos fossem pragmticos, atitudes no eram do estilo de nenhum dos dois. Em todo caso, Itzhak Stern, assim como Roman Ginter, um comerciante e representante do Departamento de Assistncia do Judenrat, foram ambos procurar Oskar e Julius e lhes imploraram que empregassem mais judeus, tantos quanto possvel. O objetivo era dar ao gueto uma permanncia econmica. Era quase axiomtico. Stern e Ginter consideravam que, naquele estgio, um judeu que tivesse algum valor econmico num imprio prematuro, sequioso de trabalhadores especializados, estava a salvo de coisas piores. E Oskar e Madritsch concordaram. 	Assim, durante duas semanas, os judeus empurraram seus carrinhos de mo, cruzando a Kazimierz e atravessando a ponte para chegar a Podgrze. Empregados poloneses de famlias de classe mdia os acompanhavam para ajudar no transporte. No fundo dos carrinhos de mo, debaixo de colches, chaleiras e frigideiras estavam escondidos casacos de peles e as jias que lhes haviam restado. Turbas de poloneses nas Ruas Stradom e Starovisilna gritavam insultos e atiravam lama. 
Pg.84 
"Os judeus vo embora, os judeus vo embora! Adeus, judeus!"
	Adiante da ponte um elaborado porto de madeira se abria para os novos habitantes do gueto. Branco, com baluartes entalhados parecendo arabescos, tinha dois grandes arcos para a ida e vinda dos bondes de Cracvia. Ao lado havia uma guarita branca para a sentinela. Acima dos arcos, uma tabuleta em hebraico, visando a um efeito tranquilizador: CIDADE JUDAICA. Cercas altas de arame farpado se estendiam ao longo da frente do gueto voltada para o rio; espaos abertos eram selados com placas de cimento de uns trs metros de altura, arredondadas no topo, parecendo fileiras de lpides annimas.
	No porto do gueto o judeu trmulo era recebido por um representante do Departamento de Habitao do Judenrat, Se tinha mulher e uma famlia grande, podiam lhe ser concedidos dois cmodos e o uso da cozinha. Mesmo assim, aps a boa vida das dcadas de 20 e 30, era doloroso ter de partilhar sua vida privada com famlias de rituais diferentes, hbitos desagradveis e odor de almscar. Mes protestavam, pais diziam que as coisas poderiam ser piores e abanavam a cabea. Num mesmo recinto, os ortodoxos julgavam os liberais uma abominao.
	Em 20 de maro, o movimento estava encerrado. Todos os do lado de fora do gueto estavam sujeitos a confisco e outros prejuzos. Dentro do gueto, por enquanto, havia espao para se viver.
	Edith Liebgold, de vinte e trs anos, foi instalada em um quarto no primeiro andar, que passaria a partilhar com sua me e seu beb. A queda de Cracvia, dezoito meses antes, provocara em seu marido um acesso de desespero, e ele partira de casa, como se quisesse procurar alguma sada para a sua situao. Tinha idias sobre florestas, queria encontrar alguma clareira, onde estivesse a salvo. E nunca mais voltara.
	De sua janela, Edith Liebgold podia ver o Vstula atravs da barricada de arame farpado mas, em seu caminho para outras partes do gueto, especialmente para o hospital na Rua Wegierska, cruzava Plac Zgody, a Praa da Paz, a nica praa do gueto. Ali, no segundo dia de sua vida no gueto, por uma questo de vinte segundos ela deixou de ser posta dentro dum caminho da SS para ir trabalhar com uma p, removendo carvo ou neve da cidade. No era s o fato de que aquelas turmas de trabalho, segundo rumores, retornavam ao gueto com menos gente do que havia partido. Mais do que essa espcie de risco, Edith temia ser forada a entrar em um caminho, quando meio minuto antes estava se dirigindo para a farmcia de Pankiewicz e dentro de vinte minutos teria de amamentar o filho. Decidiu, ento, ir com amigos ao Departamento de Empregos. Se pudesse conseguir trabalha noturno, sua me cuidaria  noite do beb.                    	Pg.85 
	O departamento naqueles primeiros dias estava muito movimentado. O Judenrat tinha agora a sua prpria fora policial, a Ordnungsdienst (ou OD), ampliada e regulamentada para manter a ordem no gueto, e um menino de bon e faixa no brao organizava as filas diante do departamento.
	O grupo de Edith Liebgold tinha acabado de passar pela porta, fazendo muito barulho para matar o tempo, quando um senhor baixo, de meia-idade, vestido com um terno e gravata marrons, aproximou-se dela. Provavelmente o que o atrara fora o barulho e a animao do grupo. A princpio os outros pensaram que o senhor baixo queria conquistar Edith.
	 Escute  disse ele  em vez de estar a esperando. . . h uma fbrica de esmaltados l em Zablocie.
	E deixou que o endereo produzisse o seu efeito. Zablocie ficava fora do gueto. L seria possvel barganhar com trabalhadores poloneses. A fbrica estava precisando de dez mulheres saudveis para o turno da noite.
	As moas torceram o nariz, como se pudessem se dar ao luxo de escolher emprego. No era trabalho pesado, garantiu ele. Elas poderiam aprender o ofcio trabalhando. Quem era ele? Chamava-se Abraham Bankier e era o gerente. Evidentemente, o dono da fbrica era alemo. Que espcie de alemo?, perguntaram elas. Bankier sorriu como se, de repente, estivesse querendo infundir-lhes esperana. O dono no era um mau sujeito, declarou ele.
	Nessa noite, Edith Liebgold reuniu-se ao grupo que formava o turno da noite da fbrica de esmaltados e saiu do gueto em direo a Zablocie sob a guarda de um judeu OD. No caminho ela fez perguntas sobre a Deutsche Email Fabrik. Servem uma sopa bem grossa, disseram-lhe. Espancamentos?, perguntou. No  esse tipo de lugar, responderam-lhe. No  como a fbrica de navalhas de Beckmann; mais como a de Madritsch. Madritsch  um bom sujeito e Schindler tambm.
	 entrada da fbrica, Bankier chamou as moas do turno da noite para fora das colunas e as levou para o andar de cima, passando por uma sala de escrivaninhas vazias at uma porta em que se lia HERR DIREKTOR. Edith Liebgold ouviu uma voz profunda dizer-lhes que entrassem. L dentro encontraram o Herr Direktor sentado no canto de sua mesa, fumando um cigarro. Seu cabelo, entre louro e castanho-claro, parecia muito bem escovado; vestia jaqueto e gravata de seda. A impresso que dava era de um homem que tinha um jantar marcado para aquela noite mas esperara especialmente para dar uma palavra s suas novas funcionrias. Era muito alto e ainda jovem. Personificando o tipo ideal de Hitler, Edith esperou que ele pronunciasse um
Pg.86
discurso sobre esforo de guerra e a necessidade de aumentar as quotas de produo.                                                
 Eu queria dar-lhes as boas-vindas  disse-lhes o diretor em polons.  Fazem parte da expanso desta fbrica.  E desviou os olhos; era at possvel que estivesse pensando: "No lhes diga isso  no tm nenhum interesse na fbrica."
Ento, sem sequer piscar os olhos, sem nenhuma introduo, sem encolher significativamente os ombros, Schindler afirmou-lhes:
 Trabalhando aqui, vocs estaro a salvo. Se trabalharem aqui,at o final da guerra com vida.
Deu-lhes boa-noite e deixou-as no escritrio. Bankier reteve as moas no  alto das escadas, a fim de que Herr Direktor pudesse descer na frente.
A promessa deixara-as aturdidas. Era uma promessa divina. Como podia um homem, um mero homem, fazer uma promessa daquela ordem? Mas Edith Liebgold acreditou no mesmo instante. No tanto iue era no que ela queria acreditar; no porque era uma ddiva,incentivo imprudente. Mas porque no instante em que Herr Schindler proferiu a promessa, a nica opo era acreditar.
As novas mulheres da DEF receberam as instrues para o seu trabalho  num estado de agradvel perplexidade. Era como se alguma vezes cigana maluca, que nada tinha a ganhar com isso, houvesse previsto para  elas o casamento com um conde. A promessa tinha para sempre alterado para Edith Liebgold as expectativas de vida. Se algum dia se visse diante de um peloto de fuzilamento, ela provavelmente teria protestado : "Mas Herr Direktor disse que isso jamais poderia acontecer!"
O trabalho no exigia nenhum esforo mental. Edith carregava os recipientes banhados em esmalte, pendurados por ganchos em uma longa, vara, at os fornos. E o tempo todo meditava na promessa de Herr  Schindler. Somente loucos faziam promessas to categricas. Sem sequer piscar os olhos. Contudo, ele no era em absoluto louco. Era industrial com um jantar marcado. Portanto, ele devia saber. Mas significava alguma viso, algum contato profundo com Deus ou abo ou uma configurao do futuro. Mas, de novo, o aspecto dele, a mo com o anel de sinete de ouro no era a mo de um visionrio.Era a mo que se estendia para o copo de vinho; a mo em que se podia de certa forma perceber carcias latentes. E assim ela retornou  primeira idia da insanidade dele, da embriaguez, das explanaes msticas , da tcnica com que Herr Direktor lhe havia incutido aquela certeza.                                                       
Similares voltejes de raciocnio obcecariam naquele ano e nos anos vindouros todos aqueles a quem Oskar fizera as suas arrebatadas promessas. 
Pg.87
Alguns teriam conscincia da precariedade de tais afirmaes.Se o homem estava errado, se tinha usado levianamente o seu poder de convico, ento no havia nenhum Deus, nenhuma humanidade,nenhum po, nenhuma salvao. Restavam, naturalmente, apenas probabilidades, e as probabilidades no eram boas.
Pg.88
Captulo 9
Naquela primavera, Schindler deixou a sua fbrica em Cracvia e rumou para o oeste na sua BMW, atravessando a fronteira e as florestas que comeavam a verdejar, e chegou a Zwittau.Ia visitar suas tias, sua irm e Emilie. Todas elas tinham-se aliado a ele contra o pai; todas elas mantinham acesa a chama do martrio de sua me. Se havia um paralelo entre a infelicidade de sua me e a de sua mulher, Oskar Schindler  no seu sobretudo com lapelas de peles,guiando com as mos enluvadas de couro seu carro feito sob encomenda, apanhando um outro cigarro turco, enquanto percorria as retas degeladas no Jeseniks  no via esse paralelo. No cabia a uma criana ver tais coisas. Seu pai era um deus e sujeito a leis mais rgidas
Ele gostava de visitar as tias  do jeito como elas erguiam as mos espalmadas em admirao  vista do talhe de sua roupa. Sua irm mais nova casara-se com um funcionrio da estrada de ferro e vivia num agradvel apartamento fornecido pelas autoridades ferrovirias. O seu marido era importante em Zwittau, cidade de entroncamento de estradas de ferro, que possua grandes ptios de cargas. Oskar tomou ch com a irm e o marido, depois alguns clices de genebra. Havia entre eles um leve tom mutuamente congratulatrio: os irmos Schindler no tinham se sado nada mal na vida.
Naturalmente, a irm de Oskar fora quem cuidara de Frau Schindler, na sua ltima enfermidade, e agora andava se encontrando secretamente com o pai. No podia fazer mais do que algumas insinuaes no sentido de uma reconciliao. Foi o que fez durante o ch, e teve como resposta apenas resmungos.
Mais tarde, Oskar jantou em casa com Emilie. A mulher mostrou-se contente por t-lo ali, naquele feriado. Podiam comparecer s cerimnias 
Pg.89 
da Pscoa juntos, como os casais de antigamente. E foi realmente um cerimonial, pois os dois danaram formalmente a noite toda, servindo um ao outro  mesa como estranhos bem-educados. E,em seus coraes e suas mentes, tanto Emilie quanto Oskar se surpreendiam com aquela singular inaptido matrimonial  que ele pudesse oferecer e dar mais de si mesmo a estranhos, a trabalhadores em sua fbrica do que a sua mulher.
A questo que surgira entre eles era se Emilie devia ir morar com o marido em Cracvia. Se abrisse mo do apartamento em Zwittau,permitindo que fosse ocupado por outros inquilinos, no teria mais condio de abandonar Cracvia. Acreditava que era seu dever estar ao lado de Oskar; na linguagem da teologia moral catlica, a ausncia dele do lar era uma "iminente ocasio de pecado". A vida em comum na cidade estranha s seria tolervel se ele se mostrasse contido, discreto e zeloso em relao s sensibilidades de sua mulher. O problema com Oskar era que no se podia contar com ele para manter em segredo os seus deslizes. Descuidado, meio embriagado, meio sorridente,ele parecia s vezes pensar que se realmente gostasse de alguma mulher, todos tambm tinham de gostar dela.
A questo no solucionada a respeito de Emilie mudar-se para Cracvia tornou-se to opressiva entre os dois que, quando terminou o jantar, Oskar pediu licena e se dirigiu para um caf na praa principal. Era um ponto frequentado por engenheiros de minerao, pequenos comerciantes, algum ocasional comerciante transformado em oficial do Exrcito. Ele suspirou de alvio ao encontrar alguns dos seus amigos motociclistas, quase todos envergando uniformes da Wehrmacht. Comeou a beber conhaque com eles. Alguns expressaram surpresa que um grandalho forte como Oskar no estivesse fardado.
 Indstria essencial  replicou ele.  Indstria essencial.
Comearam a recordar os seus tempos de motociclista. Lembraram rindo a motocicleta que Oskar tinha fabricado com peas sobressalentes, quando ainda era estudante. O rudo explosivo do motor, e tambm o de sua grande Galloni 500cc. O alarido no caf ia num crescendo; mais conhaque era pedido aos gritos. Antigos colegas de Oskar surgiram da sala de jantar anexa, denotando pela expresso facial que haviam reconhecido uma risada esquecida, como de fato a tinham esquecido. Ento um deles assumiu um ar mais srio.
 Escute, Oskar. Seu pai est jantando na sala ao lado, totalmente sozinho.
Oskar Schindler baixou os olhos para o seu conhaque. Sentia o rosto em fogo mas encolheu os ombros.
Pg.90 
 Voc devia ir falar com ele  disse algum.  O pobre coitado est uma sombra do que foi.
Oskar respondeu que era melhor ir para casa. Comeou a pr-se, mas os amigos o seguraram pelos ombros, forando-o a tornar a sentar-se.
 Seu pai sabe que voc est aqui  ponderaram. Dois deles j m se dirigido para a sala anexa e estavam persuadindo o velho i Schindler, que terminava o seu jantar. Em pnico, Oskar j se pusera de p, procurando no bolso a ficha do vestirio, quando Hans Schindler , com ar contrafeito, emergiu da sala de jantar, levemente empurrado  pelos dois rapazes. Ao ver o pai, Oskar se deteve. Apesar da que guardara dele, sempre tinha imaginado que, se houvesse um  de aproximao entre os dois, ele teria de ser o primeiro a se aproximar . O velho era to orgulhoso. Contudo, estava se deixando empurrar  em direo ao filho.
Quando os dois se viram frente a frente, o primeiro gesto do pai foi um meio sorriso de desculpa e uma espcie de contrao das sobrancelhas. A familiaridade da atitude encontrou Oskar desprevenido.''No pude evitar nada", estava Hans dizendo. "O casamento e tudo mais... eu e sua me, tudo se passou de acordo com as leis da vida.''A ideia por detrs do gesto poderia ser comum mas Oskar vira expresso idntica nessa mesma noite no rosto de algum  o seu prprio, ao erguer os ombros instintivamente, diante do espelho no sago do apartamento de Emilie. "O casamento e tudo mais, tudo aconteceu de acordo com as leis da vida." Ele tinha partilhado aquela expresso consigo mesmo, e ali  trs conhaques depois  seu pai a estava partilhando com ele.
 Como vai, Oskar?  perguntou Hans Schindler. Havia um sopro perigoso em sua voz. A sade de seu pai era pior do que ele se recordava.
Ento Oskar decidiu que at mesmo Herr Hans Schindler era um ser humano  uma noo que ele no conseguira engolir  hora do ch em casa da irm; abraou seu velho pai, beijando-o trs vezes na face , sentindo o impacto da barba por fazer e comeando a chorar,enquanto os engenheiros, militares e motociclistas aplaudiam a cena edificante.
Pg.91 
Captulo 10 
Os conselheiros do Judenrat de Arthur Rosenzweig, que ainda se consideravam guardies da sade, do bem-estar e da rao de po dos internos do gueto, fizeram ver  polcia judaica do gueto que eram tambm servidores pblicos. A sua tendncia era contratar homens compassivos e com alguma instruo. Embora na sede da SS a OD fosse considerada como apenas uma fora de polcia auxiliar, que recebia ordens como qualquer outra fora policial, no era essa a imagem que a maioria dos membros da OD fazia de si mesma.
No pode ser negado que  medida que o tempo passava, nos guetos, o membro da OD ia se tornando cada vez mais um objeto de suspeita, um suposto colaboracionista. Alguns homens da OD transmitiam informaes a grupos da Resistncia e desafiavam o sistema, mas talvez a maioria deles julgasse que a sua prpria existncia e a de suas famlias dependia cada vez mais da cooperao dada  SS. Para os homens honestos, a OD iria tornar-se um elemento de corrupo. Para escroques, representava uma oportunidade.
Mas em seus primeiros meses de atividade em Cracvia, a OD parecia ser uma fora benigna. Poldek Pfefferberg poderia ser citado como um exemplo da ambiguidade de se pertencer  OD. Quando, em dezembro de 1940, foi abolida toda a instruo para os judeus, mesmo a organizada pelo Judenrat, Poldek tinha aceito um emprego de controlador das filas de espera, cuidando tambm do livro de apontamentos no escritrio do Judenrat. Era um emprego de meio expediente mas lhe dava o pretexto de poder se movimentar em Cracvia com uma certa liberdade. Em maro de 1941, foi fundada a OD com o objetivo declarado de proteger os judeus, que entravam no gueto do Podgrze, vindos de outras partes da cidade. Poldek aceitou o convite de pr na
Pg.92 
abea o bon da OD. Ele acreditava compreender a finalidade da fora policial  no era apenas para garantir um comportamento racional dentro dos muros do gueto mas tambm para conseguir aquele grau correio de relutante obedincia tribal que, na histria do judasmo europeu, tem tendido a fazer com que os opressores se retirem mais rapidamente, tornem-se menos atentos, a fim de que, nos intervalos de sua desateno, a vida volte a ser mais vivel.
Ao mesmo tempo que Pfefferberg usava o seu bon da OD, ele transava mercadorias ilegais  artigos de couro, jias, peles, moeda corrente  para dentro e para fora do porto do gueto. Conhecia o Wachtmeister do porto, Oswaid Bosko, um policial que se tornara to rebelde ao regime que permitia a entrada de matrias-primas no gueto para serem transformadas em mercadorias  roupas, vinho, ferragens  e depois deixava que as mercadorias sassem para ser vendidas em Cracvia, tudo sem sequer cogitar de suborno.
Ao deixar o gueto, com os funcionrios do porto, os schmaizowniks, ou os informantes rondando pelas imediaes, Pfefferberg retirava a faixa judaica do brao em algum beco discreto e ia transar os seus negcios na Kazimierz ou no Centrum.
Nos muros da cidade, acima das cabeas dos passageiros nos bondes, ele podia ler os cartazes do dia: anncios de navalhas, os ltimos editais de Wawel sobre as penalidades para quem abrigasse bandidos poloneses, o slogan JUDEUSPIOLHOSTIFO, o cartaz mostrando uma virginal polonesa oferecendo comida a um judeu de nariz adunco, cuja sombra era o Diabo. QUEM AJUDA UM JUDEU AJUDA SATANS. Em fachadas de armazns viam-se desenhos de judeus colocando ratos picados dentro de tortas, aguando o leite, recheando pastis com piolhos, amassando a farinha do po com ps imundos. A existncia do gueto estava sendo corroborada nas ruas de Cracvia com cartazes executados por artistas do Ministrio de Propaganda. E Pfefferberg, com ares de ariano, trafegava sob aqueles cartazes, carregando uma mala com roupas, jias e moeda corrente.
O maior golpe de Pfefferberg se dera no ano anterior, quando o Governador Frank retirara de circulao as cdulas de 100 e 500 zlotys e ordenara que as cdulas desses valores, ainda em circulao, fossem depositadas no Reich Credit Fund. Como um judeu s tinha permisso para trocar at 2.000 zlotys, isso significava que todas as cdulas guardadas  acima de 2.000, contra os regulamentos  no mais teriam valor algum. A no ser que o portador encontrasse algum, com aspecto ariano e sem braadeira, que se dispusesse a entrar nas longas filas de poloneses defronte do Reich Credit Bank para trocar o seu dinheiro. Pfefferberg e um jovem seu amigo sionista arrecadaram dos 
Pg.93 
residentes do gueto algumas centenas de milhares de zlotys em cdulas banidas, saram com uma mala cheia delas, e voltaram com a moeda de ocupao, descontando apenas os subornos que tinham tido de pagar  polcia polonesa no porto do gueto.
Pfefferberg era um policial assim. Excelente pelos padres do Secretrio Artur Rosenzweig, deplorvel pelos padres da Pomorska.
Em abril, Oskar foi fazer uma visita ao gueto - por curiosidade e para falar com um joalheiro, a quem ele tinha encomendado dois anis.Encontrou o recinto mais superpovoado do que tinha imaginado duas famlias para cada cmodo, a no ser que se tivesse a sorte de ter um amigo no Judenrat. Havia no ar um cheiro de encanamentos entupidos, mas as mulheres se defendiam do tifo esfregando com fora e fervendo as roupas nos ptios. O joalheiro confiou a Schindler que "as coisas esto mudando", e que "os OD receberam cassetetes".Quanto  administrao do gueto, como a de todos os outros da Polnia, passara do controle do Governador Frank para as mos da Seo 4B da SS, e a autoridade mais alta em todas as questes de judeus em Cracvia era agora o Oberfhrer Julian Scherner, homem jovial de uns quarenta e cinco a cinquenta anos que, em trajes civis e com culos de lentes grossas, parecia um burocrata comum. Oskar conhecera-o em coquetis alemes. Scherner falava muito  no sobre a guerra mas de negcios e investimentos. Era da espcie de funcionrio muito comum nas categorias intermedirias da SS, um folgazo, interessado em bebidas, mulheres e bens confiscados. s vezes, se podia notar nele um sorrisinho de contentamento com o seu inesperado poder, como a boca lambuzada de gelia como a de uma criana. Mostrava-se sempre socivel e infalivelmente impiedoso. Oskar podia perceber que Scherner era mais a favor de fazer os judeus trabalharem do que de mat-los, que desconsiderava regulamentos quando se tratava de lucro, mas que seguiria a linha geral da poltica da SS, fosse qual fosse o rumo que tomasse.
Oskar no se tinha esquecido do chefe de polcia no Natal anterior, enviando-lhe meia dzia de garrafas de conhaque. Agora que o poder do homem se expandira, o presente desse ano seria mais substancial.
Era devido a essa transferncia de poder  a SS tornara-se no apenas o brao da poltica mas tambm a sua formuladora  que, sob o sol de vero de junho, a OD estava adquirindo uma nova natureza. Simplesmente, ao atravessar de carro o gueto, Oskar familiarizou-se com uma nova figura, um ex-vidraceiro chamado Symche Spira, agora a figura mais influente na OD. Spira era de famlia ortodoxa e, tanto 
Pg.94 
pelos seus antecedentes como por temperamento, desprezava os liberais judeus europeizados, que ainda faziam parte do Conselho do Judenrat. Recebia ordens no de Artur Rosenzweig mas do Untersturmfhrer Brandt e da sede da SS do outro lado do rio. De suas confabulaes com Brandi, ele retornava ao gueto com mais instrues e mais poder. Brandt pedira-lhe que organizasse e chefiasse uma Seo Poltica da OD, e para tanto ele recrutou vrios amigos. O uniforme deles deixou de ser o bon e braadeira e passou a ser uma camisa cinza, calas de montaria, cinto largo de couro e lustrosas botas SS.
A Seo Poltica de Spira iria alm da exigncia de cooperao relutante, pois se encheria de homens venais, homens complexados, com ressentimentos secretos contra as desfeitas sociais e intelectuais recebidas no passado da comunidade judaica respeitvel. Alm de Spira, havia Szymon Spitz e Marcel Zellinger, Ignacy Diamond, o negociante David Gutter, Forster e Grner e Landau. Assim, iniciaram eles uma carreira de extorses e passaram a fazer para a SS listas de habitantes insatisfatrios ou sediciosos do gueto.
Poldek Pfefferberg queria agora livrar-se da fora policial. Corriam rumores de que a Gestapo obrigaria todos os membros da OD a jurar fidelidade ao Fhrer, depois do que eles no teriam mais condies para desobedincia. Poldek no queria compartilhar a profisso do camisa-cinza Spira ou de Spitz e Zellinger, encarregados das listas. Assim, dirigiu-se ao hospital na esquina de Wegierska para falar com um bondoso mdico chamado Alexander Biberstein, o mdico oficial do Judenrat. O irmo de Biberstein, Marek, tinha sido o primeiro presidente do Conselho e estava agora cumprindo pena na tenebrosa priso de Montelupich por violao dos regulamentos sobre a moeda corrente e por ter tentado subornar funcionrios.
Pfefferberg implorou a Biberstein que lhe desse um certificado mdico, que o liberasse de pertencer  OD. Era difcil, respondeu Biberstein. Pfefferberg no apresentava sinal algum de doena. Ser-lhe-ia impossvel fingir que sofria de presso alta. O Dr. Biberstein deu-lhe instrues sobre os sintomas de problemas da coluna. Pfefferberg passou a apresentar-se ao servio muito curvado e usando uma bengala.
Spira ficou indignado. Quando Pfefferberg lhe havia pedido da primeira vez para ser dispensado da OD, o chefe de polcia declarara  como o comandante de alguma guarda de palcio  que a nica Mancira de sair da OD era "na horizontal^. No interior do gueto, Spira e seus ingnuos amigos estavam brincando de Corpo de Elite. Eram a Legio Estrangeira; eram os pretorianos. "Vamos mand-lo para o mdico da Gestapo!", berrara Spira.
Biberstein, consciente do quanto o jovem Pfefferberg se sentia 
Pg.95 
constrangido, instrura-o muito bem. Poldek sobreviveu  inspeo do mdico da Gestapo e deu baixa da OD, como portador de uma enfermidade, que impediria sua eficincia no controle das pessoas. Ao se despedir do seu funcionrio graduado, Spira expressou todo seu desprezo e sua inimizade.
No dia seguinte, a Alemanha invadiu a Rssia. Oskar ouviu furtivamente a notcia, transmitida pela BBC de Londres, e compreendeu que o Plano Madagscar estava agora encerrado. Muitos anos se passariam antes de haver navios disponveis para uma soluo daquelas.Oskar sentiu que o evento mudava a essncia dos planejamentos da SS, pois agora por toda parte os economistas, os engenheiros, os planejadores de deslocamento de pessoas, os policiais de todas as categorias passariam a adotar no somente os hbitos mentais adequados a uma guerra prolongada mas tambm as medidas mais sistemticas para chegar a um imprio racialmente impecvel.
Pg.96
Captulo 11
Numa viela da Rua Lipowa e dando fundos para a oficina da fbrica de esmaltados de Schindler, ficava a Fbrica Alem de Embalagens. Oskar Schindler, sempre irrequieto e desejoso de companhia, costumava, s vezes, ir at l e conversar com o Treuhnder Ernst Kuhnpast ou com o antigo proprietrio e extra-oficial gerente, Szymon Jereth. A Fbrica de Embalagens Jereth passara a ser, havia cerca de dois anos, a Fbrica Alem de Embalagens  segundo o arranjo habitual  sem pagamento de indenizao e sem que houvesse qualquer documento assinado por Jereth.
A injustia da transao no mais preocupava especialmente Jereth. Era o que havia acontecido com a maioria das pessoas que ele conhecia. O que o preocupava era o gueto. As brigas nas cozinhas, a implacvel promiscuidade da vida no gueto, o cheiro de suor, os piolhos que saltavam para a sua roupa do casaco ensebado de um homem com quem se cruzava numa escada. A Sra. Jereth, contou ele a Oskar,estava profundamente deprimida. Sempre estivera habituada ao conforto; era de uma boa famlia de Kleparz, ao norte de Cracvia. E pensar, expressou ele a Oskar, que com toda aquela madeira de pinho poderia construir uma moradia ali. E apontou para o terreno baldio atrs de sua fbrica. Os trabalhadores costumavam usar o espao amplo para as suas partidas de futebol. Grande parte do terreno pertencia  fbrica de Oskar, o restante a um casal polons de nome Bieiski.Mas Oskar no fez ver isso ao pobre Jereth, ou disse que ele tambm se preocupava com aquele terreno baldio. Estava mais interessado na oferta insinuada de fornecimento de madeira.
Acha que pode "alienar" tanta madeira assim?  perguntou Oskar. 
Pg.97 
Claro  replicou Jereth.   s uma questo de escrita.
Os dois estavam junto  janela do escritrio de Jereth, olhando para o terreno baldio. Da oficina vinha o rudo de marteladas e de uma serra.
 Eu odiaria perder contato com este local  disse Jereth. Odiaria desaparecer em algum campo de trabalhos forados e ter de pensar de longe o que aqueles imbecis estariam fazendo aqui. Deve compreender isso, no , Herr Schindler?
Um homem como Jereth no podia prever libertao alguma. Os exrcitos alemes davam a impresso de estar desfrutanto ilimitados xitos na Rssia, e at mesmo a BBC parecia pouco inclinada a acreditar que eles estavam avanando para um abismo fatal. As encomendas da Inspetoria de Armamentos para cozinhas de campo no cessavam de chegar  mesa de Oskar, com os cumprimentos do General Julius Schindler no final, acompanhados de telefonemas de congratulao de oficiais graduados. Oskar aceitava as encomendas e as congratulaes como de direito mas sentia um prazer contraditrio com as cartas irritadas que o pai lhe escrevia para celebrar a reconciliao. No vai durar, dizia Schindler pai. O homem (Hitler) no tem condies de durar.A Amrica acabar se voltando contra ele. E os russos? Meu Deus,ser que ningum se deu ao trabalho de fazer ver ao ditador que l existem incontveis hordas daqueles brbaros mpios? Oskar, sorrindo com as cartas, no se deixava perturbar pelos sentimentos conflitantes  a satisfao comercial do contratos da Inspetoria de Armamentos e o prazer mais ntimo com s cartas subversivas do pai. Oskar depositava no banco em nome do pai uma quantia mensal de 1.000 RM, em honra do amor filial e da subverso, e tambm pela alegria da generosidade.
O ano pareceu-lhe passar rpido e quase tranquilo. Horas de trabalho mais longas do que nunca, festas no Cracvia Hotel, rodadas de bebidas no clube de jazz, visitas ao luxuoso apartamento de Klonowska. Quando comearam a cair as folhas do outono, Schindler se espantou com a rapidez com que o ano se escoara. A impresso de que o tempo voara era acrescida pelo vero tardio e agora pelas chuvas outonais, que chegavam mais cedo do que de costume. As estaes alteradas iriam favorecer os soviticos e afetariam a vida dos europeus.Para Herr Oskar Schindler, instalado na Rua Lipowa, as mudanas de tempo continuavam apenas mudanas de tempo.
Ento, no final de 1941, Oskar de repente foi preso. Algum  um dos funcionrios poloneses da expedio, um dos tcnicos alemes da seo de munies, era difcil saber  fora  Rua Pomorska, prestara 
Pg.98  
informaes e o denunciara. Dois homens da Gestapo, em trajes civis chegaram certa manh  Rua Lipowa e bloquearam a entrada com seus Mercedes, como se tencionassem liquidar com todo o comrcio da Emalia. Em cima, diante de Oskar, eles exibiram mandados de priso que os autorizavam a requisitar todo o seu cadastro comercial. Mas, ao que parecia, no tinham nenhuma experincia naquele ramo.
 Exatamente, quais so os livros que querem?  perguntou-lhe Schindler. 
 Livros-caixa  disse um.
 Os seus principais livros-razo  disse o outro.
Foi uma priso calma; eles conversaram com Klonowska, enquanto Oskar foi apanhar seus livros de contabilidade. Foi-lhe concedido tempo para anotar num bloco uns tantos nomes, supostamente de pessoas com quem Oskar tinha encontros marcados para aquele dia e que agora teriam de ser cancelados. Lendo-os Klonowska compreendeu que era uma lista de gente com quem ela devia entrar em contato para ajud-lo a ser solto.
O primeiro nome na lista era o do Oberfhrer Julian Scherner; o segundo, Martin Plathe da Abwehrem Breslau. Este ltimo implicava um telefonema interurbano. O terceiro nome pertencia ao supervisor da Ostfaser, o bbado veterano do Exrcito, Franz Bosch, que Schindler presenteara com uma grande quantidade de utenslios domsticos. Debruando-se sobre o ombro de Klonowska, sobre seus cabelos louros arrumados no alto da cabea, ele sublinhou o nome de Bosch. Homem influente, Bosch conhecia e aconselhava todos os altos funcionrios que participavam do mercado negro de Cracvia. E Oskar sabia que a sua priso tinha a ver com o mercado negro, cujo perigo consistia em sempre poder encontrar algum funcionrio disposto a ser subornado mas nunca poder prever a inveja de algum dos prprios empregados do funcionrio.
O quarto nome da lista era o do diretor alemo da Ferrum AG de Sosnowiec, a companhia onde Schindler adquiria o seu ao. Esses nomes eram um conforto, pensava ele, ao ser conduzido no Mercedes da Gestapo para a Rua Pomorska, a mais ou menos um quilmetro do Centrum. Eram uma garantia de que no iria desaparecer sem deixar vestgio. No se sentia, portanto, to indefeso quanto os mil habitantes do gueto que haviam sido arrebanhados de acordo com as listas de Symche Spira e conduzidos sob as glidas estrelas do Advento para os vages de gado na Estao Prokocim. Oskar tinha bons pistoles.
O complexo da SS em Cracvia era um imenso edifcio moderno, sombrio, mas no to portentoso quanto a priso de Montelupich. Contudo, mesmo que no se acreditasse nos rumores de torturas ali praticadas, 
Pg.99 
o edifcio assustava o preso assim que ele penetrava naquela vastido, com os seus corredores kafkianos, com a ameaa muda dos nomes dos chefes inscritos nas portas. Ali estavam instalados o Escritrio principal da SS, a sede da Polcia de Ordem, de Kripo, Sipo e Gestapo da Economia e Administrao da SS, do Corpo de Funcionrios, de Questes Judaicas, de Raa e Remoo, do Tribunal SS, de Opera-
es, de Servio SS do Reichskommissariat para o Fortalecimento do Germanismo, do Departamento de Assistncia aos Alemes tnicos.
Em algum setor naquela colmia, um homem de meia-idade da Gestapo, que parecia ter um conhecimento mais preciso de contabilidade do que os oficiais que haviam efetuado a priso, comeou a interrogar Oskar. O jeito do homem era de quem estava achando aquilo meio divertido, como um fiscal alfandegrio que descobre que um passageiro suspeito de estar contrabandeando moedas, na realidade contrabandeou apenas plantas para a sua tia. Disse a Oskar que todas as empresas relacionadas com a produo blica estavam sob fiscalizao. Oskar no acreditou mas ficou calado. Herr Schindler devia compreender, acrescentou o homem da Gestapo, que indstrias ligadas ao esforo de guerra tinham a obrigao moral de reservar todo o seu produto para um to grande empreendimento  e evitar prejudicar a economia do Governo-Geral com transaes ilegais.
Com aquele seu modo peculiar de falar, Oskar resmungou alguma" palavras, que poderiam significar ao mesmo tempo ameaa e displicncia.
 Est insinuando. Herr Wachtmeister que h informaes de que a minha fbrica no est preenchendo as suas quotas?
 O senhor vive muito bem  contrApso homem, mas ostentando um sorriso condescendente, como se no houvesse objeo quanto a isso, como se fosse admissvel que industriais importantes levassem boa vida.
   E, tratando-se de qualquer um que viva bem... temos de ter a certeza de que o seu padro de vida  inteiramente resultado de contratos legais.
Oskar abriu um sorriso para o homem da Gestapo. 
 Quem quer que lhe tenha denunciado o meu nome  um imbecil e est fazendo o senhor perder seu tempo.
 Quem  o gerente da DEF?  perguntou o homem da Gestapo, ignorando o comentrio de Oskar.
 Abraham Bankier.
Judeu? Claro que . A fbrica pertencia a parentes dele. Aqueles dados pareciam correios, concluiu o homem da Gestapo. Mas se fossem necessrias outras informaes, ele presumia que Herr Bankier estaria apto a fornec-las. 
Pg.100
Est querendo dizer que vai me deter aqui?  perguntou Oskar e comeou a rir. Afiano-lhe que, quando eu estiver rindo com o Oberfhrer Scherner a respeito deste incidente, eu lhe direi que o se nhor me tratou com a maior cortesia.
Os dois que tinham efetuado a priso levaram-no para o segundo andar, onde ele foi revistado e lhe foi permitido ficar com os cigarros e 100 zlotys para algum pequeno luxo. Depois o trancaram num quarto  um dos melhores disponveis, presumiu Oskar, equipado com pia e vaso sanitrio e cortinas empoeiradas na janela de grades  a espcie de quarto em que trancafiavam dignitrios que estavam sendo interrogados. Se o prisioneiro fosse posto em liberdade, no poderia queixar-se de um quarto como aquele nem tampouco descrev-lo em termos entusisticos. E, se ficasse apurado que ele era um traidor, sedicioso, ou praticante de crime contra a economia, ento, como se no assoalho do quarto se tivesse aberto um alapo, ele se veria numa cela de interrogatrio, sentado imvel e sangrando, espcie de baia que eles apelidavam de "bonde"  esperando ser transferido para Montelupich, onde os prisioneiros eram enforcados em suas celas. Oskar fitou a porta. "Quem quer que ponha a mo em mim", prometeu ele a si mesmo, "eu farei com que seja mandado para a frente russa."
No sabia esperar com pacincia. Aps uma hora, bateu na porta e deu ao Waffen SS que o atendeu 50 zlotys para lhe comprar uma garrafa de vodca. A quantia era, naturalmente, trs vezes o preo da bebida mas era esse o mtodo de Oskar. Mais tarde, no mesmo dia, graas s providncias tomadas por Klonowska e Ingrid, uma sacola de objetos de toalete, livros e pijamas chegaram  cela. Trouxeram-lhe uma excelente refeio com meia garrafa de vinho hngaro e ningum apareceu para incomod-lo ou fazer-lhe uma pergunta sequer. Oskar presumiu que o contador continuava curvado sobre os livros da Emalia. Ele teria gostado de ter ali um rdio para ouvir as notcias da BBC sobre a Rssia, o Oriente e o novo combatente, os Estados Unidos. Teve a impresso de que, se pedisse aos seus carcereiros, eles eram bem capazes de lhe arranjar um rdio. Esperava que a Gestapo no tivesse invadido o seu apartamento da Rua Straszewskiego e se apoderado de objetos e jias de Ingrid. Quando finalmente adormeceu, chegara j ao ponto em que estava ansioso por se ver diante dos seus inquisidores.
Pela manh, trouxeram-lhe uma boa refeio  arenque, queijo, ovos, pezinhos, caf  e ele continuou no sendo incomodado. S ento o auditor SS de meia-idade, carregando os seus livros de contabilidade, veio v-lo na cela. 
O auditor desejou-lhe bom-dia. Esperava que Oskar tivesse passado uma noite confortvel. No houvera tempo de se fazer mais do 
Pg.101                                                                                         
que um exame superficial dos livros de Herr Schindler mas ficara decidido que um cavalheiro que gozava de tanto prestgio junto a pessoas influentes no esforo de guerra no precisava por enquanto ser interrogado mais minuciosamente. Acrescentou que tinha recebido certos telefonemas... Ao agradecer ao SS, Oskar estava convencido de que sua liberao era temporria. Recebeu os livros de contabilidade e lhe foi devolvido todo o seu dinheiro no balco de recepo.
Fora, Klonowska o esperava, radiante. Suas providncias tinham rendido aquele resultado: Schindler, livre da terrvel SS, envergando o seu jaqueto e sem o menor arranho. Ela o conduziu at o seu Adler, que lhe haviam permitido estacionar do lado de dentro do porto. O ridculo cozinho poodle estava sentado no banco traseiro.
Pg. 102
Captulo 12 
A menina chegou na moradia dos Dresner, situada no lado leste do gueto, no final de uma tarde. Fora trazida de volta a Cracvia pelo casal polons que estivera cuidando dela no campo. Haviam conseguido convencer a Polcia Azul Polonesa, postada no porto do gueto, que lhes permitisse entrarem a negcio, e a menina passou como filha deles.
Eram gente decente; estavam envergonhados por a terem trazido do campo de volta a Cracvia e ao gueto. Era uma menina to boazinha; tinham-se afeioado a ela. Mas no era mais possvel conservar no campo uma criana judia. As autoridades municipais  independentemente da SS  ofereciam at 500 zlotys por cada judeu trado. Havia o perigo dos vizinhos. No se podia confiar nos vizinhos. E, ento, no somente a criana estaria em perigo mas todos eles. Santo Deus, havia zonas em que os camponeses saam  caa de judeus, armados de foices e ancinhos.
A menina no parecia sofrer demais com a esqualidez do gueto. Sentada a uma mesinha, comia meticulosamente o bico de po que a Sra. Dresner lhe oferecera. Aceitava todas as palavras carinhosas que lhe diziam as mulheres que partilhavam a cozinha. A Sra. Dresner notou a estranha atitude precavida da criana em todas as suas respostas. Tinha, porm, suas vaidades e, como  comum em crianas de trs anos de idade, uma paixo pela cor vermelha. Assim, ali estava com o seu gorrinho vermelho, capote vermelho e bolinhas vermelhas. O casal de camponeses fazia-lhe as vontades.
A Sra. Dresner comeou a conversa falando sobre os verdadeiros pais da menina. Estavam tambm vivendo  na realidade, se escondendo  no campo. Mas, explicou a Sra. Dresner, em breve estariam 
Pg. 103
de volta a Cracvia e ao gueto. A criana abanava a cabea mas no parecia ser por timidez que se mantinha calada.
Em janeiro, seus pais haviam sido arrebanhados, de acordo com uma lista fornecida  SS por Spira e, enquanto estavam sendo conduzidos em filas para a Estao de Prokocim, tinham passado por entre uma turba de poloneses vociferantes  "Adeusinho, judeus!" Haviam, porm, conseguido se esgueirar para fora da coluna, como se fossem dois honestos cidados poloneses atravessando a rua para ver a deportao de inimigos sociais, e tinham-se reunido  turba, gritando eles prprios um pouco, e depois se afastado e fugido para o campo.
Agora tambm eles no se sentiam mais seguros no campo e tencionavam penetrar clandestinamente em Cracvia durante o vero. A me de "Chapeuzinho Vermelho"  como haviam apelidado a garota os filhos do casal Dresner, ao voltarem da cidade para casa, aps o trabalho  era prima-irm da Sra. Dresner.
Logo a jovem Danka, filha da Sra. Dresner, voltou tambm do seu trabalho de faxineira na base area da Luftwaffe. Danka ia fazer 14 anos, mas era alta o bastante para j ter recebido o seu Kennkarte (carteira de trabalho), o que lhe permitia trabalhar fora do gueto. Ficou encantada com a esquiva menina.
 Genia, conheo sua me, Eva. Ns duas costumvamos fazer compras juntas e ela me comprava doces na confeitaria na Rua Bracka. A menina manteve-se sentada, no sorriu, fixou os olhos num ponto vago.
 Moa, est enganada. O nome de minha me no  Eva.  Jasha.  E continuou citando os nomes da fictcia genealogia polonesa, que a haviam feito decorar, tanto seus pais como o casal de poloneses, para o caso de ela ser interrogada pela Polcia Azul ou pela SS. A famlia pareceu perplexa com a excepcional esperteza da criana e, embora achando aquilo horrvel, no quiseram corrigi-la, pois era bem possvel que, naquela mesma semana, o embuste fosse uma arma essencial de sobrevivncia.
 hora do jantar, Idek Schindel, o tio da menina, um jovem mdico do hospital do gueto na Rua Wegierska, apareceu em casa dos Dresner. Era o alegre, brincalho, carinhoso tio, de que uma criana necessita. Ao v-lo, Genia tornou-se uma criana, levantando-se da cadeira e correndo para ele. Se o seu tio estava ali, chamando aquela gente de primos, ento eram mesmo primos. Agora ela j podia admitir que tinha uma me chamada Eva e que os seus avs no se chamavam realmente Ludwik e Sophia. Ento o Sr. Juda Dresner, funcionrio de compras da fbrica Bosch, chegou em casa, e a famlia ficou completa.
Pg. 104
O dia 28 de abril era aniversrio de Schindler, e em 1942 ele comemorou a data como um filho da primavera, ruidosamente, prodigamente. Foi um grande dia na DEF. O Herr Direktor levou para a fbrica o raro po branco, sem se preocupar com despesas, para ser servido com a sopa do meio-dia. Os festejos se estenderam pelo escritrio geral e a oficina nos fundos da fbrica. Oskar Schindler, o industrial, desfrutava o sabor suculento da vida.
O seu trigsimo quarto aniversrio comeou a ser comemorado desde cedo, na Emalia. Schindler atravessou acintosamente o escritrio geral sobraando trs garrafas de conhaque, para beb-las com os engenheiros, contadores, projetistas. Os funcionrios da Contabilidade e do Pessoal ganharam uma profuso de cigarros e, no decorrer da manh, as ddivas j tinham chegado ao andar da oficina. Um bolo veio da confeitaria e Oskar partiu-o sobre a mesa de Klonowska. Delegaes de trabalhadores judeus e poloneses comearam a entrar no escritrio para dar-lhe os parabns e ele beijou efusivamente uma jovem chamada Kucharska, cujo pai fizera parte do parlamento polons antes da guerra. Apareceram ento outras judias, os homens trocavam apertos de mo e at Stern veio da Comisso de Melhoramentos, onde agora trabalhava, para apertar formalmente a mo de Oskar e se ver envolvido num abrao de quebrar costelas.
 tarde algum, provavelmente o mesmo insatisfeito da vez anterior, contatou Pomorska e denunciou Schindler por transgresses s leis raciais.
Seus livros de contabilidade podiam suportar uma investigao mas ningum teria como negar que ele era um "beijador de judeus".
A Mancira como ele foi preso dessa vez pareceu mais profissional do que a anterior.
Na manh do dia 29, um Mercedes bloqueou a entrada da fbrica e dois homens da Gestapo, com um ar mais seguro do terreno em que pisavam do que os dois primeiros, encontraram-no quando atravessava o ptio da fbrica. Fora acusado de infringir as provises da Leide Raa e Reajustamento e pediram-lhe que os acompanhasse. No, no havia necessidade de ele ir primeiro ao seu gabinete...
 Os senhores tm uma ordem de priso?
 No precisamos disso  foi a resposta.
Oskar deu-lhes um sorriso. Os cavalheiros deviam compreender que, se o levassem sem uma ordem expressa, iriam se arrepender.
Estas palavras foram ditas num tom displicente mas ele podia perceber pela atitude firme dos dois que a ameaa tinha-se concretizado e focalizado, depois da deteno meio cmica do ano anterior. Da ltima vez, a conversa da Rua Pomorska tinha decorrido sobre questes
Pg. 105
econmica e suas possveis irregularidades. Desta vez, estava-se lidando com uma lei grotesca, a lei do intestino grosso, decretos do lado negro do crebro. Assunto grave.
 Teremos de correr o risco do arrependimento  respondeu um deles.
Oskar avaliou a segurana da atitude, a perigosa indiferena que demonstravam a seu respeito, um homem de recursos, com recentes trinta e quatro anos de idade.
 Numa manh de primavera  replicou-lhes  posso dispor de umas poucas horas para um passeio de carro.
Procurou tranqilizar a si mesmo, pensando que de novo seria confinado numa daquelas celas civilizadas na Pomorska. Mas, quando enveredaram pela Rua Kolejowa, percebeu que dessa vez seria a priso de Montelupich.
 Gostaria de falar com um advogado  disse ele.
 Mais tarde  respondeu o homem que estava ao volante.
Oskar sabia, a acreditar na palavra de um dos seus companheiros de rodadas de bebida, que o Instituto de Anatomia Jagiell recebia cadveres de Montelupich.
O muro do local estendia-se por todo um comprido quarteiro e a tenebrosa igualdade das janelas do terceiro e quarto andares podia ser vista do assento traseiro do Mercedes. Passando pelo porto principal e por baixo de uma arcada, chegaram a uma sala onde um funcionrio da SS falava muito baixo, como se vozes altas fossem provocar ecos ensurdecedores ao longo dos corredores estreitos. Confiscaram-lhe todo o dinheiro mas lhe disseram que, enquanto estivesse preso, receberia 50 zlotys por dia. No, responderam os SS, ainda no estava na hora de se comunicar com um advogado.
Eles partiram. No corredor, sob guarda, Oskar ficou de ouvido atento a ecos de gritos que, naquele silncio de convento, pudessem vazar pelas frestas das portinholas ao longo das paredes. Depois de descer um lance da escada, conduziram-no por um tnel claustrofbico, ao longo de uma fileira de celas de portas trancadas e uma de grades, onde havia uma meia dzia de prisioneiros em mangas de camisa, cada um numa baia separada, voltados para a parede dos fundos, a fim de que no se pudessem ver suas feies. Oskar notou uma orelha rasgada. Algum estava fungando mas sem coragem de assoar o nariz. "Klonomka, Klonowska, est dando os seus telefonemas, meu amor?"
Abriram uma cela para ele e o fizeram entrar. Oskar tivera certo receio de que houvesse muita gente na cela. Mas havia s mais um prisioneiro, um militar envolto at as orelhas no seu casaco, sentado numa das duas camas de madeira, cada qual com o seu estrado. Naturalmente, 
Pg. 106
no havia pias. Apenas um balde d'gua e um para detritos. E quem seria aquele Waffen SS Standartenfhrer (posto da SS equivalente a coronel), com a barba por fazer, uma camisa meio suja sob o casaco, botas enlameadas?
 Seja bem-vindo, cavalheiro  disse o oficial, com um sorriso no canto da boca, erguendo a mo para o recm-chegado. Era um bonito homem, uns poucos anos mais velho do que Oskar. Provavelmente, tratava-se de um informante. Mas era estranho que lhe houvessem fornecido a farda de um posto to importante. Oskar consultou seu relgio, sentou-se, levantou-se, olhou para a janela alta. Um pouco da claridade dos ptios de exerccio penetrava pela janela, mas esta no era do tipo que permitia a algum debruar-se e assim reduzir a intimidade dos dois catres lado a lado, dos prisioneiros sentados quase tocando os joelhos um do outro.
Finalmente, comearam a conversar. Oskar mostrava-se muito cauteloso mas o Standartenfhrer tagarelava descontraidamente. Qual era o seu nome? Philip era como se chamava. Achava que cavalheiros no deviam revelar seu sobrenome em prises. Alm disso, estava na hora de as pessoas comearem a usar apenas nomes. Se todos tivessem adotado esse sistema antes, os alemes seriam agora uma raa mais feliz.
Oskar concluiu que, se o homem no era um informante, ento tinha tido alguma espcie de exausto nervosa ou talvez estivesse sofrendo de neurose de guerra. Estivera participando da campanha no sul da Rssia e seu batalho tinha conseguido manter-se o inverno todo em Novgorod. Ele, ento, recebera uma licena para visitar sua namorada polonesa em Cracvia e, segundo suas palavras, "os dois tinham-se perdido um no outro", e ele fora preso no apartamento dela, trs dias depois de expirada sua licena.
 Acho que decidi  disse Philip  no ser pontual demais quanto a prazos, quando vi a vida que esses safados levam  apontou com a mo para o teto, indicando a estrutura ao seu redor, os projetistas, contadores, burocratas.  No foi deliberada a deciso de me ausentar, sem permisso. Mas apenas achei que devia a mim mesmo uma certa latitude.
Oskar perguntou se ele no preferia estar na Rua Pomorska.
 No. Prefiro estar aqui  respondeu Philip.  Pomorska mais parece um hotel. Mas os salafrrios tm l uma cela da morte, cheia de barras de cromo reluzente. Mudando de assunto, o que Herr Oskar fez?
 Beijei uma judia  respondeu Oskar.  Uma empregada minha.  do que me acusam.
Ao ouvir isso, Philip soltou uma gargalhada.
Pg. 107
 Oh, oh! E o seu pau caiu no cho?
O Standartenfhrer Philip passou o resto da tarde condenando a SS. Eram ladres e tarados, afirmou. No dava para acreditar o dinheiro que aqueles safados estavam ganhando. E sempre com um ar incorruptvel. Podiam matar um pobre coitado de um polons por roubar um quilo de toucinho, ao passo que eles viviam como bares hanseticos.
Oskar ouvia, como se tudo aquilo fosse novidade para ele, como se a revelao da venalidade de Reichfhrers fosse um doloroso choque para a sua provinciana inocncia Sudetendeutsch, que o havia levado ao ponto de beijar uma judia. Por fim Philip, cansado de suas vituperaes, adormeceu.
Oskar estava com vontade de beber. Uma boa dose de vodca certamente ajudaria a passar o tempo, tornaria o Standartenfhrer melhor companhia, se ele no fosse um informante, e mais falvel se o fosse. Oskar tirou do bolso uma nota de 10 zlotys e anotou nela nomes e nmeros de telefone; mais nomes do que da ltima vez, uma dzia.Acrescentou mais quatro notas, amassou-as, depois bateu na portinho-la. Um guarda apareceu  um grave rosto de meia-idade, que o fitou. No parecia ser um homem que exercitava poloneses at eles tombarem mortos, ou rompia rins a pontaps, uma das formas mais comuns de tortura. No se esperava isso de um homem que parecia um tio do interior.
 Seria possvel encomendar cinco garrafas de vodca?  perguntou Oskar.
 Cinco garrafas?  espantou-se o guarda. O seu tom era de quem estava aconselhando sobriedade a um jovem bbado inveterado. Pareceu, porm, algo pensativo, como se estivesse cogitando denunciar Oskar aos seus superiores.
 O general e eu  explicou Oskar  apreciaramos ter uma garrafa para cada um, a fim de estimular a conversa. Voc e seus colegas, por favor, aceitem as restantes, com os meus cumprimentos. Presumo, tambm, que um homem com a sua autoridade tem o poder de dar uns telefonemas de rotina, por um prisioneiro. Os nmeros dos telefones esto anotados aqui... sim, na cdula. No precisa telefonar voc mesmo. Mas pode transmiti-los a minha secretria, no ? Sim, ela  a primeira da lista.
 Essas pessoas so gente muito influente  murmurou o guarda.
Voc  um louco  gritou Philip para Oskar.  Podem fuzil-lo por tentar    corromper um guarda.
Oskar deitou-se no catre, aparentemente despreocupado.
Pg. 108
  uma estupidez to grande como beijar uma judia  disse Philip.
 Veremos  replicou Oskar. Mas estava apavorado.
Finalmente, o guarda retornou e trouxe, juntamente com as duas garrafas, um embrulho com camisas e roupas de baixo, alguns livros e uma garrafa de vinho, arrumado no apartamento da Rua Straszewskiego por Ingrid, que o entregou no porto da Montelupich. Philip e Oskar tiveram juntos uma noite relativamente agradvel, embora em determinado momento um guarda houvesse batido na porta de ao e ordenado que eles parassem de cantar.
Mas mesmo assim, com a bebida tornando a cela mais espaosa e dando mais credibilidade s vituperaes do Standartenfhrer,Schindler estava de ouvido atento a gritos remotos do andar de cima ou a batidas em morse de algum preso desesperado na cela ao lado. S uma vez a verdadeira natureza daquele local diluiu os efeitos da vodca. Junto ao seu catre, parcialmente escondido pelo estrado, Philip descobriu uma diminuta inscrio em lpis encarnado. Levou algum tempo para decifr-la, pois o seu conhecimento da lngua polonesa no era to bom como o de Oskar.
 Meu Deus"  traduziu ele  como eles me espancam!Ento, meu amigo Oskar, este no  mesmo um mundo maravilhoso? De manh, Schindler acordou com a cabea desanuviada. Nunca tivera ressacas e no entendia como outras pessoas se queixavam tanto delas. Mas Philip estava plido e deprimido. Na parte da manh vieram busc-lo e ele voltou para juntar seus pertences. Ia ser julgado nessa tarde por uma corte marcial mas havia sido designado para uma nova misso num campo de treinamento em Stutthorf; presumia que no pretendiam fuzil-lo por desero. Apanhou de cima do catre o casaco e se foi para explicar a sua aventura polonesa. Sozinho, Oskar passou o dia lendo um livro de Kari May que Ingrid lhe mandara e,  tarde, falando com o seu advogado, um Sudetendeutscher, que dois anos antes abrira em Cracvia um escritrio de advocacia civil. A entrevista reconfortou Oskar. O motivo de sua priso era o que fora alegado; eles no estavam utilizando seus beijos transraciais como pretexto para ret-lo, enquanto investigavam os seus negcios.
 Mas o caso ir provavelmente para o Tribunal da SS e iro perguntar-lhe por que voc no se alistou no Exrcito.
 O motivo  bvio  respondeu Oskar.  Sou essencial ao esforo de guerra. Pode conseguir um depoimento do General Schindler.
Oskar era um leitor vagaroso e saboreou o livro de Kari May  o caador e o filsofo ndio na vastido das florestas americanas  um relacionamento edificante. De qualquer modo, no queria se apressar na leitura. 
Pg. 109
Podia levar uma semana at ele ser conduzido perante um tribunal. O advogado supunha que haveria um discurso do presidente do tribunal sobre a conduta deplorvel de um membro da raa germnica, e lhe seria imposta uma multa substancial. Que assim fosse. Oskar Schindler sairia do tribunal um homem mais cauteloso.
Na quinta manh, ele j havia bebido o meio litro de caf preto ersatz, que lhe tinham servido bem cedo, quando um NCO e dois guardas vieram busc-lo. Caminhando ao longo de portas mudas, ele foi levado para um dos gabinetes do andar de cima. Ali deparou com um homem, com quem tinha-se encontrado vrias vezes em coquetis, o Obersturmbannfhrer Rolf Czurda, chefe do Servio de Segurana de Cracvia. Com seu terno bem-talhado, Czurda parecia um homem de negcios.
- Oskar, Oskar!  exclamou Czurda, como um velho amigo reprovando-o.
- Ns lhe fornecemos aquelas judiazinhas a cinco marcos por dia.Os seus beijos  deviam ser para ns, no para elas.
-Oskar explicou que tinha sido seu aniversrio. Obedecera a um mpeto. Estivera bebendo.
Czurda abanou a cabea.
 Nunca pensei que voc fosse to importante, Oskar. Recebi telefonemas at de Breslau, do nosso amigo na Abwhr.  claro que seria ridculo mant-lo afastado de seu trabalho s porque se serviu de uma judia qualquer.
  muito compreensivo, Herr Obersturmbannfhrer  respondeu Oskar, sentindo que Czurda estava  espera de algum tipo de gratificao.  Se jamais eu estiver em posio de retribuir o seu gesto liberal...
 Por falar nisso, tenho uma velha tia cujo apartamento foi bombardeado. 
Outra velha tia, Schindler deu um estalido compassivo com a lngua e disse que um   representante do chefe Czurda seria bem-vindo a qualquer hora na Rua Lipowa para fazer uma seleo dos produtos ali fabricados. Porm, no convinha deixar que homens como Czurda considerassem a sua libertao como um favor absoluto  e os utenslios de cozinha como o mnimo que o prisioneiro felizardo poderia oferecer. Quando Czurda falou que ele podia se retirar, Oskar fez objeo.
 No posso simplesmente mandar vir o meu carro, Herr Obersturmbannfher. Afinal, a minha quota de gasolina  limitada.
Czurda perguntou se Herr Schindler esperava que o Servio de Segurana o     levasse em casa.
Oskar encolheu os ombros. O fato era que ele vivia do outro lado da cidade. Seria uma longa caminhada.
Pg. 110
Czurda soltou uma risada.
 Oskar, vou mandar um dos meus motoristas lev-lo a casa.
Mas, quando a limusine estava pronta, com o motor em funcionamento, esperando-o ao p da entrada principal, Schindler lanou um olhar para as janelas vazias acima, esperando algum sinal daquela outra repblica, o reino da tortura, das prises incondicionais  o inferno daqueles que no tinham panelas e caarolas para barganhar. Rolf Czurda deteve-o pelo cotovelo:
 Pondo de lado as brincadeiras, Oskar, meu caro amigo, voc seria muito   tolo se se interessasse mesmo por alguma saia judia.  uma raa sem futuro, Oskar. Posso lhe garantir que no se trata apenas do velho preconceito anti-semita. Trata-se de um plano de ao.
Pg. 111
Captulo 13
Ainda naquele vero, as pessoas cercadas pelos muros continuavam se agarrando  noo de que o gueto era um domnio restrito, porm permanente. No era muito difcil acreditar nessa noo no ano de 1941. Fora instalado um correio e havia at selos do gueto. Havia tambm um jornal, embora pouco mais contivesse do que editais de Wawel e da Rua Pomorska. Fora permitido o funcionamento de um restaurante na Rua Lwwska: o Restaurante Foerster, onde os irmos Rosner, de volta dos perigos do campo e das paixes mutveis dos camponeses, tocavam violino e acordeo. Por um breve espao de tempo, parecia que as escolas iriam funcionar normalmente, que orquestras se reuniriam para concertos, que a vida judaica seria comunicada como uma organizao benigna ao longo das ruas, de arteso para arteso, de professor para professor. No fora ainda definitivamente manifestada a idia pelos burocratas SS da Rua Pomorska de que tal tipo de gueto no era apenas uma extravagncia como um insulto s diretrizes racionais da Histria.
Assim, quando o Untersturmfhrer Brandt mandou chamar o presidente Artur Rosenzweig  Rua Pomorska para uma surra com o cabo de seu chicote de montaria, estava tentando corrigir a incurvel viso do judeu de considerar o gueto como uma zona de residncia permanente. O gueto era um depsito, um desvio, uma estao de nibus cercada de muralhas. Em 1942, qualquer suposio que encorajasse outra perspectiva j havia sido abolida.
Assim, ali era diferente dos guetos que os velhos recordavam at com uma certa afeio. A msica ali no era uma profisso. No havia profisses. Henry Rosner trabalhava na cozinha da base area da Luftwaffe, L tinha conhecido um jovem cozinheiro-gerente alemo
Pg. 112
chamado Richard, um rapaz  risonho que se escondia, como  possvel a um cozinheiro, da histria do sculo XX, no seu ambiente de cozinha e gerncia de bar. Ele e Henry Rosner se deram to bem que Richard passou a mandar o violinista at o outro lado da cidade para receber o pagamento do Corpo de Fornecedores da Luftwaffe  no se podia confiar num alemo, dizia ele; o ltimo cobrador tinha fugido para a Hungria com o dinheiro do pagamento.
Richard, como acontece a um barman digno de seu ofcio, ouvia boatos, e tinha relaes amistosas com os funcionrios da base area. No dia primeiro de junho, ele foi ao gueto com sua namorada, uma Volksdeutsche, envolta numa ampla capa  que, em vista das chuvas de junho, no parecia um agasalho excessivo. Devido  sua profisso, Richard conhecia muitos policiais, inclusive o Wachtmeister Oswald Bosko, e no teve problema em ser admitido no gueto, ainda que oficialmente a entrada lhe fosse proibida. Uma vez transposto o porto, Richard atravessou a Plac Zgody e descobriu o endereo de Henry Rosner. Este mostrou-se surpreso ao v-los. Poucas horas antes, deixara Richard na base area e, no entanto, ali estava ele com a sua namorada, ambos vestidos como para uma visita de cerimnia. Isso veio evidenciar para Henry as discrepncias da poca. Nos ltimos dois dias, os habitantes do gueto se enfileiravam  porta do edifcio do velho Banco Polons de Poupana na Rua Jozefnska a fim de obter novas carteiras de identidade. A kennkarte amarela, com a fotografia de passaporte em spia e um grande J azul, ao qual os funcionrios alemes agora anexavam  se o judeu em questo estava com sorte  uma etiqueta azul. Havia pessoas que saam do banco, acenando com suas carteiras acrescidas da etiqueta azul, como se aquilo provasse o seu direito de respirar, a sua validade permanente. Os que trabalhavam na base area da Lufwaff, na garagem da Wehrmacht, na fbrica de Madritsch, na Emalia de Oskar Schindler, na fbrica Progress, no tinham nenhum problema em receber a Blauschein. Mas aqueles a quem ela era recusada sentiam como se at a sua cidadania no gueto estivesse sendo posta em dvida.
Richard disse que o pequeno Olek Rosner devia ir para o apartamento de sua namorada. Dava para perceber que ele tinha ouvido alguma coisa na base.
 Olek no pode simplesmente sair pelo porto do gueto  disse Henry.
 J est tudo arranjado com Bosko  respondeu Richard.
Henry e Manci pareciam hesitar e consultaram-se mutuamente, enquanto a moa da capa prometia engordar Olek  custa de chocolate. 
Uma Aktion? , perguntou Henry Rosner num sussurro. Ia haver uma Aktion? 
Pg. 113
Richard  respondeu com outra pergunta. Recebera Henry o seu Blauscheini? Claro, respondeu Henry. E Manci? Manci tambm. Mas Olek no, acrescentou Richard. Ao cair da tarde chuvosa, Olek Rosner, filho nico do casal, mal tendo completado seis anos de idade, saiu do gueto escondido sob a capa da namorada de Richard. Se algum policial tivesse se dado ao trabalho de erguer a capa, tanto Richard como sua namorada poderiam ter sido executados por causa daquele generoso estratagema. Olek tambm teria desaparecido. Em seu quarto, sem o filho, os Rosner esperavam ter agido certo.
Poldek Pfefferberg, contrabandista de Oskar Schindler, tinha recebido no comeo do ano ordem de ensinar os filhos de Symche Spira, o  importante vidraceiro, chefe da OD.
Era uma ordem desdenhosa, como se Spira estivesse dizendo: "Sim, ns sabemos que voc no serve para fazer o trabalho de um homem mas, pelo menos, pode transmitir a meus filhos alguns dos benefcios de sua instruo.
Pfefferberg distraa Schinder com descries das aulas no lar dos Symche. O chefe de polcia era um dos poucos judeus a ter todo um andar para si. Ali, entre pinturas em duas dimenses de rabinos do sculo XIX, Symche andava de um lado para outro, ouvindo as aulas de Pfefferberg e parecendo querer ver os conhecimentos brotarem como petnias das orelhas dos filhos. Um homem predestinado, com a mo enfurnada na abertura do casaco, acreditava que aquela postura napolenica era caracterstica de homens de influncia.
A mulher de Symche era uma criatura apagada, um pouco aturdida com o inesperado poder do marido, talvez evitada por antigos amigos. Os filhos, um menino de doze anos e uma menina de quatorze, eram dceis, porm no muito inteligentes.
De qualquer modo, quando Pfefferberg se dirigiu ao Banco Polons de Poupana, esperava receber sem nenhum problema o seu Blauschein. Tinha certeza de que as suas aulas para os filhos de Spira seriam consideradas trabalho essencial. A carteira amarela identificava-o como PROFESSOR DE SEGUNDO GRAU e, num mundo racional, por enquanto s parcialmente de pernas para o ar, era uma aptido respeitvel.
Os funcionrios recusaram-se a entregar-lhe a etiqueta azul. Poldek discutiu com eles e pensou em apelar talvez para Oskar ou para Herr Szepessi, o burocrata austraco que, de um prdio mais adiante na mesma rua, chefiava a agncia de trabalho. Havia um ano que Oskar lhe pedia que fosse trabalhar na Emalia, mas Pfefferberg sempre achara que um horrio integral iria restringir muito as suas atividades ilegais.
Pg. 114
Ao sair do prdio do banco, destacamentos da Polcia de Segurana Alem, da Polcia Azul Polonesa e o destacamento poltico da OD estavam em atividade nas caladas, inspecionando as carteiras de todo mundo e prendendo os que no tinham a etiqueta azul. Uma fila de rejeitados, homens e mulheres abjetos, j se formara no meio da Rua Josefinska. Pfefferberg adotou o seu porte de militar polons e explicou que, naturalmente, ele tinha vrios ofcios. Mas o Schupo com quem falou simplesmente sacudiu a cabea, dizendo: "No discuta comigo; sem Blauschein v para a fila. Est compreendido, judeu?
Pfefferberg entrou na fila. Mila, a delicada e bonita jovem com quem ele se casara havia um ano e meio, trabalhava para a Madritsch e j tinha a sua Blauschein. Portanto, nada a fazer.
Quando a fila contava mais de cem pessoas, desfilou pela rua, passando pelo hospital e indo at o ptio da antiga fbrica de confeitos Optima. Ali j esperavam trezentas pessoas. Os que haviam chegado antes tinham-se abrigado nos cantos sombrios do que fora em outros tempos a estrebaria onde os cavalos da Optima costumavam ser arreados entre os varais de carroas carregadas de cremes e chocolates de licor. No era um grupo barulhento. Eram homens profissionais, banqueiros como os Holzer, farmacuticos e dentistas. Estavam reunidos em grupos, falando em voz baixa. O jovem farmacutico Bachner conversava com um velho casal de nome Wohl. Havia ali muita gente velha. Os velhos e pobres, que dependiam da rao do Judenrat. Nesse vero o prprio Judenrat, distribuidor de alimentos e at de espao, mostrara-se menos imparcial do que no ano anterior. 
Enfermeiras do hospital do gueto moviam-se entre aqueles detentos com baldes de gua, que se dizia ser um bom remdio para tenso e desnorteamento. De qualquer forma, eram o nico remdio que havia, alm de um pouco de cianureto do mercado negro, de que o hospital dispunha. Os velhos, as famlias pobres dos shtetls, aceitavam a
gua em nervoso silncio.
No decorrer do dia, policiais de trs variedades entravam no ptio com listas e formavam filas de pessoas, que eram esperadas no porto do ptio por destacamentos da SS e conduzidas para a Estao Ferroviria de Prokocim. Alguns procuraram escapar a essa nova transferncia, mantendo-se nos cantos mais afastados do ptio. Mas o estilo de Pfefferberg era rondar o porto, procurando algum para quem pudesse apelar. Talvez Spira estivesse por l, vestido como um ator de cinema e disposto  com certa dose de grossa ironia  a solt-lo. Mas o que viu foi, junto  guarita do vigia, um rapazola de fisionomia triste com um bon da OD examinando uma lista, segurando a ponta da pgina com dedos delicados. Pfefferberg no s tinha servido durante
Pg. 115
um breve espao de tempo com o rapaz na OD, como tinha, no seu prirneiro ano de professor na Escola Secundria de Kosciuszko em Podgrze, dado aulas  irm dele.          
O rapaz ergueu os olhos:
- Panie Pfefferberg...  murmurou ele, com o mesmo respeito dos dias do passado.Como se o ptio estivesse cheio de criminosos empedernidos, perguntou o que Panie Pfefferberg estava fazendo ali. 
-E ridculo  disse Pfefferberg , mas no tenho uma Blauschein.
O rapaz abanou a cabea, disse a Poldek que o acompanhasse e levou-o  presena de um Schupo uniformizado ao porto. No parecia muito herico com o seu cmico bon da OD, o fino e vulnervel pescoo. Mais tarde, porm, Pfefferberg chegou  concluso de que aquilo lhe dera maior credibilidade.
 - Apresento-lhe Herr Pfefferberg, do Judenrat  mentiu ele, com uma hbil combinao de respeito e autoridade.  Estava aqui visitando uns parentes.
	O Schupo parecia entediado com a quantidade de trabalho no ptio. Com um gesto negligente da mo, deu permisso a Pfefferberg para sair. Pfefferberg no teve tempo de agradecer ao rapaz ou de refletir sobre o mistrio de um jovem de pescoo fino se dispor a correr um risco de morte, mentindo para salv-lo, s por ter ele ensinado sua irm usar argolas de ginstica.
	Pfefferberg correu diretamente para a agncia de trabalho e furou a fila de espera. Atrs da mesa estavam Fruleins Skoda e Knosalla. duas joviais alems sudetas.
       -  Liebchen, Liebchen  disse ele a Skoda  querem me levar embora porque eu no tenho a etiqueta azul. Olhe para mim.  (Ele tinha a constituio de um touro, era jogador de hquei em seu pas e pertencia ao time de esqui polons.)  No sou exatamente o tipo de sujeito que vocs gostariam de manter aqui?
	Apesar da multido que no lhe dera descanso o dia todo, Skoda ergueu as sobrancelhas e esforou-se por conter um sorriso.
	 No posso ajud-lo, Herr Pfefferberg  respondeu ela, examinando a Kennkarte do rapaz.  No recebeu a etiqueta azul, por isso no posso fazer nada. Uma pena...
	 Mas pode me dar a etiqueta, Liebchen  insistiu ele em voz alta, adotando o tom sedutor de novelas de rdio.  Tenho ofcios, Liebchen. Muitos ofcios.
Skoda ponderou que somente Herr Szepessi poderia ajud-lo, e era impossvel Szepessi receber Pfefferberg naquele momento. Levaria dias.
Pg. 116 
	 Mas vai conseguir que eu fale com ele  insistiu Pfefferberg.
	De fato, ela conseguiu. Era por isso que tinha a reputao de ser uma boa moa, porque se abstraa do turbilho de regulamentos e podia, mesmo num dia de muita movimentao, dar ateno a um rosto individual. Todavia, era pouco provvel que se esforasse do mesmo modo por um velho verruguento.
	 Herr Szepessi gozava tambm de uma reputao de humanidade, embora estivesse a servio daquela mquina monstruosa; relanceando um olhar  carteira de Pfefferberg, murmurou:
	 Mas no precisamos de professores de ginstica. Pfefferberg sempre tinha recusado os oferecimentos de emprego de Oskar porque se considerava especulador, um individualista. No queria trabalhar longas horas por uma ninharia na enfadonha Zablo-cie. Mas se dava conta agora de que estava desaparecendo a era do individualismo. As pessoas precisavam, como base de vida, de um ofcio.
	 Sou um polidor de metais  declarou ele a Szepessi. Tinha trabalhado por um curto perodo com um tio de Podgrze, que dirigia uma pequena fbrica de metais em Rekawka.
	Herr Szepessi examinou Pfefferberg por detrs dos culos.
	 Bem, esta  uma profisso.  Apanhou uma caneta e passou um risco no PROFESSOR DE ENSINO SECUNDRIO, cancelando a educao universitria de que tanto Pfefferberg se orgulhava; acima escreveu POLIDOR DE METAIS. Depois apanhou um carimbo e um pote de cola e tirou de uma gaveta a etiqueta'azul.  Pronto  con-cluiu ele, devolvendo o documento a Pfefferberg  agora, se encontrar um Schupo, pode garantir-lhe que voc  um membro til da sociedade.
	Mais tarde, naquele ano, mandariam o pobre Szepessi para Auschwitz por se deixar persuadir to facilmente. 
Pg. 117 
Captulo 14  
De diversas fontes  do policial Toffel bem como do bbado Bosch da Ostfaser, a operao txtil da SS  Oskar ouvia rumores de que "condutas no gueto" (de significado dbio) iam se tornar mais intensas. A SS estava mandando vir de Lublin para Cra- cvia algumas unidades do violento Sonderkommando. Em Lublin essas unidades j tinham efetuado um excelente trabalho em questes  de purificao racial. Toffel sugerira que, a no ser que Oskar quises- se prejudicar sua produo, devia instalar alguns leitos de campanha para o seu turno da noite, at depois do primeiro Sabbath, em junho.
	Assim Oskar organizou dormitrios nos escritrios e no andar acima, na seo de munies. Alguns empregados do turno da noite ficavam felizes por poder dormir na fbrica. Outros tinham mulher, filhos, parentes esperando-os no gueto. Alm disso, estavam munidos da Blauschein, a santa etiqueta azul, em suas Kennkartes.
No dia 3 de junho, Abraham Bankier, o gerente de escritrio de Oskar, no compareceu  Rua Lipowa. Schindler ainda estava em seu apartamento na Rua Straszewskiego, tomando o caf da manh, quando recebeu um telefonema de uma de suas secretrias. Dizia ter visto Bankier sendo conduzido para fora do gueto, sem sequer parar na Optima, e encaminhado diretamente para o posto da Prokocim. Outros empregados da Emalia faziam tambm pane do grupo, Reich, Leser... cerca de uns doze.
	Oskar mandou vir seu carro da garagem e seguiu direto para Prokocim. Ali mostrou o seu passe aos guardas do porto. O ptio do posto estava cheio de fileiras de vages de carga, a estao repleta de cidados dispensveis do gueto, docilmente enfileirados, ainda convencidos  e talvez tivessem razo  da convenincia de uma atitude passiva
Pg. 118
seres humanos em vages de carga para gado e o choque foi maior do que imaginava; fez parar a composio  beira da plataforma. Avistou, ento, um joalheiro seu conhecido.
	 Viu Bankier?  perguntou ele.
	 Ele j est dentro de um dos vages, Herr Schindler  respondeu o joalheiro.  	Para onde vocs esto sendo levados.
	 Dizem que para um campo de trabalho. Perto de Lublin. Provavelmente no ser pior do que...  O homem fez um gesto com a mo, indicando Cracvia.
	Schindler tirou dos bolsos um mao de cigarros e algumas cdulas de 10 zlotys e deu ao joalheiro. Este agradeceu e disse que dessa vez haviam sido obrigados a deixar suas casas, sem bagagem alguma. Os guardas haviam dito que as bagagens lhes seriam remetidas depois. 
	Em fins do ano anterior, Schindler tinha visto no Boletim de Oramento e Construo da SS propostas para a construo de alguns fornos crematrios no campo de Belzec, a sudeste de Lublin. Schindler fitou o joalheiro. Sessenta e trs ou quatro anos. Um pouco magro; provavelmente tivera uma pneumonia no inverno passado. Terno pudo, quente demais para aquele dia. E nos claros olhos compreensivos a capacidade de suportar altas doses de sofrimento. Mesmo no ve- ro de 1942 era impossvel imaginar conexes entre um homem como aquele e os tais fornos de extraordinria capacidade cbica. Tencionavam eles provocar epidemias entre os detentos? Qual iria ser o mtodo?
	Comeando pela locomotiva, Schindler passou a percorrer a composio de mais de vinte vages de carga, chamando Bankier pelo nome, procurando v-lo entre as grades ou no alto das ripas dos vages. Era uma sorte para Abraham que Oskar no perguntasse a si mesmo por que estava chamando pelo nome Bankier, que no tivesse parado para considerar que o nome Bankier tinha apenas um valor igual a todos  os outros nomes a bordo dos vages de gado do Ostbahn. Um existencialista poderia ter sido derrotado pelos nmeros na Prokocim, atordoado pelo igual apelo de todos os nomes e vozes. Mas Schindler era um inocente filosfico. Conhecia a quem conhecia. Conhecia o nome de Bankier.
 Bankier! Bankier!  continuou ele a chamar.
	Foi, ento, interceptado por um jovem Oberscharfhrer SS, um tcnico de Lublin em cargas ferrovirias. Ele pediu para ver o passe de Schindler. Oskar viu na mo do SS uma lista enorme  pginas e pginas cheias de nomes.
 Meus empregados  disse Schindler.  Trabalhadores essenciais
Pg. 119
 na minha indstria. O meu gerente de vendas.  uma idiotice. Tenho contratos com a Inspetoria de Armamentos e vocs esto levando o pessoal de que preciso para cumprir esses contratos. 
	 No pode retir-los daqui  respondeu o SS.  Eles esto na lista...  O SS sabia que a lista implicava o mesmo destino a todos os seus componentes.
Oskar baixou a voz, adotando o sussurro spero de um homem moderado, bem relacionado, que no estava ainda disposto a lanar mo de todos os seus trunfos. Por acaso Herr Oberscharfhrer sabia quanto tempo levaria para treinar pessoal especializado, em substituio aos da lista?
 Na minha Deutsche Email Fabrik, tenho uma seo de munies sob a proteo especial do General Schindler, meu homnimo. No somente os camaradas do Oberscharfhrer na frente russa sero afetados pelo prejuzo da produo, mas tambm o escritrio da Inspetoria de Armamentos na certa vai exigir explicaes.
O rapaz abanou a cabea  era apenas um exausto encarregado da operao de embarque.
 J ouvi antes esse tipo de histria.
Estava, porm, preocupado. Oskar o percebeu e continuou debruado sobre ele, inserindo uma ameaa em seu tom suave.
 No tem sentido continuar discutindo sobre a lista. Onde est o seu oficial superior?
O rapaz apontou com a cabea um oficial da SS, um homem de uns trinta anos, de testa franzida acima dos culos.
 Quer me dar o seu nome, Herr Untersturmfhrer?  pediu Oskar, j tirando do bolso um bloco de apontamentos.
O oficial tambm declarou que a lista era intocvel. Para ele, era o nico processo seguro, racional, para toda aquela triturao de judeus e movimento de vages. Mas Schindler agora estava mais incisivo. J sabia a respeito da lista, disse ele. O que tinha perguntado era o nome do Untersturmfhrer. Sua inteno era apelar diretamente para o Oberfhrer Schener e para o General Schindler, da inspetoria de Armamentos.
 Schindler?  perguntou o oficial. Pela primeira vez olhou com mais ateno para Oskar. O homem estava vestido como um magnata, usava a insgnia certa, tinha generais na famlia.
 Creio que posso lhe garantir, Herr Untersturmfhrer  continuou Oskar com voz macia , que dentro de uma semana o senhor estar no sul da Rssia.
Com o NCO seguindo na frente, Herr Schindler e o oficial caminharam lado a lado entre as fileiras de prisioneiros e junto aos vages lotados. 
Pg. 120
A locomotiva j estava soltando vapor e o engenheiro debruado para fora da cabine, olhando,  espera da ordem de partida. O oficial ordenou aos funcionrios do Ostbahn na plataforma que esperassem- Por fim, chegaram a um dos ltimos vages da composio. Havia ali uma dzia de trabalhadores com Bankier; tinham todos entrado juntos no vago, como se estivessem  espera de uma libertao em conjunto. A porta foi destrancada e eles saltaram para fora  Bankier e Frankel, do escritrio; Reich, Leser e os outros, da fbrica. Mostraram-se comedidos, no querendo permitir a ningum ver a sua alegria por terem sido salvos daquela viagem. Os que tinham ficado dentro do vago demonstraram satisfao, como se fosse uma sorte para eles viajar com mais espao, enquanto que, com enfticos riscos de caneta, o oficial eliminava da lista, um a um, os nomes dos empregados da Emalia e solicitava a rubrica de Oskar em cada pgina.
Depois de Schindler ter agradecido e se voltado para seguir seus empregados, o oficial deteve-o pela manga do casaco.
 Herr Schindler, quero que compreenda que para ns  indiferente. No nos importamos se  esta ou aquela dzia de gente.
O oficial, que estivera de sobrolho cerrado, quando Oskar o vira pela primeira vez, agora parecia calmo, como se houvesse descoberto o teorema por trs da situao. Acha que os seus treze mseros funileiros so importantes? Ns os substituiremos por outros mseros treze e todo o seu sentimentalismo por causa deles ruir por terra. 
 inconvenincia para a lista, apenas isso  explicou o oficial. O baixote e rotundo Bankier admitiu que o grupo todo no se tinha dado ao trabalho de ir buscar as Blauscheins no velho Banco de Poupana Polons. Schindler, subitamente irado, mandou que eles tomassem as providncias necessrias. Mas o que a sua irritao escondia era a consternao de ver toda aquela gente que, por falta de uma etiqueta azul, estava ali na Prokocim, esperando pelo novo e decisivo smbolo de seu status, o vago de gado, para ser puxado pela pesada locomotiva atravs da amplitude de sua viso. Era como se os vages lhes dissessem: agora vocs todos so gado.
      Pg. 121 
     Captulo 15 
       Nos rostos dos seus prprios empregados, Oskar podia ler algo do tormento do gueto. L, uma pessoa no tinha tempo para respirar, espao para se abrigar, no podia fazer valer seus hbitos ou praticar rituais de famlia. Muitos retraam-se e encontravam uma espcie de conforto suspeitando de todos os outros  das pessoas que compartilhavam seus cmodos tanto quanto do OD na rua. Mas o fato era que nem os mais equilibrados tinham certeza de em quem confiar. Cada morador", escreveu um jovem artista sobre as casas no gueto, "tem o seu prprio mundo de segredos e mistrios." Crianas de repente se calavam, ao ouvir um estalido nas escadas. Adultos acordavam sobressaltados com pesadelos de exlio, de desapropriao,  e se viam exilados e desapropriados numa sala repleta em Podgrze  os mesmos eventos de seus pesadelos, o prprio gosto do medo de seus pesadelos, encontrando continuidade nos pavores do dia. Rumores horripilantes perseguiam-nos em seus quartos, nas ruas, no local de trabalho. Spira tinha outra lista que era duas ou trs vezes mais longa do que a ltima. Todas as crianas seriam mandadas para Tarnow para serem fuziladas, Stutthof para serem afogadas, Breslau para serem doutrinadas, desarraigadas, operadas. Voc tem algum parente idoso? Eles esto enviando todos acima de cinqenta anos para as minas de sal de Wieliczka. Para trabalhar? No, para serem trancafiados em cmaras em desuso.
Todos esses boatos, muitos dos quais Oskar tinha ouvido, se propagavam muito rapidamente impulsionados pelo instinto humano de impedir o mal expressando-o atravs de palavras, tentando interceptar os destinos, mostrando aos algozes que se podia ter tanta imaginao quanto eles. Mas naquele ms de junho, todos os piores pesadelos e
Pg. 122
boatos adquiriram uma forma concreta e os rumores mais inimaginveis transformaram-se em cruel realidade.
Ao sul do gueto, alm da Rua Rekawka, havia pastagens montanhosas, lugar ermo como os espaos vazios do cerco de uma cidade sitiada como se v em pinturas medievais, permitindo descortinar a muralha sul do gueto.  medida que se percorria a cavalo a crista das colinas, o mapa do gueto ia-se delineando, de Mancira que era possvel ver o que se passava nas ruas abaixo.
Schindler havia notado essa particularidade do local quando na primavera sara a cavalo com Ingrid. Agora, chocado com o que vira no posto de Prokocim, decidiu repetir o passeio. Na manh seguinte ao resgate de Bankier, alugou cavalos numa estrebaria no Parque Bednarskiego. Ele e Ingrid estavam impecavelmente vestidos, com longos casacos fendidos nas costas, calas de montaria e botas reluzentes. Dois Sudeten louros, espiando do alto o alvoroado formigueiro do gueto.
Atravessaram bosques e, num rpido galope, percorreram campinas. Das suas selas podiam ver agora, na Rua Wegierska, uma multido aglomerada na esquina do hospital e, logo adiante, um esquadro da SS agindo com ces, entrando nas casas, as famlias despejadas para a rua, envergando capotes apesar do calor, na antecipao de uma ausncia prolongada. Ingrid e Oskar estacaram as montarias  sombra de rvores e observaram a cena, comeando a notar os pormenores de toda aquela movimentao. Os OD armados de cassetetes trabalhavam com os SS. Alguns membros daquela polcia judaica pareciam muito animados, pois em poucos minutos, l do alto da colina, Oskar via trs mulheres relutantes serem espancadas nos ombros. A princpio, ele sentiu uma clera ingnua. Os SS estavam usando judeus para espancar judeus. Contido, no decorrer do dia se convenceu de que alguns dos OD espancavam seus patrcios para salv-los de coisas piores. E, de qualquer Mancira, havia um novo regulamento para o OD: se deixasse de despejar uma famlia, a sua prpria famlia seria despejada.
Schindler notou tambm que na Rua Megierska estavam constantemente se formando duas filas. Uma estacionria; a outra,  medida que ia se alongando, era conduzida em segmentos e, depois de dobrar a esquina da Rua Jozefinska, desaparecia de vista. No era difcil interpretar essa movimentao, pois Schindler e Ingrid, escondidos pelos pinheiros e tendo-se colocado acima do gueto, estavam a uma distncia de apenas uns dois ou trs curtos quarteires, de onde se desenrolava a Aktion.
As pessoas eram enxotadas dos apartamentos, separadas  fora em duas filas, sem serem levados em considerao os laos de famlia. Filhas adolescentes, com os papis em ordem, iam para a fila esttica, 
Pg. 123
gritando para suas mes mais idosas colocadas na outra fila. Um trabalhador de turno noturno, ainda meio estonteado por lhe terem perturbado o sono, foi conduzido para uma fila, enquanto a mulher e a filhinha iam para outra.
No meio da rua, o rapaz discutia com um policial OD. Estava dizendo: "Dane-se a Blauschein! Quero ir com Eva e minha filha."
Um SS armado interveio. Em contraste com a massa annima de Ghettomenschen, o militar, com seu uniforme de vero muito bem-passado, parecia soberbamente alimentado e disposto. E da colina, podia-se ver o reflexo do leo em sua pistola automtica. O SS desfechou um golpe na orelha do judeu e ps-se a falar com ele aos berros. Schindler, ainda que no pudesse ouvi-lo, tinha certeza de que eram frases que ouvira antes, na Estao de Prokocim. "No faz a menor diferena para mim. Se quer acompanhar a sua nojenta prostituta judia, pode ir!" O rapaz foi levado de uma fila para a outra. Schindler viu-o correr e ir abraar a mulher; aproveitando a confuso causada por aquele ato de lealdade conjugal, outra mulher esgueirou-se para dentro de uma porta, e no foi vista pelo Sonderkommando SS.
Oskar e Ingrid viraram seus cavalos, cruzaram uma avenida deserta e chegaram a uma plataforma de pedra que ficava bem defronte da Rua Krakusa. Mais de perto, essa rua parecia menos turbulenta do que a Wegierska. Uma fila de mulheres e crianas, no to extensa, estava sendo conduzida em direo  Rua Piwna. Um guarda caminhava na frente, outro fechava a fila. Havia um desequilbrio na composio: muito mais crianas em relao s poucas mulheres da fila que poderiam ser suas mes. No final, caminhando com passinhos titubeantes, como que aprendendo a andar, uma criana, menino ou menina, vestida com um casaquinho e gorro encarnados. O que atraiu a ateno de Schindler foi que na cor estava implcita uma afirmao, da mesma forma que na discusso do trabalhador do turno da noite na Rua Wegierska. A afirmao tinha a ver, naturalmente, com uma paixo pelo vermelho.
Schindler consultou Ingrid. Era certamente uma meninazinha, explicou ela. Meninas se deixavam obcecar por uma cor, sobretudo uma cor viva como o vermelho.
Enquanto eles observavam a cena, um Waffen SS, no final da coluna, de vez em quando estendia a mo para corrigir a direo daquela mancha encarnada. O gesto no era violento  ele poderia ter sido um irmo mais velho. Se os seus superiores lhe houvessem dito que procurasse apaziguar a preocupao sentimental dos civis, no poderia ter agido melhor. Assim a ansiedade moral dos dois cavaleiros no Parque Bedmarskiego abrandou irrefletidamente por uns poucos segundos.
Pg. 124
Mas a impresso reconfortante foi breve. A certa distncia da coluna de mulheres e crianas, que se afastavam, e que a garotinha de vermelho fazia serpentear, turmas da SS com ces agiam de cada lado da rua.
Eles invadiam os apartamentos ftidos; como sinal evidente da sua pressa, uma valise voou da janela de um segundo andar e se escancarou na calada. E correndo na frente dos ces, homens, mulheres e crianas, que se haviam escondido em stos e armrios, dentro de cmodas sem gavetas, os evadidos da primeira onda da busca, saam para a calada, gritando, ofegantes de pavor dos ferozes ces dobermanns.Tudo parecia se passar em grande velocidade e era quase impossvel acompanhar com os olhos do alto da colina aquela movimentao. Os que emergiam eram fuzilados, onde tinham parado na calada, projetados no ar com o impacto das balas, espirrando sangue nos bueiros. Uma me e seu filho, talvez de uns oito anos, talvez de uns dez subnutridos, tinham-se abrigado sob o peitoril de uma janela no lado esquerdo da Rua Krakusa. Schindler sentiu um medo intolervel por eles, um tal terror em seu prprio sangue que lhe afrouxou as pernas na sela e quase o derrubou do cavalo. Olhou para Ingrid e viu que as mos dela apertavam com fora as rdeas. Podia ouvi-la a seu lado, protestando e suplicando.
Os olhos de Schindler agora se fixaram na garotinha de vermelho da Rua Krakusa. A cena se passava a uma distncia de meio quarteiro dela; no tinham esperado que a coluna dobrasse a esquina e seguisse pela Rua Jozefinska. A princpio, Schindler duvidara das intenes daqueles assassinos. Mas, agora, ali estava a prova flagrante, que ningum poderia ignorar, de quais eram as suas intenes. Quando a menina de vermelho parou de seguir sua coluna e voltou-se para olhar, eles acertaram um tiro no pescoo da mulher. O menino soluante deixou-se escorregar junto  parede; um SS ento firmou-lhe a cabea com a bota, encostou-lhe o cano do revlver na nuca  postura recomendada pela SS  e disparou o tiro.
	Oskar tornou a olhar para a garotinha de vermelho. Ela se voltara e vira a bota calcar o pescoo do menino. J se fizera um espao entre ela e o penltimo da coluna. De novo o guarda SS encaminhou-a fraternalmente para a coluna, dando-lhe nas costas um pequeno empurro. Schindler no podia compreender por que ele no a golpeara com o cano de sua espingarda, j que na outra extremidade da Rua Krakusa a compaixo era inexistente.
Por fim, Schindler deixou-se escorregar do cavalo, tropeou e caiu de joelhos abraado ao tronco de um pinheiro. Sentiu que precisava conter a nsia de vomitar o seu excelente caf de manh, pois suspeitava
Pg. 125
que o seu corpo instintivamente procurava abrir espao para digerir os horrores da Rua Krakusa.
A infmia de homens nascidos de mulheres e que tinham de escrever cartas para suas famlias (o que diziam nessas cartas?) no era o pior aspecto do que Schindler presenciara. Sabia que eles no tinham vergonha alguma do que estavam fazendo, pois o guarda na retaguarda da coluna no vira necessidade de impedir a garotinha de vermelho de assistir a toda a cena. Mas o pior era que, se no havia a menor vergonha, isso significava sano oficial. Ningum mais podia encontrar segurana na idia de cultura alem, nem nos pronunciamentos de lderes, que condenavam homens annimos por terem ultrapassado seus limites, ou por olharem pelas janelas de seus escritrios para a realidade na rua. Oskar tinha visto na Rua Krakusa uma prova da poltica de seu governo, que no podia ser justificada como uma aberrao temporria. Acreditava que os SS estavam cumprindo as ordens de seu lder pois, do contrrio, o colega na retaguarda da coluna no teria deixado uma criana assistir  cena.
Mais tarde, nesse dia, depois de ter ingerido uma dose de conhaque, Oskar compreendeu o teorema em seus termos mais claros. Eles permitiam testemunhas, testemunhas tais como a garotinha de vermelho, porque julgavam que as testemunhas iam todas tambm perecer. 
Na esquina da Plac Zgody (Praa da Paz) ficava a Apotheke de Ta deus Pankiewicz. Era uma farmcia no estilo antigo: nforas de por celana com letreiros de nomes em latim de velhos remdios e umas poucas centenas de delicadas gavetinhas muito lustradas escondiam dos habitantes de Podgrze a complexidade de sua farmacopia. O farmacutico Pankiewicz vivia no andar de cima da farmcia por permisso das autoridades e a pedido dos mdicos das clnicas do gueto. Era o nico polons com licena para permanecer dentro dos muros do gueto. Homem calmo, de quarenta e poucos anos, possua interesses intelectuais: o impressionista polons Abraham Neumann, o compositor Mordche Gebirtig, o filsofo Leon Steinberg e o cientista e filsofo Dr. Rappaport eram todos visitas assduas de Pankiewicz. A casa era tambm um elo, uma caixa de correio para informaes e mensagens entre o Organizao Judaica de Combate (ZOB) e os combatentes do Exrcito do Povo Polons. O jovem Dolek Liebeskind, Shimon e Gusta Dranger, organizadores da ZOB de Cracvia, s vezes apareciam ali, porm sempre discretamente. Era importante no comprometer Tadeus Pankiewicz com seus planos que  ao contrrio da poltica de cooperao do Judenrat  implicava uma vigorosa e inequvoca resistncia.
Pg. 126
A praa defronte da farmcia de Pankiewicz tornou-se naqueles primeiros dias de junho um ptio de concentrao. "Era indescritvel", repetia sempre mais tarde Pankiewicz, referindo-se  Praa da Paz. No centro da praa as pessoas eram reclassificadas e recebiam ordem de deixar para trs suas bagagens. "No, no, vamos remet-las a todos vocs!" Contra o muro no lado direito da praa, aqueles que resistiam e aqueles que eram descobertos, levando nos bolsos qualquer documento ariano forjado, eram fuzilados, sem nenhuma explicao ou desculpa s pessoas arregimentadas no centro. O estarrecedor estampido dos fuzis fraturava conversas e esperanas. Contudo, apesar dos gritos e choro dos parentes das vtimas, algumas pessoas  chocadas ou desesperadamente concentradas em se manter com vida  pareciam quase no notar o monto de cadveres. Quando surgiam os caminhes e os mortos eram jogados na carroceria pelos destacamentos de judeus, os que tinham restado na praa imediatamente recomeavam a falar de seus futuros. E Pankiewicz ento tornava a ouvir o que estivera ouvindo o dia inteiro dos NCO da SS: "Posso lhe afirmar, minha senhora, que vocs, judeus, vo trabalhar. Acha que estamos em condies de desperdiar tanta mo-de-obra?" O desejo desesperado de acreditar se estampava nos rostos daquelas mulheres. E os soldados rasos da SS que tinham acabado de efetuar as execues contra o muro, caminhavam por entre a multido e aconselhavam s pessoas a colocar etiquetas em suas bagagens.
De Bednarskiego, Oskar Schindler no conseguira avistar a Praa Zgody. Mas tanto Pankiewicz na praa, como Schindler na colina jamais testemunharam um horror to frio. Como Oskar, Pankiewicz sentiu nuseas; seus ouvidos estavam cheios de um silncio irreal, como se ele houvesse levado uma pancada na cabea. Sentia-se to confuso com os rudos e a selvageria que no notou entre os mortos da praa os seus amigos Gebirtg, compositor de canes famosas, e o suave artista Neumann. Mdicos comearam a invadir a farmcia, ofegantes, tendo percorrido correndo os dois quarteires que separavam a farmcia do hospital. Queriam bandagens  tinham estado arrastando das ruas os feridos. Um mdico entrou, pedindo emticos, pois na multido havia umas doze pessoas sufocadas ou letrgicas por terem ingerido cianureto. Um engenheiro conhecido de Pankiewicz tinha colocado uma daquelas plulas na boca, aproveitando um momento de distrao de sua mulher.
O jovem Dr. Idek Schindel, que trabalhava no hospital do gueto na esquina da Rua Wegierska, ouviu uma mulher gritar histericamente que as crianas estavam sendo levadas. Ela as vira enfileiradas na Rua Krakusa, e entre elas Genia. Schindel deixara Genia nessa manh com vizinhos 
Pg. 127
 ele era o seu guardio no gueto, pois os pais dela continuavam no campo, tencionando esgueirar-se de volta para dentro do gueto at aquele momento considerado menos perigoso. Nessa manh, Genia, sempre independente, tinha-se afastado da mulher encarregada de olh-la e retornado  casa onde morava com o seu tio. L, os SS a tinham prendido. Fora assim que Oskar Schindler, do alto da colina, tinha notado a presena de Genia, sem ningum a acompanhando, na coluna da Rua Krakusa.
Despindo seu jaleco de cirurgio, o Dr. Schindel correu para a praa e quase imediatamente viu sua sobrinha, sentada na grama, cercada por uma parede de guardas e afetando tranquilidade. O Dr. Schindel sabia que aquela calma era fingida por ter muitas vezes levantado durante as noites para acalmar os terrores de Genia.
Contornou a periferia da praa, e ela o viu. "No me chame", queria ele dizer. "Vou dar um jeito." Procurava evitar uma cena, que acabaria mal para ambos. Mas no precisava se preocupar, pois no se notava na expresso dos olhos da criana indcio algum de t-lo reconhecido. Deteve-se, assombrado com a admirvel astcia da meninazinha. Aos trs anos de idade, ela sabia bem que no devia recorrer ao consolo imediato de gritar por um tio. Sabia que no havia salvao alguma, se atrasse a ateno dos SS sobre tio Idek.
Ele estava compondo mentalmente o discurso que tencionava fazer para o troncudo Oberscharfhrer postado junto ao muro de execuo. No convinha abordar as autoridades com muita humildade ou atravs de algum subalterno. Tornando a olhar para Genia, viu nos seus olhos uma ligeira piscadela; ento, com enorme sangue-frio, ela passou entre dois guardas a seu lado, varando o cordo de isolamento. Afastou-se com uma lentido to exasperante que, naturalmente, galvanizou o olhar de seu tio. Mais tarde, cerrando os olhos, freqentemente ele via a imagem de Genia passando por entre a floresta de botas reluzentes dos SS. Na Praa Zgody ningum a viu. Ela manteve o seu passinho, meio titubeante meio brejeiro, em todo o percurso at a farmcia de Pankiewicz e dobrou a esquina. O Dr. Schindel reprimiu o impulso de bater palmas: ainda que aquela proeza merecesse uma platia, seria pela sua prpria natureza destruda pelos espectadores.
Idek sentiu que no podia ir diretamente atrs da sobrinha sob pena de despertar a ateno para a faanha dela. Contendo seu impulso natural, ele acreditou que o instinto que a tinha feito escapulir da Praa Zgody a levaria a encontrar um esconderijo. Assim, retornou ao hospital por outro caminho.
Genia voltou ao quarto da frente na Rua Krakusa, que partilhava com o tio. A rua agora estava deserta; se uns poucos judeus ainda ali
Pg. 128
se achavam, seja por um ardil ou por paredes falsas, no davam demonstrao de sua presena. Ela entrou na casa e escondeu-se debaixo da cama. Da esquina da rua, Idek, voltando a casa, viu os SS, numa ltima busca, baterem na porta. Mas Genia no respondeu. Nem responderia ao tio, quando ele prprio chegou. Mas ele sabia onde pro-curar, na fresta entre a cortina e o caixilho da janela; viu, ento,reluzindo na esqualidez do quarto, a botinha vermelha sob a bainha da colcha da cama.
quela hora, naturalmente, Schindler j tinha devolvido o cavalo  estrebaria. No estava na colina para assistir ao pequeno, porm significativo, triunfo da volta da garotinha de vermelho ao local de onde antes havia sido retirada pelos SS. J se achava no seu gabinete na DEF, fechado a chave, sem coragem de contar o ocorrido ao turno do dia. Bem mais tarde, em termos nada caractersticos do jovial Herr Schindler, o conviva predileto das festas de Cracvia, o perdulrio de Zablocie, isto , em termos que revelavam  por trs da fachada de playboy  um juiz implacvel, Oskar tomou naquele dia uma deciso da qual no mais se afastaria. "A partir daquele dia", diria ele mais tarde, "ningum, com capacidade de raciocinar, poderia deixar de ver o que iria acontecer. E agora eu estava resolvido a fazer tudo em meu poder para derrotar o sistema."  
Pg. 129 
Captulo 16 
ASS prosseguiu com suas atividades no gueto at a noite de sbado. Operava com aquela eficincia que Oskar tivera ocasio de observar nas execues da Rua Krakusa. Era difcil predizer as suas investidas e as pessoas que escaparam na sexta-feira eram apanhadas no sbado. Genia sobreviveu  semana, graas ao seu talento precoce de manter o silncio e de, vestida de vermelho, ser imperceptvel.
Em Zablocie, Schindler no ousava acreditar que a garotinha de vermelho havia sobrevivido aos mtodos da Aktion. Atravs de Toffel e outros conhecidos da central de polcia na Rua Pomorska, ele soube que 7.000 pessoas haviam sido postas para fora do gueto. Um funcionrio da Gestapo no Escritrio de Questes Judaicas estava radiante de poder confirmar a limpeza". Entre os burocratas da Rua Pomorska, a Aktion de junho foi considerada um sucesso.
Oskar agora pesquisava com mais preciso a respeito dessa espcie de informaes. Sabia, por exemplo, que a Aktion estivera sob a superviso geral de um certo Wilhelm Kunde mas fora chefiada pelo Obersturmfhrer SS Otto von Mallotke. Oskar no mantinha nenhum dossi mas estava se preparando para outra ocasio, em que faria um relatrio completo para Canaris ou para o mundo inteiro. Por enquanto, ele investigava fatos que no passado tinha classificado como demncias temporrias. Conseguia suas informaes exatas no s atravs de contatos com a polcia mas tambm de judeus esclarecidos como Stern. As informaes vindas de outros locais da Polnia chegavam ao gueto geralmente atravs da farmcia de Pankiewicz ou transmiti-das por membros do Exrcito do Povo. Dolek Liebeskind, lder do Grupo de Resistncia Akiva Halutz, tambm trazia notcias de outros guetos, em virtude do seu cargo de oficial itinerante no Auto-Auxlio
Pg. 130
Comunitrio Judaico, uma organizao cujo funcionamento os alemes  de olho na Cruz Vermelha  permitiam.
De nada adiantava transmitir ao Judenrat esses dados. O Conselho do Judenrat no considerava aconselhvel, do ponto de vista civil,informar os habitantes do gueto sobre os campos. As pessoas certamente se apavorariam; haveria desordens nas ruas, as quais no ficariam sem punio. Era sempre melhor que aquela gente s ouvisse boatos no-confirmados, presumisse que se tratava de exageros e conservasse suas esperanas. Essa tinha sido a atitude da maioria dos conselheiros judeus, mesmo sob a direo do honesto Artur Rosenzweig. Mas Rosenzweig no estava mais l. O caixeiro-viajante David Gutter,ajudado pelo seu sobrenome germnico, logo seria nomeado presidente do Judenrat. Raes de alimentos eram agora desviadas no apenas por membros da SS mas tambm por Gutter e seus novos conselheiros, cujo vicrio nas ruas era Symche Spira com suas botas altas. O Judenrat, portanto, no tinha mais interesse algum em informar os habitantes do gueto sobre os seus provveis destinos, j que estavam confiantes de que eles prprios no estariam includos nas listas fatdicas.
O incio da elucidao para o gueto e do recebimento de informaes positivas por Oskar foi a volta a Cracvia (oito dias depois de ter sido embarcado na Estao do Prokocim) do jovem farmacutico Bachner. Ningum sabia como Bachner conseguira retomar ao gueto ou compreendia o mistrio de ele ter voltado a um local do qual a SS simplesmente o obrigaria a uma outra jornada. Mas era, naturalmente, o desejo de se ver entre conhecidos que fizera Bachner voltar.
Em toda a extenso da Rua Lwwska e nas ruas atrs da Praa Zgody, ele ia espalhando a sua histria. Tinha assistido ao horror final. Seu olhar era alucinado e, durante a curta ausncia, seus cabelos tinham embranquecido. Toda a gente de Cracvia que fora arrebanhada em princpios de junho tinha sido levada para o campo de Belzec, prximo  fronteira russa. Quando os trens chegavam na estao ferro viria, as pessoas eram postas para fora dos vages por ucranianos armados de cacetes. Havia no ar um cheiro horrvel mas um SS tinha bondosamente informado que o cheiro provinha do uso de desinfetaotes. As pessoas eram enfileiradas defronte de dois grandes armazns, um marcado VESTIRIO e o outro OBJETOS DE VALOR. Os recm-chegados recebiam ordem de se despirem e um menino judeu passava pelas filas distribuindo pedaos de barbante para que fossem amarrados os pares de sapatos, culos e anis eram recolhidos. Assim, despidos, os prisioneiros em seguida tinham suas cabeas raspadas na barbearia, e eram informados por um NCO SS que seus cabelos eram necessrios para fabricar algo para as tripulaes de submarinos. 
Pg. 131
O cabelo tornaria a crescer, dissera ele, mantendo o mito da perene utilidade dos prisioneiros. Por fim, eram encaminhados por uma passagem ladeada de cercas de arame farpado para casamatas toscas,marcadas com estrelas-de-davi de cobre e os letreiros SALAS DE BANHO E INALAO. Em todo o percurso os SS tranquilizavam suas vtimas, dizendo-lhes que respirassem profundamente, que era um excelente meio de desinfeco. Bachner viu uma meninazinha deixar cair no cho uma pulseira, que um garoto de trs anos apanhou e entrou na casamata brincando com a jia.
Uma vez l dentro, relatou Bachner, foram todos asfixiados com gases venenosos. E, mais tarde, turmas entraram nos recintos para desmanchar a pirmide de corpos e lev-los para serem enterrados. A operao toda levara menos de dois dias, disse Bachner, e todos, exceto ele, estavam mortos. Enquanto esperava em um cercado pela sua vez,ele tinha conseguido esgueirar-se para dentro de uma latrina e entrado na fossa. Ali passara trs dias com excrementos humanos at o pescoo, com o rosto coberto de moscas. Tinha dormido em p, apoiado na parede da fossa, com medo de se afogar. Aproveitando o escuro da noite, escapulira l de dentro.
No sabia bem como conseguira fugir de Belzec, seguindo o leito da estrada de ferro. Todos compreenderam que Bechner pudera escapar precisamente porque estivera em estado de transe. E porque a mo de algum  talvez de uma camponesa  o limpara e lhe dera roupas para a sua jornada de volta ao ponto de partida.
Apesar de tudo, havia pessoas em Cracvia que consideravam a narrativa de Bachner um boato perigoso. De alguns prisioneiros do campo de Auschwitz tinham chegado cartes-postais para parentes. Portanto, o que acontecera em Belzec no podia ser verdade em Auschwitz. E era para acreditar? To escassas eram as raes emocionais do gueto que as pessoas s podiam manter seu equilbrio acreditando numa lgica.
Pelas suas fontes de informao. Schindler descobriu que as cmaras de Belzec tinham sido terminadas em maro daquele ano, sob a superviso de uma firma de engenharia de Hamburgo e engenheiros da SS de Oranienburg. Pelo testemunho de Bachner, ao que parecia, 3.000 matanas por dia eram o clculo da capacidade das cmaras. Crematrios estavam sendo construdos, para o caso de o meio tradicional de dispor de cadveres pudesse provocar um atraso no novo mtodo de extermnio. A mesma companhia em atividade em Belzec instalara facilidades idnticas em Sobibor, tambm no distrito de Lublin. Haviam sido abertas concorrncias e as construes estavam muito avanadas para instalaes similares em Treblinka, perto de Varsvia. 
Pg. 132
E cmaras de gs e fornos se achavam ambos em funcionamento no campo principal de Auschwitz e no vasto campo Auschwitz II, a poucos quilmetros de Birkenau. A Resistncia afirmava que 10 mil assassinatos por dia estavam dentro da capacidade de Auschwitz II. E, para a rea de Lodz, havia o campo em Chelmno, tambm equipado de acordo com a nova tecnologia.
Relatar agora tais ocorrncias  repetir lugares-comuns da Histria. Mas para algum que viesse a saber delas em 1942, v-las desabar sobre sua cabea era um choque fundamental, um tumulto na rea do crebro onde as idias estveis se alojam. Naquele vero, por toda a Europa alguns milhes de pessoas, Oskar entre elas, e tambm os habitantes do gueto de Cracvia, ajustaram tortuosamente as reservas de suas almas  idia de Belzec e outros campos semelhantes nas florestas polonesas.
Naquele vero, Schindler arrematou tambm a massa falida da Rekord e, de acordo com as provises do Tribunal Comercial Polons,adquiriu, numa espcie de leilo pr forma, o ttulo de propriedade da fbrica. Embora os exrcitos alemes tivessem cruzado o Don e estivessem avanando para os campos de petrleo do Cucaso, Oskar previa, pelo que presenciara na Rua Krakusa, que no final a vitria no podia ser deles. Portanto, era uma boa poca para legitimar ao mximo a sua posse da fbrica na Rua Lipowa. E ainda tinha esperana, de um modo quase infantil, de que a Histria no iria levar em considerao a queda do rei perverso, no sentido de anular aquela legitimidade  que na nova era ele continuaria sendo o filho bem-sucedido de Hans Schindler, que chegara a Cracvia proveniente de Zwittau.
Jereth, da fbrica de embalagens, continuava pressionando-o para construir uma cabana  um refgio  no seu terreno baldio. Oskar obteve dos burocratas as necessrias autorizaes. O seu pretexto era um local de repouso para o seu turno da noite. Tinha a madeira para a construo, doada pelo prprio Jereth.
Depois de terminada no outono, a cabana parecia uma frgil e desconfortvel estrutura. As tbuas eram de madeira ainda verde como a de caixotes e davam a impresso de que iriam encolher, quando fossem escurecendo e deixando penetrar a neve por entre suas frestas. Mas durante uma Aktion em outubro foi um abrigo para Jereth e sua mulher, para os operrios da fbrica de embalagens e da de radiadores, e para o turno da noite de Oskar.
O Oskar Schindler, que sai de seu gabinete nas manhs glidas de uma Aktion para falar com o membro da SS, com o auxiliar ucraniano, com a Polcia Azul e com o destacamento da OD, que teriam marchado de Podgrze
Pg. 133
para escoltar o seu turno da noite; o Oskar Schindler que, enquanto toma seu caf, telefona para o escritrio do Wachtmeister Bosko prximo ao gueto e prega uma mentira a respeito da necessidade de seu turno da noite permanecer essa manh na Rua Lipowa  esse Oskar est se comprometendo agora alm dos limites de negcios cautelosos. Os homens influentes que, por duas vezes, o tiraram da priso no poderiam faz-lo indefinidamente, embora Oskar se mostre generoso nos aniversrios deles. Nesse ano, eles estavam mandando homens influentes para Auschwitz. Se eles morrem l, suas vivas recebem um telegrama seco e ingrato do comandante. SEU MARIDO MORREU EM KONZENTRATIONSLAGER AUSCHWITZ.
Bosko era desengonado, mais magro do que Oskar, rspido e, como ele, um tcheco-alemo. Sua famlia, como a de Oskar, era conservadora e adepta dos velhos valores germnicos. Por um breve espao de tempo, ele tinha sentido uma expectativa exaltada de pangermanismo com a subida ao poder de Hitler, exatamente como Beethoven sentira um grande fervor europeu por Napoleo. Em Viena, onde estivera estudando teologia, ele entrara para a SS  em parte como uma alternativa que o desobrigava do recrutamento da Wehrmacht, em parte devido a um evanescente ardor. Arrependia-se agora desse ardor e estava expiando-o mais do que Oskar presumia. S o que Oskar percebia em Bosko era que ele sempre parecia satisfeito em solapar uma Aktion. Era responsvel pelo permetro do gueto e de seu escritrio fora da muralha via a Akion com positivo horror, pois, como Oskar, ele se considerava uma testemunha potencial.
Oskar no sabia que durante a Aktion de outubro Bosko tinha contrabandeado algumas dzias de crianas dentro de caixas de papelo. E tampouco sabia que o Wachtmeister fornecia dezenas de passes para o movimento de resistncia. A Organizao Judaica de Combate (ZOB) era forte em Cracvia. Compunha-se sobretudo de membros de clubes juvenis, especialmente de membros do Akiva  um clube assim nomeado em homenagem ao lendrio Rabino Akiva ben Joseph, um erudito da Mishna. A ZOB era liderada por um casal, Shimon e Gusta Dranger  o dirio dela iria tornar-se um clssico da Resistncia  e por Dolek Liebeskind- Seus membros necessitavam entrar e sair livremente do gueto, levando dinheiro em espcie, documentos forjados e exemplares do jornal da Resistncia. Tinham contatos com o Exrcito Polons do Povo, de tendncia esquerdista, que se abrigava nas florestas nos arredores de Cracvia e que tambm precisava dos documentos que Bosko fornecia. Portanto, os contatos de Bosko com a ZOB e o Exrcito do Povo eram motivo suficiente para enforc-lo; 
Pg. 134 
mas secretamente ele continuava desprezando a si mesmo e prosseguia com a sua participao incompleta nas atividades de salvamento. Pois e Bosko queria salvar a todos, e era o que em breve tentaria, e por causa disso seria morto.                                         
Danka Dresner, prima da Genia de vermelho, tinha quatorze anos e j no possua mais o instinto infantil que levara a sua priminha a escapulir do cordo de isolamento na Praa da Paz. Embora tivesse trabalho como faxineira na base da Luftwaffe a ordem era que, naquele outono, toda mulher com menos de quinze ou mais de trinta anos podia ser levada para um campo de concentrao.
Assim, na manh em que um Sonderkommando SS e grupos da Polcia de Segurana penetraram na Rua Lwwska, a Sra. Dresner levou Danka  Rua Dabrowski, para a casa de uma vizinha que possua uma parede falsa. A vizinha, mulher de trinta e alguns anos, trabalhava num rancho da Gestapo perto do Castelo de Wawel, portanto podia esperar um tratamento privilegiado. Mas seus pais eram idosos, o que constitua automaticamente um risco. Ela ento construra com tijolos, uma cavidade de 60 centmetros, um esconderijo para seus pais, empreendimento dispendioso, pois os tijolos tinham sido contrabandeados para dentro do gueto em carrinhos de mo sob montes de artigos permitidos  trapos, lenha, desinfetantes. S Deus sabia o que lhe tinha custado aquele espao secreto  talvez cinco, talvez dez mil zlotys.
Vrias vezes ela mencionara o abrigo  Sra. Dresner. Se houvesse uma Aktion, a Sra. Dresner podia ir para l com Danka. Portanto, na manh em que Danka e a Sra. Dresner ouviram da esquina da Rua Dabrowski o rudo assustador, o latir de dlmatas e dobermanns, a vociferorao dos Oberscharfhrers nos megafones, as duas se apressaram em ir para a casa da amiga.
Depois de subir as escadas e chegar ao quarto do esconderijo, elas  constataram que o clamor havia provocado uma reao em sua amiga.
 Parece que vai ser muito perigoso  disse a mulher.  Meus pais j esto escondidos l. Posso esconder sua filha, mas voc no...
Danka olhava aturdida para a parede com o papel florido manchado. L dentro, comprimidos entre tijolos, talvez com ratos passeando em seus ps, o nervosismo aumentado pela escurido, se escondiam os pais idosos da mulher.
A Sra. Dresner podia ver que sua amiga estava sendo irracional. 
 A menina, mas no voc  repetia ela, como se pensasse que, se a SS descobrisse a parede falsa, seria menos severa devido ao peso menor de Danka.
A Sra. Dresner explicou que mal podia ser chamada de gorda, que
Pg. 135
a Aktion parecia estar se concentrando naquele lado da Rua Lwwska e que ela no tinha para onde ir. E que caberia ali dentro. Danka era uma menina em quem se podia confiar mas se sentiria mais segura com a me a seu lado. Visivelmente, medindo a parede com os olhos, quatro pessoas podiam muito bem caber na cavidade. Mas disparos a uma distncia de dois quarteires acabaram por obliterar por completo o raciocnio da mulher.
 Posso esconder a menina!  gritou ela.  Mas quero que voc v embora!
A Sra. Dresner voltou-se para Danka e lhe disse que entrasse no esconderijo. Mais tarde Danka no ia compreender como pudera obedecer  me e entrar docilmente no esconderijo. A mulher levou-a ao sto, afastou um tapete do assoalho, depois ergueu um alapo de madeira. Danka desceu ento para o interior da cavidade. No estava escuro l dentro; o casal de velhos acendera um toco de vela. Danka viu-se ao lado de uma mulher  no era sua me mas, sob o odor de roupa usada, havia um protetor cheiro maternal. A mulher deu-lhe um rpido sorriso. O marido estava na outra extremidade, mantendo os olhos fechados, no querendo se deixar perturbar pelos rudos l fora.
Depois de alguns instantes, a mulher fez-lhe sinal de que ela podia sentar-se, se quisesse. Danka ento agachou-se e encontrou uma posio confortvel no cho do abrigo. Nenhum rato veio incomod-la. No ouvia som algum  nem uma s palavra de sua me e da amiga do outro lado da parede. Acima de tudo, sentia-se inesperadamente segura. E com a sensao de segurana veio o desagrado consigo mesma por ter obedecido to docilmente  ordem da me, depois temeu por sua me, pelo que poderia lhe acontecer l fora, no mundo das Aktionen.
A Sra. Dresner no saiu imediatamente da casa. Os SS estavam agora na Rua Dabrowski. Achou que seria melhor continuar ali; se a apanhassem, no causaria prejuzo  sua amiga. Podia at ser que a ajudasse. Se eles tirassem uma mulher daquele quarto, provavelmente ia aumentar-lhes a satisfao de tarefa cumprida, evitar que inspecionassem com mais ateno o estado do papel de parede.
Mas a mulher estava convencida de que ningum iria sobreviver  busca, se a Sra. Dresner permanecesse no quarto; esta, por sua vez, percebia que ningum estaria a salvo, se a mulher continuasse naquele estado de histeria. Assim, levantou-se, calmamente aceitando a sua sorte, e saiu. Eles a encontrariam nas escadas ou na entrada. Por que no na rua? Era um regulamento tcito que os nativos do gueto deviam permanecertrmulos em seus quartos at serem descobertos, que qualquer pessoa descendo escadas era de certa forma culpada de desafio ao sistema.
Pg. 136 
Uma figura de bon impediu-a de sair. Apareceu na entrada, apertando os olhos no corredor escuro para enxergar na fria claridade azulada do ptio ao fundo. Fitando-a, ele a reconheceu; ela tambm o reconheceu. Era um companheiro de seu filho mais velho, mas no se podia ter certeza de que isso tivesse algum valor, no se podia saber o quanto eram pressionados os jovens da OD. O rapaz entrou e aproximou-se dela.
 Pani Dresner  sussurrou ele e apontou para o poo da escada.  Em dez minutos eles tero partido. Fique debaixo da escada.
Depressa!
To docilmente quanto sua filha lhe obedecera, ela fez como o jovem OD lhe ordenara. Agachou-se debaixo das escadas mas sabia que no adiantaria. A claridade outonal do ptio a revelava. Se eles quisessem revistar o ptio ou fossem at a porta do apartamento no final do corredor, no deixariam de v-la. Como tambm ficar de p ou agachada no fazia diferena. Levantou-se. Da porta da frente, o OD insistiu para que ela no sasse dali. Depois ele se foi. Ouviu berros, ordens e splicas, e tudo lhe pareceu estar acontecendo ali ao seu lado.
Por fim, o OD retomou com os outros. Ela ouviu o rudo das botas entrando pela porta da frente. Ouviu-o dizer em alemo que tinha revistado o andar trreo e que no havia ningum em casa. Mas no andar de cima havia quartos ocupados. Era to prosaica a sua conversa com os SS, que pareceu  Sra. Dresner no fazer justia ao perigo a que ele estava se expondo. Estava arriscando sua existncia contando com a probabilidade de os SS, j tendo vasculhado a Rua Lwwska e chegando at aquele trecho da Rua Dabrowski, cometerem o desleixo de no revistar eles prprios o andar trreo, deixando assim de encontrar a Sra. Dresner escondida debaixo dos degraus.
Mas os SS acabaram por aceitar a palavra do jovem OD. Ela os ouviu abrindo e batendo portas no primeiro andar, com as botas pisando forte no assoalho do quarto da cavidade. Ouviu a voz estridente de sua amiga...
  claro que tenho a minha carteira, trabalho no rancho da Gestapo, conheo todos os cavalheiros.
Ouviu-os descer do segundo andar com algum, com mais de uma pessoa; um casal, uma famlia. "Esto me substituindo", pensou. Uma voz masculina meio cansada, com um arfar de bronquite, disse:
 Mas, meus senhores, certamente podemos levar conosco algumas roupas.
E, num tom to indiferente quanto o de um carregador de estao ferroviria dando uma informao de horrio, o SS respondendo-lhe em polons:
Pg.137
 No h necessidade de levar nada. L para onde vocs vo, eles fornecem tudo.
Os rudos recuaram. A Sra. Dresner esperou. No veio uma nova onda. A segunda onda seria amanh ou depois. Agora voltariam semore vasculhando o gueto. O que em junho parecera um horror supre em outubro j se tornara um processo de rotina. E por mais gratido que sentisse pelo jovem OD, ao subir as escadas para ir buscar Danka, ela sabia que quando o assassinato  programado, habitual, uma indstria, como ali em Cracvia, no havia Mancira, mesmo com tentativas hericas, de desviar o rumo devastador do sistema. Os mais ortodoxos do gueto tinham um refro: "Uma hora de vida  ainda vida." O jovem OD lhe dera aquela hora. Ela sabia que ningum mais lhe daria outra.
No quarto, sua amiga estava meio envergonhada.
 A menina pode vir sempre que quiser  disse ela; mas o que queria dar a entender era: "No exclu voc por covardia, mas por prudncia. E meu ponto de vista continua o mesmo. A menina pode ser aceita, voc no."
A Sra. Dresner no discutiu  ela percebia que a atitude da mulher fazia parte da mesma equao que a salvara no andar trreo. Agradeceu  amiga. Talvez Danka precisasse aceitar de novo a sua hospitalidade.
Dali em diante, como no parecesse ter os seus quarenta e dois anos e ainda tivesse boa sade, a Sra. Dresner tentaria sobreviver naquela base  a base econmica, o valor putativo de sua capacidade de trabalho para a Inspetoria de Armamentos ou qualquer outro setor do esforo de guerra. No tinha muita confiana na perspectiva. Naqueles dias, qualquer um com um vislumbre de compreenso j devia saber que a SS acreditava que a morte do judeu era socialmente inapelvel, ultrapassava qualquer valor que ele pudesse ter como um item de trabalho. E a questo era em tal poca: Quem salva Juda Dresner, operria de fbrica? Quem salva Janek Dresner, mecnico na garagem da Wehrmacht Quem salva Danka Dresner, faxineira na Luftwaffe, na manh em que a SS finalmente resolva ignorar-lhes o valor econmica? 
Enquanto o jovem OD estava providenciando a sobrevivncia da Sra. Dresner embaixo da escada na Rua Dabrowski, os sionistas da Juventude Halutz Youth e a ZOB preparavam um ato de resistncia mais concreto. Tinham conseguido uniformes dos Waffen SS e, assim disfarados, adquiriram o direito de visitar o Restaurante Cyganeria reservado  SS na Praa Ducha, defronte do Teatro Slowacki. No 
Pg.138 
Cyganeria eles deixaram uma bomba, que fez voar as mesas pelo telhado, reduziu a  fragmentos sete membros da SS e feriu cerca de quarenta.
Quando Oskar soube do ocorrido, pensou que poderia ter estado l, adulando     algum SS.
Era a inteno deliberada de Shimon e Gusta Dranger e seus com panheiros    agirem contra o tradicional pacifsmo do gueto, convert-lo numa rebelio universal. Colocaram uma bomba no Bagatella Cinema, reservado s para a SS, na Rua Karmelicka. Na escurido de uma rua. Leni Riefenstahl acenou com uma promessa de feminilidade germnica para um soldado desgastado de executar sua tarefa nacional no gueto ou nas ruas cada vez mais perigosas da Cracvia polonesa, e no instante seguinte uma vasta chama amarela o extinguiu.
Nos prximos meses a ZOB iria afundar lanchas de patrulhamento no Vstula, incendiar diversas garagens militares por toda a cidade, providenciar Passierscheins para pessoas que no tinham direito de possu-los, contrabandear fotografias de   passaporte para centros, onde podiam ser usadas para falsificar documentos arianos, descarrilar o elegante trem, de uso exclusivo do Exrcito, que fazia o percurso entre Cracvia e Bochnia, e distribuir o seu jornal clandestino. Iria tambm arranjar para que dois dos auxiliares OD do Chefe Spira, Spitz e Foster, que haviam preparado listas de milhares de prisioneiros, cassem numa emboscada da Gestapo. Era uma variao de um velho truque de estudantes. Um dos membros da ZOB, fazendo-se passar por informante, marcou encontro com dois policiais numa aldeia nas proximidades de Cracvia. Ao mesmo tempo um outro suposto informante avisou  Gestapo que dois lderes do movimento clandestino judaico poderiam ser encontrados num determinado local. Spitz e Forster foram ambos metralhados enquanto fugiam do fogo da Gestapo.
Contudo, o estilo de resistncia para os habitantes de guetos permanecia o mesmo que o de Artur Rosenzweig; quando lhe disseram em junho que fizesse uma lista de milhares de conterrneos seus para serem deportados, colocou o seu prprio nome, o de sua mulher e o da sua filha em primeiro lugar na lista.
Em Zablocie, no terreno baldio nos fundos da Emalia, o Sr. Jereth e Oskar  Schindler estavam prosseguindo com o seu estilo prprio de resistncia, construindo uma segunda caserna.
 Pg.139 
Captulo 17 
Um dentista austraco de nome Sedlacek tinha chegado a Cracvia e estava fazendo perguntas cautelosas sobre Schindler. Viera de trem de Budapeste e trazia consigo uma lista de possveis contatos em Cracvia; numa valise de fundo falso, uma quantidade de zlotys de ocupao, que, como o Governador-Geral Frank abolira as denominaes majoritrias da moeda polonesa, tomava um espao despropositado.
Embora pretendesse fazer ver que estava viajando a negcio, fazia as vezes de correio para uma organizao sionista de resgate em Budapeste.
Ainda no outono de 1942, os sionistas da Palestina e, sobretudo, os vrios  povos do mundo, apenas tinham conhecimento dos rumores que corriam sobre o que estava se passando na Europa. Os primeiros haviam instalado um escritrio em Istambul para captar informaes mais exatas. De um apartamento no bairro de Beyogiu dessa cidade, trs agentes enviavam cartes-postais endereados a cada grupo sionista na Europa germnica. Os cartes diziam: "Por favor, mande me dizer como vai. Eretz est ansiosa por notcias suas." Eretz significava "o mundo" e, para qualquer sionista, Israel. Todos os cartes eram assinados por um dos trs agentes, uma jovem chamada Sarka Mandelblatt, que possua uma conveniente cidadania turca.
Nenhum dos cartes tivera resposta. Isso significava que os destinatrios estavam presos, escondidos nas florestas, em algum campo de trabalho, em um gueto ou mortos. S o que os sionistas de Istambul obtiveram foi uma tenebrosa prova negativa de silncio.
Em fins do outono de 1942, finalmente, eles receberam uma resposta, um carto com uma vista dos Belvaros de Budapeste. A mensagem era:
Pg.140
0 seu interesse pela minha situao  encorajante. Rahamim maher (auxlio urgente)  muito necessrio. Por favor, mantenha-se em contato."
Essa resposta havia sido composta por um joalheiro de Budapeste chamado Samu Springmann, que recebera e conseguira decifrar a mensagem do carto-postal de Sarka Mandelblatt. Samu era um homem franzino, estatura de jquei, trinta e poucos anos. Desde os treze, apesar de uma probidade inalienvel, ele vinha bajulando funcionrios, fazendo favores ao corpo diplomtico, subornando a opressiva Polcia Secreta da Hungria. Agora o grupo de Istambul informou-o de que queria utiliz-lo para canalizar dinheiro para dentro do imprio alemo e, atravs dele, transmitir ao mundo informaes positivas sobre o que estava acontecendo com os judeus europeus.
Na Hungria do General Horthy, aliado dos alemes, Samu Springmann e seus companheiros sionistas viviam to privados quanto os de Istambul de notcias fidedignas sobre o que se passava do outro lado das fronteiras polonesas. Mas ele comeou a recrutar correios que, por uma percentagem sobre a quantia transportada, ou por simples convico, estavam dispostos a penetrar em territrio alemo. Um desses correios era um negociante em pedras preciosas, Erich Popescu, um agente da Polcia Secreta hngara. Outro era um contrabandista de tapetes, Bandi Grosz, que tambm trabalhara para a polcia secreta mas que passara a servir Springmann para expiar o desgosto que tinha causado  sua falecida me. Um terceiro era Rudi Schulz, um arrombador de cofres austraco e agente do Escritrio Administrativo da Gestapo em Stuttgart. Springmann tinha o dom de manobrar agentes duplos tais como Popescu, Grosz e Schulz, apelando para o seu sentimentalismo, a sua ganncia e, acaso os tivessem, os seus princpios.
Alguns dos correios eram idealistas e trabalhavam por premissas firmes.Sedlacek, que no final de 1942 andava fazendo perguntas sobre Schindler, era um deles. Tinha um bem-sucedido consultrio dentrio em Viena e, com quarenta e poucos anos, no necessitava estar transportando valises de fundo falso para a Polnia. Mas ali estava ele, com uma lista no bolso, uma lista que lhe viera de Istambul. E o segundo nome mencionado era o de Oskar!
O que significava que algum  Itzhak Stern, o comerciante Ginter ou o Dr. Alexander Biberstein  tinha enviado o nome de Schindler para os sionistas na Palestina. Sem o saber, Herr Schindler havia sido nomeado para o posto de um justo.
O Dr.Sedlacek tinha um amigo na guarnio militar da Cracvia, um seu cliente e conterrneo vienense. Era o Major Franz Von Korab, da
Pg.141
Wehrmacht. Na sua primeira noite em Cracvia, o dentista encontrou-se com o Major Von  Korab no Hotel Cracvia para tomarem um drinque.Sedlacek tivera um dia melanclico; fora at o cinzento Vstula, donde avistara, na outra margem, o Podgrze, a fria fortaleza de arame farpado e os altos muros construdos com lpides de sepulturas. Uma nuvem de opacidade fora do normal pairava sobre aquele glido dia de inverno e uma chuva fina caa alm do falso porto oriental, onde at os policiais pareciam mseras criaturas. Depois daquela viso, foi com alvio que ele se dirigiu para o hotel, a fm de encontrarse com Von Korab.
Nos subrbios de Viena, sempre haviam circulado rumores de que Von Korab tinha uma av judia. Clientes do dentista mencionavam isso ocasionalmente  no Reich, comentrios sobre a genealogia das pessoas eram to comuns quanto falar sobre o tempo. Em meio a rodadas de bebidas, especulava-se muito seriamente se era verdade que a av de Reinhard Heydrich tinha-se casado com um judeu chamado Suss. Certa vez, contra todas as precaues de bom senso, devido  amizade entre os dois, Von Korab confessara a Sedlacek que, no seu caso, o boato era verdadeiro. A confisso fora uma prova de confiana, que agora no haveria perigo em corresponder. Assim, Sedlacek perguntou ao major sobre os nomes na lista de Istambul.  meno do nome de Schindler, Von Korab respondeu com uma risada indulgente. Conhecia Herr Schindler, j jantara com ele. Fisicamente, era um magnfico tipo de homem, informou o major, e ganhava rios de dinheiro. Muito mais esperto do que fingia ser. Podia telefonar imediatamente a Schindler e marcar uma entrevista com ele.
s dez horas da manh seguinte, eles entraram no escritrio da Emalia. Schindler recebeu polidamente Sedlacek, mas observou o Major Von Korab, estranhando a confiana dele no dentista. Aps algum tempo, Oskar mostrou-se mais amistoso com o estranho e o major se desculpou por no poder ficar para o caf.
 Muito bem  disse Sedlacek, depois da partida de Von Korab.  Vou lhe dizer exatamente o motivo de eu estar aqui.
No mencionou o dinheiro que trouxera consigo, nem a probabilidade de, no futuro, serem entregues a contatos de confiana na Polnia pequenas fortunas provenientes das reservas do Comit Judaico de Partilha. O que o dentista queria saber, independente de qualquer fator financeiro, era o que Herr Schindler sabia e pensava sobre a guerra contra o povo judeu na Polnia.
Uma vez formulada a pergunta deSedlacek, Schindler hesitou. Durante um  instante, Sedlacek pensou que a pergunta iria ficar sem resposta. Em fase de expanso, a oficina de Schindler empregava 550
Pg.142
judeus alugados pela SS. A Inspetoria de Armamentos garantia a um homem como Schindler uma continuidade de contratos substanciais; e a SS prometia-lhe, por uma diria de apenas 7.50 reichmarks por pessoa, uma continuidade de escravos. No seria surpreendente se ele se recostasse na poltrona estofada de couro e afetasse ignorncia.
 Existe um problema, Herr Sedlacek  retorquiu ele.  Seguinte: o que  eles esto fazendo com o povo judeu neste pas  inacreditvel.
 Est querendo dizer  perguntou o Dr.Sedlacek  que receia que os meus superiores no acreditem na sua palavra?
 Eu mesmo mal posso acreditar  disse Schindler; levantando-se, foi at o aparador de bebidas, serviu duas doses de conhaque e estendeu uma ao Dr.Sedlacek. Depois de franzir a testa para uma fatura que apanhara em cima de sua mesa, dirigiu-se para a porta na ponta dos ps e escancarou-a bruscamente, como para apanhar em flagrante algum bisbilhoteiro. Ficou um instante parado na soleira da porta. Sedlacek ouviu-o, ento, falar calmamente em polons com sua secretria a respeito da fatura. Momentos depois, fechando a porta, ele voltou para junto de Sedlacek, sentou-se na sua poltrona detrs da mesa e, aps um prolongado gole de conhaque, comeou a falar.
At mesmo na pequena clula de Sedlacek, seu clube vienense antinazista, no se imaginava que a perseguio aos judeus tornara-se to sistemtica. No somente a histria que Schindler lhe contava era assustadoramente primria em termos morais, como lhe pediam que acreditasse que, em meio de uma batalha desesperada, os nacionalsocialistas empregavam milhares de homens, os recursos de preciosas estradas de ferro, tcnicas de engenharia dispendiosas, uma parcela fatdica dos seus cientistas e pesquisadores, uma vasta burocracia, arsenais inteiros de armas automticas, uma profuso de depsitos de munies, todo esse potencial para um extermnio, que no tinha nenhum objetivo militar ou econmica mas um mero objetivo psicolgico. Dr. Sediacek tinha esperado apenas histrias de horror  fome, restries econmicas, pogroms violentos em uma ou outra cidade, violaes de propriedade  todas as arbitrariedades historicamente habituais.
O sumrio de Oskar dos eventos na Polnia convenceu Sedlacek precisamente por causa do tipo de homem que era o seu informante: um homem que tinha ganho muitos lucros na ocupao abancado no centro de sua prpria colmeia, com um copo de conhaque na mo. Apresentava ao mesmo tempo uma impressionante superfcie calma e uma clera fundamental. Era como um homem que, para seu pesar, descobre que  impossvel deixar de acreditar no pior. Narrava os fatos sobriamente, sem nenhuma tendncia ao exagero.
Pg.143
 Se eu puder conseguir-lhe um visto  disse Sedlacek , est disposto a ir a Budapeste relatar aos meus superiores e a outros o que acaba de me contar?
Schindler pareceu momentaneamente surpreendido.
 Pode escrever um relatrio, Herr Sedlacek  disse ele.  Certamente j  ouviu de outras fontes a espcie de fatos que lhe contei.
Sediacek, porm, respondeu que no; tinha ouvido histrias individuais, detalhes de um ou outro incidente. Mas nenhuma descrio global.
 Venha a Budapeste  insistiuSedlacek.  Mas devo avis-lo de que no ser uma viagem confortvel.
 Est querendo dizer que tenho de atravessar a fronteira a p?
 No, no ser to ruim assim  disse o dentista.  Mas talvez tenha de viajar num trem de carga.
 Eu irei  declarou Oskar Schindler.
O Dr.Sedlacek perguntou sobre os outros nomes da lista de Istambul. No alto da lista, por exemplo, figurava um dentista de Cracvia. Dentistas eram sempre contatos fceis, explicou Sedlacek, j que no havia ningum no mundo que no tivesse pelo menos uma crie bonafide.
 No  avisou Herr Schindler , no procure esse homem. Ele est comprometido com a SS.
Antes de partir de Cracvia e retornar ao Sr. Springmann em Budapeste, o Dr.Sedlacek teve outro encontro com Oskar. No gabinete da DEF, ele lhe entregou quase todo o dinheiro que Springmann o encarregara de levar para a Polnia. Havia sempre um risco, em vista da tendncia hedonista de Schindler, de que ele gastasse a quantia em jias no mercado negro. Mas nem Springmann nem Istambul pediam quaisquer garantias. Ser-lhes-ia de todo impossvel desempenhar o papel de inspetores.
 preciso dizer que Oskar se portou impecavelmente e entregou o dinheiro aos seus contatos na comunidade judaica, para que o usassem de acordo com o que julgassem conveniente.
Mordecai Wulkan que, como a Sra. Dresner, iria mais tarde conhecer Herr Schindler, era joalheiro por profisso. Agora, no final do ano, ele foi visitado em sua casa por um dos OD polticos de Spira. No se tratava de nenhum problema, explicou o OD. Sem dvida, Wulkan tinha uma ficha na polcia. Um ano antes, o OD o apanhara vendendo dinheiro em espcie no mercado negro. Quando ele se recusara a trabalhar como agente do Escritrio de Controle da Moeda, tinha sido espancado pelo SS, e a Sra. Wulkan tivera de ir procurar o Wachtmeister  Beck 
Pg.144
na delegacia da polcia do gueto e pagar um suborno para seu marido ser solto. 
No ms de junho desse ano, ele tinha sido preso, devendo ser transportado para Belzek; mas um OD seu conhecido conseguira retir-lo do ptio da ptima. Como se v, havia sionistas na OD, por menores que fossem as suas chances de vir um dia a conhecer Jerusalm.
O OD que o visitou dessa vez no era de forma alguma um sionista. Disse a Wulkan que a SS necessitava urgentemente de quatro joalheiros. Tinham dado a Symche Spira trs horas para encontr-los. Dessa Mancira Herzog, Friedner, Grner e Wulkan, quatro joalheiros, haviam sido levados  delegacia da OD no gueto e posteriormente encaminhados  antiga Academia Tcnica, agora um armazm para o Escritrio Central de Economia e Administrao da SS.
Era bvio a Wulkan, ao entrar na Academia, que havia l um forte esquema de segurana. Em cada porta estava postado um guarda. No saguo do prdio, um oficial da SS informou aos quatro joalheiros que, se revelassem a algum o que tinham vindo fazer ali, seriam mandados para um campo de trabalhos forados. Acrescentou que eles deviam trazer consigo todos os dias os seus estojos de classificao de diamantes, seus equipamentos para avaliar o quilate de ouro.
Os quatro joalheiros foram conduzidos ao poro. Ao redor, nas paredes, havia prateleiras repletas de malas e pilhas enormes de pastas, cada qual com um nome cuidadosa e futilmente marcado pelo seu ex-dono. Debaixo das janelas altas alinhavam-se caixotes de madeira. Quando os quatro joalheiros se agacharam no cho, dois homens da SS apanharam uma mala, carregaram-na com dificuldade at o meio do poro e a esvaziaram aos ps de Herzog. Depois foram buscar outra na prateleira e despejaram o contedo diante de Grner. Trouxeram uma cascata de ouro para Friedner, e depois para Wulkan. Era ouro velho  anis, broches, braceletes, berloques, lorgnettes piteiras. Os joalheiros teriam que classificar o ouro, separar os folheados dos macios. Diamantes e prolas seriam avaliados. Eles deviam classificar tudo, de acordo com o valor, o peso e o quilate, em montes separados.
A princpio eles sopesaram as peas com hesitao, mas depois puseram-se a trabalhar com mais rapidez, como profissionais competentes que eram.  medida que se formavam as pilhas de ouro e pedrarias, os SS colocavam o material em determinados caixotes. Cada vez que acabavam de encher um caixote, escreviam nele com tinta preta  SS REICHSFHRER BERLIN. O SS Reichsfhrer era o prprio Himmler, em cujo nome eram depositados no Reichsbank os bens confiscados. Havia uma profuso de anis de crianas, e os joalheiros tinham de manter um frio controle racional para no pensar nos ex-donos  infantis.
Pg.145
S uma vez se deixaram perturbar: quando os SS abriram uma valise e de dentro dela caiu um dente de ouro ainda sujo de sangue. Ali, numa pilha junto aos joelhos de Wulkan, estavam representadas as bocas de mil mortos, cada uma parecendo clamar para que o joalheiro se revoltasse, se pusesse de p, atirasse para longe seus instrumentos de trabalho e denunciasse a origem odiosa de todas aquelas preciosidades. Ento, depois de uma pausa, Herzog e Grner, Wulkan e Friedner recomearam a sua tarefa, conscientes agora, naturalmente, do valor radioso do ouro, que porventura houvesse em suas bocas, e temendo que a SS resolvesse fazer uma sondagem nesse sentido.
Durante seis semanas eles trabalharam na classificao dos tesouros da Academia Tcnica. Depois de terminado o trabalho, foram levados para uma garagem em desuso, convertida em um depsito de prataria. Os poos de lubrificao estavam cheios at a borda de prata macia  anis, berloques, bandejas da Pscoa, balanas yad, peitorais, coroas, candelabros. Separaram a prata macia da folheada; pesaram tudo. O oficial da SS encarregado queixou-se de que alguns daqueles objetos eram de acondicionamento difcil. Mordecai Wulkan sugeriu que talvez fosse conveniente fundi-los. Pareceu a Wulkan, embora ele no fosse um homem piedoso, que de certo modo seria melhor, um pequeno triunfo, se o Reich herdasse prata de onde houvesse sido removida a sua forma judaica. Mas, por alguma razo, o oficial SS no aceitou a ideia. Talvez os objeto? se destinassem a algum museu didtico no Reich. Ou talvez o SS apreciasse a beleza artstica da prataria das sinagogas.
Quando terminou esse trabalho de avaliao, Wulkan de novo se viu desempregado. Tinha de sair regularmente do gueto a fim de arranjar comida suficiente para sua famlia, especialmente para sua filha que sofria de bronquite. Trabalhou algum tempo numa fundio em Kazimierz, e ali ficou conhecendo o Oberscharfhrer Gola, um SS moderado. Gola arranjou-lhe um emprego como encarregado da manuteno na caserna da SA perto de Wawel. Quando Wulkan entrou no rancho com suas ferramentas, viu acima da porta a inscrio: FRJUDEN UND HUNDE EINTRITT VERBOTEN (Entrada Proibida a Judeus e Ces). Esse letreiro, e mais os cem mil dentes avaliados na Academia Tcnica, convenceram-no de que, no final, a libertao no poderia vir do favor displicente do Oberscharfhrer. Gola bebia naquele recinto, sem sequer notar o letreiro; tampouco notaria a ausncia da famlia Wulkan no dia em que eles fossem levados para Belzec ou algum outro lugar de igual eficincia. Portanto, Wulkan, como a Sra. Dresner e uns quinze mil outros habitantes do gueto, sabiam que precisavam mesmo era de uma libertao especial e estrondosa. Mas, nem por um momento, acreditavam que essa libertao viria.
Pg.146
Captulo 18 
Dr. Sedlacek tinha avisado que a viagem seria desconfortvel, e assim foi. Oskar viajou agasalhado num bom sobretudo, com uma valise e uma sacola cheia de vrios confortos que, no decorrer da viagem, provaram ser-lhe de grande utilidade. Ainda que estivesse com os devidos documentos para viajar, no queria ter de us-los. Tinha chegado  concluso de que, se no tivesse de apresentlos na fronteira, sempre poderia negar que naquele dezembro tinha viajado para a Hungria.
Fez a viagem num caminho fechado, cheio de pacotes do jornal do Partido, Vlkischer Beobachter, para distribuio na Hungria. Trancado com o cheiro da tinta de impresso e em meio das pesadas letras gticas do jornal oficial da Alemanha, seguiu aos solavancos pelas montanhas cobertas de neve da Eslovquia, cruzando depois a fronteira hngara e descendo para o vale do Danbio.
Fora feita uma reserva para ele no Hotel Pannonia, perto da Universidade. Na tarde de sua chegada, o franzino Samu Springmann e seu companheiro, Dr. Rezso Kastner, foram v-lo. Os dois homens, que subiram ao andar de Schindler pelo elevador, tinham ouvido fragmentos de notcias trazidas por refugiados. Mas refugiados no podiam fornecer muitas informaes. O fato de terem evitado a ameaa significava que pouco sabiam de sua geografia, seu funcionamento interno, quantas pessoas haviam sido atingidas. Kastner e Springmann estavam ansiosos por informaes, pois  a se acreditar em Sedlacek  o alemo Sudeten l em cima ia poder dar-lhes o mapa todo, o primeiro relatrio completo do descalabro polons.
No quarto, as apresentaes foram breves, pois Springmann e Kastner tinham vindo ali para ouvir e podiam notar que Schindler estava
Pg.147
ansioso por falar. Nenhuma providncia foi tomada, naquela cidade obcecada por caf, para formalizar o encontro, telefonando ao servio de copa para mandar servir no quarto caf e bolos. Kastner e Springmann, depois de trocarem um aperto de mo com o enorme alemo, sentaram-se. Mas Schindler ps-se a andar de um lado para outro. Parecia que longe de Cracvia e das realidades do Aktion e do gueto o que sabia perturbava-o mais do que na ocasio em que contara rapidamente as ocorrncias a Sedlacek. Estava agitado. No quarto do andar abaixo poderiam ouvir suas passadas  o lustre teria tremido quando ele batia o p, demonstrando a ao do SS, que comandara o peloto de fuzilamento na Rua Krakusa, o que tinha retido com a bota a cabea de sua vtima, em plena vista da garotinha de vermelho no final da fila.
Comeou sua narrativa com imagens pessoais das crueldades assistidas por ele em Cracvia, o que testemunhara nas ruas ou ouvira de ambos os lados do muro, as palavras dos judeus e da SS. Naquela conexo, informou ele, estava trazendo cartas de habitantes do gueto, do mdico Chaim Hilfstein, do Dr. Leon Salpeter, de Itzhak Stern. A carta do Dr. Hilfstein era um informe sobre a fome.
 Quando desaparece a gordura do corpo  disse Oskar  o crebro  comea a ser destrudo.
Os guetos, contou ele, estavam sendo torturados. E o que acontecia em Cracvia estava acontecendo tambm em Varsvia e Lodz. A populao do gueto de Varsvia fora reduzida em quatro quintos. Lodz em dois teros, Cracvia  metade. Onde estavam as pessoas que tinham sido transferidas? Algumas se achavam em campos de trabalhos forados; mas os cavalheiros ali presentes tinham de aceitar o fato de que, pelo menos trs quintos dessas pessoas haviam desaparecido em campos, que agora utilizavam novos mtodos cientficos. Tais campos no eram incomuns. A SS tinha at um nome oficial para eles  Vernichtungslager  Campo de Extermnio.
Naquelas ltimas semanas, informou Oskar, uns 2.000 habitantes do gueto de Cracvia tinham sido reunidos e enviados no para as cmaras de Belzec, mas para campos de trabalhos forados nas cercanias da cidade. Um campo ficava em Wieliczka, outro em Prokocim, ambos com estaes ferrovirias da linha Ostbahn, que corria para a fronteira russa. De Wieliczka e Prokocim, os prisioneiros marchavam todos os dias para um local na aldeia de Plaszvia, na periferia da cidade, onde estavam sendo preparadas as fundaes para um vasto campo de trabalho. A vida em tal campo, explicou Schindler, no ia ser das mais aprazveis  as casernas de Wieliczka e Prokocim estavam sob o comando de um NCO SS chamado Horst Pilarzik, que adquirira 
Pg.148 
notvel reputao, em junho do ano anterior, quando ajudara a expulsar do gueto cerca de 7.000 pessoas, das quais apenas uma, um farmacutico, tinha retornado. O campo em construo em Plaszvia estaria sob as ordens de um homem do mesmo calibre. O que havia a favor dos campos de trabalho era que lhes faltava o aparato tcnico para o genocdio metdico. Havia um critrio lgico com relao a tais campos: havia razes econmicapara existirem  prisioneiros de Wieliczka e Prokocim eram levados todos os dias para ali trabalharem em vrios projetos. Wieliczka, Prokocim e o campo em construo em Plaszvia estavam sob o controle dos chefes de polcia de Cracvia, Julian Schemer e Rolf Czurda; ao passo que os Vernichtungslagers eram dirigidos pelo Escritrio Central de Administrao e Economia em Oranienburg, perto de Berlim. Os Vernichtungslagers usavam tambm pessoas vivas por algum tempo, para mo-de-obra, mas a sua indstria principal era a morte e seus subprodutos  a reciclagem de roupas, das jias e culos que restassem, de brinquedos e at da pele e cabelo dos mortos.
Em meio s suas explicaes sobre a distino entre campo de extermnio e os de trabalhos forados, Schindler de repente adiantou-se para a porta, escancarou-a e olhou para um e outro lado do corredor deserto.
 Conheo a reputao de bisbilhotice desta cidade  explicou ele. O franzino Springmann levantou-se e foi ter com Oskar.
 O Pannonia no oferece tanto perigo  ponderou ele em voz baixa.  O ninho da Gestapo  o Victoria Hotel.
Schindler examinou mais uma vez o corredor, fechou a porta e foi postar-se junto s janelas, onde continuou seu macabro relatrio. Os campos de trabalhos forados seriam dirigidos por homens nomeados devido  sua severidade e eficincia na limpeza dos guetos. Haveria assassinatos e espancamentos espordicos e certamente corrupes envolvendo alimentos; em consequncia, raes menores para os prisioneiros. Mas isso era prefervel  morte certa dos Vernichtungslagers.Os que estavam em campo de trabalho podiam ter acesso a alguns confortos extras e havia a chance de serem levados para fora, contrabandeados para a Hungria.
 Esses SS so to venais quanto qualquer outra fora policial?
 perguntou um dos dois membros do Comit de salvamento de Budapeste.
 Minha experincia pessoal  retorquiu Oskar  diz que no h um s deles que no possa ser corrompido.
Quando Oskar terminou, fez-se, naturalmente, um longo silncio.
Pg.149
Kastner e Springmann no se espantavam facilmente. Tinham passado a vida inteira sob a intimidao da Polcia Secreta. Suas presentes atividades eram vagamente vigiadas pela polcia hngara, que os deixava em paz somente por causa dos contatos e subornos de Samu, e ao mesmo tempo menosprezados pelos cidados judeus respeitveis. Samuel Stern, por exemplo, presidente do Conselho Judaico, membro do Senado hngaro, iria desconsiderar o relatrio feito por Oskar Schindler nessa tarde como uma fantasia perniciosa, um insulto  cultura alem, um acinte s intenes do Governo hngaro. Aqueles dois estavam habituados a ouvir o pior.
No era tanto o fato de que Kastner e Springmann estivessem acovardados com o testemunho de Oskar, mas suas mentes estavam fazendo clculos dolorosos. Os recursos que possuam pareciam diminutos, agora que sabiam o que tinham pela frente  no apenas um previsvel gigante filistino mas o prprio Beemonte. Talvez j estivessem cogitando que, alm das barganhas individuais  um pouco mais de alimentos para este campo, providncias para salvar este ou aquele intelectual, um suborno para abrandar o ardor profissional de determinado SS , um esquema muito mais amplo de salvamento teria de ser executado por um preo astronmico.
Schindler atirou-se numa poltrona. Samu Sprigmann olhou para o industrial exausto. Disse-lhe, ento, que ambos estavam extremamente impressionados com ele. Evidentemente, iam mandar um relatrio para Istambul a respeito de tudo o que Oskar contara. O relatrio seria usado para impulsionar os sionistas palestinos e o Comit de Distribuio a tomar providncias mais drsticas. Ao mesmo tempo seria transmitido aos governos de Churchill e Roosevelt. Springmann disse que Oskar tinha razo de se preocupar a respeito de as pessoas no acreditarem em suas palavras, pois a realidade era inacreditvel.
 Portanto  disse Samu Springmann  insisto para que v a Istambul e fale diretamente com as pessoas de l.
Aps alguma hesitao  enquanto considerava os seus negcios na fbrica e os perigos de cruzar tantas fronteiras , Schindler concordou.
 Mais para o final do ano  sugeriu Springmann.  Entrementes, quero que mantenha contatos regulares com o Dr. Sedlacek em Cracvia.  Os trs levantaram-se; Oskar pde ver que eles agora eram homens mudados. Agradeceram-lhe e saram, tornando-se simplesmente, ao deixar o hotel, dois pensativos profissionais de Budapeste, que tinham tido informaes de m gerncia em seus negcios.
Nessa noite, Dr. Sedlacek foi buscar Oskar no hotel e conduziu-o pelas ruas movimentadas para jantar no Hotel Gellert. Da sua mesa, 
Pg.150 
eles podiam ver o Danbio, suas barcaas iluminadas, a cidade cintilando do outro lado das guas. Era como uma cidade de antes da guerra e Schindler de novo comeou a sentir-se como um turista. Depois de sua temperana da tarde, ele sorveu o denso vinho tinto hngaro chamado Sangue de Touro, com lenta, obstinada sede, e encarreirou uma fileira de garrafas vazias sobre a mesa.
Quando estavam no meio do jantar, veio ter com eles um jornalista austraco, Dr. Schmidt, que se fizera acompanhar de sua amante,uma linda hngara loura. Schindler elogiou as jias da moa e disselhe que tambm ele era grande apreciador de pedras preciosas. Mas na hora do conhaque de abric, Schindler tornou-se menos amistoso.Calado, de testa franzida, ele ouvia Schmidt discorrer sobre preos de imveis e falar de carros e corridas de cavalo. A moa parecia fascinada com a conversa do amante, j que estava usando no pescoo e nos pulsos os resultados dos seus golpes financeiros. Mas era bvia a inesperada desaprovao de Oskar. Intimamente, o Dr.Sedlacek estava achando graa na reao; talvez Oskar estivesse vendo o episdio como vendo um reflexo de sua prpria ambio, de sua tendncia a tirar vantagem das situaes.
Quando terminou o jantar, Schmidt e a moa saram para alguma boate eSedlacek tratou de levar Oskar para outro local de diverso. Os dois sentaram-se a uma mesa e assistiam ao show, enquanto bebiam grande quantidade de barack.
 Esse Schmidt  comeou Schindler, querendo esclarecer a questo.  Vocs o utilizam?
 Sim.
 Acho que no deviam usar homens como ele  advertiu Oskar.  Trata-se de um ladro.
Dr.Sedlacek virou o rosto para disfarar um meio sorriso.
 Como pode ter a certeza de que ele entrega o dinheiro que lhe  confiado?  perguntou Oskar.
 Deixamos que ele fique com uma percentagem  respondeu Dr.Sedlacek.
Oskar pensou meio minuto; depois murmurou:
 No quero nenhuma maldita percentagem. No quero nem que me seja oferecida.
 Muito bem  disse Sedlacek.
 Agora vamos prestar ateno ao show  sugeriu Oskar. 
Pg.151 
Captulo 19 
Enquanto Oskar Schindler voltava, de Budapeste, onde predissera que o gueto seria fechado, um Untersturmfhrer chamado Amon Goeth estava a caminho de Lublin para realizar aquela liquidao e assumir o comando do resultante Campo de Trabalhos Forados (Zwangsarbeitslager) em Plaszvia. Goeth era uns oito meses mais moo do que Schindler mas partilhava com ele mais do que meramente o ano do nascimento. Como Oskar, ele tinha sido criado na religio catlica e s em 1938 deixara de observar os ritos da Igreja, quando o seu primeiro casamento resultara numa separao. Como Oskar, tinha-se formado no Realgymnasium  engenharia, fsica, matemtica. Portanto, tratando-se de um homem prtico, no era um pensador, embora se considerasse um filsofo.
Nascido em Viena, ele tinha ingressado cedo, em 1930, no Partido Nacionalsocialista. Quando, em 1933, a preocupada Repblica Austraca baniu o partido, Goeth j era membro da Fora de Segurana da SS. Proibido de atuar, ele surgira nas ruas de Viena aps o Anschiuss de 1938 fardado de um oficial subalterno da SS. Em 1940, fora promovido ao posto de Oberscharfhrer e em 1941 alcanou a honra de um posto comissionado, muito mais difcil de se conseguir na SS do que nas unidades da Wehrmacht. Depois de um treinamento em ttca de infantaria, fora encarregado de comandar os Sonderkommandos durante Akonen no populoso gueto de Lublin e, devido  sua atuao, conquistado o direito de liquidar Cracvia.
Assim, o Untersturmfhrer Amon Goeth, viajando no velho trem especial da Wehrmacht entre Lublin e Cracvia, a fim de assumir o comando dos bem-treinados Sonderkommandos, assemelhava-se a Oskar, no apenas quanto ao ano de nascimento,  religio, ao apreo 
Pg.152 
pela bebida mas tambm ao fsico imponente. A fisionomia de Goeth era aberta e afvel, um pouco mais alongada do que a de Schindler.Suas mos, embora grandes e musculosas, tinham dedos afilados. Era sentimental com referncia aos filhos do seu segundo casamento, os quais, devido estar prestando servios no estrangeiro, no vira com muita frequncia nos ltimos trs anos. Como para se compensar, s vezes dava ateno aos filhos de oficiais seus colegas. Podia ser tambm um amante sentimental, mas, embora se assemelhasse a Oskar em termos de sfrego apetite sexual, seus gostos eram menos convencionais, s vezes se manifestando com relao a colegas seus, e frequentemente se satisfazendo em espancar mulheres. Suas duas ex-esposas poderiam ter testemunhado que uma vez esmorecido o calor da paixo, ele podia tomar-se fisicamente abusivo. Considerava a si mesmo um homem sensvel e julgava que a profisso de seus parentes explicava essa tendncia. O pai e o av tinham sido impressores e encadernadores de livros sobre histria econmica e militar e Goeth gostava de identificar-se em documentos oficiais como literat: um homem de letras. E ainda que,naquele momento, ele teria dito que estava ansioso por assumir o controle da operao de liquidao  que essa era a grande chance da sua carreira, provavelmente com a promessa de uma promoo , seu servio em Aes Especiais parecia-lhe ter alterado o curso das suas energias- Havia dois anos que sofria de insnia e, quando lhe era possvel, ficava acordado at trs ou quatro horas da madrugada e dormia at tarde na manh seguinte. Passara a beber desordenadamente e acreditava possuir uma capacidade para ingerir bebidas, que no tivera em sua juventude. E de novo, como Oskar, no sofria as ressacas que merecia, atribuindo isso ao bom funcionamento de seus rins.
Sua comisso, confiando-lhe a tarefa de extino do gueto e comando do campo de Plaszvia, era datada de 12 de fevereiro de 1943.Mas esperava que, depois de se consultar com os NCO seus superiores, com Wilhelm Kunde, comandante do destacamento da SS para o gueto, e com Willi Haase, representante de Scherner, seria possvel comear a limpeza do gueto dentro de um ms aps a data de sua designao para aquelas funes.
O Comandante Goeth foi recebido na Estao Central de Cracvia pelo prprio Kunde e por um rapaz alto da SS, Horst Pilarzik, que estava temporariamente encarregado dos campos de trabalho em Prokocim e Wieliczka. Os trs se instalaram no banco traseiro de um Mercedes e foram levados para uma inspeo do gueto e do local do novo campo. Era um dia de frio intenso, e a neve comeou a cair, quando eles cruzaram a ponte do Vstula. O Untersturmfhrer Goeth gostou do trago de schnapps que Pilarzik lhe ofereceu de um frasco que carregava 
Pg.153 
no bolso. Atravessaram o falso porto oriental e seguiram pelo trilho de bondes da Rua Lwwska, que cortava o gueto em duas glidas pores. O garboso Kunde, que fora agente alfandegrio na vida civil e estava capacitado a prestar informaes aos seus superiores, fez um esclarecido sumrio do gueto. O trecho  esquerda era o Gueto B.Seus habitantes, cerca de uns 2.000, tinham conseguido escapar deAktionen anteriores ou em perodos precedentes j trabalhavam em indstria. Mas, desde ento, haviam sido emitidas novas carteiras de identidade, com iniciais adequadas  W para empregados no Exrcito, Z para empregados de autoridades civis, ou R para trabalhadores de indstrias essenciais. Os habitantes do Gueto B no tinham recebido essas novas carteiras e deviam ser enviados para Sonderbehandiung (Tratamento Especial). Quanto  limpeza do gueto, seria prefervel comear por aquele setor, embora essa deciso ttica dependesse inteiramente de Herr Commandant.
A maior rea do gueto ficava  direita e ainda era habitada por umas 10 mil pessoas. Essas seriam, naturalmente, a fora de trabalho inicial para as fbricas do campo de Plaszvia. Esperava-se que os empresrios e supervisores alemes  Bosch, Madritsch, Beckmann e o Sudetenlander Oskar Schindler  iriam querer transferir todas as suas indstrias, ou uma boa parte delas, para dentro do campo. Havia tambm uma fbrica de cabos condutores a pouco menos de um quilmetro do campo em perspectiva, havendo possibilidade de os trabalhadores serem levados e trazidos de volta todos os dias.
Estaria Herr Commandant, perguntou Kunde, disposto a ir uns poucos quilmetros mais adiante e inspecionar o prprio local do campo?
Ah, sim, tinha replicado Amon, achava aconselhvel uma inspeo.
Portanto, seguiram pela rodovia, onde o ptio da fbrica de cabos, com seus gigantescos carretis cobertos de neve, marcava o comeo da Rua Jerozolimska. Amon Goeth entreviu uns poucos grupos de mulheres curvadas e envoltas em xales, arrastando segmentos de cabanasum painel de parede, um pedao de beiral  pela Rua Jerozolimska acima na direo oposta  estao ferroviria de Cracvia-Plaszvia. Eram mulheres do campo de Prokocim, explicou Pilarzik. Quando o campo de Plaszvia estivesse pronto, Prokocim seria naturalmente dispersado e aquelas trabalhadoras ficariam sob a gerncia do Herr Commandant.
Goeth calculou a distncia que as mulheres teriam de percorrer,carregando os segmentos, em uns trs quartos de quilmetro.
Tudo em ladeira  disse Kunde, abanando a cabea, como
Pg.154 
que querendo dizer que era uma forma satisfatria de disciplina, porm atrasava a construo.
O campo ia precisar de um ramal de estrada de ferro, concluiu o Untersturmfhrer Goeth. Falaria sobre essa necessidade com o Ostbahn.
Depois passaram,  direita, por uma sinagoga e suas construes morturias, e um muro meio rudo deixava ver tmulos, como dentes cruelmente expostos na boca do inverno. Parte do local fora at aquele ms um cemitrio judaico.
 Muito extenso  observou Wilhelm Kunde. O Herr Commandant soltou uma piada, que repetiria durante sua residncia em Plaszvia:
 Eles no precisaro ir muito longe para serem enterrados.
Havia  direita uma casa, que poderia servir como moradia temporria para o comandante, e tambm um grande prdio novo que poderia ser um centro de administrao. O morturio da sinagoga, j parcialmente dinamitado, se tornaria o estbulo do campo. Kunde fez notar que as duas pedreiras dentro da rea podiam ser avistadas dali.Uma ficava no fundo do pequeno vale, a outra na encosta do monte atrs da sinagoga. O comandante podia avistar os trilhos sendo estendidos para as carretas, que seriam usadas no transporte de pedras.Quando o tempo melhorasse, a construo da linha iria prosseguir.
O carro levou-os  extremidade sudeste do campo em perspectiva e, por uma trilha mal perceptvel na neve, que terminava onde antes existira uma trincheira militar austraca, chegaram a um outeiro circular em torno de uma larga e profunda reentrncia. Para um artilheiro teria parecido um importante baluarte, donde um canho podia fazer mira para fogo de enfiada na fronteira russa. Ao Untersturmfhrer Goeth parecia um local adequado para castigos disciplinares.
Dali de cima, a rea do campo podia ser avistada em toda a sua extenso. Era uma rea rural, ornamentada pelo cemitrio judaico e situada entre dois morros. Naquele perodo do inverno, para o observador no outeiro, era como duas pginas de um imenso livro em branco aberto. Uma habitao campestre de pedra cinzenta ficava encravada na entrada para o vale e, mais adiante, ao longo de uma encosta e entre umas poucas casernas j construdas, moviam-se grupos de mulheres, negros como agrupamentos de notas musicais, na estranha luminescncia da neve ao crepsculo. Emergindo das vielas glidas adiante da Rua Jerozolimska, elas avanavam, penosamente acossadas pelos guardas ucranianos, e deixavam cair seus fardos onde os engenheiros SS, de chapu-melo e roupas civis, as ordenavam.
O Untersturmfhrer Goeth observou que o ritmo de trabalho das 
Pg155
mulheres era limitado. Evidentemente, o pessoal do gueto no podia ser transferido para l antes de serem erguidas as casernas e terminadas as cercas e torres de vigia. Aos seus companheiros, ele disse confidencialmente que nada tinha a reparar a respeito do ritmo de trabalho dos prisioneiros no morro mais distante. Na verdade, estava intimamente impressionado que, no final de um dia to cruelmente frio, os SS e ucranianos naquele morro no permitissem que o pensamento da ceia num abrigo quente esmorecesse suas atividades.
Horst Pilarzik assegurou a Goeth que os trabalhos estavam mais adiantados do que pareciam: trechos tinham sido aplainados, funda coes cavadas apesar do frio e uma grande quantidade de sees prfabricadas j haviam sido transportadas da estao ferroviria. Herr Untersturmfhrer iria poder se entrevistar com os empresrios no dia seguinte  j estava providenciada uma reunio para as dez horas da manh. Mas a associao de mtodos modernos com a farta mo-de-obra significava que o campo poderia ficar pronto quase do dia para a noite, se as condies do tempo o permitissem.
Pilarzik parecia acreditar que Goeth estava em grave perigo de desmoralizao. Na realidade, Amon sentia-se muito satisfeito. Pelo que via agora, podia visualizar o acabamento final do campo. Tampouco estava preocupado com cercas. As cercas seriam um conforto moral para os prisioneiros mais do que uma precauo essencial. Pois, uma vez que fosse aplicado ao gueto de Podgrze o processo de liquidao da SS, os judeus ficariam gratos pelas casernas de Plaszvia. Mesmo os que possuam documentos arianos se encaminhariam para dentro do campo, procurando um obscuro beliche sob os tetos cobertos de geada. Para a maioria deles, o arame farpado era necessrio apenas como um apoio moral, para que pudessem assegurar a si mesmos de que eram prisioneiros contra a prpria vontade.
A reunio com os donos de fbricas locais e os Treuhanders se realizou no gabinete de Julian Scherner, em Cracvia, na manh do dia seguinte. Amon Goeth chegou sorrindo fraternalmente e, com sua farda Waffen SS nova, feita sob medida para o seu corpo colossal, pareceu dominar a sala. Estava certo de que os auto-sufcientes sucumbiriam ao seu charme. Ia convencer Bosch, Madritsch e Schindler a transferirem seus empregados judeus para dentro do campo. Alm disso, uma investigao das capacidades disponveis entre os habitantes do gueto o havia ajudado a se convencer de que Plaszvia poderia tornar-se um excelente negcio. Havia joalheiros, estofadores. alfaiates, que poderiam ser usados para transaes especiais sob a direo do comandante, executando encomendas para a SS, a Wehrmacht, a oficialidade 
Pg.156 
alem abastada. Haveria as oficinas de confeco de Madritsch, a fbrica de esmaltados de Schindler, uma metalrgica, uma fbrica de escovas, uma oficina para reciclar uniformes da Wehrmacht usados, rasgados ou manchados na frente russa, uma outra oficina para reciclar roupas de judeus dos guetos e remet-las para o uso de famlias despojadas pelos bombardeios na Alemanha. Sabia, por experincias anteriores com respeito a depsitos de jias e peles da SS em Lublin  quando cada um dos seus superiores e ele prprio recebiam o seu quinho , que podia esperar uma boa percentagem para si mesmo nessas transaes. Tinha chegado a um ponto de sua carreira, em que dever e oportunidade financeira coincidiam. Julian Scherner, o socivel chefe de polcia da SS, durante o jantar na noite anterior, tinha falado a Amon sobre a grande oportunidade que Plaszvia podia representar tanto para o jovem oficial como para ele prprio.
Scherner abriu a reunio com os donos de fbricas. Falou solenemente sobre a "concentrao de mo-de-obra", como se se tratasse de um grande princpio de economia recm-descoberto pela burocracia da SS. Os donos das fbricas disporiam de mo-de-obra in loco, disse Scherner. Toda a manuteno da fbrica no lhes custaria nada, nem haveria aluguel a pagar. Os cavalheiros estavam convidados a ir nessa tarde inspecionar os locais das oficinas no campo de Plaszvia.
O novo comandante foi apresentado aos presentes. Disse estar satisfeito em se associar com os industriais, cujas valiosas contribuies para o esforo de guerra j eram bem conhecidas.
Amon indicou, num mapa da rea do campo, a seo reservada para as fbricas. Era ao lado do campo dos homens; as mulheres  disse ele, com um sorriso muito charmoso  teriam de caminhar um pouco mais, uns cem ou duzentos metros pela encosta abaixo, para chegar s oficinas. Garantiu aos cavalheiros que a sua principal tarefa era supervisionar o bom funcionamento do campo e que no tinha inteno alguma de interferir na gerncia das fbricas ou alterar a autonomia de que gozavam em Cracvia. As ordens que recebera, como o Oberfhrer Scherner poderia atestar, proibiam terminantemente aquela espcie de intruso. Mas o Oberfhrer tinha sido correio ao apontar as vantagens mtuas de transportar uma indstria para dentro do permetro do campo. Os donos das fbricas no teriam de pagar aluguel, e ele, o comandante, no teria de fornecer uma guarda para conduzir os prisioneiros at a cidade e traz-los de volta. Os cavalheiros no podiam deixar de compreender que a extenso da caminhada e a hostilidade dos poloneses contra uma coluna de judeus iria desgastar a capacidade de trabalho dos prisioneiros.
Durante todo o seu discurso, o Comandante Goeth olhava freqentemente 	 
Pg.157 
para Madritsch e Schindler, os dois que ele desejava especialmente conquistar para o seu plano. Sabia que j podia contar com os conhecimentos locais e conselhos de Bosch. Herr Schindler, por exemplo, tinha uma seo de munies, pequena e ainda em estgio de desenvolvimento; porm, se fosse transferida, daria a Plaszvia uma grande respeitabilidade junto  Inspetoria de Armamentos.
Herr Madritsch ouvia de testa franzida, e Herr Schindler observava o orador, com um meio sorriso de aquiescncia. Instintivamente, o Comandante Goeth podia perceber, mesmo antes de terminar o seu discurso, que Madritsch seria razovel e aceitaria a mudana masSchindler iria recusar. Era difcil julgar, por essas diferentes decises, qual dos dois se sentia mais paternal com relao aos seus empregados judeus  Madritsch, que desejava ficar dentro de Plaszvia com eles, ou Schindler, que queria conserv-los a seu lado na Emalia.
Oskar Schindler, com a mesma expresso de impaciente tolerncia no rosto, foi com o grupo inspecionar o local. Plaszvia tinha agora o aspecto de um campo de concentrao  uma melhora nas condies de tempo permitira que as casernas fossem montadas; o degelo do solo tornara possvel cavar as fossas das latrinas e fixar os postes. Uma companhia polonesa de construo tinha instalado quilmetros de cerca no permetro do campo. Grossas torres de vigia iam sendo erigidas na direo de Cracvia e tambm na entrada do vale do lado da Rua Wieliczka, na extremidade do campo; dali, do alto do morro a leste, o grupo oficial,  sombra das fortificaes austracas, observava o trabalho intenso daquela nova criao. Mais para a direita, Oskar notou que mulheres subiam penosamente por atalhos enlameados, arrastando pesadas sees de casernas. Abaixo, desde o fundo do vale e pela encosta acima no outro lado, as casernas eram montadas sobre plataformas por prisioneiros que erguiam paredes, aparafusavam, martelavam com uma energia que, quela distncia, dava a impresso de que trabalhavam de boa vontade.
No trecho melhor, mais plano, do terreno, tinham sido erguidas compridas estruturas de madeira destinadas a ser ocupadas industrialmente. Pisos de cimento podiam ser preparados nos locais onde seria preciso instalar maquinaria pesada. A transferncia de toda a maquinaria das fbricas seria efetuada pela SS. A estrada que servia a rea era sem dvida pouco mais do que um atalho, mas a administrao j entrara em contato com a firma de engenharia Klug para a construo de uma rua central no campo, e a Ostbahn prometera fornecer um desvio at o prprio porto do campo e para a pedreira  direita. Pedras das pedreiras e algumas, que Goeth chamava de "sepulturas desmontadas", do cemitrio seriam quebradas para calar outras ruas do 	Pg.158 
campo. Os cavalheiros no teriam de se preocupar com os meios de acesso s fbricas, prometeu Goeth, pois pretendia manter permanentemente uma numerosa equipe de prisioneiros para trabalhar nas pedreiras e na construo das estradas.
Uma pequena ferrovia fora instalada para as carretas de transporte de pedras; partia da pedreira e passava pelo prdio da Administrao, destinando-se s grandes casernas de pedra, que estavam sendo construdas para a SS e para a guarnio militar ucraniana. Carregamentos, que pesavam cada um seis toneladas, eram transportados por grupos de trinta e cinco a quarenta mulheres, que puxavam cabos instalados de cada lado das carretas para compensar a irregularidade dos trilhos. As que tropeavam ou caam eram pisadas ou empurradas para fora do caminho, pois os grupos tinham o seu prprio impulso orgnico e ningum podia abdicar individualmente do ritmo. Observando aquele esforo, que lembrava o trabalho de escravos no antigo Egito, Oskar sentiu a mesma onda de nusea, o mesmo formigamento no sangue que experimentara no alto da colina, descortinando a Rua Krakusa. Goeth presumira que os industriais no se deixariam abalar por aquela viso, que todos eram espiritualmente iguais a ele. No o constrangia aquela labuta selvagem, A questo em mente era a mesma que na Rua Krakusa: O que podia constranger a SS? O que podia causar constrangimento a Amon?
A energia dos construtores das casernas tinha, mesmo para um observador bem-informado como Oskar, o aspecto ilusrio de homens trabalhando duro para providenciar abrigo para suas mulheres. Mas embora Oskar ainda no soubesse, Amon procedera a uma execuo sumria essa manh diante daqueles homens, a fim de que agora ficassem convencidos quanto aos termos em que estavam trabalhando. Depois do encontro de manh cedo com os engenheiros, Amon descera a Rua Jerozolimska at a caserna da SS, onde os trabalhos estavam sob a superviso de um excelente NCO, que logo seria promovido a oficial, chamado Albert Hujar. Este adiantara-se e fizera o seu relatrio. Uma seo das fundaes da caserna desabara, disse Hujar, com o sangue subindo-lhe ao rosto. Ao mesmo tempo, Amon tinha notado uma moa andando ao redor da construo, falando com os trabalhadores, apontando, dirigindo. Quem era ela?, perguntou ele a Hujar. Uma prisioneira chamada Diana Reiter, respondeu Hujar, uma arquiteta, que fora destacada para a construo das casernas. Estava reclamando que as fundaes no haviam sido corretamente cavadas e queria que todas as pedras e o cimento fossem arrancados e se recomeasse a construo desde o incio.
Goeth podia notar, pela vermelhido do rosto de Hujar, que
Pg.159 
tinha tido uma dura discusso com a moa. A coisa chegara a ponto de Hujar berrar que ele estava construindo uma caserna "e no um hotel de luxo"! 
Amon deu um meio sorriso a Hujar.
 No vamos ter discusses com essa gente  disse ele, como se fosse uma promessa.  Traga a moa aqui.
Amon podia ver, pela Mancira com que ela se encaminhava em sua direo, a espria elegncia com que havia sido educada pela sua famlia de classe mdia, as Manciras europias de que fora imbuda, mandando-a  quando os honestos poloneses tinham recusado admitila em suas universidades - para Viena ou Milo, a fim de lhe dar uma profisso e uma colorao protetora. A moa dirigiu-se a Amon, como se ambos fossem da mesma categoria e isso os unisse na batalha contra o NCO imbecil e a inferior capacidade profissional de algum engenheiro da SS, que supervisionara a escavao das fundaes. No sabia que estava atiando ainda mais o dio de Amon por ser ela do tipo que, mesmo ante a evidncia do seu uniforme da SS, julgava no ser visvel a sua condio de judia.
 Voc teve ocasio de discutir com o Oberscharfhrer Hujar  disse-lhe Goeth, como que estabelecendo um fato. Ela concordou, com um firme gesto de cabea. O gesto sugeria que Herr Commandant devia compreender, embora o imbecil Hujar no fosse capaz de entender. Todas as fundaes daquele lado tinham de ser refeitas, declarou ela em tom positivo.  claro que Amon sabia que "eles" eram assim mesmo, gostavam de acumular tarefas umas aps outras, a fim de garantir a atividade constante da fora de trabalho enquanto durasse o projeto. Se tudo no for refeito, conclura ela, haveria pelo menos um afundamento na extremidade sul da caserna. Podia mesmo haver um desabamento.
A moa continuou argumentando; Amon concordava com a cabea e presumia que ela devia estar mentindo. Era um princpio primordial que nunca se devia dar ouvidos a um tcnico judeu. Tcnicos judeus se baseavam no pensamento de Marx, cujas teorias visavam solapar a integridade do governo, e no de Freud, que atacara a integridade da mente ariana. Amon julgava que os argumentos da arquiteta ameaavam a sua integridade.
Chamou Hujar. O NCO voltou, meio contrafeito. Pensou que o chefe ia mand-lo fazer o que a moa tinha aconselhado. Ela pensou o mesmo. Atire nela  ordenou Amon a Hujar. Houve, naturalmente, uma pausa enquanto Hujar digeria a ordem.  Atire nela!  repetiu Amon.
Pg.160 
Hujar segurou a moa pelo cotovelo para lev-la a algum lugar apropriado para a execuo.
 Aqui!  disse Amon.  Atire nela aqui! A mando meu!   berrou Amon.
Hujar sabia como a coisa devia ser feita. Agarrou a moa pelo cotovelo, empurrou-a um pouco para a frente, tirou a Mauser do coldre e deu-lhe um tiro na nuca.
O rudo apavorou todos os presentes, exceto  ao que parecia  os executores e a moribunda Diana Reiter. Ela dobrou os joelhos e ergueu os olhos. Ser preciso mais do que isso, parecia estar dizendo. Aquele olhar deliberado assustou Amon e depois o justificou e levantou na sua opinio. No tinha a menor idia e no teria acreditado que para aquelas suas reaes havia uma etiqueta clnica. Na verdade, acreditava que estava sendo recompensado com a inevitvel exaltao que se segue a um ato de justia poltica, racial e moral. Ainda assim, aquilo tudo tinha o seu preo, pois  plenitude daquele momento mais tarde se seguiria tal vazio que ele iria precisar, a fim de evitar ser varrido para longe como um farrapo de palha, aumentar o seu peso e equilbrio, ingerindo mais comida, bebida, procurando contato com uma mulher.
Afora essas consideraes, a execuo de Diana Reiter, o cancelamento de seu diploma da Europa Ocidental, tinha o seu valor prtico: nenhum construtor de habitaes ou estradas em Plaszvia poderia considerar-se essencial  sua tarefa  se, com toda a sua capacidade profissional, Diana Reiter no conseguira salvar-se, a nica chance dos outros era uma pronta e annima eficincia. Portanto, as mulheres transportando seus pesados fardos da estao de Cracvia  Plaszvia, as equipes das pedreiras, os homens montando as habitaes, todos eles passaram a trabalhar com uma energia adequada  lio que tinham recebido com o assassinato de Diana Reiter.
Quanto a Hujar e seus colegas, sabiam agora que a execuo instantnea era o estilo permitido em Plaszvia. 
Pg.161
Captulo 20
Dois dias aps a visita dos donos de fbricas a Plaszvia, Schindler apareceu no escritrio temporrio do Comandante Goeth, trazendo saudaes e uma garrafa de conhaque. A notcia do assassinato de Diana Reiter j havia chegado ao escritrio da Emalia e era o tipo de informao que firmava Oskar em sua determinao de manter a Emalia fora de Plaszvia.
Os dois homens atlticos se sentaram frente a frente; havia tambm entre eles uma compreenso mtua, como houvera no rpido contato entre Amon e Diana Reiter. O que sabiam era que ambos estavam ali em Cracvia para fazer fortuna; e que, portanto, Oskar iria pagar pelos favores que lhe fossem concedidos. Quanto a esse ponto, Oskar e o comandante se compreendiam bem. Oskar tinha o dom caracterstico do negociante de tratar homens que abominava como se fossem irmos espirituais, e Herr Commandant se deixaria enganar to completamente que sempre acreditaria que Oskar era seu amigo.
Mas segundo o testemunho de Stern e outros,  bvio que, desde os seus primeiros contatos com Goeth, Oskar o abominou como um homem que praticava assassinatos com a mesma tranquilidade com que um funcionrio executa a sua rotina de trabalho. Oskar podia falar com Amon o administrador, Amon o especulador, mas sabia ao mesmo tempo que nove dcimos da mente do comandante ficavam abaixo dos processos racionais do comum dos seres humanos. Os negcios e conexes sociais entre Oskar e Amon funcionavam muito bem para poder haver a suposio de que Oskar, de certa forma, e apesar de si mesmo, se deixava fascinar pela perversidade do homem. Na verdade, ningum dos que conheciam Oskar nessa ocasio, ou dos que o conheceram mais tarde, viu sinal algum desse fascnio. Oskar desprezava 
Pg.162
Goeth nos termos mais simples e mais intensos. Seu desprezo iria tornar-se ilimitado, como o demonstraria dramaticamente a sua carreira. Mesmo assim,  difcil evitar o pensamento de que Amon era o irmo satnico de Oskar, o frentico e fantico carrasco em que Oskar, por alguma infeliz perverso, poderia tambm se tornar.
Com uma garrafa de conhaque entre os dois, Oskar explicou a Amon que lhe era impossvel mudar-se para Plaszvia. Sua fbrica era demasiado slida para poder ser transplantada. Supunha que o seu amigo Madritsch tencionava mudar l para dentro os seus trabalhadores judeus mas a maquinaria de Madritsch podia ser mais facilmente transferida  era basicamente uma srie de mquinas de costura. Havia diferentes problemas envolvidos na mudana de pesadas prensas, sendo que cada uma delas, como acontece com maquinaria sofisticada, tinha suas peculiaridades. Os seus operrios especializados j se tinham habituado a elas. Numa nova instalao, porm, as mquinas iriam adquirir novas peculiaridades. Haveria atrasos; o perodo de instalao levaria mais tempo do que seria o caso da fbrica do seu estimado amigo Julius Madritsch. O Untersturmfhrer devia compreender que, com importantes contratos de material de guerra a serem cumpridos, a DEF no podia dispor de tal lapso de tempo. Herr Beckmann, que tinha a mesma espcie de problema, estava despedindo todos os seus judeus da usina de Corona. No queria a confuso de judeus sendo conduzidos de manh para a usina e levados de volta  noite para Plaszvia. Infelizmente ele, Schindler, tinha algumas centenas mais de trabalhadores especializados do que Beckmann. Se os despedisse, poloneses teriam de ser treinados no lugar deles e de novo haveria um atraso na produo, e um atraso maior ainda, se ele aceitasse o atraente oferecimento de Goeth e se mudasse para Plaszvia.
Amon pensou que talvez Oskar estivesse preocupado com a possibilidade de a mudana para Plaszvia prejudicar algumas das suas negociatas em Cracvia. O comandante apressou-se em garantir a Herr Schindler que no haveria interferncia alguma na gerncia de sua fbrica de esmaltados.
 So puramente problemas industriais que me preocupam  disse respeitosamente Schindler. No queria causar inconvenincias ao comandante mas ficaria grato, e tinha certeza de que a Inspetoria de Armamentos lhe seria grata, se fosse permitido  DEF permanecer em seu local.
Entre Goeth e Oskar, a palavra "gratido" no tinha um significado abstrato. Gratido era pronto pagamento. Eram bebidas e diamantes.
Compreendo os seus problemas, Herr Schindler  disse Amon. 
Pg.163
 Terei prazer, uma vez liquidado o gueto, em fornecer uma guarda para escoltar os seus empregados de Plaszvia a Zablocie.
Certa tarde em que foi a Zablocie a negcio da fbrica Progress, Itzhak Stern encontrou Oskar deprimido e percebeu que o amigo estava tomado de um perigoso senso de impotncia. Depois de Klonowska ter servido um caf, que Herr Direktor tomou como sempre com uma dose de conhaque, Oskar contou a Stern que tinha voltado a Plaszvia: ostensivamente, para examinar as instalaes; na realidade, para calcular quando estariam prontas para receber os Ghettomenschen.
 Fiz os clculos  disse Oskar. Tinha contado as casernas na encosta do outro lado e constatado que, se Amon tencionava atulhar 200 mulheres em cada uma delas, o conjunto poderia agora abrigar 6.000 mulheres. O setor dos homens, mais abaixo na encosta, no tinha tantas construes terminadas mas, no ritmo em que se trabalhava em Plaszvia, dentro de poucos dias estaria tudo terminado.  Todos na oficina da fbrica sabem o que vai acontecer  continuou ele.  E no adianta manter o turno da noite aqui dentro, porque depois dessa operao, no haver um gueto para onde eles voltem. Tudo o que lhes posso dizer  acrescentou Oskar, tomando outro gole de conhaque   que no devem procurar esconder-se, a no ser que tenham certeza da segurana do esconderijo.  Ouvira dizer que a inteno era pr abaixo o gueto, depois de ter sido evacuado Cada cavidade de parede seria revistada, cada tapete de sto retirado, cada nicho revelado, cada poro revolvido.  E o nico conselho que posso dar aos meus empregados  que no resistam.
E assim, ilogicamente, Stern, um dos alvos da planejada Aktion, foi quem procurou consolar Herr Direktor Schindler, frisando que ele seria apenas uma testemunha da Aktion. A preocupao de Oskar com os seus empregados judeus estava se difundindo, devido  tragdia maior da destruio do gueto. Plaszvia era uma instituio de trabalho, disse Stern. Como todas as instituies, podia oferecer uma sobrevida. No era como Belzec, onde se fabricava a morte em srie como Henry Ford fabricava carros. Era degradante ter de obedecer a ordens sem pestanejar, mas no era o final de tudo. Quando Stern terminou seus argumentos, Oskar colocou ambos os polegares sob a borda chanfrada de sua mesa e pareceu, por uns instantes, querer arranc-la.
 Sabe de uma coisa, Stern  disse , nada disso  consolo suficiente!
. sim  replicou Stern.   o nico caminho a adotar.  E continuou argumentando, citando e detalhando, sentindo-se, ele prprio, apavorado, porque Oskar parecia estar em crise. Se Oskar perdesse a esperana, 
Pg.164 
Stern sabia que tocos os empregados  judeus da Emalia seriam despedidos, pois Oskar iria querer purificar-se de toda aquela imundcie.
Chegaria a hora de se fazer algo mais positivo, ponderou Stern. Mas no ainda.
Abandonando a tentativa de arrancar a borda da sua mesa de trabalho, Oskar reclinou-se na poltrona e voltou a parecer deprimido.
Voc conhece aquele Amon Goeth  disse ele.   um homem com charme. Poderia chegar aqui e exercer o seu charme sobre voc. Mas trata-se de um luntico.
Na ltima manh do gueto  que coincidiu ser um Shabbat 13 de maro , Amon Goeth chegou  Praa Zgody, Praa da Paz, a uma hora matutina que, oficialmente, precedia a madrugada. Nuvens baixas obscureciam a linha divisria entre a noite e o dia. Viu que os homens do Sonderkommando j haviam chegado e se espalhavam pelo solo congelado do parque no centro da praa, fumando e rindo baixo, mantendo em segredo sua presena para os habitantes do gueto nas ruas adiante da farmcia de Pankiewicz. Os caminhos que tomariam estavam limpos, como numa cidade-modelo. A neve restante se empilhava nas sar jetas e contra os muros.  de se presumir que o sentimental Goeth tenha-se sentido paternal com relao aos seus rapazes reunidos em camaradagem no centro da praa, antes da ao.
Amon tomou um trago de conhaque, enquanto esperava pelo Sturmbannfhrer Willi Haase, homem de meia-idade, que estava encarregado do controle estratgico, porm no ttico, da Aktion desse dia. Hoje o Gueto A, da Praa Zgody para o oeste, a seo maior onde moravam todos os trabalhadores judeus (saudveis, esperanosos, obstinados), seria esvaziado. O Gueto B, pequeno conjunto de uns poucos quarteires a leste, era habitado pelos velhos, os que no tinham emprego. Seriam arrancados dali  noite ou pela manh. Estavam desfinados ao grandemente expandido campo de extermnio do Comandante Rudolf Hss, em Auschwitz. Gueto B era um trabalho direto, honesto. Gueto A era o desafio. 
Todos queriam estar ali hoje, pois seria uma data histrica. Havia bem mais de sete sculos que existia uma Cracvia judaica, e essa noite ou no mximo at o dia seguinte  aqueles sete sculos desapareceriam, e Cracvia estaria judenrein (limpa de judeus). E cada SS subalterno queria poder dizer que assistira ao evento. At mesmo Unkelbach, o Treuhnder da fbrica de cutelaria Progresso, tendo um posto de reserva na SS, ia vestir seu uniforme NCO e entrar no gueto com uma das brigadas. Portanto, o eminente Willi Haase, como oficial superior
Pg.165 
e um dos organizadores do plano, tinha todo o direito de estar ali presente. 
Amon, sofrendo de sua habitual dor de cabea e um pouco esgotado com a insnia febril que o acometera tarde da noite, mesmo assim comparecera para assistir ao evento, tomado de certo entusiasmo profissional. Era uma grande ddiva do Partido Nacional socialista aos homens da SS que eles tivessem a chance de entrar em combate, sem nenhum risco fsico, que pudessem conquistar honrarias sem as contingncias que implicavam expor-se a ser baleado. No fora fcil conseguir impunidade psicolgica. Todo oficial SS tinha amigos que se haviam suicidado. Os compndios de treinamento da SS, escritos para combater essas baixas absurdas, assinalavam a tolice de se acreditar que pelo fato de o judeu no estar visivelmente armado, deixasse de possuir armas sociais, econmicaou polticas. Na realidade estava armado at os dentes. Fortaleam-se, alertavam os compndios, pois a criana judia  uma bomba-relgio cultural, a mulher judia uma biologia de traies, o homem judeu um inimigo mais incontrolvel do que nenhum russo poderia jamais ser.
Amon Goeth se sentia em forma. Sabia que ningum poderia toclo, e esse pensamento provocava nele a mesma deliciosa excitao de um corredor de longa distncia antes de uma corrida que tem certeza de ganhar. Amon desprezava com certo bom humor os oficiais que fastidiosamente deixavam a ao a cargo de seus homens e dos NCO. Sentia que de certa Mancira essa atitude poderia ser mais perigosa do que uma atuao direta. Ele mostraria o caminho, como tinha mostrado no caso de Diana Reiter. Sabia a euforia que ia sentir no decorrer do dia, a gratificao crescente, juntamente com o gosto da bebida, quando o ritmo fosse se acelerando. Mesmo sob a baixa esqualidez daquelas nuvens, Amon sabia que aquele seria um dos seus melhores dias, sentia que, quando ele fosse velho e a raa judia extinta, os jovens maravilhados iriam perguntar-lhe sobre os acontecimentos de dias como aquele.
A menos de um quilmetrode distncia o Dr. H., um mdico do hospital de convalescena do gueto, cuidava, na penumbra, de seus ltimos pacientes, grato por v-los assim isolados no andar superior, bem distantes da rua, a ss com a sua dor e sua febre.
Pois, ao nvel da rua, todos sabiam o que tinha acontecido com o hospital de isolamento perto da Praa Zgody. Um destacamento da SS sob as ordens do Oberscharfhrer Albert Hujar tinha penetrado no hospital para fech-lo e encontrara a Dra. Roslia Blau entre os leitos de seus pacientes de escarlatina e de tuberculose, que, dizia ela, no podiam ser removidos. As crianas com coqueluche ela mandara antes 	Pg.166 
para suas casas. Mas os portadores de escarlatina no podiam ser removidos seja por eles mesmos seja pela comunidade, e os doentes de tuberculose simplesmente no tinham foras para se levantar.
Como a escarlatina  uma enfermidade da adolescncia, muitos dos pacientes da Dra. Blau eram meninas entre 12 e 16 anos. Diante de Albert Hujar, a Dra. Blau apontou, como uma garantia de seu julgamento profissional, para as meninas ardendo em febre.
O prprio Hujar, agindo sob mandato que lhe fora conferido uma semana antes por Amon Goeth, matou a Dra. Blau com um tiro na cabea. As doentes de molstias contagiosas, algumas tentando levantarse de seus leitos, outras inconscientes em seu delrio, foram executadas numa fria de fogo automtico. Quando o peloto de Hujar terminou a sua tarefa, uma turma de homens do gueto foi enviada ao andar superior para remover os cadveres, empilhar os lenis ensanguentados e lavar as paredes.
O hospital ficava situado num prdio, onde funcionara, antes da guerra, uma delegacia de polcia polonesa. Durante toda a existncia do gueto, os seus trs andares tinham estado repletos de doentes. O diretor do hospital era um mdico muito respeitado, o Dr. B. Naquela fria manh de 13 de maro, os Drs. B. e H. haviam reduzido o nmero de pacientes para quatro, todos eles irremovveis. Um era um jovem operrio com tuberculose galopante; o segundo, um talentoso msico com uma doena fatal de rins. Ao Dr. H. parecia que eles deviam ser poupados do pnico final de uma alucinada rajada de balas. Sobretudo o cego, sofrendo de um insulto cerebral, e o senhor idoso que uma cirurgia para extrair um tumor intestinal deixara enfraquecido e molestado ainda por uma colostomia.
A equipe mdica, inclusive o Dr. H., era do mais alto nvel. Daquele mal equipado hospital de gueto iam derivar os primeiros informes poloneses sobre a doena eritroblstica de Weil, uma afeco da medula do osso, e da sndrome Wolff-Parkinson-White. Nessa manh, porm, a preocupao maior do Dr. H. era com o dilema do cianureto.
Com o pensamento na opo do suicdio, o Dr. H. tinha adquirido um suprimento de uma soluo de cianureto. Sabia que outros mdicos haviam tomado a mesma providncia. Naquele ltimo ano, o estado depressivo tinha sido endmico no gueto e atingira tambm o Dr. H., homem jovem, com uma sade de ferro. Mas a realidade era que a prpria Histria parecia ter-se tornado maligna. Em seus dias de maior depresso, fora um conforto pra o Dr. H. a certeza de que tinha acesso ao cianureto. Naquele ltimo estgio de existncia do gueto, era o nico produto farmacutico de que ele e os outros mdicos podiam dispor em quantidade. A sulfa era uma raridade. Acabara o estoque 
Pg.167
de emticos, ter e at aspirina. Cianureto era a nica droga sofisticada que restava. 
Nesse dia, antes das cinco horas da manh, o Dr. H. fora despertado em seu quarto na Rua Wit Stwosz pelo rudo de caminhes estacionando do lado de fora do muro do gueto. Olhando pela janela, viu os Sonderkommandos reunindo-se  margem do rio e compreendeu que tinham vindo para alguma atuao decisiva. Correu para o hospital onde encontrou o Dr. B. e a equipe de enfermagem j em atividade, providenciando para que todos os pacientes que podiam ser removidos fossem levados para baixo, onde parentes ou amigos se encarregavam de retir-los do hospital. Quando todos, exceto os quatro em estado crtico, j tinham sado, o Dr. B. disse s enfermeiras que se retirassem, e todas obedeceram exceto a enfermeira-chefe. Agora s restavam ela, os Drs. B. e H. e os quatro pacientes no hospital quase deserto.
Enquanto esperavam, os Drs. B. e H. pouco falaram. Ambos tinham acesso ao cianureto; logo o Dr. H. notaria que o Dr. B. tambm estava tristemente preocupado com o dilema da droga. Sim, havia o suicdio. Mas havia a eutansia tambm. O conceito aterrava H. Ele tinha um rosto sensvel e uma certa delicadeza na expresso dos olhos. A sua tica o fazia sofrer com uma angstia to ntima, como se tratasse de rgos do seu prprio corpo. Sabia que um mdico com sensibilidade comum, uma seringa de injeo e praticamente nada mais para norte-lo, podia somar, como se fosse uma lista de compras, os valores das duas opes  injetar o cianureto ou abandonar os pacientes ao Sonderkommando. Mas H. sabia tambm que tais coisas nunca eram uma questo de calcular valores, que a tica era mais complexa e tortuosa do que a lgebra.
s vezes o Dr. B. ia at a janela, olhava para fora para ver se a Aktion j tinha comeado nas ruas, e voltava-se para H. com uma expresso de calma profissional nos olhos. H. podia perceber que o outro tambm estava perplexo ante as opes, como se fossem cartas que estivesse embaralhando e tomando a embaralhar. Suicdio. Eutansia. cido de hidrocianureto. Um conceito no sem atrao: manter-se ali  espera entre as camas como Roslia Blau. Outro conceito: usar o cianureto em si prprio, assim como nos pacientes. A segunda perspectiva atraa H., por lhe parecer menos passiva do que a primeira. Alm disso, tendo acordado deprimido naquelas ltimas trs noites, ele sentira algo como um desejo fsico pelo veneno instantneo, como se fosse apenas a droga ou bebida forte que toda vtima necessitava para suavizar a hora final.
Para um homem srio como o Dr. H., essa tentao era um motivo a mais para no ingerir o veneno. Para ele a motivao do suicdio 
Pg.168
tinha sido estabelecida desde a sua educao infantil, quando o pai lera para ele, num texto do historiador Josephus Flavius, a narrativa do suicdio em massa dos Fanticos do Mar Morto, na iminncia de serem capturados pelos romanos. O princpio era que no se devia entrar na morte como num abrigo aconchegante, mas, to-somente, numa inequvoca recusa de rendio. Princpios so princpios,  claro, e o terror numa manh cinzenta  outra coisa. Mas H. era um homem de princpios.
E tinha uma esposa. Ele e a mulher haviam planejado um itinerrio de fuga pelos esgotos prximos da esquina da Rua Piwna com Krakusa. Os esgotos eram um caminho de fuga arriscado para a floresta de Ojcw. Temia a fuga mais do que o fcil oblvio do cianureto. Se a Polcia Azul ou os alemes o detivessem e lhe arriassem as calas, ele passaria na prova, graas ao Dr. Lachs. Lachs era um ilustre cirurgio plstico, que ensinara a vrios jovens judeus de Cracvia como alongar os seus prepcios, sem derramamento de sangue: dormir com um peso  uma garrafa contendo um volume de gua gradativamente maior  amarrado ao pnis. Segundo Lachs, era um recurso usado pelos judeus em pocas de perseguio romana e a intensidade da atuao da SS em Cracvia o fizera ressuscitar o estratagema naqueles ltimos dezoito meses. Lachs ensinara aquele mtodo ao seu jovem colega H., e o fato de o ter empregado com algum sucesso justificava ainda menos no seu caso o recurso do suicdio.
De madrugada a enfermeira, mulher calma de uns quarenta anos de idade, veio fazer o relatrio da noite ao Dr. H. O rapaz estava repousando tranquilamente, mas o cego com a fala afetada pela embolia aparentava grande ansiedade. O msico e o caso de fstula anal tinham tido ambos uma noite penosa. Agora, porm, reinava o silncio no hospital; os pacientes se remexiam no final do sono ou na intimidade da sua dor. O Dr. H. saiu para a fria sacada acima do ptio, a fim de fumar um cigarro e mais uma vez estudar a questo.
No ano anterior ele estivera trabalhando no velho hospital epidmico em Rekawka, quando a SS decidira fechar aquela zona do gueto e relocalizar o hospital. Nessa ocasio haviam enfileirado a equipe contra a parede e arrastado os pacientes escadas abaixo. H. tinha visto a perna da velha Sra. Reisman ficar presa entre os balastres e um SS, que a puxava pela outra perna no se deter para desembara-la e continuar puxando-a at a perna enganchada quebrar com um estalo audvel. Era assim que se removiam pacientes no gueto. Mas no ano anterior ningum pensava em matar por piedade. Naquela altura dos acontecimentos, todos ainda tinham esperana de que as coisas poderiam melhorar.
Agora, mesmo que ele e o Dr. B. tomassem a deciso, H no tinha
Pg.169
certeza de que teria a coragem de dar cianureto aos seus pacientes ou assistir a algum ministrar o veneno e manter uma impassibilidade profissional. De certa forma absurda, era como a argumentao em sua juventude, sobre se devia aproximar-se de uma garota, pela qual estava interessado. E mesmo depois de ele tomar uma deciso, isso de nada adiantava. Ainda no fora encarado o ato.
Ali, da sacada, ele ouviu o primeiro rudo. Comeara cedo e vinha do lado leste do gueto. Os raus, raus dos megafones, a mentira costumeira a respeito das bagagens, que algumas pessoas ainda persistiam em acreditar. Nas ruas desertas e entre as habitaes onde ningum se movia, podia-se ouvir em todo o percurso da Praa Zgody at Madwislanska,  margem do rio, um indefinido murmrio de terror que fazia tremer o prprio Dr. H.
Depois ele ouviu a primeira rajada, to estrondosa que deu para acordar os doentes. E uma sbita estridncia aps os disparos, um megafone violento rugindo contra alguma plangente voz feminina; por fim a lamria cessando bruscamente aps uma nova rajada de balas. Sucedeu-se um choro diferente, o lamento dos que estavam sendo impelidos pelos builhorns SS, por ansiosos OD e por vizinhos, o inconrolvel lamento, que foi desaparecendo na extremidade do gueto, onde havia um porto. Sabia que aquilo tudo teria sido ouvido at pelo msico em seu estado pr-comatoso.
Quando retornou  ala da enfermaria, ele pde notar que todos  at mesmo o msico  o observavam. Podia sentir, mais do que ver, os corpos se retesando em seus leitos; o ancio com a colostomia gritava com o esforo muscular. "Doutor, doutor!", algum exclamou. O Dr. H. respondeu um "Por favor!" que significava: "Estou aquie eles ainda esto muito longe." Ento olhou para o Dr. B., que cerrou os olhos, quando recomeou o barulho dos disparos a trs quarteires de distncia. O Dr. B. fez-lhe um sinal com a cabea, encaminhou-se para o pequeno armrio farmacutico trancado, no final da enfermaria, e voltou com um frasco de cido ciandrico. Aps uma pausa, H. aproximou-se do seu colega. Poderia ter deixado tudo a cargo de Dr. B., pois sabia que o outro tinha bastante coragem para agir sozinho, sem precisar do amparo de colegas. Mas seria uma covardia, pensou H., no dar o seu prprio voto de aprovao, no assumir parte da responsabilidade. O Dr. B. era um especialista, um pensador. Queria dar ao Dr. B. o seu apoio integral.
Muito bem  disse o Dr. B., mostrando rapidamente o frasco a H. Suas palavras foram quase abafadas pelos gritos de uma mulher e as vociferantes ordens oficiais, que provinham da extremidade da Rua Jozefnska. O Dr. B. chamou a enfermeira. 
Pg.170 
 D a cada paciente quarenta gotas com gua. 
 Quarenta gotas?  repetiu ela, sabendo qual era a medicao. 
 Quarenta  repetiu o Dr. B.
O Dr. H. olhou tambm para a enfermeira. "Sim", queria lhe dizer. "Agora sinto-me forte; poderia dar eu mesmo a medicao. Mas se o fizesse, iria alarmar os doentes. Todos eles sabem que as enfermeiras so as encarregadas da medicao."
Enquanto a enfermeira preparava a mistura, H. adiantou-se pela enfermaria e pousou sua mo na do velho.
 Tenho algo para ajud-lo, Roman  disse ele. E ficou surpreso que aquele contato de pele como que lhe transmitisse a histria do velho: por um segundo, como num lampejo de chama, pareceu-lhe ver ali o jovem Roman crescendo na Galcia de Franz Josef, vivendo na deliciosa cidadezinha de nuga, apetite Wien, a jia do Vstula, Cracvia; um rapaz sedutor fardado com o uniforme de Franz Josef, subindo as montanhas para as manobras da primavera; soldadinho de chocolate em Rynek Glowny com as moas de Kazimierz, cidade de rendas e patisseries escalando o Morro Kosciuszko e roubando um beijo entre os arbustos. Como podia o mundo ter mudado tanto no decurso de uma s vida?, perguntava-se o que restava do jovem no velho Roman. De Franz Josef ao NCO, que tinha a sano para trucidar Roslia Blau e as meninas com escarlatina?
 Por favor, Roman  disse o mdico, como que pedindo ao velho que relaxasse o corpo. Calculava que o Sonderkommando estaria ali dentro de uma hora. O Dr. H. sentiu, mas resistiu,  tentao de contar o seu segredo ao velho. O Dr. B. fora liberal com a dosagem. Uns poucos segundos de falta de ar e um pequeno susto no seriam nenhuma nova ou intolervel sensao para o velho Roman.
Quando a enfermeira chegou com os quatro copos de remdio, nenhum deles perguntou-lhe sequer o que ela estava lhes trazendo. O Dr. H. nunca saberia se algum deles chegara a compreender. Voltouse e consultou o seu relgio. Receava que, quando eles bebessem o veneno, emitiriam algum gemido, algo pior do que os arquejos e engasgos normais em um hospital.
 Aqui tem o seu remdio  ouviu a enfermeira dizer. E depois o arfar de uma respirao, mas no sabia se provinha do paciente ou da prpria enfermeira. "Aqui, a mulher  a verdadeira herona", pensou ele.
Quando tornou a olhar, a enfermeira estava acordando o moribundo, o sonolento msico, e oferecendo-lhe o copo. Na outra extremidade da enfermaria, o Dr. B. avistou uma jaqueta branca muito limpa. O Dr. H. aproximou-se do velho Roman e tornou-lhe o pulso. 
Pg.171
Nenhuma pulsao. Em um leito na outra extremidade da enfermaria, o msico ingeriu com esforo o lquido que cheirava a amndoas.
Tudo se passou suavemente, como H. tanto desejara. Observou os seus pacientes  bocas escancaradas mas no obscenamente, olhos vidrados e imunes, cabeas jogadas para trs, queixos voltados para o teto  observou-os com a mesma inveja, que qualquer habitante do gueto sentiria de fugitivos.
Pg.172 
Captulo 21 
Poldek Pfefferberg habitava um quarto no segundo andar de uma casa do sculo XIX, no final da Rua Jozefinska. Das  janelas descortinava-se por cima do muro do gueto o Rio Vstula, onde barcaas polonesas subiam e desciam, na ignorncia de que aquele era o derradeiro dia do gueto, e barcos de patrulhamento da SS passavam casualmente, como se estivessem a passeio. Ali Pfefferberg esperava com sua mulher, Mila, pela chegada do Sonderkommando, que iria jog-los na rua. Mila era uma pequenina e nervosa jovem de vinte e dois anos, uma refugiada de Lodz, com quem Poldek se casara nos primeiros dias do gueto. Descendia de uma famlia de mdicos, seu pai fora um cirurgio que morrera muito cedo, em 1937; sua me uma dermatologista a quem, durante uma Aktion no gueto de Tarnow no ano anterior, coubera a mesma sorte que a de Roslia Blau no hospital de isolamento: foi fuzilada entre os seus doentes.
Mila tivera uma infncia feliz, mesmo na anti-semita Lodz, tendo iniciado seus estudos de medicina em Viena no ano anterior  guerra. Conhecera Poldek quando, em 1939, habitantes de Lodz tinham sido transferidos para Cracvia, e ela fora alojada no mesmo apartamento que o ative Poldek Pfefferberg.
Agora ele era, como Mila, o ltimo membro de sua famlia. Sua me, que em outros tempos havia redecorado o apartamento de Schindler em Straszewskiego, fora enviada juntamente com o marido para o gueto de Tamow. De l, como mais tarde seria apurado, eles tinham sido levados para Belzec e assassinados. Sua irm e cunhado, com documentos arianos, haviam desaparecido na priso de Pawiak em Varsvia. Poldek e Mila s tinham um ao outro neste mundo. Entre os dois existia um abismo de temperamentos: Poldek era desenvolto, um 
Pg.173 
lder, um organizador; o tipo que, quando aparecia uma autoridade e perguntava que diabo estava acontecendo, daria um passo  frente e saberia falar. Mila era tmida, sendo que o incrvel destino, que arrasara sua famlia, a havia tornado ainda mais retrada. Numa poca de paz, a combinao dos dois teria sido excelente. No s inteligente mas sensata, ela era a prpria tranquilidade. Tinha senso de humor. Frequentemente Poldek Pfefferberg precisava da mulher para conter suas torrentes de oratria. Hoje, porm, nesse dia problemtico, os dois estavam em conflito.
Embora Mila estivesse disposta, se surgisse a oportunidade de abandonar o gueto, at mesmo de aceitar a ideia do casal se transformar em guerrilheiros na floresta, tinha medo dos esgotos. Poldek usara-os mais de uma vez como meio de escapar do gueto, embora a polcia, s vezes, estivesse de guarda  entrada e  sada. O seu amigo e antigo professor, Dr. H., tambm tinha recentemente sugerido a rede de esgotos como um caminho de fuga, que podia no estar sendo guardado no dia em que o Sonderkommando penetrasse no gueto. O plano era esperar pelo antecipado cair da tarde do inverno. A porta da casa do mdico ficava a apenas uns poucos metros de uma entrada da rede. Uma vez l embaixo, deviam seguir pelo tnel da esquerda, que corria por baixo das ruas do no-gueto Podgrze at uma sada na barragem do Vstula, perto do canal da Rua Zatorska. Na vspera, o Dr. H. avisara-o de que ele e a mulher iam tentar a fuga pelos esgotos e convidara os Pfefferberg a fugir com eles. Poldek no podia, quela altura, comprometer-se a participar da fuga. Mila temia, alis temor razovel, que a SS inundasse de gs os esgotos ou, de qualquer forma, resolvesse chegar cedo ao quarto dos Pfefferberg, no final da Rua Jozefmska.
Um dia lento, tenso, no quarto do sto, a dvida sobre qual rumo tomar. Vizinhos deviam estar tambm na expectativa. Talvez alguns deles, no tolerando esperar mais, j houvessem partido com os seus embrulhos e valises, pois aquela miscelnea de rudos levava as pessoas a se precipitarem escadas abaixo  rudos violentos, vagamente ouvidos a quarteires de distncia, enquanto ali pairava um silncio em que se podia ouvir o antigo, indiferente madeiramento das casas estalando como para marcar as ltimas e piores horas de seus inquilinos. Na claridade turva do meio-dia, Poldek e Mila mastigaram seu po preto, os 300 gramas para cada um, que haviam guardado. Os rudos provenientes da Aktion tinham avanado at a esquina da Rua Wegierska, a um longo quarteiro de distncia e, no princpio da tarde, tornado a afastar-se. Fez-se ento um quase silncio. Algum tentou inutilmente dar descarga na latrina recalcitrante do primeiro andar
Pg.174
de pedras da rua havia uma pilha de vtimas, algumas com a cabea espatifada, os membros retorcidos. No eram evidentemente os doentes moribundos dos Drs. B. e H. Eram gente que havia sido detida durante o dia e depois executada. Alguns deviam ter sido aprisionados nos andares superiores, fuzilados e depois atirados  rua.
Mais tarde, sempre que era interrogado sobre os cadveres empilhados debaixo das janelas do hospital do gueto, Poldek calculava uns 60 ou 70, embora no tivesse tido tempo de contar toda aquela pirmide de corpos. Cracvia era uma cidade provinciana e Poldek fora um menino muito socivel em Podgrze, depois em Centrum, e costumava visitar com sua me pessoas abastadas e importantes da cidade. Assim reconheceu na pilha macabra vrios rostos: antigos clientes de sua me; pessoas que lhe perguntavam sobre os seus estudos na Escola Superior de Kosciuszko, a quem dava respostas precoces, e que lhe ofereciam bolos e doces. Agora estavam vexatoriamente expostas e empilhadas na rua ensanguentada.
No ocorreu a Pfefferberg procurar os corpos de Mila e do Dr. H. e sua mulher. Como que sentia o motivo que o retinha ali naquele momento. Acreditava piamente num futuro melhor, quando haveria tribunais justos. Tinha a sensao de ser uma testemunha, a mesma sensao que Schindler sentira no morro acima da Rua Rekawka. 
Sua ateno foi desviada para uma turba na Rua Wegierska adiante do ptio do hospital. Encaminhava-se para o porto de Rekawka com passos vagarosos, sem desespero, os passos de operrios de fbrica numa manh de segunda-feira ou de torcedores de um time de futebol derrotado. No meio dessa onda de gente, Poldek reconheceu vizinhos da Rua Jozefinska. Afastou-se do ptio carregando como uma arma escondida na manga do seu palet a imagem daquela cena. O que acontecera a Mila? Algum vizinho o saberia? Disseram-lhe que ela j tinha partido. O Sonderkommando j passara por l. J devia ter atravessado o porto, para onde? Para Plaszvia.
Evidentemente, ele e Mila tinham elaborado um plano de emergncia para o caso de um impasse como aquele. Se um dos dois fosse parar em Plaszvia, seria melhor que o outro ficasse do lado de fora.
Poldek sabia do dom de Mila de passar despercebida, dom invejvel para prisioneiros, mas que tambm podia faze-la sofrer o tormento da fome. Ele seria o seu provedor de comida. Tinha certeza de que essas coisas podiam se arranjar. Mas no era uma deciso fcil  a marcha da multido aturdida, que a SS mal vigiava, para o porto sul e as fbricas cercadas de arame farpado em Plaszvia, indicava o local onde a maioria das pessoas, sem dvida com razo, consideravam que se daria o final de seus padecimentos. 
	Pg.175 
de pedras da rua havia uma pilha de vtimas, algumas com a cabea espatifada, os membros retorcidos. No eram evidentemente os doentes moribundos dos Drs. B. e H. Eram gente que havia sido detida durante o dia e depois executada. Alguns deviam ter sido aprisionados nos andares superiores, fuzilados e depois atirados  rua.
Mais tarde, sempre que era interrogado sobre os cadveres empilhados debaixo das janelas do hospital do gueto, Poldek calculava uns 60 ou 70, embora no tivesse tido tempo de contar toda aquela pirmide de corpos. Cracvia era uma cidade provinciana e Poldek fora um menino muito socivel em Podgrze, depois em Cenrum, e costumava visitar com sua me pessoas abastadas e importantes da cidade. Assim reconheceu na pilha macabra vrios rostos: antigos clientes de sua me; pessoas que lhe perguntavam sobre os seus estudos na Escola Superior de Kosciuszko, a quem dava respostas precoces, e que lhe ofereciam bolos e doces. Agora estavam vexatoriamente expostas e empilhadas na rua ensanguentada.
No ocorreu a Pfefferberg procurar os corpos de Mila e do Dr. H. e sua mulher. Como que sentia o motivo que o retinha ali naquele momento. Acreditava piamente num futuro melhor, quando haveria tribunais justos. Tinha a sensao de ser uma testemunha, a mesma sensao que Schindler sentira no morro acima da Rua Rekawka.
Sua ateno foi desviada para uma turba na Rua Wegierska adiante do ptio do hospital. Encaminhava-se para o porto de Rekawka com passos vagarosos, sem desespero, os passos de operrios de fbrica numa manh de segunda-feira ou de torcedores de um time de futebol derrotado. No meio dessa onda de gente, Poldek reconheceu vizinhos da Rua Jozefnska. Afastou-se do ptio carregando como uma arma escondida na manga do seu palet a imagem daquela cena. O que acontecera a Mila? Algum vizinho o saberia? Disseram-lhe que ela j tinha partido. O Sonderkommando j passara por l. J devia ter atravessado o porto, para onde? Para Plaszvia.
Evidentemente, ele e Mila tinham elaborado um plano de emergncia para o caso de um impasse como aquele. Se um dos dois fosse parar em Plaszvia, seria melhor que o outro ficasse do lado de fora.
Poldek sabia do dom de Mila de passar despercebida, dom invejvel para prisioneiros, mas que tambm podia faz-la sofrer o tormento da fome. Ele seria o seu provedor de comida. Tinha certeza de que essas coisas podiam se arranjar. Mas no era uma deciso fcil  a marcha da multido aturdida, que a SS mal vigiava, para o porto sul e as fbricas cercadas de arame farpado em Plaszvia, indicava o local onde a maioria das pessoas, sem dvida com razo, consideravam que se daria o final de seus padecimentos. 
	Pg.176 
A claridade, apesar da hora tardia, parecia agora mais intensa, como se a neve estivesse prestes a cair. Poldek conseguiu atravessar a rua e entrar em apartamentos vazios. No sabia se estavam mesmo vazios ou cheios de habitantes do gueto, astuciosa ou ingenuamente escondidos  aqueles que acreditavam que, para onde quer que a SS os conduzisse, no final iriam parar nas cmaras de extino.
Poldek estava procurando um bom lugar para se esconder. Por passagens secretas chegou ao depsito de madeiras na Rua Jozefnska. 
Madeira era um artigo raro. No havia estruturas grandes de madeira cortada que lhe servissem de esconderijo. O local que parecia mais adequado ficava atrs dos portes de ferro da entrada do depsito. O tamanho e negrume dos portes seriam um bom abrigo para passar a noite. Mais tarde pareceria difcil a Poldek acreditar que escolhera o local com tanto entusiasmo.
Agachou-se atrs da folha do porto, que tinha sido empurrada contra a parede do escritrio abandonado. Pela fresta entre o porto e a pilastra, ele podia ver a Rua Jozefnska na direo de onde viera. 
Escondido atrs da glida grade de ferro entrevia uma fatia da noite, de um cinza luminoso, e puxou o palet sobre o peito. Um homem e uma mulher passaram apressadamente, em direo ao porto do gueto, evitando esbarrar nas trouxas espalhadas no cho, as malas com inteis etiquetas. KLEINFELD, anunciavam elas: LEHRER, BAUME, WEINBERG, SMOLAR, STRUS, ROSENTHAL, BIRMAN. ZEITLIN. Nomes que nunca teriam de volta um recibo. "Montes de pertences, carregados de memrias", o jovem artista Josef Ba escreveria relatando tais cenas. "Onde esto os meus tesouros?"
Vindo do outro lado daquele campo de batalha de bagagens, Poldek podia ouvir o latido agressivo de ces. Ento, caminhando pela calada da Rua Jozefnska apareceram trs SS, um deles puxado por dois grandes ces policiais. Os ces arrastaram seu treinador para dentro do nmero 41 da rua, mas os outros dois homens ficaram esperando na calada. Ele concentrou sua ateno nos ces: pareciam uma cruza de dlmatas e pastores alemes. Continuava vendo Cracvia como uma cidade alegre, onde animais assim pareciam estranhos, como se houvessem sido trazidos de algum gueto mais rigoroso. Pois mesmo naquela ltima hora, escondido atrs do porto de ferro, ele era grato  cidade, e presumia que o terror derradeiro no se daria ali, mas em outro lugar qualquer menos acolhedor. Essa presuno desapareceu no meio minuto seguinte. O pior estava acontecendo ali mesmo, em Cracvia. Por uma fresta do porto, ele assistiu  cena que lhe revelou que, se existia um plo da maldade, no se situava em Tarnow, Tchecoslovquia,
	Pg.177
Lww ou Varsvia, como supusera. Situava-se no lado norte da Rua Jozefnska, a alguns metros de distncia. Do nmero 41, emergiu gritando uma mulher com uma criancinha. Um co retinha
a mulher pelo tecido do vestido, a carne de seu quadril. O SS treinador dos ces agarrou a criana e atirou-a contra a parede. O rudo fez com que Pfefferberg fechasse os olhos, e ele ouviu o tiro que ps fim aos gritos de protesto da mulher.
Assim como Pfefferberg calculara que a pirmide no ptio do hospital devia ter uns 60 ou 70 corpos, ele sempre afirmaria que a criana no podia ter mais do que dois ou trs anos de idade.
Talvez at mesmo antes de ela estar morta, certamente antes de ele prprio se dar conta, Poldek ps-se de p, como se a deciso fosse provocada por alguma glndula da coragem em seu crebro. Abandonou o esconderijo atrs do porto, que no o protegeria dos ces. Uma vez na rua, imediatamente ele adotou a postura militar que tinha aprendido no Exrcito polons e, como um homem encarregado de uma tarefa formal, curvou-se e comeou a recolher trouxas e malas espalhadas pelo solo e a empilh-las junto aos muros. Podia ouvir os trs SS se aproximando; o rosnar dos ces era quase palpvel; pareceu-lhe que a noite toda se estirava at que, com a tenso, se rompessem as correias que retinham os animais. Quando Poldek calculou que eles estavam a uns dez passos de distncia, endireitou o corpo e arriscou-se a not-los fazendo o papel do judeu dcil de educao europeia. Viu que as botaS e calas de montaria dos trs estavam respingadas de sangue mas eles no pareciam envergonhados de se apresentar daquela maneira diante de outros seres humanos. O oficial do meio era o mais alto.
No parecia um assassino; havia algo de sensvel no rosto grande e na linha sutil da boca.
Pfefferberg, em sua roupa puda, bateu os taces de papelo, no estilo militar polons, e esboou uma continncia para o homem alto. Ele no entendia nada de postos da SS e no sabia como dirigir-se corretamente ao sujeito.
 Herr  disse ele.  Herr Commandant!
Era um termo que lhe brotara no crebro, sob a ameaa de extino, como uma fasca eltrica. E provou ser a palavra exata, pois o homem alto era Amon Goeth, na plena atividade naquela tarde, exultante com os progressos do dia e to capaz de instantneos e instintivos exerccios de poder como Poldek era capaz de instantneos e instintivos subterfgios.
 Herr Commandant, informo-lhe respeitosamente que recebi ordem de empilhar todas as bagagens de um lado da rua para desobstru-la. 
	Pg.178 
Os ces em suas correias esticavam o pescoo para ele. Espera. vam, condicionados pelo seu negro treinamento e pelo ritmo da Aktion do dia, ser soltos para atacar Pfefferberg. Os seus rosnados no eram apenas ferozes mas como que confiantes no desfecho daquele confronto, e a questo era se o SS  esquerda do Herr Commandant teria fora suficiente para ret-los. Pfefferberg no tinha muita confiana na sua salvao. No o surpreenderia ser triturado pelos ces e depois ser liberado por uma bala da ferocidade dos animais. Se a mulher no tinha escapado implorando pelo filho, pouca chance tinha ele com aquela conversa de bagagens, de desobstruir uma rua onde, de qualquer modo, fora abolido o trfego humano.
Mas o comandante achou Pfefferberg mais divertido do que a mulher. Ali estava um Ghettomensch brincando de soldado diante de trs oficiais da SS e fazendo o seu relatrio, servil, se verdadeiro, e quase simptico se falso. O comportamento dele era, sobretudo, diferente do estilo de uma vtima. De todas as criaturas marcadas para extermnio ningum mais tentara bater os saltos em continncia. O Herr Commandant podia portanto exercer o direito rgio de mostrar uma irracional e inesperada condescendncia. Inclinou a cabea para trs, retraindo o lbio superior. Foi uma larga, espontnea risada, e seus colegas sorriram e abanaram as cabeas.
 Uniersturmfuhrer  disse Goeth, com sua excelente voz de bartono.  Ns estamos cuidando de tudo. O ltimo grupo est deixando o gueto. Verschwinde!  Isto , "Suma daqui, soldadinho polons batedor de taces!"
Pfefferberg comeou a correr, sem olhar para trs, e no se teria surpreendido se levasse um tiro pelas costas. Correndo sempre, chegou  esquina da Rua Wegierska e dobrou-a, passando pelo ptio do hospital onde horas antes testemunhara aquela cena horrenda. A noite chegou quando ele j se aproximava do porto, e iam desaparecendo as ltimas ruas familiares do gueto. Na Praa Podgrze, o ltimo grupo oficial de prisioneiros esperava cercado por um cordo de homens da SS e ucranianos.
 Eu devo ser o nico que saiu de l com vida  disse ele aos habitantes do gueto. 
Alm dele, havia Wulkan, o joalheiro, com mulher e filho. Wulkan estivera trabalhando naqueles ltimos meses na fbrica Progress e, sabendo o que ia acontecer, fora procurar o Treuhnder Unkeiback com um grande diamante que trazia, havia dois anos, escondido no forro de um casaco.
Herr Unkeibach  dissera ele ao supervisor.  Irei para onde  
Pg.179
quer que me mandem mas minha mulher no est em condies de suportar todo esse estrondo e violncia.
Wulkan, a mulher e o filho ficariam esperando na delegacia da OD sob a proteo de um policial judeu, que os conhecia; e ento, talvez durante o dia, Herr Unkeibach viria busc-los e os levaria sem violncias para Plaszvia.
Desde manh bem cedo eles tinham ficado sentados num cubculo na delegacia; fora uma espera muito penosa, como se houvessem permanecido em sua cozinha, o menino alternadamente aterrado e entediado e a mulher continuando a atormentar o marido com suas censuras. "Onde est ele? Ser que vai mesmo aparecer? Essa gente, essa gente." Na primeira parte da tarde, Unkeibach realmente apareceu na Ordnungsdienst para usar o banheiro e tomar um caf. Ao sair do local de espera, Wulkan viu o Treuhnder Unkeibach, sob um aspecto que no conhecia: envergava o uniforme da SS NCO, e estava fumando e conversando animadamente com outro SS; com a mo direita ele sorvia vorazmente o caf e mordia um pedao de po preto, enquanto sob a esquerda retinha sua pistola pousada como um animal em repouso sobre o balco da delegacia; manchas escuras de sangue riscavamlhe o preto do uniforme. Os olhos que ele voltou para Wulkan no reconheceram o joalheiro. Imediatamente, Wulkan se deu conta de que Unkeibach no estava roendo a corda; simplesmente no se lembrava do combinado. O homem estava embriagado, mas no seria por esse motivo que, se Wulkan lhe houvesse dirigido a palavra, a resposta teria sido um olhar de total incompreenso, seguido, muito provavelmente, de algo bem pior.
	Wulkan desistiu e voltou para junto de sua mulher, que continuou insistindo:
 Por que voc no fala com ele? Vou falar, se ele ainda estiver l.
Ela viu, ento, uma sombra nos olhos de Wulkan e espiou pela porta entreaberta. Unkeibach estava se preparando para sair. Notou lhe o uniforme desarrumado, o sangue de pequenos comerciantes e suas mulheres manchando-lhe a roupa. Soltando um gemido, voltou a sentar-se.
Como o marido, foi tomada agora de compreensvel desespero e
a espera de certa forma pareceu mais fcil. O OD, que os conhecia, tornou a devolver-lhes a esperana e a ansiedade, dizendo-lhes que todos os membros da OD, com excluso dos pretorianos de Spira, tinham de estar fora do gueto s seis horas da noite e na estrada de Wieliczka a caminho de Plaszvia. Ele ia ver se havia um jeito de colocar os Wulkan em um dos veculos.
Quando caiu a noite, aps a passagem de Pfefferberg pela Rua 
Pg.180 
Wegierska e de o ltimo grupo de prisioneiros ter sido reunido na Praa Podgrze, enquanto o Dr. H. e sua mulher rumavam para leste na companhia e sob a guarda de um grupo de barulhentos bbados poloneses e pelotes do Sonderkommando repousavam e fumavam um cigarro, antes da ltima investida contra as moradias do gueto, duas carroas pararam  porta da delegacia. Os OD esconderam a famlia Wulkan sob caixas de papelo e trouxas de roupas. Symche Spira e seus associados estavam funcionando em alguma outra rua, tomando caf com os NCO, comemorando a sua atuao dentro do sistema. 
Mas antes de as carroas sarem pelo porto do gueto, os Wulkan, encolhidos bem no fundo do veculo, ouviram o quase contnuo pipocar de tiros nas ruas que iam ficando para trs. Aquilo significava que Amon Goeth, Willi Haase, Albert Hujar, Horst Pilarzik e centenas de outros da mesma laia estavam invadindo stos, tetos falsos, canastras em pores, e encontrando aqueles que, em todo o decorrer do dia, haviam-se mantido em esperanoso silncio.
Mais de 4.000 pessoas foram encontradas no decorrer daquela noite e executadas nas ruas. Nos prximos dois dias seus corpos foram transportados para Plaszvia em caminhes abertos e enterrados em valas comuns nos bosques prximos do novo campo de concentrao. 
Pg.181 
Captulo 22 
No sabemos em que estado de esprito Oskar Schindler passou o dia 13 de maro, o ltimo e pior dia do gueto. Mas, quando os seus empregados voltaram, sob guarda, de Plaszvia para a fbrica, ele estava de novo disposto a coligir informaes e transmitilas ao Dr. Sediacek, na prxima visita do dentista. Apurou pelos prisioneiros que Zwangsarbeitslager Plaszvia  como o denominavam os burocratas da SS  no ia ser nenhum reino racional. Goeth j se entregara  sua ojeriza por engenheiros, permitindo que os guardas espancassem Zygmunt Grunbergoat deix-lo em estado de coma, e depois no o levassem para a clnica perto do campo das mulheres, seno quando j era tarde demais para salv-lo. Pelos prisioneiros, que tomavam a sua substanciosa sopa do almoo na DEF, Oskar soube tambm que Plaszvia estava sendo utilizado no apenas como campo de trabalho mas como local de execues. Alm de todo o campo ouvir os disparos das execues, alguns dos prisioneiros as haviam testemunhado pessoalmente.
O prisioneiro M.,* por exemplo, que antes da guerra tivera uma loja de decorao em Cracvia. Nos primeiros dias de existncia do campo, ele fora solicitado para decorar as residncias dos SS, pequenas casas de campo que margeavam a vereda na parte norte. Como qualquer arteso com uma especialidade, tinha mais liberdade de movimento, e certa tarde daquela primavera caminnara da casa do Untersturmfuhrer Leo John por um atalho, que levava ao morro Chujowa Grka, em cujo cume ficava a fortaleza austraca. Dispunha-se a descer a encosta do outro lado, de volta  fbrica, quando teve de se deter Residindo hoje em Viena, a pessoa no quer que seja usado o seu verdadeiro nome 
Pg.182 
para dar passagem a um caminho do Exrcito, que subia a encosta. M. notou que sob a capota havia mulheres sob a guarda de ucranianos vestidos com macaces brancos. Escondera-se por detrs de tbuas empilhadas e tivera uma viso incompleta das mulheres, quando eram desembarcadas e impelidas para dentro do forte, recusando despir-se. O homem, que berrava as ordens l dentro, era o SS Edmund Sdrojewski. Os ucranianos caminhavam entre as mulheres, espancando-as com o cabo de seus chicotes. M. presumiu que elas eram judias, provavelmente surpreendidas com documentos arianos e trazidas da priso de Montelupich para ali. Algumas gritavam de dor mas outras se mantinham em silncio, como que recusando aos ucranianos aquela satisfao. Uma delas comeou a entoar o Shema Yisroel e as outras a imitaram. Os versos soavam vigorosos acima do morro, como se tivesse ocorrido justo naquele momento s mulheres que at a vspera haviam fingido ser arianas  que agora, uma vez cessada a presso, estavam inteiramente livres de celebrar sua diferena tribal na cara de Sdrojewski e dos ucranianos. Depois, agrupadas, por pudor e para se protegerem do ar frio da primavera, elas foram todas fuziladas.  noite, os ucranianos levaram os corpos em
carrinhos de mo e os enterraram nos bosques do outro lado do Chujowa Grka.
Habitantes do campo abaixo tambm tinham sabido daquela primeira execuo no morro, agora profanamente apelidado de "Morro do Cacete". Alguns procuravam se convencer de que guerrilheiros tinham sido fuzilados, marxistas intratveis ou nacionalistas enlouquecidos. L em cima era outro pas. Quem obedecesse s ordens dentro do arame farpado nunca teria de subir aquele morro. Mas os empregados de Schindler, mais esclarecidos, sendo conduzidos pela Rua Wieliczka acima, passando pela fbrica de cabos de Zablocie para trabalhar na DEF  sabiam por que os prisioneiros de Montelupich estavam sendo fuzilados no forte austraco: a SS no parecia se incomodar que fosse vista a chegada dos caminhes, ou que fossem ouvidos os disparos dos tiros em toda Plaszvia. A razo era simples: a SS tinha com hecimento de que a populao do campo jamais poderia prestar testemunho. Se houvesse a preocupao com referncia a tribunais, futuros testemunhos em massa, eles poderiam ter levado as mulheres mais longe para execut-las. A concluso a que se devia chegar, decidiu Oskar, no era que Chujowa Grka fosse um mundo separado de Plaszvia, mas que todos eles, tanto os que eram levados de caminho ao forte, como os que viviam por trs das cercas de arame farpado estavam sob a mesma sentena de morte. 
Pg.183 
Na primeira manh em que o Comandante Goeth emergiu da porta da frente de sua casa e assassinou ao acaso um prisioneiro, houve uma tendncia para se ver esse episdio, assim como a primeira execuo no Chujowa Grka, como um fato nico, apartado do que se tornaria a vida costumeira do campo. A verdade era que as matanas no morro viriam a se tornar habituais, assim como a rotina das manhs de Amon.
De camisa, calas de montaria e botas, s quais sua ordenana dava um polimento faiscante, Amon aparecia nos degraus da frente de sua casa provisria. (Uma residncia melhor estava sendo reformada para seu uso, na outra extremidade do permetro do campo.)  medida que o tempo fosse esquentando, ele iria aparecer sem camisa, pois amava o sol. Mas, por enquanto, trazia a roupa com que tinha tomado o seu caf da manh, um binculo numa das mos e um fuzil com mira telescpica na outra. Com o binculo percorria a rea do campo, o trabalho na pedreira, os presos puxando e empurrando as carretas nos trilhos, que passavam pela sua porta. Os que erguessem os olhos poderiam ver a fumaa do seu cigarro preso entre os lbios,  maneira como um homem fuma quando est muito ocupado para largar as ferramentas de seu ofcio. Logo nos primeiros dias de vida do campo ele apareceu assim  porta de sua casa e atirou num prisioneiro, que no parecia estar empurrando com bastante energia uma carreta carregada de pedra calcria. Ningum sabia o motivo exato de Amon ter destacado aquele prisioneiro  Amon certamente no tinha de prestar contas dos seus atos. Ao estampido partindo do degrau da casa, o homem foi projetado para fora do grupo de cativos, indo cair  margem do caminho. Os outros, naturalmente, pararam de trabalhar, com os msculos retesados, na expectativa de mais uma matana geral. Mas Amon fez-lhes sinal com a mo para que continuassem a trabalhar, franzindo o sobrolho, como que para significar que, por enquanto, estava satisfeito com o ritmo do trabalho.
 parte de tais excessos com prisioneiros, Amon estava tambm quebrando uma das promessas que fizera aos empresrios. Oskar recebeu um telefonema de Madritsch, sugerindo que ambos fossem fazer uma queixa. Amon tinha dito que no interferiria nos negcios das fbricas. Pelo menos, no estava interferindo l dentro. Mas atrasava os turnos, detendo a populao do campo durante horas na Appellplatz. (praa de paradas) fazendo a chamada, nome por nome. Madritsch relatou um caso em que uma batata fora encontrada em determinada caserna; por isso, como castigo, todos os moradores tinham sido publicamente aoitados diante de milhares de prisioneiros. Evidentemente, o castigo consistia em obrigar algumas centenas de pessoas a descerem as calas e roupas de baixo, ou suspender as saias, e aplicar  
Pg.184 
em cada uma vinte e cinco chicotadas. O regulamento estabelecido por Goeth era que cada prisioneiro chicoteado devia ir contando as chicotadas para facilitar o trabalho das ordenanas ucranianas, encarregadas de aplicar o castigo. Se a vtima se atrapalhava na contagem, recomeava-se tudo do incio. As chamadas do Comandante Goeth na Appellplatz eram cheias de medidas desse tipo, que atrasavam os tra-
balhos.
Assim, os turnos chegavam com um atraso de horas na fbrica de roupas de Madritsch dentro do campo de Plaszvia, e ainda mais tarde na fbrica de Oskar na Rua Lipowa. Alm disso, chegavam transtornados, incapazes de concentrao, balbuciando histrias do que Amon ou John ou Scheidt ou qualquer outro tinha feito naquela manh. Oskar queixou-se a um engenheiro seu conhecido na Inspetoria de Armamentos. No adiantava queixar-se aos chefes de polcia, disse o engenheiro.
 Eles no esto envolvidos na mesma guerra que ns  comentou.
 O que eu devia fazer  disse Oskar  era manter os meus empregados no recinto de trabalho. Organizar o meu prprio campo. O engenheiro achou graa na idia.
 E aonde iria acomodar tanta gente, meu caro? O espao de que dispe no bastaria.
 Se eu puder adquirir mais espao  disse Oskar  voc estaria disposto a escrever uma carta apoiando a minha idia?
Quando o engenheiro concordou, Oskar foi procurar um casal idoso chamado Bieiski, que residia na Rua Stradom. Perguntou se estariam interessados numa oferta pelo terreno contguo  fbrica. O casal ficou encantado com os seus modos. Como o aborrecesse o ritual de pechinchar, Oskar comeou oferecendo-lhes um preo excelente. Eles lhe serviram um ch e, muito excitados, chamaram seu advogado para preparar os papis imediatamente. Em seguida, muito cortesmente, Oskar foi procurar Amon para dizer-lhe da sua inteno de criar um subcampo de Plaszvia em sua prpria fbrica. Amon gostou da idia.
 Se os generais e a SS aprovarem  disse ele  voc pode contar com a minha cooperao. Desde que no queira me tirar os meus msicos ou a minha criada particular.
No dia seguinte, foi marcada uma reunio geral com o Oberfuhrer Scherner na Rua Pomorska. Tanto Amon quanto o General Scherner sabiam que Oskar iria ter de arcar, de alguma forma, com todas as despesas do novo campo. Podiam perceber que, quando Oskar usava o argumento industrial  "Quero os meus empregados dentro da fbrica, a fim de poder explorar melhor o seu potencial de trabalho" 
Pg.185 
falava ao mesmo tempo algo maluco da sua personalidade, para
quem a questo de despesas no existia. Consideravam-no um bom sujeito, que fora contaminado por uma forma qualquer de amor a judeus, como um vrus. A deduo da teoria da SS era que o gnio semita de tal forma permeara o mundo, que podia produzir efeitos mgicos.
portanto, devia-se lamentar o que ocorrera com Herr Oskar Schindler, como se ele fosse um prncipe que se houvesse transformado num sapo. Mas Herr Schindler teria de pagar por essa enfermidade.
As exigncias do Obergruppenfhrer Friedrich-Wilhelm Krger, chefe de polcia do Governo-Geral e superior de Scherner e Czurda, baseavam-se nos regulamentos estabelecidos pela Seo de Campos de Concentrao do Escritrio Administrativo e Econmico do General Oswald Pohl, embora at aquele momento o campo de Plaszvia fosse governado independentemente do escritrio de Pohl. As estipulaes bsicas para um Subcampo de Trabalhos Forados implicavam a construo de cercas de quase trs metros de altura; torres de vigia situadas em determinados intervalos, de acordo com o permetro do campo; latrinas, casernas, clnica, gabinete dentrio, casa de banhos e complexo de desinfeco, barbearia, emprio, lavanderia, escritrio, habitaes para os guardas, de padro superior ao das casernas dos prisioneiros, e todos os outros anexos necessrios. O que ocorrera a Amon, Scherner e Czurda era que, de justia, Oskar teria de arcar com todas essas despesas por motivos econmicos e em razo do encantamento cabalstico, que se apossara dele.
E, como tinham a inteno de fazer Oskar pag-las, a sua proposta os interessava. Restava um gueto em Tarnow, a uns sessenta quilmetros a leste, e, quando este fosse abolido, a populao teria de ser absorvida pelo campo de Plaszvia, alm dos milhares de judeus que chegavam agora, vindos dos shtetis do sul da Polnia. Um subcampo na Rua Lipowa iria aliviar a presso.
Amon achava tambm que, embora nunca o expressasse em voz alta aos chefes de polcia, no haveria necessidade de suprir o campo da Rua Lipowa com muita exatido quanto ao mnimo de necessidades alimentcias, estabelecido nas diretrizes do General Pohl. Amon 
 que podia lanar raios da porta de sua casa, sem que ningum protestasse  era adepto da idia oficial de que convinha haver certo desgaste em Plaszvia. Assim, j estava vendendo uma percentagem das raes dos prisioneiros no mercado de Cracvia, atravs de um seu agente, um judeu chamado Wilek Chilowicz, que mantinha contatos com gerentes de fbricas, negociantes e at donos de restaurantes.
O Dr. Alexander Biberstein, agora ele prprio um prisioneiro, apurou que a rao diria variava entre 700 e 1.000 calorias. De manh  
Pg.186 
cada prisioneiro recebia meio litro de caf preto ersatz, com gosto de glandes de carvalho, e um pedao de po de centeio pesando 175g,oitava parte de um dos pes redondos, que todas as manhs as ordenanas do rancho das casernas iam buscar na padaria. Sendo a fome uma fora desmoralizante, a ordenana de cada rancho cortava o po de costas para os famintos e pilheriava: "Quem quer este pedao? Quem vai querer?" Ao meio-dia era distribuda uma sopa  cenouras, beterrabas, um substituto de sagu. Em certos dias a sopa era mais encorpada. Alimentos melhores entravam no campo, trazidos de fora pelos trabalhadores. Uma galinha pequena podia ser transportada debaixo do casaco, um po francs preso numa perna de cala. Entretanto, Amon procurava impedir que isso acontecesse, mandando que os guardas revistassem os trabalhadores de volta ao campo defronte do Prdio da Administrao. No queria que fosse frustrado o desgaste natural, nem que o sopro ideolgico desaparecesse de suas negociatas com alimentos atravs de Chilowicz. Como no saciava os prprios prisioneiros, ele achava que, se Oskar decidira abrigar mil judeus, poderia matar-lhes a fome a suas prprias expensas, sem um fornecimento muito regular de po e beterraba dos emprios de Plaszvia.
Naquela primavera, no foi apenas com os chefes de polcia de Cracvia que Oskar teve de se entender. Visitou a rea dos fundos de sua fbrica para ganhar os vizinhos  sua causa. Adiante das duas cabanas rsticas de Jereth, construdas com tbuas de pinho, ficava a fbrica de radiadores dirigida por Kurt Hoderman, que empregava um bando de poloneses e cerca de cem prisioneiros de Plaszvia. Na outra direo havia a fbrica de embalagens de Jereth, supervisionada pelo engenheiro alemo Kuhnpast. Como eram poucos os prisioneiros de Plaszvia empregados ali, os dois donos das fbricas no se interessaram muito pela idia mas no fizeram objeo, porque Oskar estava oferecendo moradia aos empregados judeus de ambos a 50 metros do local de trabalho, em vez de cinco quilmetros
Em seguida, Oskar foi conversar com o engenheiro Schmilewski na guarnio militar da Wehrmach, situada umas poucas ruas adiante de sua fbrica, que empregava um esquadro de prisioneiros de Plaszvia. Schmilewski no tinha nenhuma objeo a fazer, e seu nome, alm dos de Kuhnpast e Hoderman, foi acrescentado ao requerimento que Schindler enviou  Rua Pomorska.
Supervisores da SS foram visitar a Emalia e conferenciaram com o supervisor Steinhauser, um velho amigo de Oskar da Inspetoria de Armamentos. Inspecionaram o recinto com um ar carrancudo, como  costume dos supervisores, e fizeram perguntas sobre drenagem. Oskar levou-os todos ao seu gabinete no andar de cima e serviu-lhes caf. 
Pg.187 
e conhaque; depois houve despedidas afveis. Poucos dias   depois,o requerimento para montar um Subcampo de Trabalhos Forados no terreno da fbrica foi aprovado.
Naquele ano a DEF iria faturar um lucro de 15,8 milhes de reichmarks. Poder-se-ia pensar que os 300 mil RM que Oskar gastara at agora na construo do campo constituam uma despesa vultosa porm no ruinosa. Mas a verdade era que ele estava apenas comeando a pagar. 
Oskar enviou um pedido ao Bauleitung, ou Escritrio de Construo, de Plaszvia, para que lhe fosse cedido um jovem engenheiro de nome, Adam Garde, que nessa ocasio trabalhava ainda nas casernas do campo de Amon. Garde ento, depois de deixar instrues aos encarregados das construes,era conduzido por uma guarda individual de Plaszvia  Rua Lipowa, a fim de supervisionar o conjunto de obras de Oskar. Quando l chegou pela primeira vez, o engenheiro encontrou duas casernas rudimentares, que j abrigavam perto de 400 prisioneiros. Havia uma cerca patrulhada por um peloto da SS mas os reclusos contaram a Garde que Oskar no permitia que os SS penetrassem no acampamento ou na oficina da fbrica, exceto, naturalmente, quando inspetores categorizados vinham inspecionar o local. Disseram ainda que Oskar mantinha a pequena guarnio militar da SS na fbrica bem provida de bebidas e satisfeita de ali permanecer. Garde podia ver que os prisioneiros da Emalia, eles prprios, pareciam contentes com suas duas frgeis moradias de tbuas de pinho, uma para os homens, outra para as mulheres. J estavam comeando a referirse a si mesmos como os Schindlerjuden,usando o termo com cautelosa satisfao, da mesma maneira que um convalescente de ataque do corao poderia considerar-se um sujeito de sorte.
J tinham cavado umas tantas latrinas primitivas, cujo mau cheiro o engenheiro Garde, por mais que aprovasse aquela disposio para ajudar, no pudera deixar de notar desde a entrada da fbrica. Para o banho, eles usavam a gua de uma bomba ao ar livre.
Oskar pediu a Garde que o acompanhasse ao seu gabinete e examinasse os planos. Seis casernas para at 1.200 pessoas. A cozinha de campanha numa extremidade, a caserna da SS  Oskar estava hospedando os SS numa parte da fbrica  fora da cerca de arame farpado.
 Quero instalaes de primeira qualidade para os chuveiros e lavanderia  disse Oskar.  Tenho bombeiros que podero trabalhar sob sua direo. Tifo...  acrescentou ele, esboando um sorriso para Garde.  No queremos tifo no nosso campo. Piolhos  o que no falta em Plaszvia. Precisamos ter espao para ferver as roupas. 
Pg.188 
Adam Garde estava muito satisfeito de poder ir todos os dias para a Rua Lipowa. Dois engenheiros j haviam sido punidos em Plasz. via por causa de seus diplomas mas os tcnicos na Emalia nunca eram rabaixados. Certa manh, quando era conduzido por um guarda pela Rua Wieliczka em direo a Zablocie, de repente surgiu uma limusine preta, que freou bruscamente. L de dentro emergiu o UntersturmfherGoeth. Estava com aquele seu ar agitado.
 Um guarda para um s prisioneiro?  observou ele.  O que significa isso? O ucraniano desculpou-se, informando ao Herr Commandant que tinha recebido ordem de escoltar seu prisioneiro todas as manhs at a Emalia de Herr Oskar Schindler. Tanto o ucraniano como Garde esperavam que a meno do nome de Oskar lhes desse imunidade.
 Um guarda para um prisioneiro?  tornou a perguntar o comandante, mas se acalmou e entrou de novo na sua limusine, sem resolver a questo de algum modo radical. Mais tarde, naquele mesmo dia, ele entrou em contato com Wilek Chilowicz, que alm de ser seu agente era tambm chefe da polcia judaica do campo  ou os "bombeiros", como eram chamados. Symche Spira, recentemente transformado em Napoleo do gueto, ainda morava l e passava os dias supervisionando as buscas e escavaes de diamantes, ouro e dinheiro escondidos, que no haviam sido registrados pelos judeus que agora eram cinzas sob os pinheiros de Beizek. Contudo, em Plaszvia, Spira no tinha poder algum, pois o centro do poder ali era Chilowicz. Ningum sabia de onde derivava a autoridade de Chilowicz. Talvez WilliKunde houvesse recomendado o seu nome a Amon; talvez Amon tivesse gostado do estilo do agente. O fato  que, de um momento para  outro, ele passou a ser chefe dos "bombeiros" de Plaszvia, o distribuidor de bons e braadeiras, smbolos de autoridade naquele degradante reino e, como Symche, de imaginao bastante primria para equacionar o seu poder com o dos czares.
Goeth chamou Chilowicz e disse-lhe que era melhor ele mandar Adam Garde para Schindler por tempo integral e acabar com aquela funo de escolt-lo todos os dias  fbrica. "Temos engenheiros para dar e vender", dissera Goeth com desprezo. Insinuava que a engenharia era a opo mais fcil para os judeus, habitualmente barrados das faculdades de medicina nas universidades polonesas. Mas, de qualquer maneira, declarou Goeth, Garde teria primeiramente de terminar o trabalho do seu conservatrio.
Adam Garde recebeu a notcia na Caserna 21, onde os beliches se empilhavam de quatro em quatro. Seria devolvido para Zablocie, no final de uma provao  a de trabalhar nos fundos da casa de Goeth 
Pg.189 
onde, como o teriam advertido Reiter e Grnberg, os regulamentos eram imprevisveis.
No decorrer da obra para o comandante, uma grande viga estava sendo colocada na cumeeira do conservatrio de Amon. Enquanto trabalhava, Adam Garde podia ouvir latirem os dois ces do comandante Rolfe Ralf, nomes inspirados numa histria em quadrinhos  que apenas diferiam no modo de agir, pois, anteriormente, com o consentimento de Amon, tinham estraalhado o seio de uma prisioneira suspeita de andar vagabundeando.
O prprio Amon, com sua instruo tcnica precria, aparecia frequentemente por l e adotava ares profissionais, enquanto via as vigas do teto sendo erguidas por roldanas. Ps-se a fazer perguntas, quando a viga central estava sendo encaixada no lugar. Era uma imensa viga de pinho pesado; postado do outro lado da pea, Goeth fez alguma pergunta. Adam Garde no compreendeu o que o comandante estava perguntando e ps a mo em concha no ouvido. De novo Goeth fez a pergunta, e pior do que no ouvi-la, Garden no a compreendeu.
 No compreendo, Herr Commandant  admitiu ele.
Amon agarrou a viga imensa suspensa no ar e, com ambas as mos de possantes dedos, impeliu-a na direo do engenheiro. Garde viu o macio tronco apontado em direo  sua cabea e compreendeu que seria um golpe mortal. Ergueu a mo direita defendendo-se; a viga ento esmagou-lhe as juntas e metacarpos e atirou-o ao cho. Quando Garde pde enxergar de novo atravs da nvoa de dor e nusea, Amon j se fora. Talvez voltasse no dia seguinte para uma resposta satisfatria...
Com receio de ser considerado aleijado e deficiente, o engenheiro evitou exibir a mo a caminho da Krankenstube (enfermaria), e manteve-a numa postura normal, apesar da dor excruciante. Mas acabou permitindo que o Dr. Hilfstein a engessasse. Assim continuou a supervisionar a construo do conservatrio, e todos os dias era conduzido  fbrica Emalia, esperando que a manga comprida do palet disfarasse o gesso. Ainda assim, impelido pelo mesmo receio, ele acabou arrancando o gesso da mo. Pacincia se ela iria ficar defeituosa! O que ele queria era garantir a sua transferncia para o campo de Schindler, aparentando condies fsicas perfeitas.
Uma semana depois, carregando uma camisa, alguns livros e uma trouxa, ele foi definitivamente escoltado para a Rua Lipowa. 
Pg.190 
Captulo 23 
Entre os prisioneiros bem-informados, j havia competio para ir trabalhar na Emalia. O prisioneiro Dolek Horowitz, por ser o encarregado de compras no campo de Plaszvia, sabia que no lhe seria permitido ir para o subcampo de Schindler. Mas tinha mulher e dois filhos.
Richard, o mais novo de seus filhos, acordava cedo naquelas manhs do comeo da primavera  quando a terra se despedia do inverno envolta num nevoeiro , saltava do beliche de sua me na caserna das mulheres e descia correndo a encosta para o campo dos homens, pensando no grosseiro po da manh. Tinha de comparecer com o pai  primeira chamada na Appellplatz. No caminho o menino passava pelo posto da polcia judaica de Chilowicz e, mesmo nas manhs de bruma, podia ser visto das duas torres de vigia. Mas estava em segurana porque todos o conheciam. Era o filho de Horowitz. O pai era considerado valioso por Herr Bosch, que, por sua vez, costumava beber em companhia do comandante. A sensao de liberdade de Richard era uma consequncia da capacidade tcnica de seu pai; passava contente sob os olhos dos guardas, entrava na caserna dos homens e acordava o pai em seu catre, com perguntas. Por que h nvoa de manh e no  tarde? Vai haver caminhes? Vai demorar muito a chamada do diana Appellplatzl Vai haver gente chicoteada? Pelas perguntas de Richard, Dolek Horowitz chegou  concluso de que Plaszvia no servia nem mesmo para crianas privilegiadas.
Talvez pudesse entrar em contato com Schindler. Com o pretexto de estar cuidando de seu negcio, Schindler aparecia de vez em quando no campo e dava uma volta pelo Prdio da Administrao e pelas oficinas, para distribuir pequenos presentes e trocar notcias com velhos  
Pg.191  
amigo tais como Stern, Roman Ginter e Poldek Pfefferberg. Como Dolek no conseguia falar com ele nessas ocasies, ocorreu-lhe que talvez pudesse entrar em contato com o industrial atravs de Bosch. Dolek acreditava que os dois se viam amiudamente. No ali no campo, mas talvez em escritrios na cidade e em reunies sociais. Percebia que eles no eram amigos mas mantinham ligaes de negcios e de favores mtuos.
No era talvez apenas Richard que Dolek queria que fosse para a fbrica da Schindler: Richard podia diluir seu terror em nuvens de perguntas. Mas principalmente Niusia, sua filha de dez anos, que era apenas uma criana franzina entre muitas outras, que no mais faziam perguntas; que perdera a capacidade de franqueza; que, diariamente  de uma janela na oficina de vassouras, onde ela costurava os pelos nas armaes de madeira , via chegarem caminhes repletos no forte austraco do morro e carregava insuportavelmente o seu terror, como uma adulta, incapaz de subir no colo de seus pais e transferir o seu medo. A fim de mitigar a fome, Niusia habituara-se a fumar cascas de cebola enroladas em papel de jornal. Os boatos que corriam sobre a Emalia eram que l no havia necessidade daqueles recursos precoces.
Assim Dolek apelou para Bosch numa de suas idas  fbrica de roupas. Criara coragem, animado com a idia de bondades anteriores de Bosch, para pedir-lhe que falasse com Herr Schindler. Repetiu o pedido e mais uma vez o nome dos filhos, para que Bosch, cuja memria estava afetada pelo abuso dos schnapps que bebia, no se esquecesse. Bosch disse que Herr Schindler era "o meu melhor amigo e far tudo o que eu pedir".
Dolek no esperava muito daquela conversa. Sua mulher, Regina, no tinha nenhuma experincia em trabalhar com esmaltados. O prprio Bosch no mais tornou a mencionar o assunto. Contudo, uma semana depois, eles eram includos na lista dos prximos trabalhadores da Emalia, sancionada pelo Comandante Goeth, em troca de um pequeno envelope contendo jias. Niusia parecia uma adulta retrada na caserna das mulheres na Emalia e Richard se movimentava como em Plaszvia, conhecido de todos na seo de munies e nas oficinas de peas esmaltadas; os prprios guardas no faziam objeo  sua familiaridade. Regina estava sempre esperando que Oskar a procurasse para dizer: " voc a mulher de Dolek Horowitz?" Seu nico problema, ento, seria como expressar sua gratido. Mas ele nunca a procurou. Regina notava, satisfeita, que na Rua Lipowa nem ela nem a filha chamavam muito ateno. Ambas sabiam que Oskar no ignorava quem elas fossem, pois frequentemente ele chamava Richard pelo nome. E sabiam tambm, pela natureza incomum das perguntas 
Pg.192 
de Richard, a extenso do benefcio com que haviam sido agraciados. 
O campo da Emalia no tinha um comandante residente para tiranizar os prisioneiros. No havia guardas permanentes. A guarnio era trocada a cada dois dias, homens da SS e ucranianos, que vinham em dois caminhes de Plaszvia para Zablocie para se encarregarem da segurana do subcampo. Os soldados que gostavam de ser destacados para a Emalia. As cozinhas de Herr Direktor embora ainda mais primitivas do que as de Plaszvia, serviam refeies melhores. Como Herr Direktor se indignava e imediatamente ligava para o Oberfhrer Scherner, quando algum guarda, em vez de cingir-se ao patrulhamento do permetro, penetrava no campo, a guarnio no ousava passar para o outro lado da cerca. O patrulhamento em Zablocie era agradavelmente montono.
Exceto quando havia inspeo de oficiais da SS, os prisioneiros, que trabalhavam na DEF, raramente viam de perto os seus guardas. Um corredor, com cerca de arame farpado de ambos os lados, levavaos para o local do seu trabalho na oficina de esmaltados; outro, at a porta da seo de munies. Os judeus da Emalia, que trabalhavam na fbrica de embalagens, de radiadores e no escritrio da guarnio, eram levados e trazidos de volta por ucranianos, substitudos por outros a cada dois dias. Assim, nenhum guarda tinha tempo de cismar com algum prisioneiro e persegui-lo.
Portanto, embora coubesse  SS estabelecer os limites da vida que os prisioneiros levavam na Emalia, era Oskar quem resolvia os detalhes. O clima era de frgil estabilidade. No havia ces. Nem espancamentos. A sopa e o po eram melhores e com mais fartura do que em Plaszvia  cerca de 2.000 calorias por dia, de acordo com um mdico que trabalhava como operrio na Emalia. Os turnos eram prolongados, frequentemente de doze horas, pois Oskar continuava sendo um homem de negcios com contratos de fornecimento de material blico  e o desejo convencional de lucro. Contudo,  preciso dizer que o trabalho no era rduo e que muitos dos seus prisioneiros pareciam ter acreditado na ocasio que aquela atividade era uma contribuio em termos comensurveis para a sua sobrevivncia. Segundo a prestao de contas apresentada por Oskar, depois da guerra, ao Comit de Distribuio Conjunto, ele havia gasto 1.800.000 dotys (360 mil dlares) em alimentao para o campo da Emalia. Podiam-se encontrar lanamentos adulterados para despesas semelhantes nos livros de Farben e Krupp  embora nem de longe numa percentagem de lucro to alta como na prestao de contas de Oskar. Contudo, a verdade  que ningum  
Pg.193 
adoeceu ou morreu de excesso de trabalho, espancamento ou  fome na Emalia. Ao passo que somente na fbrica LG. Farben Buna 25 mil dos 35 mil prisioneiros da fora de trabalho pereceram labutando.
Muitos anos depois, o pessoal da Emalia iria referir-se ao campo de Schindler como um paraso. Como por essa poca eles j estivessem espalhados pelo mundo, no pode ter sido um termo adotado em conjunto depois de ocorridos os fatos. Era, naturalmente, um paraso apenas relativo, um cu em contraste com Plaszvia. O que inspirava aquela gente era um senso de libertao quase irreal, algo de fantstico, que eles no queriam examinar muito de perto por temer v-lo evaporarse. Os novos empregados da DEF no conheciam Oskar pessoalmente. No queriam cruzar o caminho de fferr Direktor ou arriscar-se a falar com ele. Precisavam de tempo para se recuperar e se ajustar ao sistema de priso to pouco ortodoxo estabelecido por Schindler.
Uma jovem chamada Lusia, por exemplo. Recentemente a tinham separado do marido, escolhido na multido de prisioneiros na Appellplatz de Plaszvia e enviado com outros para Mauthausen. Havia chorado muito, certa da realidade do seu estado de viva. Em lgrimas, fora destacada para a Emalia. O seu trabalho era carregar os objetos banhados em esmalte para os fornos. Ali era permitido aquecer gua nas superfcies da maquinaria, e a oficina ficava aquecida. Para Lusia, a gua quente tinha sido o primeiro benefcio da Emalia.
A princpio Lusia via Oskar apenas como uma figura alta passando entre as prensas de metal ou atravessando uma passarela. Por algum motivo, no lhe parecia uma figura ameaadora. A sua sensao era de que, se algum a notasse, a natureza do local  a ausncia de espancamentos, a comida, o campo sem uma guarda visvel  talvez se invertesse. Queria apenas trabalhar discretamente no seu turno e retornar pelo tnel de arame farpado para a sua caserna.
Aps certo tempo, Lusia passou a dar um cumprimento de cabea a Oskar e at a dizer-lhe que, sim, obrigada, Herr Direktor, estava tudo bem. Certa vez ele lhe ofereceu cigarros, artigo mais valioso do que ouro, no somente como reconforto, mas tambm como um meio de negociar com os trabalhadores poloneses. Como sabia que amigos )odiam sumir, ela temia a amizade de Oskar; queria que ele continuasse sendo uma presena, uma espcie de pai encantado. Um paraso dirigido por um amigo era demasiado frgil. Para se ter um cu duradouro,era preciso que houvesse algum mais autoritrio e mais misterioso. Muitos prisioneiros da Emalia sentiam o mesmo. 
Na ocasio em que o subcampo de Oskar entrou em funcionamento, uma moa chamada Regina Perlam residia em Cracvia, com documentos 
Pg.194 
forjados, que a davam como sul-americana. Sua tez  morena emprestava credibilidade aos documentos e, graas a isso, ela trabalhava como sendo de raa ariana no escritrio de uma fbrica em Podgrze. Estaria mais protegida contra chantagistas, se tivesse ido para Varsvia, Lodz ou Gdansk. Mas seus pais estavam em Plaszvia e, na sua posio, conseguia fornecer-lhes comida, conforto, remdios. Sabia pelosseus pais no gueto, que se tornara um adgio na mitologia judaica de Cracvia, que era possvel esperar de Herr Schindler uma extrema dedicao. Estava a par, tambm, do que se passava no campo de Plaszvia, na pedreira, nos degraus da entrada da casa do comandante. Ela teria de desvendar sua falsa identidade para conseguir o que queria mas acreditava ser essencial conseguir a transferncia de seus pais para o campo de Schindler. 
A primeira vez que se apresentou na DEF, para no se fazer notar, tinha escolhido um discreto e desbotado vestido estampado e no usava meias. O porteiro polons telefonou para o escritrio de Herr Schindler no andar acima, e pela vidraa ela podia ver o olhar de desaprovao desse funcionrio. No  ningum especial  uma pobretona de alguma das outras fbricas." Regina sentia medo, compreensvel em pessoas com papis forjados de raa ariana, de que o polons descobrisse que ela era judia. O guarda parecia hostil. 
No tem maior importncia, disse ela, quando ele voltou abanando a cabea, pois no queria despertar a sua desconfiana. Mas o polons no se deu sequer ao trabalho de mentir.
 Herr Direktor no a quer ver  disse ele. A capota do BMW luzia no ptio da fbrica e s podia pertencer a Schindler. "O patro estava no recinto, mas no para visitantes, que no podiam sequer comprar um par de meias..." Ela se retirou trmula, pensando no perigo por que passara. Tinha sido salva de fazer a Herr Schindler uma confisso que, mesmo em sonho, temia revelar a algum.
Regina esperou uma semana, at conseguir uma folga na fbrica de Podgrze. Dedicou toda a metade de um dia preparando-se. Tomou um banho e arranjou um par de meias no mercado negro. De uma de suas poucas amigas  em sua situao, com documentos falsos, no podia se arriscar a ter muitas amizades  tomou emprestado uma blusa. Tinha um casaco em boas condies e comprou um chapu de palha laqueada com um vu. Maquilou-se, obtendo em sua tez morena o brilho prprio de uma mulher livre de qualquer ameaa. No espelho, viu-se como era antes da guerra, uma elegante cracoviana de extica extrao racial  o pai um homem de negcios hngaro e a me nascida no Rio.
Dessa vez, como Regina pretendia, o polons no a reconheceu. 
Pg.195  
Deixou-a entrar enquanto telefonava a Klonowska, a secretria de Herr Direktor, e em seguida falou com o prprio Schindler.
 Herr Direktor, est aqui uma jovem senhora que deseja v-lo para tratar de um negcio importante.  Herr Schindler pediu detalhes.   uma moa bem-vestida e muito distinta.
Como se estivesse ansioso por conhec-la, ou talvez temendo que se tratasse de algum caso seu no passado que pudesse causar-lhe embarao no escritrio, Schindler foi ao seu encontro na escada. Sorriu ao ver que no a conhecia. Era um prazer conhecer Frulein Rodriguez.
Regina sentiu nele uma espcie de respeito por sua beleza, respeito ao mesmo tempo infantil e sofisticado. Com um gesto largo de gal de cinema, convidou-a a subir ao escritrio. O que tinha a dizer era confidencial? Pois no. Acompanhando-a, ele passou pela mesa de Klonowska, que no pareceu preocupada. A moa podia significar apenas mercado negro ou alguma transao comercial. Podia at mesmo tratarse de uma bela guerrilheira. O amor era a suposio menos provvel.
De qualquer modo, uma jovem com a experincia de Klonowska no esperava que tanto Oskar como ela prpria pertencessem um ao outro com exclusividade.
Uma vez em seu gabinete, Schindler ofereceu uma cadeira  moa e foi sentar-se  sua mesa de trabalho, sob o retrato de praxe do Fhrer. Aceitava um cigarro? Talvez um Pernod ou um conhaque? No, disse Regina, mas Herr Direktor no devia se. constranger de tomar o seu drinque. ele se serviu da bebida. Mas qual era aquele negcio to importante? perguntou, no com a mesma afabilidade charmosa que usara de incio. Pois agora, com a porta do gabinete fechada, ela havia adotado uma atitude diferente. Visivelmente, a visitante viera tratar de um negcio srio. Ela chegou-se para a frente. Por um instante pareceu-lhe ridculo que, depois de seu pai ter pago 50 mil zlotys por papis de identidade ariana, abrir o jogo e contar tudo para um Sudetendeutscher, meio irnico, meio preocupado, com um copo de conhaque na mo. Todavia, de certa forma, foi muito mais fcil falar do que tinha imaginado.
 Digo-lhe Herr Schindler, que no sou uma polonesa ariana. Meu sobrenome verdadeiro  Periman. Meus pais esto no campo de Plaszvia. Eles dizem, e eu acredito, que trabalhar na Emalia  o mesmo que receber um Lebenskarte, um carto com direito  vida. No tenho nada que lhe possa dar em troca; pedi emprestado roupas para poder ser admitida em sua fbrica. Quer mandar buscar os meus pais para trabalharem aqui?
Schindler devolveu o copo  mesa e ps-se de p.
Voc quer fazer um arranjo secreto? Eu no fao arranjos secretos
Pg.196 
O que sugere  ilegal, Frulein. Tenho uma fbrica aqui em Zablocie e a nica pergunta que fao  se a pessoa est capacitada para determinado trabalho. Se quiser ter a bondade de deixar o seu endereo e nome como ariana, talvez seja possvel escrever-lhe daqui a algum tempo e inform-la se preciso de seus pais para o trabalho em perspectiva. Mas no agora, e no sob qualquer pretexto.
 Mas eles no podem vir para c como trabalhadores especializados  explicou Frulein Periman.  Meu pai era importador, no metalrgico.
 Temos uma equipe no escritrio. Mas estamos sobretudo precisando  de operrios especializados na oficina.
Fora derrotada. Com lgrimas turvando-lhe a viso, escreveu o seu falso nome e endereo verdadeiro  ele que fizesse o que bem entendesse com aqueles dados. Mas, j na rua, Regina compreendeu e comeou a criar nimo. Talvez Schindler desconfiasse de que ela podia ser uma agente, que viera preparar-lhe uma armadilha. De qualquer modo, ele se mostrara bem frio. Nenhum gesto ambguo, nenhuma bondade subentendida, na maneira pela qual a pusera para fora do seu gabinete.
Um ms depois, o Sr. e a Sra. Periman foram transferidos de Plaszvia para a Emalia. No isoladamente, como Regina Periman tinha imaginado que aconteceria, se Herr Oskar Schindler decidisse ser compassivo, mas como parte de um novo grupo de trinta trabalhadores.
s vezes, ela ia at a Rua Lipowa e,  custa de suborno, conseguia entrar na oficina para v-los. Seu pai trabalhava dando banho de esmalte em objetos, alimentando com carvo os fornos, varrendo do cho a sucata. "Mas ele est de novo falando^', contou a Sra. Periman  filha. No campo de Plaszvia, ele no abria a boca.
Com efeito, apesar das toscas casernas por onde o vento penetrava, dos encanamentos deficientes, ali, na Emalia, havia um certo estado de esprito, uma confiana renascente, uma esperana de vida, que ela, vivendo arriscadamente com documentos falsos na soturna Cracvia, no poderia sentir seno no dia em que cessasse aquela loucura.
Frulein Periman-Rodriguez no complicou a vida de Herr Schindler, irrompendo em seu gabinete para lhe demonstrar gratido ou lhe escrevendo cartas efusivas. Entretanto, sempre saa pelo porto amarelo da DEF com uma insacivel inveja dos que estavam l dentro. 
Houve, ento, uma campanha para transferir para a Emalia o Rabino Menasha Levartov, que se fazia passar por metalrgico em Plaszvia. Levartov era um rabino erudito da cidade, jovem e de barbas negras. Era mais liberal do que os rabinos dos shtetls da Polnia, os que acreditavam 
Pg.197 
que o Shabbat era mais importante do que a prpria vida e que. no decorrer dos anos de 1942 e 1943, eram fuzilados s centenas, todas as noites de sexta-feira, por se recusarem a trabalhar nos acantonamentos de trabalhos forados da Polnia. Menasha Levartov era homem do tipo que, mesmo nos anos de paz, teria pregado  sua congregao que, embora a inflexibilidade dos piedosos seja uma homenagem a Deus, o mesmo Deus tambm se sentiria homenageado com a flexibilidade dos sensatos.
Levartov sempre merecera a admirao de Itzhak Stern, que trabalhava no Escritrio de Construo do Prdio da Administrao de Amon Goeth. Nos velhos tempos, Stern e Levartov, em horas de lazer, teriam passado horas juntos bebendo herbata, deixando a bebida esfriar, enquanto discutiam a influncia de Zoroastro no judasmo e vice-versa, ou o conceito do mundo natural no taosmo. Stern, quando se tratava de religio comparativa, sentia mais prazer em conversar com Levartov do que jamais sentiria com o diletante Oskar Schindler, que tinha um fraco por discorrer sobre o mesmo assunto. 
Em uma das visitas de Oskar a Plaszvia, Stern disse-lhe que era preciso dar um jeito de levar Menasha Levartov para Emalia, do contrrio Goeth certamente acabaria matando-o. Porque Levartov tinha uma personalidade que atraa o olhar  era uma questo de presena. Goeth tinha atrao por pessoas de presena; elas eram uma classe de alta prioridade para a sua mira. Stern contou a Oskar como Goeth tinha tentado assassinar Levartov.
O campo de Amon Goeth continha agora mais de 30 mil pessoas. De um lado da Appellplatz, prximo  capela morturia judaica, transformada em cocheira, ficava um conjunto polons, com capacidade para cerca de 1.200 prisioneiros. O Obergruppenfhrer Krger, depois de inspecionar o novo campo, ficou to satisfeito com o seu desenvolvimento que promoveu o comandante dois postos acima,  categoria de Hauptsturmfhrer.
Assim como muitos poloneses, judeus do Leste e da Tchecoslovquia ficavam retidos em Plaszvia, enquanto eram providenciados alojamentos para eles mais a oeste, em Auschwitz-Birkenau ou Grss-Rosen. s vezes, a populao era de mais de 35 mil, e a Appellplatz fervilhava de gente na hora da chamada. Assim, Amon frequentemente tinha de livrar-se dos antigos prisioneiros a fim de criar espao para os recm-chegados. E Oskar sabia que o mtodo rpido do comandante era entrar num dos escritrios ou oficinas do campo, formar duas fileiras de indivduos e ordenar que uma delas fosse conduzida para fora. Essa fileira era levada para o morro do forte austraco, para ser executada por pelotes de fuzilamento, ou para os vages de gado 
Pg.198 
na Estao de Cracvia-Plaszvia ou, quando esta foi desmantelada no outono de 1943, para o desvio de estrada de ferro junto ao quartel fortificado da SS.
Stern contou a Oskar que Amon, numa daquelas suas      fues de seleo, entrou na oficina metalrgica da fbrica. Os    supervisores tinham-se perfilado como soldados e prestado ansiosamente as informaes, sabendo que uma palavra mal escolhida podia ser mortal.
 Preciso de vinte e cinco metalrgicos  disse Amon aos  supervisores, quando esses terminaram suas explicaes.  Apenas vinte e cinco. Indiquem-me os mais competentes.
Um dos supervisores apontou para Levartov e o rabino entrou na fila, conquanto notasse que Amon prestara uma ateno especial  escolha da sua pessoa. Naturalmente, nunca se sabia qual fileira receberia ordem de marchar, ou qual seria o seu destino; mas, na maioria dos casos, era prefervel fazer parte da fileira dos competentes.
Assim prosseguiu a seleo. Levartov tinha notado que as oficinas metalrgicas estavam estranhamente desertas naquela manh, pois muitos metalrgicos e outros, que l trabalhavam, tinham sido avisados da aproximao de Goeth e se esgueirado para dentro da fbrica de confeces de Madritsch para se esconderem entre os rolos de tecido ou fingirem que estavam consertando mquinas de costura. Os quarenta e poucos mais lentos ou inadvertidos, que tinham ficado nas oficinas de metalurgia, achavam-se agora em duas fileiras entre os bancos e os tornos. Todos estavam temerosos, porm os mais inquietos eram os que compunham a fileira menor.
Ento um rapazola de idade imprecisa, entre dezesseis e dezenove
anos, que fazia parte da fileira menor, gritou:  Mas, Herr Commandant, eu tambm sou um metalrgico competente.
 Sim, LiebcherH  murmurara Amon, puxando o revlver do coldre, adiantando-se para o rapazola e dando-lhe um tiro na cabea.
O estampido violento atirara a vtima contra a parede, matando-a instantaneamente, segundo o testemunho de Levartov.
A fileira agora mais curta foi conduzida, marchando, para a estao ferroviria, enquanto o corpo do rapazola era transportado num carrinho de mo para o morro, o cho lavado, e os tornos recomeavam a funcionar. Mas Levartov, fabricando lentamente dobradias sentado no seu banco, percebera o lampejo do olhar de Amon  um olhar que dizia: Ali est um. O rabino tinha a impresso de que o rapazola, com seu grito de apelo, fizera Amon esquecer temporariamente o prprio Levartov, seu alvo mais bvio.                                                              
Stern contou a Schindler que uns poucos dias se passaram at. 
Pg.199 
Amon voltar  oficina metalrgica, encontr-la cheia de gente e recomear a fazer as suas selees para o morro ou para a estao ferroviria. Ento, parou junto ao banco de Levartov. Era como Levartov estivera prevendo. Podia sentir o cheiro da loo de barba de Amon.
podia ver os seus punhos engomados. Amon era sempre de uma elegncia impecvel.
 O que voc est fazendo?  perguntou o comandante.
 Herr Commandant  respondeu Levartov  estou fabricando dobradias.  O rabino apontou para um pequeno monte de dobradias no cho.
 Faa uma agora para mim  ordenou Amon. E, tirando seu relgio do bolso, comeou a marcar o tempo. Levartov cortou apressadamente uma dobradia, manipulou o metal, apertou o torno; os dedos trabalhando com competncia. Com uma contagem trmula em sua cabea ele terminou a dobradia, no que lhe pareceu 58 segundos, e deixou-a cair no cho a seus ps.
 Mais uma  murmurou Amon. Aps a sua experincia de velocidade, o rabino sentia-se agora mais tranquilo e trabalhou com confiana. Em talvez um minuto, a segunda dobradia estava pronta. 
Amon olhou para o pequeno monte no cho.
 Voc esteve trabalhando aqui desde as seis horas da manh disse ele, sem erguer os olhos do cho.  Se pode trabalhar com a rapidez que acaba de demonstrar, por que est to pequena a pilha de dobradias?
Naturalmente, Levartov compreendeu que a sua prpria percia o condenara  morte. Amon ordenou que ele fosse andando entre os bancos e ningum se deu ao trabalho ou teve a coragem de levantar a cabea. Para ver o qu? Algum caminhar para a morte? Tais caminhadas eram muito comuns em Plaszvia.
Ao ar livre da manh de primavera, Amon colocou Menasha Levartov contra a parede da oficina, firmando-lhe os ombros; depois pegou no revlver, com que dois dias antes havia assassinado o menino.
Levartov apertou os olhos e viu prisioneiros passarem apressadamente, empurrando ou arrastando as matrias-primas do campo de Plaszvia, ansiosos por se afastarem dali, os cracovianos entre eles pensando: "Meu Deus, chegou a vez de Levartov." Murmurando para si mesmo o Shema Yisroel  ele ouviu o rudo do mecanismo do revlver.
Mas o acionamento interno da arma no culminou num estampido, apenas num estalido, como o de um isqueiro que se recusa a acender.
E, exatamente como um fumante aborrecido, nada mais, Amon Goeth retirou e tornou a colocar o pente de balas, fez mira de novo e disparou. Quando a cabea do rabino desviou, na suposio instintiva de 
Pg.200 
que a bala seria absorvida como um soco, s o que emergiu do revlver de Goeth foi outro dique.
 Donnerwetter! Zum Teufel!  praguejou Goeth.
Levartov teve a impresso de que a qualquer instante Amon comearia a insultar a arma defeituosa, como se se tratasse de dois negociantes tentando transar um trabalho simples  a enfiao de um cano, a perfurao de uma parede com uma broca. Amon recolocou em seu coldre preto a arma defeituosa e tirou do bolso da tnica um revlver de cabo de madreprola de certo tipo, que o Rabino Levartov s conhecia atravs de leituras, na infncia, de histrias do Velho Oeste.
"Evidentemente", pensou ele, "no devo esperar clemncia por motivo de falha tcnica. No vai desistir. Vou ser morto com um revlver de cowboy; mesmo que falhem todas as armas precedentes, o Hauptsturmfhrer Goeh lanar mo de outras mais primitivas para levar a cabo a sua inteno."
Conforme Stern contou a Schindler, quando Goeth fez de novo pontaria e disparou, Menasha Levartov j comeara a olhar  sua volta  procura de algum objeto por perto que pudesse ser usado como substituto da pistola defeituosa de Goeth. A um canto da parede havia uma pilha de carves, material aparentemente sem utilidade nesse impasse.
 Herr Commandant  comeou Levartov, mas j podia ouvir o mortfero co e as molas do revlver de cowboy postos em funcionamento. E de novofoi como o dique de um isqueiro recusando-se a acender. Amon, furioso, parecia estar tentando arrancar o cano da arma.
O Rabino Levartov decidiu ento adotar o recurso que vira os supervisores da oficina usarem.
 Herr Commandant, devo inform-lo de que a minha produo de dobradias foi to pouco satisfatria porque as mquinas estavam sendo recalibradas esta manh. Em vez de fabricar dobradias, fui destacado para transportar carvo.
Levartov pensou que tinha violado as regras do jogo em que ambos estavam empenhados, o jogo que devia terminar com a sua morte justa. Era como se o rabino tivesse escondido os dados, e no se pudesse chegar a uma concluso. Amon esbofeteou-o com a sua mo esquerda livre, e Levartov sentiu o gosto do sangue na boca, como uma garantia de sobrevivncia.
Ento o Hauptsturmfhrer Goeth simplesmente abandonou Levartov encostado contra a parede. Entretanto, a crise, como ambos, Levartov e Stern, no ignoravam, fora simplesmente adiada.
Stern sussurrou sua narrativa a Oskar no Prdio da Administrao
Pg.201 
de Plaszvia. Curvando-se, com os olhos voltados para cima, as mos postas, foi como de costume prolixo nos detalhes.
 No h problema  murmurou Oskar. Ele gostava de provocar Stern.  Por que esta histria to comprida? Sempre h lugar na Emalia para algum que pode fabricar uma dobradia em menos de um minuto.
Quando Levartov e sua mulher chegaram ao subcampo da fbrica Emalia no vero de 1943, ele teve de sofrer o que a princpio tomou como ligeiras brincadeiras de Schindler sobre religio. Nas tardes de sexta-feira, na oficina de munies, onde Levartov operava um torno, Schindler lhe dizia: "No devia estar aqui, Rabino. Devia estar se preparando para o Shabbat." Mas quando Oskar lhe deu disfaradamente uma garrafa de vinho para usar nas cerimnias, Levartov compreendeu que HerrDirektor no estava brincando. Nas sextas-feiras, antes do cair da tarde, o rabino era dispensado do trabalho e ia para a sua caserna atrs do arame farpado no terreno dos fundos da DEF.
Ali, sob roupas malcheirosas secando nas cordas, ele recitava o Kiddush com um copo de vinho, entre os beliches empilhados at o teto.
E, naturalmente,  sombra de uma torre de vigia da SS.
Pg.202 
  Oskar Schindler que, naqueles dias, desmontava de seu cavalo no ptio da Emalia era ainda o prottipo do magnata. Elegante e belo no estilo dos astros de cinema George Sanders e Curt Jurgens, aos quais as pessoas sempre o comparavam. Usava palet e calas de montaria de talhe impecvel; o polimento das botas dava-lhe um brilho faiscante. Parecia um homem a quem s o lucro interessava.
Entretanto, Oskar voltava de cavalgadas pela zona rural para o seu gabinete, onde o esperavam contas surpreendentes, mesmo para a contabilidade de uma empresa excntrica como a DEF.
Remessas da padaria em Plaszvia para o campo da fbrica na Rua Lipowa, Zablocie, consistiam em umas poucas centenas de pes, entregues duas vezes por semana e um ocasional meio caminho de nabos. Esses caminhes mal cheios eram sem dvida registrados e multiplicados nos livros de contabilidade do Comandante Goeth, enquanto homens de sua confiana, como Chilowicz, vendiam para lucro de Herr Hauptsturmfhrer a diferena entre os magros suprimentos, que chegavam  Rua Lipowa, e os fartos comboios fantasmas que Goeth anotava em seus livros. Se Oskar dependesse de Amon para a comida dos presos, os seus 900 prisioneiros teriam recebido cada um, para o seu sustento, talvez trs quartos de um quilo de po por semana e sopa de trs em trs dias. Em suas misses e do seu gerente, Oskar estava gastando mais de 50 mil zl. por ms em alimentos adquiridos no mercado negro para a cozinha do seu campo. Havia semanas em que tinha de desencavar mais de trs mil pes redondos. Ia para a cidade e falava com supervisores alemes nas grandes padarias, levando em sua pasta reichmarks e duas ou trs garrafas de bebidas.
Oskar no parecia se dar conta de que, em toda a Polnia naquele  
Pg.203 
vero de 1943, ele era o campeo entre os fornecedores de comida ilegal para os prisioneiros. A nuvem maligna da fome, que a poltica da SS fazia pairar sobre as grandes fbricas de morte e sobre cada um dos campos de trabalhos forados, era inexistente na Rua Lipowa de um modo perigosamente acintoso.
Naquele vero ocorreram vrios incidentes que vieram engrandecer a figura mitolgica de Schindler e a suposio quase religiosa entre os muitos prisioneiros de Plaszvia e toda a populao carcerria da Emalia de que Oskar tinha o dom de efetuar salvamentos milagrosos.
Logo que foram estabelecidos subcampos, oficiais superiores do campo principal, ou Lager, iam inspecionar os primeiros a fim de se certificarem de que a energia dos trabalhadores escravos era estimulada da maneira mais radical e exemplar. No se sabe ao certo que membros da equipe de oficinas de Plaszvia inspecionavam a Emalia, mas alguns prisioneiros e o prprio Oskar sempre diriam que Goeth era um deles. E quando no era Goeth, era Leo John, ou Scheidt; ou ainda Josef Neuschel, um protegido de Goeth. No  uma injustia mencionar esses nomes, relacionando-os com a expresso "estmulo de energia de uma maneira radical e exemplar". O fato  que na histria de Plaszvia eles tinham praticado ou permitido que fossem praticadas ferozes violncias. Certa vez, visitando a Emalia, notaram no ptio um prisioneiro de nome Lamus, que empurrava um carrinho de mo muito lentamente. O prprio Oskar declarou que Goeth estava l naquele dia e, notando a lentido de Lamus, voltara-se para um jovem NCO chamado Grn (Grn era um outro protegido de Goeth, seu guardacostas, ex-lutador). Certamente foi ele quem recebeu a ordem para executar Lamus.
Assim Grn prendeu Lamus, enquanto os inspetores continuaram percorrendo outras partes do campo da fbrica. Algum da fundio correu ao gabinete de Herr Direktor e o alertou. Oskar desceu as escadas, furioso, ainda mais rapidamente do que no dia da visita de Regina Periman, e chegou ao ptio justo no momento em que Grn estava mandando que Lamus se encostasse na parede.
 No pode fazer isso aqui!  gritou Oskar.  No vou conseguir produo do meu pessoal, se voc comear a atirar a torto e a direito! Tenho contratos de guerra de alta prioridade.  Era o argumento que Schindler sempre usava e o seu tom insinuava que ele conhecia oficiais superiores, a quem seria dado o nome de Grn, se ele impedisse a produo da Emalia.
Grn era esperto. Sabia que os outros inspetores tinham entrado nas oficinas, onde o rudo das prensas de metal e o ronco dos tornos encobririam qualquer barulho que ele fizesse, ou deixasse de fazer. 
Pg.204 
Lamus era de to pouca importncia para homens como Goeth e John que nenhuma investigao seria feita posteriormente.
 Que vantagem vou levar com isso?  perguntou o SS.
 Vodca basta para voc?  retorquiu Oskar.
O preo era substancial. Para trabalhar o dia inteiro atrs das metralhadoras, durante as Akionen, as execues dirias em massa no Leste, ele recebia meio litro de vodca. Os rapazes disputavam um lugar no peloto a fim de, no final da noite, receber o seu prmio. E ali o Herr Direktor estava lhe oferecendo trs vezes mais por um ato de omisso.
 No estou vendo a garrafa  disse ele, enquanto Herr Schindler j empurrava Lamus para longe da mira do SS.  Desaparea!  gritou ele para a sua quase vtima.
 Pode ir apanhar a sua garrafa no meu escritrio quando terminar a inspeo  disse Oskar.
Oskar tomou parte numa transao semelhante, quando a Gestapo deu uma busca no apartamento de um falsificador e descobriu, entre outros documentos prontos ou quase prontos, papis de identidade arianos para uma famlia chamada Wohifeiler  me, pai, trs filhos adolescentes, todos eles trabalhando no campo de Schindler. Dois homens da Gestapo apareceram na Rua Lipowa a fim de levar a famlia para um interrogatrio, que resultaria no seu envio  priso de Montelupich e, em seguida, a Chujowa Grka. Trs horas depois de entrarem no escritrio de Oskar ambos os homens partiram, cambaleando pelas escadas abaixo, sorrindo com o bom humor temporrio do conhaque e, ao que se podia presumir, com dinheiro no bolso. Os papis confiscados agora se achavam espalhados sobre a mesa de Oskar. Ele os apanhou e jogou no fogo da lareira.
Em seguida, o caso dos irmos Danziger, que numa sexta-feira racharam uma prensa de metal. Homens honestos, perplexos, semiespecializados, erguendo os olhos shtel da mquina que tinham acabado de avariar. O Herr Direktor no se achava na fbrica, e algum  um espio entre os seus operrios, afirmaria sempre Oskar  de- nunciou os Danziger  administrao de Plaszvia. Os irmos foram retirados da Emalia e o seu enforcamento anunciado na chamada da manh seguinte em Plaszvia: "Esta noite, a populao deste campo assistir  execuo de dois sabotadores." O que, naturalmente, mais pesava na balana da condenao ao enforcamento dos Danziger era a sua aura ortodoxa.
Oskar voltou da sua viagem de negcios a Sosnowiec s trs horas da tarde de sbado, trs horas antes do programado enforcamento dos dois irmos. Na sua mesa esperava-o a notcia da sentena. Imediatamente 
Pg.205 
ele partiu no seu carro para Plaszvia, levando consigo conhaque e algumas deliciosas salsichas kielbasa. Estacionou junto ao Prdio da Administrao e encontrou Goeth em seu gabinete. Ficou satisfeito por no ter de acordar o comandante da sua sesta habitual  tarde. Ningum sabe os termos da transao havida naquela tarde no gabinete de Goeth, naquele gabinete que poderia ter pertencido a Torquemada e que possua cavilhas soldadas na parede onde eram dependuradas pessoas para serem disciplinadas ou instrudas. Todavia,  difcil acreditar que Goeth pudesse se satisfazer apenas com conhaque e salsichas. Em todo caso, sua preocupao com a integridade das prensas de metal do Reich se abrandou com a entrevista e, s seis da tarde, a hora marcada para a execuo, os irmos Danziger voltaram no assento traseiro da luxuosa limusine de Oskar para a doce esqualidez da Emalia.
Todos esses sucessos eram, naturalmente, parciais. Oskar bem sabia que uma das caractersticas dos Csares era remir to irracionalmente quanto condenar.
O engenheiro Emil Krautwirt, durante o dia trabalhava na fbrica de radiadores por detrs das casernas da Emalia e  noite dormia  no subcampo de Oskar. Era jovem, tendo conseguido seu diploma no final da dcada de 30. Como os outros na Emalia, chamava o local de o "campo de Schindler"; ao lev-lo de volta a Plaszvia para um enforcamento exemplar, a SS queria demonstrar de quem era de fato o campo, pelo menos sob alguns aspectos.
A primeira histria relatada pelo restante dos prisioneiros de Plaszvia, que ainda estariam vivos no fim da guerra, era o enforcamento do engenheiro Krautwirt, antes mesmo da narrativa de cada uma das dores e humilhaes que haviam eles prprios sofrido. A SS era muito econmica com seus cadafalsos e, em Plaszvia, as forcas pareciam uma srie de traves baixas de jogo de futebol, sem a majestade dos patbulos da Histria, da guilhotina revolucionria, do cadafalso eliza betano, da forca erigida atrs da cadeia do xerife. Em tempo de paz, as forcas em Plaszvia e Auschwitz intimidariam, no pela sua solenidade mas pela sua mediocridade. Aquele tipo de estrutura das forcas em Plaszvia, como descobririam as mes, permitia a uma criana de cinco anos ver um enforcamento do local onde se situava a turba de prisioneiros na Appellplatz. Juntamente com Krautwirt seria tambm enforcado um menino de dezesseis anos, chamado Haubenstock. Krautwirt tinha sido condenado sob alegao de umas cartas que escrevera a pessoas sediciosas na cidade de Cracvia. No caso de Haubenstock, a acusao era por ter ele sido ou vido cantando Volga, Volga, Kalinka Maya e outras canes russas proibidas, com a inteno, segundo a  
Pg.206 
sentena de morte, de conquistar guardas ucranianos  causa b, chevista.
O regulamento para o ritual da execuo no campo de Plasz exigia silncio. Ao contrrio dos enforcamentos festivos de outros ps, a queda do corpo se processava sem o mais leve rudo. Os prisineiros se perfilavam em falanges e eram patrulhados por homens mulheres cientes de seu poder: por Hujar e John; por Scheidt e Grimm pelos NCO Landsdorfer, Amthor e Grimm, Ritschek e Schindler; e por supervisoras da SS recentemente destacadas para Plaszvia, ambas muito  eficientes no manejo de cassetetes: Alice Orlowski e Luise Danz. Se tal superviso, os apelos dos condenados eram ouvidos em silncio 
O engenheiro Krautwirt pareceu a princpio aturdido, emudece mas o menino apelou, com voz conturbada, para o Hauptsturmfk que se postara ao lado da forca.
 No sou comunista, Herr Commandant. Odeio o comunisno Eram apenas canes. Canes comuns.
O carrasco, um aougueiro judeu de Cracvia, perdoado algun  crime com a condio de aceitar aquela tarefa, ajeitou Haubens tock em cima de um tamborete e passou-lhe o lao no pescoo. Percebi que Amon queria que o menino fosse o primeiro a ser enforcado, pois lhe desagradava continuar ouvindo aqueles apelos. Quando o aougueiro deu um pontap no banco de sob os ps de Haubenstock, a corida  rompeu  o menino, roxo e engasgado, com o lao ainda  vota do pescoo, arrastou-se de joelhos at Goeth, continuando as suas splicas,batendo a cabea nos tornozelos do comandante e agarrando lhe as pernas. Era a mais extrema submisso; conferia a Goeth de novo a realeza, que ele vinha exercendo naqueles ltimos meses febra Amon, numa Appellplatz repleta de olhos estarrecidos, soltou apenas uma espcie de assobio, um sussurro como vento em dunas de areia tirou a pistola do coldre, deu um pontap no menino e o matou cos um tiro na cabea.
Quando o pobre engenheiro Krautwirt viu o horror da execuo do menino, apanhou uma navalha que trazia escondida no bolso e cortou os pulsos. Os prisioneiros na fila da frente podiam ver que Krautwirt se ferira mortalmente em ambos os braos. Mas Goeth ordenou ao carrasco que prosseguisse a execuo. Respingados com o sangue dos ferimentos de Krautwirt, dois ucranianos o suspenderam na forca, onde, com o sangue esguichando de ambos os pulsos, ele foi estrangulado diante dos judeus do sul da Polnia.
Era natural acreditar, com uma parte lgica do crebro, que to bar bara exibio seria talvez a ltima, que poderia haver uma reviravolta 
Pg.207 
nos mtodos e atitudes at mesmo de Amon ou, seno dele, dos oficiais invisveis que, de algum gabinete de grandes janelas envidraadas e assoalho encerado, abrindo para a praa onde velhas vendiam flores, teriam de reformular parte do que acontecera em Plaszvia e justificar o resto.
Na segunda viagem do Dr. Sediacek de Budapeste para Cracvia, Oskar e o dentista planejaram um esquema que, para um homem mais introvertido do que Schindler, teria parecido ingnuo. Oskar sugeriu a Sediacek que, talvez, uma das razes de Amon Goeth demonstrar tal selvageria era a m qualidade das bebidas que ele ingeria, os gales do pretenso conhaque local que enfraquecia ainda mais o seu crebro defeituoso, levando-o s ltimas consequncias. Com parte dos reichmarks que o Dr. Sediacek trouxera para a Emalia e entregara a Oskar,uma caixa de conhaque de primeira qualidade devia ser adquirida  o que no era artigo fcil ou barato de se obter na Polnia ps-Stalingrado. Oskar ofereceria a caixa a Amon e iria sugerir-lhe que, de uma ou outra forma, a guerra um dia ia terminar e haveria investigaes de atos individuais. Que talvez at os amigos de Amon se lembrariam de ocasies em que ele se excedera em seu zelo.
Oskar era homem de natureza a acreditar que se podia beber com o diabo e alcanar um equilbrio da maldade, entre um e outro copo de conhaque. No que considerasse assustadores os mtodos mais radicais; simplesmente no lhe ocorriam. Sempre fora homem de transaes.
O Wachtmeister Oswald Bosko, que anteriormente tivera o controle do permetro do gueto, era, em contraste, um homem de idias.
Tornara-se impossvel para ele trabalhar dentro do esquema da SS, distribuindo subornos, providenciando papis falsificados, colocando uma dzia de crianas sob seu patrocnio, enquanto centenas de outras eram levadas para fora do porto do gueto. Acabara fugindo de sua delegacia em Podgrze e desaparecendo nas florestas de Niepolomice, reduto de guerrilheiros. Agora, no Exrcito do Povo, ele procurara expiar o entusiasmo imaturo que tinha sentido pelo nazismo no vero de 1938.
Vestido como um campons polons, ele acabaria sendo reconhecido numa aldeia a oeste de Cracvia e fuzilado como traidor. Desde ento, Bosko seria venerado como um mrtir.
Bosko passara a viver na floresta porque no lhe restava outra opo. Faltavam-lhe os recursos financeiros com que Oskar engraxava o sistema. Mas as suas naturezas eram divergentes, pois enquanto um nada possura a no ser um posto e um uniforme posteriormente abandonados, o outro mantinha em mo dinheiro e mercadorias com que negociar. No pretendemos elogiar Bosko ou denegrir Oskar, afirmando 
Pg.208 
que s acidentalmente esse ltimo viria a tornar-se um mrtir, s no caso de que algum negcio que ele estivesse transando o comprometesse. Mas havia gente que ainda respirava  os Wohlfeiler os irmos Danziger, Lamus  porque Oskar trabalhava daquela maneira. Por ser aquele o seu sistema, o inverossmil campo da Emalia continuava funcionando na Rua Lipowa, e l na maioria do tempo, cerca de mil pessoas estavam a salvo, e a SS se mantinha do lado de fora da cerca de arame farpado. Ningum ali era espancado e a sopa era bastante grossa para sustentar a vida. De acordo com a natureza de cada um desses dois membros do Partido, Bosko e Schindler, a repulsa de ambos se equivalia, embora Bosko manifestasse a sua abandonando o uniforme num cabide em Podgrze, ao passo que Oskar espetava na roupa seu vistoso emblema nazista e saa para presentear com bebidas finas
o demente Amon Goeth, em Plaszvia. 
Era um fim de tarde e Oskar estava sentado com Goeth no salo da casa do comandante. Majola, a amante de Goeth, mulher de fsico delicado, secretria na fbrica Wagner na cidade, apareceu no salo. No passava o seu tempo em meio aos excessos de Plaszvia. Tinha um ar sensvel e essa sensibilidade provocara rumores de que Majola tinha ameaado no mais dormir com Goeth se ele continuasse a matar arbitrariamente as pessoas. Mas no se sabia se eram verdadeiros ou se eram apenas dessas interpretaes teraputicas que brotam na imaginao dos prisioneiros, em seu desespero, na esperana de tornar o mundo habitvel.
Majola no se demorou muito com Amon e Oskar naquela tarde, pois presumia que ia ser uma reunio regada com muita bebida. Helen Hirsch, plida jovem vestida de preto, criada de Amon, trouxe-lhe os acompanhamentos habituais  bolinhos, canaps, salsichas. Resfolegava de cansao. Na noite anterior Amon a tinha espancado por preparar comida para Majola sem a sua permisso; e nessa manh a obrigara a subir e descer 50 vezes os trs lances de escada da casa, por causa de uma sujeira de mosca num dos quadros do corredor. Helen tinha ouvido certos boatos sobre Herr Schindler mas era a primeira vez que o via. Nessa tarde, no a reconfortou a vista daqueles dois homens grandes, sentados de cada lado da mesa baixa, fraternais e em aparente concordncia de idias. Nada ali a interessava, pois a certeza de sua prpria morte era o seu pensamento dominante. Esperava apenas a sobrevivncia da irm mais moa, que trabalhava nas cozinhas do campo. Juntara algum dinheiro, que guardava escondido, na esperana de que iria servir para salvar a irm. Acreditava que no havia nenhuma quantia ou transao que pudesse influenciar a sua chance de sobrevivncia. 
Pg.209 
Os dois homens continuaram bebendo a tarde toda e pela    noite adentro. Por muito tempo, mesmo depois de a interpretao noturna do Lullaby de Brahms, pelo prisioneiro Tosia Lieberman, ter acalmado o campo das mulheres e penetrado por entre as tbuas da caserna dos homens, Goeth e Schindler continuaram bebendo. A bebida incandescia-lhes os prodigiosos fgados como fornalhas. No momento certo, agindo em nome de uma amizade que, apesar de todo aquele conhaque ingerido, no ia alm da flor da pele... Oskar debruou-se para Amon e, astuto como um demnio, comeou a induzi-lo a adotar uma atitude de maior conteno.
Amon recebeu bem o que ouvia. Pareceu a Oskar que ele se deixava influir pela idia da moderao  atitude digna de um imperador. Amon passou a imaginar um escravo doente nas carretas, um prisioneiro cambaleante voltando da fbrica de cabos  com aquele fingimento to difcil de se tolerar , sob um carregamento de roupas ou lenha apanhadas no porto da priso. E Amon sentia um estranho calor no ventre, fantasiando a prpria magnanimidade, ao perdoar aquele molengo, aquele ator pattico. Como Calgula poderia ter tido a tentao de ver a si mesmo como Calgula o Bom, por algum tempo a imagem de Amon o Bom tomou conta da imaginao do comandante. Na verdade, ele conservaria um fraco por aquela fantasia* Nessa noite, com o sangue aquecido pelo dourado conhaque e o campo quase todo adormecido mais alm, Amon definitivamente se deixou seduzir mais pela idia da prpria clemncia do que pelo medo de represlias; De manh, porm, ele se lembraria das advertncias de Oskar confirmadas pelas notcias do dia de que os russos estavam ameaando a frente de batalha em Kiev. Stalingrado ficava a uma distancia inconcebvel de Plaszvia mas a distncia at Kiev era imaginvel.
Alguns dias depois da visita de Oskar a Amon, chegaram a Emalia rumores de que a dupla influncia estava produzindo seus efeitos no comandante. Dr. Sediacek, de volta a Budapeste, informaria a Samu Springmann que Amon renunciara, pelo menos por enquanto, a matar arbitrariamente as pessoas. E o bom Samu, entre as suas diversas preocupaes com respeito  lista de locais como Dachau e Drancy, no oeste, e Sobibor e Beizec no leste, por algum tempo alimentara esperana de que o problema de Plaszvia estava resolvido. 
Mas a atitude de clemncia logo desapareceu. Se houvera uma breve trgua, aqueles que iriam sobreviver e prestar testemunho dos seus dias em Plaszvia no a gravaram na memria. Pareceu-lhes que os assassinatos sumrios eram contnuos. Se Amon no aparecia no seu alpendre essa manh ou na manh seguinte, isso no queria dizer que ele no aparecesse dois dias depois. Seria preciso bem mais do que a 
Pg.210 
ausncia temporria de Goeth para dar at mesmo ao mais iludido dos prisioneiros a esperana de uma mudana fundamental na natureza do comandante. E de qualquer forma, l estaria ele, nos degraus, com o bon de estilo austraco, que usava nos assassinatos, de binculos em punho, procurando algum faltoso. 
Dr. Sediacek voltara a Budapeste no apenas com notcias exageradamente esperanosas de uma transformao em Amon como com dados mais precisos sobre o campo em Plaszvia. Certa tarde, um guarda da Emalia apareceu em Plaszvia para levar Stern a Zablocie. Ao chegar ao porto da entrada, Stern foi conduzido ao novo apartamento de Oskar. Ali HerrDirektor apresentou-o a dois homens bem-vestidos. 
Um era Sediacek; o outro um judeu  equipado com um passaporte suo  que se apresentou como Babar.
 Meu caro amigo  disse Oskar a Stern , quero que escreva um relatrio o mais completo possvel sobre o que se passa em Plaszvia numa s tarde.
Stern nunca antes vira Sediacek ou Babar e achou que Oskar estava sendo indiscreto. Depois de cumprimentar os dois estranhos, ele murmurou que antes de empreender a tarefa gostaria de dar uma palavra em particular com Herr Direktor.
Oskar costumava dizer que Itzhak Stern nunca podia fazer uma declarao ou pedido, a no ser sob a capa de citaes do Taimude babilnico e ritos de purificao. Mas agora Stern se mostrou mais direto.
 Por favor, diga-me, Herr Schindler  perguntou ele --, no acha que isso  um tremendo risco?
Oskar explodiu. Antes de ter conseguido se controlar, os estranhos o tinham ouvido da outra sala.
 Acha que eu lhe pediria alguma coisa se houvesse algum risco?  Depois, acalmando-se, acrescentou:  Sempre h algum risco como deve saber melhor do que eu. Mas no com esses dois homens.
Garanto por eles.
Afinal, Stem passou a tarde inteira escrevendo o seu relatrio. Era um erudito e habituado a escrever numa prosa escorreita. A organizao de salvamento em Budapeste, os sionistas em Istambul iriam receber de Stern um relatrio no qual podiam confiar. Multiplicando por 1.700 os pequenos e grandes campos de trabalhos forados na Polnia, podia-se obter uma colcha de retalhos que deixaria o mundo estupefato!
Sediacek e Oskar queriam mais do que um relatrio de Stern. Na manh aps a bebericao Amon-Oskar, este ltimo tornou a arrastar
Pg.211
o seu herico fgado de volta a Plaszvia, antes da hora do expediente no escritrio. Entre as sugestes de tolerncia, Oskar havia informado a Amon na noite da vspera de que tinha uma permisso por escrito para levar "amigos industriais" numa visita ao campo. Babar possua uma cmera em miniatura, que ele carregava abertamente na mo Talvez acreditasse que, se um SS lhe perguntasse alguma coisa a respeito, ele teria a chance de passar cinco minutos gabando a pequena mquina fotogrfica, que adquirira numa recente viagem de negcios a Bruxelas ou Estocolmo.
Ao sair do Prdio da Administrao com os visitantes de Budapeste, Oskar segurou pelo ombro o franzino Stern: seus amigos gostariam de visitar as oficinas e alojamentos, mas se houvesse alguma coisa que Stern achasse que eles no tinham notado, simplesmente deveria curvar-se e amarrar o cordo de seu sapato.
Na estrada de Goeth, pavimentada com tmulos fragmentados, eles passaram pela caserna dos SS. Quase imediatamente, o prisioneiro Stern baixou-se e precisou amarrar o cordo do sapato. O companheiro de Sediacek bateu um instantneo dos grupos de homens arrastando encosta acima cargas de caminhes de pedras da pedreira, enquanto Stern murmurava: "Perdo, senhores." E levou um tempo enorme amarrando o cordo do sapato, para que os visitantes pudessem ler as inscries nos fragmentos monumentais. Ali estavam as lpides de Bluma Gemeinerowa (1859-1927); de Matylde Liebeskind, falecida aos 90 anos em 1912; de Helena Wachsberg, que morrera de parto em 1911; de Rozia Groder, uma menina de 13 anos, falecida em 1931; de Sofia Rosner e Adolf Gottlieb, que tinham morrido no reinado de Franz Josef. Stern queria que eles vissem que aqueles nomes respeitveis tinham-se tornado pedras de calamento.
Prosseguindo em sua caminhada, passaram pelo Puffaus, o bordel de moas polonesas para a SS e os ucranianos at chegarem  pedreira, onde eram feitas escavaes no penhasco de pedra calcria. Ali, Stern parou outra vez para dar ns nos cordes; queria que a cena fosse registrada. Homens se destruam no brutal trabalho de escavar o penhasco com malhos e cunhas. Ningum, dos que labutavam ali, demonstrou qualquer curiosidade pelosvisitantes daquela manh. Ivan, o motorista ucraniano de Amon Goeth, estava de planto, e o supervisor era um criminoso alemo de cabea redonda chamado Erik. Este j tinha demonstrado sua capacidade para chacinas, tendo assassinado os prprios pais e a irm. Deveria ter sido enforcado ou pelo menos preso numa masmorra, se a SS no houvesse chegado  concluso de que existiam criminosos piores do que parricidas, e que Erik devia ser utilizado para punir tais criminosos. Conforme Stern tinha menciona
Pg.212 
do em seu relatrio, um mdico cracoviano, chamado Edward Gold blatt, fora enviado de sua clnica para o campo pelo Dr. Blancke da SS e seu protegido judeu, Dr. Leon Gross. Erik deleitava-se de ver um homem de cultura e cincia se apresentar na pedreira para trabalhar com suas mos delicadas; no caso de Goldblatt os espancamentos comearam com a primeira demonstrao de incerteza no manejo de marfeios e puas. No decorrer de vrios dias, Erik, vrios SS e ucranianos espancaram Goldblatt. O mdico era forado a trabalhar com o rosto deformado pela inchao e um olho fechado. Ningum sabia que erro de tcnica na escavao da pedreira decidiu Erik a dar no Dr. Goldblatt a sua surra derradeira. Muito depois de o mdico ter perdido a conscincia, Erik permitiu que ele fosse levado para a Krankenstube, onde o Dr. Leon Gross recusou-se a admiti-lo. Com essa sano mdica, Erik e membros da SS continuaram a dar pontaps no moribundo Goldblatt que, rejeitado para tratamento, jazia  entrada do hospital.
Stern curvou-se e amarrou o lao do sapato na pedreira porque, como Oskar e outros do complexo de Plaszvia, acreditava que futuramente juizes poderiam perguntar: "Onde  numa s palavra  ocorreu tal fato?"
Oskar pde dar a seus companheiros uma vista geral do campo, subindo com eles at Chujowa Grka e o morro austraco, onde carrinhos de mo manchados de sangue, usados no transporte dos mortos para os bosques, se enfileiravam despudoradamente  entrada do forte. J havia milhares enterrados ali em valas comuns ou nas matas de pinheiros a leste. Quando os russos chegaram do leste, aquela mata com sua populao de vtimas seria a primeira coisa que encontrariam antes da moribunda Plaszvia.
Quanto a Plaszvia, proclamada uma maravilha industrial, fatalmente decepcionaria qualquer observador mais atento. Amon, Bosch, Leo John, Josef Neuschel, consideravam-na uma cidade-modelo pelo simples motivo de que os estava enriquecendo. Ficariam muito surpresos se descobrissem que uma das razes de sua rendosa situao em Plaszvia no era porque a Inspetoria de Armamentos estava encantada com os milagres que eles vinham conseguindo.
Na realidade, os nicos milagres econmicos dentro de Plaszvia eram as fortunas pessoais de Amon e sua panelinha. Qualquer pessoa de bom senso se surpreendia que contratos de guerra fossem cedidos a Plaszvia, considerando que suas instalaes eram to precrias e antiquadas. Mas astutos prisioneiros sionistas dentro de Plaszvia pressionavam gente como Oskar e Madritsch, que, por sua vez, pressionavam a Inspetoria de Armamentos. Levando em conta que a fome e os assassinatos espordicos em Plaszvia ainda eram preferveis ao exterminio
Pg.213 
infalvel em Auschwitz e Beizec, Oskar se empenhava em negociaes com os engenheiros e oficiais encarregados das compras para a Inspetoria de Armamento do General Schindler. Esses cavalheiros faziam uma careta e diziam: "Ora vamos, Oskar! Est falando srio?"
Mas acabavam concordando em firmar contratos com o campo de Amou Goeth, e com Oskar, para fornecimento de ps manufaturadas com a sucata de ferro da sua fbrica, na Rua Lipowa, de tubos de exaustores, subprodutos de uma fbrica de gelias em Podgrze. Eram pequenas as chances da entrega total das ps e seus cabos  Wehrmacht.
Muitos dos amigos de Oskar, entre os oficiais da Inspetoria de Armamentos, compreendiam o que estavam fazendo, isto , que fornecer trabalho  escravatura no campo de Plaszvia era o mesmo que prolongar a vida de muitos escravos. Alguns deles custavam a engolir aquela situao, pois sabiam que Goeth era um escroque, e parecia-lhes um insulto, ao seu sincero e antiquado patriotismo, a vida sibartica que Amon levava no campo.
O estranho paradoxo do Campo de Trabalhos Forados de Plaszvia  o fato de que alguns dos escravos estivessem conspirando para manter o reinado de Amon  pode se evidenciar no caso de Roman Ginter, antigo empresrio e agora um dos supervisores na metalrgica de onde o Rabino Levartov j havia sido salvo. Certa manh Ginter foi chamado ao gabinete de Goeth e, ao fechar a porta, levou o primeiro de uma srie de murros. Enquanto esmurrava Ginter, Amon esbravejava incoerentemente, depois arrastou-o para fora, escadas abaixo, at uma parede da entrada do prdio.
 Posso perguntar uma coisa?  perguntou Ginter contra a parede, cuspindo dois dentes, discretamente, para que Amon no o julgasse um ator ou um choramingas.
 Seu safado!  rugiu Goeth.  No entregou as abotoaduras que eu tinha encomendado! A data est anotada no calendrio da minha mesa.
 Mas, Herr Commandant  tornou Ginter , permita que lhe diga que as abotoaduras ficaram prontas ontem. Perguntei a Herr Oberscharfhrer Neuschel o que devia fazer com elas, e ele me respondeu que as entregasse em seu gabinete. Foi o que fiz.
Amon arrastou Ginter, sangrando, de volta ao seu gabinete e chamou o SS Neuschel.  Sim,  verdade  replicou o jovem Neuschel.  Veja na sua segunda gaveta   esquerda, Herr Commandant. Goeth procurou na gaveta e encontrou as abotoaduras. Quase o matei por causa delas  reclamou ele do seu no muito inteligente protegido vienense. 
Pg.214  
Esse mesmo Roman Ginter -- cuspindo discretamente os seus dois dentes  contra a parede cinzenta do Prdio da Administrao, esse zero judeu, de cujo assassinato acidental Amon teria acusado Neuschel  esse Ginter  o homem que, depois de obter um passe especial, vai  DEF falar com Oskar Schindler sobre fornecimento para as oficinas de Plaszvia de uma grande quantidade de sucata, sem a qual todo o pessoal das oficinas seria mandado  num trem para Auschwitz. Assim enquanto o desatinado Amon Goeth acredita que mantm Plaszvia graas ao seu gnio administrativo, so os prisioneiros, de boca sangrando, que mantm o campo em funcionamento.  
Pg.215  
Captulo 25 
Algumas pessoas julgavam que Oskar estava gastando como um jogador compulsivo. Embora pouco soubessem a seu respeito, seus prisioneiros sentiam que Oskar se arruinaria por causa deles, se necessrio fosse. Mais tarde  no agora, pois agora aceitavam sua caridade com o mesmo esprito com que uma criana aceita presentes de Natal dos pais  eles diriam: "Graas a Deus, ele era mais fiel a ns do que  mulher!" Assim como os prisioneiros, muitas pessoas podiam provocar a mesma reao em Oskar.
Uma delas, um tal Dr.Sopp, mdico das prises da SS em Cracvia e da Corte* da SS em Pomorska, informou a Schindler, atravs de um emissrio polons, que estava disposto a fazer certa transao com ele. Na priso de Montelupich havia uma mulher chamada Helene Schindler. O Dr. Sopp sabia que ela no era aparentada com Oskar mas o marido tinha investido algum dinheiro na Emalia. Os papis de identidade ariana da detenta eram duvidosos. O Dr. Sopp no precisava informar que, para a Sra. Schindler, isso implicava o desfecho de uma viagem de caminho a Chujowa Grka. Mas, se Oskar se dispusesse a comparecer com certa quantia, o Dr. Sopp estaria disposto a dar um certificado mdico, declarando que, em vista de seu estado de sade, devia ser permitido  Sra. Schindler fazer uma cura prolongada em Marienbad, na Bomia.
Oskar foi ao consultrio do Dr. Sopp, onde apurou que o mdico queria 50 mil zl. pelo certificado. No adiantava discutir o preo. Aps trs anos de prtica, um homem como Sopp sabia avaliar com preciso o preo de favores desse gnero. Nessa mesma tarde, Oskar conse*A SS tinha a sua prpria seo judiciria. Pg.216 
guiu levantar a quantia. Sopp sabia que, se quisesse, Oskar era o tipo de homem que sempre tinha  sua disposio dinheiro de mercado negro, dinheiro cuja origem no podia ser revelada.
Antes de efetuar o pagamento, Oskar estabeleceu certas condies. O Dr. Sopp teria de acompanh-lo a Montelupich, para tirar a mulher de sua cela. Depois ele iria entreg-la pessoalmente a amigos mtuos na cidade. Sopp no fez objeo.  luz de uma lmpada nua na glida Montelupich, a Sra. Schindler recebeu o seu precioso documento.
Um homem mais cauteloso, um homem com mentalidade de contador, teria razoavelmente se reembolsado dos seus gastos, com o dinheiro que Sedlacek lhe trouxera de Budapeste. Ao todo, Oskar iria receber quase 150 mil reichmarks, trazidos para Cracvia em malas de fundo falso e no forro de roupas. Mas, em parte porque o seu apreo pelo dinheiro (quer seu ou de outros) era to displicente, em parte por causa do seu senso de honra, Oskar sempre entregou a seus contatos Judeus todas as importncias que recebia de Sediacek, exceto a quantia despendida com o conhaque de Amon.
O negcio nem sempre era sem complicaes. Quando, no vero de 1943, Sediacek chegou a Cracvia com 50 mil RM, os sionistas dentro de Plaszvia, a quem Oskar ofereceu o dinheiro, recearam que se tratasse de uma armadilha.
Oskar procurou primeiro Henry Mandei, fundidor na fundio de
Plaszvia e membro do Hitach Du, movimento sionista de jovens e trabalhadores. Mandei no quis tocar no dinheiro.
 Escute  disse-lhe Schindler , tenho uma carta em hebraico remetendo o dinheiro, uma carta da Palestina.
Mas, se era uma armadilha, se Oskar tinha se comprometido e estava sendo usado, teria naturalmente uma carta da Palestina- Para quem no recebia po suficiente para o caf da manh, a soma oferecida era assustadora: 50 mil RM  100 mil zl. Oferecida para ser usada sem nenhum controle. Simplesmente no era crvel!
Em seguida Schindler tentou entregar, dentro de Plaszvia, o dinheiro, escondido na mala de seu carro, a outro membro do Hitach Dut, uma mulher chamada Alta Rubner, que tinha alguns contatos, com prisioneiros que trabalhavam na fbrica de cabos, com alguns poloneses na priso polonesa, com o movimento de resistncia em Sosnowiec. Talvez, disse ela a Mandei, fosse melhor reportar a questo ao movimento de resistncia e deixar que os dirigentes decidissem sobre a procedncia do dinheiro que Oskar Schindler estava oferecendo. 
Oskar continuou tentando persuadi-la, erguendo a voz sob a proteo das ruidosas mquinas de costura de Madritsch. 
Garanto de todo corao que no se trata de uma cilada! 
Pg.217 
De todo o corao. Exatamente a expresso que se podia esperar de um agent provocateur ! 
Contudo, depois de Oskar ter ido embora, de Mandel ter falado com Stern, que declarou ser a carta autntica, e depois de novas conferncias com Alta Rubner, foi tomada a deciso de aceitar o dinheiro.Entretanto, eles sabiam que Oskar no ia voltar com a quantia. Mandei foi ter com Mareei Goldberg do Escritrio da Administrao. Goldberg tinha sido tambm membro do Hitach Du, mas, depois de se tornar um funcionrio encarregado das listas  listas de trabalho e listas de transporte, listas dos vivos e mortos  passara a aceitar subornos. Mandei, porm, podia pression-lo. Uma das listas que Goldberg era encarregado de fazer  ou, pelo menos, acrescentar-lhe ou subtair-lhe nomes  era a lista dos que iam  Emalia para receber o fornecimento da sucata que seria usada nas oficinas de Plaszvia. Por efeito de uma antiga amizade e, sem ter de revelar a razo para querer ir  Emalia, Mandei foi includo na lista.
Mas, ao chegar a Zablocie, quando se esgueirava da oficina para ir falar com Oskar, ele fora detido no escritrio da frente por Bankier. Herr Schindler estava muito ocupado, disse Bankier.uma semana depois. Mandei estava de volta  Emalia. De novo Bankier no permitiu que ele falasse com Oskar. Na terceira vez, Bankier foi mais categrico.
 Est querendo o dinheiro sionista? No quis antes, e agora est querendo. Pois agora no vai receber nada. Assim  a vida, Sr. Mandei!
Mandei deu-lhe um cumprimento de cabea e saiu. Presumiu, alis erroneamente, que Bankier j se apossara de pelo menos uma parte do dinheiro. Mas o fato era que Bankier estava sendo cauteloso. O dinheiro acabou indo parar nas mos dos prisioneiros sionistas, pois um recibo da quantia, assinado por Alta Rubner, foi entregue por Sern a Springmann. Parece que os 50 mil zl foram usados em parte para ajudar judeus, que chegavam de outras cidades, no procedentes de Cracvia e que, portanto, no possuam nenhuma fonte local de ajuda.
Se os fundos que Oskar recebia e passava adiante eram gastos sobretudo em alimentos, como Stern teria preferido, ou em grande parte usados no movimento da resistncia  a compra de passes ou armas , era uma questo que Oskar nunca investigou. Todavia, nenhuma parcela desse dinheiro serviu para comprar a sada da Sra. Schindler de Montelupich ou salvar as vidas de gente como os irmos Danziger.
E tampouco o dinheiro de Sediacek foi usado para indenizar Oskar pelos 30 mil quilos de peas esmaltadas com que ele subornou funcionrios mais ou menos graduados da SS durante o ano de 1943, com 
Pg.218 
a finalidade de impedi-los de recomendar o fechamento do subcampo da Emalia.
Nenhuma parcela desse dinheiro foi usado na aquisio dos 16 mil zl. de instrumentos ginecolgicos, que Oskar teve de comprar no mercado negro, quando uma das moas da Emalia engravidou  a gravidez, naturalmente, significava uma passagem imediata para Auschwitz.
Nem foi usado na compra do Mercedes avariado do UntersturmfherJohn, que o ofereceu a Oskar para compra, ao mesmo tempo que este ltimo apresentava um pedido de transferncia de 30 pessoas de Piaszvia para irem trabalhar na Emalia. O carro comprado por Oskar um dia por 12 mil zl foi requisitado no dia seguinte pelo amigo e colega de Leo John, o UntersturmfherScheidt, para ser usado na construo de fortificaes no permetro do campo. Talvez eles transportem terra na mala do carro  comentou furioso Oskar para Ingrid durante o jantar. Mais tarde, numa referncia informal sobre o caso, ele declarou que tivera muito prazer em prestar assistncia a ambos os cavalheiros.
Pg. 219  
Captulo 26
Raimund Titsch estava fazendo pagamentos de uma espcie diferente. Titsch era um modesto, quieto catlico austraco, com uma manqueira, que alguns diziam ser consequncia da Primeira Guerra Mundial e outros atribuam a um acidente na infncia. Era uns dez anos mais velho do que Amon ou Oskar. Dentro do campo de Plaszvia, trabalhava como gerente da fbrica de uniformes de Madritsch, que empregava cerca de 3.000 costureiras e mecnicos.
Um dos pagamentos eram as partidas de xadrez que jogava com Amon Goeth. O Prdio da Administrao era ligado  fbrica de Madritsch por telefone e Amon frequentemente chamava Titsch ao seu gabinete para uma partida. A primeira vez que Raimund jogou com Amon, a partida terminou em meia hora, com a derrota do Hauptsturmfhrer. Titsch, com um contido e no muito triunfante "xequemate" morrendo-lhe nos lbios, ficara aturdido com o acesso de raiva de Amon. No final, o comandante enfiara e abotoara seu palet, afivelara seu cinturo e metera com fora o bon na cabea. Titsch, apavorado, pensou que Amon ia descer e dirigir-se  linha de trao das carretas, procurando algum prisioneiro para desforrar-se sobre algum da pequena vitria do adversrio no xadrez. Ento, desde aquela primeira tarde, Titsch adotara nova ttica. Passou a levar at umas trs horas para perder a partida para o comandante. Quando funcionrios no Prdio da Administrao viam Titsch capengar pela Rua Jerozolimska acima, a fim de cumprir suas obrigaes no xadrez, sabiam que a tarde seria mais tranquila. Um humilde senso de segurana se espalhava do prdio at as oficinas, at os infelizes puxadores de pedras.
Mas Raimund Titsch no jogava apenas apaziguadoras partidas  de xadrez. Alm do Dr. Sediacek e do homem com a cmera de bolso, 
Pg.220 
que Oskar levara a Plaszvia, Titsch comeara a fotografar tambm. s vezes da janela do seu escritrio, s vezes de cantos das oficinas, ele fotografava os prisioneiros de uniforme listrado na linha das carretas, a distribuio de po e sopa, a escavao de bueiros e fundaes.
Algumas dessas fotos de Titsch so provavelmente do fornecimento ilegal de po para a oficina de Madritsch. Sem dvida, pes pretos de centeio eram comprados pelo prprio Raimund, com o consentimento e dinheiro de Julius Madritsch, e entregues em Plaszvia por caminhes, sob fardos de trapos e peas de tecidos. Tisch fotografava os pes redondos sendo passados apressadamente de mo em mo para dentro do depsito de Madritsch, que ficava afastado das torres de vigia e tornado invisvel da principal estrada de acesso, pelo prdio da fbrica de papel.
Ele fotografou a SS e os ucranianos marchando, divertindo-se, trabalhando; fotografou um grupo de trabalho sob a superviso do engenheiro Karp, que logo iria ser atacado pelos ces ferozes e ter a coxa dilacerada, os rgos genitais arrancados. Numa tomada geral de Plaszvia, mostrou a extenso do campo, sua desolao. Ao que consta, no solrio de Amon ele conseguiu mesmo bater close-ups do comandante repousando numa espreguiadeira, um Amon pesado agora com quase 120 quilos, que levara o novo mdico da SS, Dr. Blancke, a adverti-lo: "Agora chega, Amon; vai ter de perder peso." Titsch fotografou Rolf e Ralf brincando e dormindo ao sol, e Majola segurando um dos ces pela coleira e fingindo que estava gostando da proximidade. E fotografou tambm Amon majestosamente montado no seu grande cavalo branco.
Titsch no revelava as fotos que batia. Formavam um arquivo, mais seguro e porttil sob a forma de rolos, que escondia num cofre de metal no seu apartamento em Cracvia. Ali ele tambm guardava alguns dos pertences que haviam restado aos judeus de Madritsch. Em toda Plaszvia havia gente que ainda tinha um ltimo tesouro; algo a oferecer  no momento de maior perigo  ao homem da lista, o homem que abria e fechava as portas dos vages de gado. Titsch compreendia que s os desesperados lhe confiavam os seus tesouros. Os poucos prisioneiros, que tinham um estoque de anis e relgios e jias escondido em alguma parte no campo, no precisavam dele. Trocavam regularmente esses bens por favores e confortos. Mas no mesmo esconderijo dos rolos de filme de Titsch eram guardados os ltimos recursos de uma dzia de famlias  o broche de tia Yanka, o relgio de tio Mordche.
De fato, quando o regime de Plaszvia deixou de existir, quando Scherner e Czurda fugiram e os arquivos impecveis do Escritrio Econmico
Pg.221
e Administrativo da SS tinham sido empacotados e transportados em caminhes para servirem como provas, Titsch no precisou revelar as fotos, e teve todos os motivos para no as revelar. Nos ar quivos de ODESSA, a sociedade secreta de ex-membros da SS no psguerra, ele estaria na lista dos traidores. Pelo fato de ter fornecido ao pessoal de Madritsch uns 30 mil pes, bem como muitas galinhas e uns tantos quilos de manteiga, de o Governo de Israel o ter homenageado pela sua humanidade e a imprensa o ter distinguido com alguma publicidade, pessoas o ameaavam e vaiavam nas ruas de Viena. "Beijador de judeus!" Assim, os rolos de filmes de Plaszvia permaneceram vinte anos enterrados num pequeno parque nos subrbios de Viena, onde Titsch os escondera e poderiam ter ali ficado para sempre, a emulso secando as sombrias e secretas imagens de Majola, a amante de Amon, seus ces assassinos, seus annimos trabalhadores escravos. Portanto o arquivo de Titsch poderia ter sido considerado como uma espcie de triunfo para a populao de Plaszvia quando, em novembro de 1963, um sobrevivente da fbrica de Schindler (Leopold Pfefferberg) comprou secretamente o cofre e seu contedo, por 500 dlares, de Raimund Titsch, que estava sofrendo de uma grave doena do corao.
Mesmo assim, Raimund no quis que os rolos fossem revelados seno depois de sua morte. A sombra annima de ODESSA apavorava-o mais do que os nomes de Amon Goeth, de Scherner, de Auschwitz, nos tem ps de Plaszvia.
Aps o seu enterro, os filmes foram revelados. Quase todas as fotos puderam ser aproveitadas.
Ningum do pequeno grupo de prisioneiros do campo de Plaszvia que tenha sobrevivido a Amon jamais teria qualquer acusao a fazer contra Raimund Tisch. Mas ele nunca fora o tipo de homem a respeito de quem se criam lendas, ao contrrio de Oskar. Uma histria sobre Schindler, sucedida em fins de 1943, corre entre os sobreviventes, provocando a excitao eletrizante de um mito. Pois o que importa num mito no  ser verdadeiro ou falso, nem se teria de ser verdadeiro mas que, de certa forma, seja mais verdadeiro do que a prpria verdade. 
Ao ouvir essas histrias, constata-se que, para a populao de Plaszvia, enquanto Titsch era considerado o bom samaritano, Oskar se tornara um pequeno deus da libertao  de face dupla,  maneira grega  como qualquer deus menor; ele era dotado de todos os vcios humanos: astucioso; sutilmente poderoso; capaz de efetuar um salvamento gratuito, porm seguro.
Uma das histrias se refere ao tempo em que os chefes de polcia da SS estavam sendo pressionados para fechar Plaszvia, j que a 
Pg.222 
putao do campo, como um eficiente complexo industrial, no era brilhante aos olhos da Inspetoria de Armamentos. Frequentemente, Helen Hirsch, a criada de Goeth, encontrava oficiais, convidados dos jantares de Goeth, que perambulavam pelo saguo ou pela cozinha para se livrarem um pouco da presena de Amon e que abanavam a cabea com desaprovao. Certa vez, um oficial da SS, chamado Tibritsch, surgiu na cozinha e disse a Helen: "Ser que ele no sabe que h homens morrendo?" Naturalmente, referia-se  frente de batalha no Leste, no  sombra dos muros de Plaszvia. Oficiais, com uma vida menos nababesca do que Amon, estavam ficando indignados com o que viam na casa do comandante ou, o que talvez fosse mais perigoso, o invejavam.
Segundo a lenda, foi numa noite de sbado que o General Julius Schindler visitou Plaszvia, a fim de decidir se a existncia do campo tinha algum valor real para o esforo de guerra. Era uma hora estranha para um importante burocrata estar fazendo aquela inspeo mas talvez a Inspetoria de Armamentos, em vista daquele inverno perigoso na Frente Leste, estivesse despendendo desesperada atividade. A inspeo fora precedida de um jantar na Emalia, com profuso de vinhos e conhaques, pois Oskar era adepto, como Baco, da linha dionisiana dos deuses.
Depois do lauto jantar, o grupo de inspeo que seguiu para Plaszvia, em seus Mercedes, achava-se num estado de esprito no muito profissional. Ao alegar isso, a histria ignora o fato de que Schindler e seus oficiais eram todos engenheiros e peritos em produo, com (quase quatro anos de experincia. Mas no era do feitio de Oskar se intimidar com essas eficincias.
A inspeo comeou na fbrica de uniformes de Madritsch, que era o principal cartaz de Plaszvia. Durante o ano de 1943, a fbrica tinha produzido uma mdia de mais de 20 mil uniformes por ms para a Wehrmacht. Mas a questo era: no seria melhor Herr Madritsch esquecer Plaszvia e usar seu capital na expanso das suas mais eficientes fbricas polonesas em Podgrze e Tarnow? As condies precrias de Plaszvia no constituam um encorajamento para Madritsch ou qualquer outro investidor decidir instalar a espcie de maquinaria de que necessitaria uma fbrica sofisticada.
O grupo oficial estava comeando a inspeo quando todas as luzes em todas as oficinas se apagaram; o circuito eltrico fora interrompido por amigos de Itzhak Stern na casa do gerador. Ao entorpecimento causado pelo excesso de comida e bebida com que Oskar abarrotara os membros da Inspetoria de Armamentos, se acrescentaram as limitaes decorrentes da falta de iluminao. A inspeo prosseguiu com 
Pg.223 
lanternas eltricas e as mquinas permaneceram inoperantes e portanto menos mensurveis ao profissionalismo dos inspetores.
Enquanto o General Schindler apertava os olhos para distinguir, luz de uma lanterna eltrica, as prensas e tornos da fundio, 30 mil plaszovianos, inquietos nos beliches, esperavam pela sua deciso. Mesmo nas sobrecarregadas linhas da Ostbahn, eles sabiam que a tecnologia mais aperfeioada de Auschwitz ficava a apenas poucas horas de trem para o oeste. Compreendiam que no podiam esperar compaixo alguma do General Schindler. Produo era a sua meta. Para ele. Produo era s o que contava.
Graas ao copioso jantar de Schindler e  falta de eletricidade, diz o mito, a populao de Plaszvia se salvou.  uma lenda humanitria, pois, na verdade, apenas um dcimo dos prisioneiros do campo escaparia com vida no final. Mas Stern e outros iriam comemorar mais tarde a histria e provavelmente ela  verdadeira na maioria dos detalhes. Pois Oskar sempre recorrera  bebida, quando tinha de tratar com autoridades nazistas, e teria apreciado a esperteza de mergulh-las em escurido.  preciso lembrar", teria dito um rapaz que mais carde Oskar salvou,que Oskar tinha um lado alemo mas tambm um lado tcheco. Ele era o bom soldado Schweik. Adorava transtornar o sistema."
No confere mais credibilidade ao mito perguntar o que o rigoroso Amon Goeth pensou quando as luzes se apagaram. Talvez, mesmo naquele momento importante, ele estivesse embriagado ou jantando fora. A questo que ficou pendente : Plaszvia sobreviveu porque o General Schindler teria sido enganado pela falta de iluminao e por uma viso turvada pela bebida ou por ser um excelente centro de controle durante aquelas semanas, em que a grande terminal de Auschwitz Birkenau estava superlotada. Mas a histria conta mais das esperanas que aquela gente depositava em Oskar do que sobre o horrendo conjunto de Plaszvia ou sobre o fim que teve a maioria dos seus prisioneiros.
Enquanto a SS e a Inspetoria de Armamentos cogitavam do futuro de Plaszvia, Josef Bau  um jovem artista de Cracvia, que Oskar acabaria conhecendo bem  se apaixonava perdidamente por uma jovem chamada Rebecca Tannenbaum. Ba trabalhava no Escritrio de Construo como desenhista. Era um rapaz grave, com um senso fatalista. 
Tinha, por assim dizer, escapado para dentro de Plaszvia, porque nunca possura a documentao correia do gueto. Como o seu ofcio no tinha utilidade alguma para as fbricas do gueto, sua me o escondera em casa de amigos. Durante uma batida em maro de 1943, ele escapara 
Pg.124 
para fora dos muros e se juntara sorrateiramente a uma fila de trabalhadores que retornava para Plaszvia. Porque no campo havia uma nova indstria, que no se aplicava ao gueto: construo. No mesmo prdio sombrio de duas alas, onde Amon tinha o seu gabinete, Josef Ba desenhava plantas. Era um protegido de Itzak Stern, que o mencionara a Oskar como um excelente projetista e, pelo menos potencialmente, um falsrio.
Tinha a sorte de no ter muito contato com Amon, pois certo ar de genuna sensibilidade sempre fora um incentivo para Amon usar o seu revlver. O escritrio de Ba ficava na outra extremidade do prdio, bem longe do gabinete do comandante. Ali trabalhavam encarregados de compras, escriturrios, o estengrafo Mietek Pemper. No somente enfrentavam o risco dirio de uma bala inesperada mas, ainda mais certamente, violaes ao seu senso de justia. Mundek Korn, por exemplo, que antes da guerra fora comprador de uma rede de subsidirias dos Rothschild e que agora comprava tecido, capim, lenha e ferro para as oficinas do campo, era obrigado a trabalhar no s no Prdio da Administrao mas na mesma ala em que Amon tinha o seu gabinete. Certa manh Korn ergueu os olhos de sua mesa de trabalho e viu pela janela, do outro lado da Rua Jerozolimska prximo  caserna da SS, um rapaz de cerca de vinte anos, um cracoviano seu conhecido, urinando junto a uma pilha de lenha. Ao mesmo tempo ele notou dois braos em mangas de camisa branca e duas manoplas aparecerem na janela do banheiro, no final da ala. A mo direita segurava um revlver. Houve dois rpidos disparos, um dos quais penetrou na cabea do rapaz e o atirou contra o monte de lenha. Quando Korn tornou a olhar para a janela do banheiro, um brao e a mo livre estavam fechando a janela.
Sobre a mesa de Korn nessa manh havia formulrios de requisio assinados com a letra redonda, regular, de Amon. Seu olhar passou da assinatura para o corpo de braguilha aberta junto  lenha. No apenas ele duvidou se vira mesmo o que tinha visto, como se deu conta do conceito traioeiro inerente aos mtodos de Amon. Isto , a tentao de concordar que, se assassinato no era mais do que uma visita ao banheiro, uma mera pulsao na monotonia da assinatura de formulrios, ento talvez toda morte devia agora ser encarada  fosse qual fosse a dose de desespero consequente  como rotina. No parece que Josef Ba tenha corrido o risco de to radical persuaso. Ficou de fora, tambm, no expurgo do andar trreo do prdio, deflagrado quando Josef  Neuschel, um protegido de Goeth, dera queixa ao comandante de que uma funcionria do escritrio havia adquirido um pedao de toucinho. Amon sara do seu gabinete, esbravejando
Pg.225
'"Vocs esto todos engordando!", berrou ele. Depois dividiu o pessoal do escritrio em duas filas. A Korn pareceu que assistia a uma cena na escola secundria de Podgrze: as garotas da segunda fila to suas conhecidas, filhas de famlias com quem ele tinha sido criado, famlias de Podgrze. Era como se a professora estivesse dividindo um grupo de alunas para irem visitar o Monumento de Kosciuszko, e outro o museu do Wawel. Na realidade, as jovens da segunda fila foram levadas diretamente de suas mesas de trabalho para Chujowa Grka, acusadas de decadncia pela aquisio daquele pedao de toucinho e fuziladas por um dos pelotes de Pilarzik Embora Josef Ba no houvesse sido envolvido naquele tumulto no escritrio, no se podia dizer que ele levasse uma vida protegida em Plaszvia. Era, porm, menos perigosa que a da jovem, em quem estava interessado. Rebecca Tannenbaum era rf, embora no cl unido dos judeus de Cracvia no lhe houvesse faltado afetuosos tios e tias. Apenas dezenove anos, um rostinho meigo e um bonito corpo.
Sabia falar bem alemo e tinha uma conversa agradvel. Recentemente, comeara a trabalhar no escritrio de Stem, atrs do Prdio da Administrao, longe da interferncia demente do comandante. Mas o seu trabalho no Escritrio de Construo constitua apenas metade de suas atribuies. Rebecca era tambm manicura. Todas as semanas ela fazia as unhas de Amon, do UntersturmfherLeo John, do Dr. Blanche e de sua amante, a rspida Alice Orlowski. Ao tratar das mos de Amon, ela notara que eram alongadas e bem-feitas, com dedos afilados  em absoluto as mos de um homem gordo; certamente no as de um selvagem.
Quando um prisioneiro fora ter com ela e lhe dissera que Herr Commandant queria v-la, Rebecca se pusera a fugir, correndo por entre as mesas e descendo pela escada dos fundos.
 Por favor, no faa isso!  gritara-lhe o prisioneiro, indo em seu alcance.  Se eu voltar sem voc, ele vai me castigar!
Ela, ento, o acompanhou at a casa de Goeth. Mas, antes de entrar no salo, foi primeiro ao mal cheiroso poro  era a primeira residncia de Goeth, e o poro fora cavado onde antes existira um antigo cemitrio judaico. Ali, Helen Hirsch, amiga de Rebecca, estivera cuidando de seus ferimentos.
 Voc tem um problema  admitiu Helen.  Mas apenas faa o seu servio e espere.  s o que pode fazer. Ele gosta da maneira profissional de umas pessoas, de outras no. E, quando voc vier aqui, eu lhe darei bolo e salsichas. Mas no coma nada sem primeiro me perguntar. Tem gente que apanha a comida sem pedir e eu fico sem saber como prestar contas.
Pg.226
Amon aceitou bem a maneira profissional de Rebecca, estendendo. lhe os dedos e conversando em alemo. Poderia ser o Hotel Cracvia de novo e Amon um jovem magnata alemo, um pouco pesado de camisa impecvel, que teria vindo a Cracvia para negociar txteis ou ao ou produtos qumicos. Havia, porm, dois detalhes nessas sesses que destoavam do tom de deslocada cordialidade. O comandante mantinha sempre um revlver junto a seu cotovelo esquerdo e frequentemente um ou o outro dos seus ces dormitava no salo. Ela os vira na Appellplatz, rasgar as carnes do engenheiro Karp. Entretanto, s vezes, com os ces imobilizados pela sonolncia, quando ela e Amon falavam de suas visitas, antes da guerra,  estao de guas de Carisbad, os horrores que se passavam na Appellplatz pareciam remotos e inacreditveis. Um dia ela tomou coragem e lhe perguntou por que mantinha o revlver sempre a seu lado. A resposta dele a fez curvar-se sobre o seu trabalho, sentindo um frio na espinha.
  para o caso de voc dar um corte no meu dedo.
Se Rebecca precisasse ainda de outra prova de que conversas sobre estaes de guas para Amon ajustavam-se a um ato de demncia ela a teve no dia em que do corredor viu Amon arrastando Helen Hirsch pelos cabelos para fora do salo. A infeliz esforava-se por manter o equilbrio, enquanto seus cabelos castanho-avermelhados iam sendo arrancados aos punhados; quando sua vtima lhe escapava por um instante, Amon tornava a agarr-la com as mos bem-cuidadas. Rebecca teve ainda outra prova na noite em que entrou no salo e um dos ces  Rolf ou Ralf  saltou sobre seus ombros e escancarou a boca para morder-lhe o seio. Olhando para o fundo da sala ela viu Amon reclinado no sof, sorrindo:
 Pare de tremer, estpida, ou no vou poder livr-la do meu co.
Durante o tempo em que cuidou das mos do comandante, ela o viu matar com um tiro o engraxate por no gostar dos seus servios; pendurar a ordenana de quinze anos, Poldek Deresiewicz, nas argolas do seu gabinete porque encontrara uma pulga num dos seus ces; executar o seu criado Lisiek por ter emprestado uma drzka e o cavalo a Bosch, sem primeiro consult-lo. Contudo, duas vezes por semana a bonita rf entrava no salo e tomava entre as suas a mo da fera.
Rebecca conheceu Josef Ba numa manh cinzenta, quando se achava do lado de fora do Bauleitung, segurando o chassi da planta de uma construo contra a claridade de baixas nuvens do outono. 0 peso parecia excessivo para o seu fsico franzino. Ela lhe perguntou se podia ajud-lo.
 No  disse ele.  S estou esperando pelo sol.        
 Por qu?  quis saber Rebecca.                   
Pg.227
Josef explicou que seus desenhos, em transparncia, para o novo prdio estavam aparafusados no chassi, junto com o papel sensibilizado. Se o sol brilhasse com um pouco mais de intensidade, uma misteriosa liga qumica transferiria o desenho da transparncia para o papel.
Ento, perguntou-lhe:
 No quer ser o meu raio de sol mgico?
Em Plaszvia as meninas bonitas no estavam habituadas a delicadezas dos rapazes. L a sexualidade tinha o mpeto violento das rajadas ouvidas em Chujowa Grka, das execues na Appellplatz. Um exemplo da violncia reinante: o incidente de uma galinha encontrada dentro da sacola de algum de um grupo de trabalho que regressava da fbrica de cabos em Wieliczka. Amon ps-se a vociferar na Appellplatz quando foi descoberta a sacola contendo a ave cada na frente do porto do campo, no decorrer de uma vistoria. A quem pertence a sacola?, esbraveja Amon. De quem  a galinha? Como ningum na Appellplatz se apresenta, Amon toma o fuzil de um guarda SS e atira no primeiro prisioneiro da fila. A bala, atravessando o corpo da vtima, derruba tambm o homem que se encontra logo atrs. Mas ningum abre a boca. 
 Como vocs se amam uns aos outros!  troveja Amon, e prepara-se para executar o prximo homem da fila. Um menino de quatorze anos adianta-se. Est tremendo e chorando. Diz que pode apontar quem  o dono da galinha. 
 Quem. ento?
 Aquele!  exclama o menino, apontando para um dos dois homens mortos.
Para espanto geral, Amon acredita na palavra do menino e, jogando a cabea para trs, ri com a espcie de incredulidade que professores gostam de exibir numa classe. "Essa gente... ser que no compreenderam at agora que esto perdidos?"
Depois de uma tarde como aquela, nas horas de trnsito livre, entre as sete e as nove da noite, a maioria dos prisioneiros achava que no havia tempo para galanteios amorosos. A tortura dos chatos nas virilhas e axilas tornavam ridculas as formalidades. Rapazes montavam sem cerimnia nas meninas. No campo das mulheres cantava-se uma cano que perguntava  virgem por que ela se protegia tanto e para quem estava guardando a sua virgindade?
O ambiente na Emalia no era to desolador. Na oficina tinhamse arranjado nichos entre as mquinas para permitir aos namorados maior intimidade. Nas casernas repletas, a segregao era apenas terica. A ausncia do medo quotidiano, a rao mais farta de po abrandavam os mpetos. Alm disso, Oskar continuava afirmando que no
Pg.228 
permitiria que a guarnio da SS penetrasse no campo, sem sua permisso.
Um prisioneiro recorda-se de ter sido instalada uma fiao no gabinete de Oskar para a eventualidade de algum SS querer vistoriar as casernas. Enquanto o SS descia as escadas do escritrio, Oskar apertava um boto ligado a uma campainha dentro do campo. Assim homens e mulheres eram avisados para apagar cigarros ilcitos, fornecidos diariamente por Oskar. ( V ao meu apartamento e encha essa cigarreira"  dizia ele quase todos os dias a algum na oficina, piscando significativamente o olho.) A campainha servia tambm para avisar a homens e mulheres que tratassem de voltar para os seus respectivos beliches.
A Rebecca parecia algo de espantoso, algo que lhe lembrava uma cultura desaparecida, encontrar em Plaszvia um rapaz que a cortejava, como se a houvesse conhecido numa confeitaria no Rynek. Numa outra manh, quando ela descia do gabinete de Stern, Josef mostrou-lhe sua mesa de trabalho. Estava desenhando plantas para novas casernas. Qual era o nmero de sua caserna, e quem era a sua Alteste? Ela o informou, com a apropriada relutncia. Tinha visto Helen Hirsh sendo arrastada pelos cabelos no corredor e morreria se, acidentalmente, desse um pique na cutcula do dedo de Amon. E no entanto, esse rapaz lhe devolvera o senso do recato, da feminilidade. 
Vou falar com sua me  prometeu ele.
       No tenho me  respondeu Rebecca.
        Ento falarei com a sua Alteste.
Assim comeou o namoro  com a permisso dos mais velhos, como se ainda houvesse condies e tempo suficiente para tais formalidades. Por ser ele um rapaz to excntrico e cerimonioso, no beijava a namorada. Com efeito, foi sob o teto de Amon que conseguiram trocar um beijo de verdade, pela primeira vez. Acontecera depois de uma sesso de manicura. Rebecca tinha conseguido gua quente e sabo com Helen e esgueirara-se para o andar de cima, deserto porque ia entrar em reforma, para lavar sua blusa e roupa de baixo. O seu tanque de lavar roupa era a gamela da comida. Iria precisar dela no dia seguinte para a sopa.
Esfregava a roupa naquele pequeno balde de espuma, quando Josef apareceu.
 Por que est aqui?  perguntou Rebecca.
 Estou tirando medidas para desenhar a planta da reforma  replicou ele.  E voc, o que est fazendo aqui?
 No est vendo que lavo a minha roupa? E, por favor, no fale to alto.
Pg.229
Ele circundou a sala, danando e medindo com a fita mtrica paredes e cornijas.  
 Faa tudo com cuidado  advertiu ela, ansiosa porque sabia o quanto Amon era exigente.
 Enquanto estou aqui  disse ele  vou aproveitar para tomar tambm as suas medidas.  E comeou a medir-lhe com a fita mtrica os braos e as costas, desde a nuca at a base da espinha dorsal. Ela no resistiu ao toque das mos dele. Mas depois de se deixar acariciar prolongadamente, Rebecca lhe ordenou que fosse embora. Aquele local no era apropriado para uma tarde amorosa.
Havia outros romances desesperados em Plaszvia, mesmo entre os SS, mas se desenrolavam menos radiosos do que o namoro antiquado de Josef Ba com a manicura. O Oberscharfhrer Albert Hujar, por exemplo, que havia matado a Dra. Roslia Blau no gueto e Diana Reiter depois de as fundaes da caserna terem rudo, apaixonou-se por uma prisioneira judia. Por sua vez, a filha de Madritsch se encontrava com um rapaz judeu do gueto de Tarnow  naturalmente ele tinha trabalhado na fbrica de Madritsch em Tarnow at o perito em liquidao de guetos, Amon, surgir no final do vero e fechar Tarnow como fechara o gueto de Cracvia. Agora o rapaz trabalhava na oficina de Madritsch dentro de Plaszvia, onde a jovem podia visit-lo. Mas o romance no podia florescer. Os prprios prisioneiros tinham nichos e abrigos, onde amantes e esposos podiam se encontrar. Mas tudo a lei do Reich e o estranho cdigo dos prisioneiros  proibia o amor entre Frulein Madritsch e o rapaz. Similarmente, o honesto Raimund Titsch tinha-se apaixonado por uma de suas maquinistas. Aquele tambm era um romance suave, delicado e impossvel. Quanto ao Oberscharfhrer Hujar, recebeu uma ordem direta do prprio Amon para que deixasse de ser imbecil. Assim, Albert levou a moa para um passeio a p nos bosques e, com muita tristeza, matou-a com um tiro na nuca.
De fato, parecia que a morte pairava sobre as paixes dos SS. O violinista Henry Rosner e seu irmo Leopold, o acordeonisa, enquanto tocavam melodias vienenses em torno da mesa de Goeth, tinham conscincia disso. Certa noite um oficial grisalho, alto, esguio, do Waffen da SS veio jantar com Amon; depois de ingerir muita bebida, comeou a insistir com os Rosner para tocarem a cano hngara Domingo Sombrio. A cano versa sobre um transbordamento emocional, em que um jovem est prestes a se suicidar por amor. O tom era exatamente do tipo de sentimentalismo excessivo que, como Henry J havia notado, tinha especial apelo para certos membros da SS. A cano desfrutara de certa notoriedade nos anos 30  os governos da 
Pg.230 
Hungria, Polnia e Tchecoslovquia tinham cogitado proibi-la porque a sua popularidade provocara uma onda de suicdios por amores nial correspondidos. s vezes, rapazes prestes a dar um tiro na cabea citavam versos da cano em seus bilhetes suicidas. Desde muito tempo Domingo Sombrio fora proibida pela Agncia de Propaganda do Reich.
Agora, aquele alto, elegante conviva, com idade suficiente para ter filhos adolescentes, que mais naturalmente seriam dados a excessos de amor juvenil, insistia com os irmos Rosner: Toquem Domingo Sombrio Apesar da proibio do Dr. Goebbeis, ningum nos confins do sul da Polnia iria discutir com um oficial superior da SS, que alimentava recordaes amargas de um caso de amor.
Depois de o conviva ter pedido a cano umas quatro ou cinco vezes, uma absurda convico se apossou de Henry Rosner. Sob a influncia de origens tribais, a msica tornava-se uma magia. E ningum na Europa tinha melhor senso do poder mgico do violino do que um judeu cracoviano como Henry, que descendia de uma famlia em que o virtuosismo musical era mais herdado do que aprendido, da mesma forma que o status de cohen, ou o sacerdcio hereditrio. Ocorreu naquele momento a Henry, como ele diria mais tarde: "Meu Deus, se me for concedido esse poder, talvez esse filho de uma cadela se mate!'
A melodia proscrita de Domingo Sombrio adquirira legitimidade na sala de jantar de Amon pelas vezes que vinha sendo repetida, e agora Henry resolveu usar a cano como arma de guerra, ao passo que Leopold o acompanhava tranquilizado plos olhares de melancolia quase grata que o oficial lhes lanava.
Henry transpirava, acreditando que estava to visivelmente impelindo o oficial SS  morte que a qualquer momento Amon ia perceber sua inteno e arrast-lo para fora e execut-lo. Quanto ao desempenho de Henry, no importa saber se era bom ou mau, era arrebatador. E apenas um homem, o oficial, o notava e se empolgava por sobre a algazarra embriagada de Bosch e Scherner, Czurda e Amon. Continuava sentado em sua cadeira, olhando fixamente Henry, como se prestes a levantar-se de um salto e dizer: " claro, cavalheiros. O violinista est com toda a razo... No tem sentido viver com um desgosto como este."
Os Rosner continuaram repetindo a cano a tal ponto que era de admirar que Amon no tivesse gritado: "Basta!" Por fim o oficial levantou-se e foi at a sacada. Henry percebeu imediatamente que tinha levado o homem ao auge da alucinao. Ambos, ele e o irmo, passaram a tocar melodias de Von Supp e Lehar, disfarando o clima de melancolia com operetas alegres. O conviva permaneceu sozinho na varanda e, ao final de meia hora, interrompeu uma boa reunio dando um tiro na cabea. 
Assim era o sexo em Plaszvia. Piolhos, chatos e incontinncia dentro 
Pg.231
do campo; assassinato e demncia ao redor. E em meio de tudo isso Josef Ba e  Rebecca Tnnenbaum prosseguiam em seu ritual de namoro. 
Durante as neves daquele ano, Plaszvia passou por uma adversa mudana nas condies sociais de todos os amantes do campo. Nos primeiros dias de janeiro de 1944, foi organizado um Konzentrationslager (Campo de Concentrao) sob a autoridade central do General SS Oswad Pohl, do Escritrio Econmico e Administrativo em Oranienburg, nas cercanias de Berlim. Subcampos de Plaszvia  tais como o da Emalia, de Schindler  tambm passaram a ser controlados em Oranienburg. Os chefes de polcia Scherner e Czurda perderam autoridade direta. Os salrios de trabalho de todos os prisioneiros empregados por Oskar e Madritsch no foram mais para a Rua Pomorska mas para o escritrio do General Richard Glcks, chefe da Seo D (Campos de Concentrao) de Pohl. Agora, quando precisava de favores, Oskar no tinha de ir somente a Plaszvia amaciar Amon e convidar Julian Scherner para jantar, mas tambm entrar em contato com certos funcionrios do grande complexo burocrtico de Oranienburg.
Oskar logo arranjou uma oportunidade de viajar para Berlim e travar conhecimento com as pessoas que iriam lidar com a sua ficha. Oranienburg tinha comeado como um campo de concentrao. Agora se tornara uma vasta organizao administrativa. Nos escritrios da Seo D, eram regulamentados todos os aspectos da vida e da morte de prisioneiros. O seu chefe. Richard Glcks, tinha tambm a responsabilidade, de acordo com Pohl, de estabelecer o equilbrio entre trabalhadores e candidatos s cmaras de gs, para a equao em que X representava trabalho escravo e Y representava os prximos condenados.
Glcks estabelecera as providncias para cada evento e do seu departamento eram emitidos memorandos compostos no jargo anestsico do planejador, do burocrata, do perito imparcial. 
Escritrio Central da SS de Economia e Administrao Chefe da Seo D (Campos de Concentrao) Di-Az:fl. 14-Ot-S-GEH  TGB NO 453-44 
Aos Comandantes de Campos de Concentrao Da, Sah. Bu. Mau, Slo. Neu. Au l-III, Gr-Ro, Natz, Stu, Rav, Herz, A-L-BeIs, Gruppeni. D. Riga, Gruppenl. D. Cracvia (Plaszvia) 
Pg.232
Esto se tornando cada vez mais frequentes os requerimentos de Comandantes de Campo para que sejam punidos com chicotadas prisioneiros acusados de sabotagem na produo de indstrias de guerra.
Solicito que, no futuro, em todos os casos comprovados de sabotagem (um relatrio da gerncia deve ser includo), seja feito um pedido de execuo por enforcamento. A execuo dever ter lugar diante dos membros reunidos do destacamento de trabalho em questo. O motivo da execuo deve ser comunicado, a fim de que seja criado um clima de coibio. 
(Assinado) SS Obersturmfhrer 
Nessa sinistra chancelaria, alguns arquivos se referiam a discusses sobre qual o comprimento obrigatrio do cabelo de um prisioneiro, material considerado utilizvel economicamente "na manufatura de meias para tripulaes de submarinos e feltro de cabelo para calados", ao passo que em outros se discutia se o formulrio registrando "casos de morte" devia ser arquivado por oito departamentos ou simplesmente citado por carta e apenso aos registros de pessoal, a fim de que as fichas de arquivo fossem atualizadas. E era nessa chancelaria que Herr Oskar Schindler de Cracvia precisava falar do seu pequeno conjunto industrial em Zablocie. Destacaram algum do segundo escalo para discutir com ele.
Oskar no desanimou. Havia maiores empregadores do que ele de mo-de-obra judaica. Havia os megalticos, Krupp, naturalmente, e I. G.
Farben. Havia a Companhia de Cabos em Plaszvia. Walter G. Toebbens, o industrial de Varsvia, que Himmier tentara forar a entrar para a Wehr  macht, era mais poderoso empregador de mo-de-obra do que Schindler.
E havia ainda as fundies em Stalowa Wola, as fbricas de avies em Budzyn e Zakopane, as oficinas Steyr-DaimIer-Puch em Radom.
O oficial do segundo escalo estava com os planos da Emalia sobre a mesa. Um tanto secamente, ele disse esperar que Herr Schindler no estivesse pretendendo ampliar o seu campo, o que certamente provocaria uma epidemia de tifo.
Oskar replicou que essa no era a sua inteno. O que interessava era a estabilidade da sua fora de trabalho. E acrescentou que j havia conversado sobre a questo com um amigo seu, o Coronel Erich Lange. Oskar notou que esse nome produziu certo efeito no oficial da SS.
Oskar estendeu uma carta do coronel e o outro reclinou-se na poltrona para l-la.  Na sala reinava o silncio  tudo o que se podia ouvir das salas contguas era o arranhar de canetas no papel, o rumor de papis e as conversas em voz baixa, como se ningum ali soubesse que se achava no centro de uma encruzilhada de gritos.
Pg.233
O Coronel Lange era um homem de influncia. Chefe do Estado Maior da                  Inspetoria de Armamentos do quartel-general do Exrcito, em Berlim. Oskar conhecera-o numa reunio no gabinete do General Schindler em Cracvia. Quase imediatamente os dois simpatizaram um com o outro. Em reunies, acontecia frequentemente duas pessoas que percebiam uma na outra certa paridade de resistncia ao regime se afastarem para um canto da sala a fim de trocar ideias e talvez iniciar uma amizade. Erich Lange ficara horrorizado com os campos na Polnia  com as fbricas de I.G. Farben em Buna, por exemplo, onde os chefes de turma adotavam o "ritmo de trabalho" da SS e faziam os prisioneiros descarregarem cimento ininterruptamente; onde os cadveres dos que tinham morrido de fome eram atirados em valas cavadas para encanamentos e cobertos, juntamente com os canos, por camadas de cimento. "Vocs no esto aqui para viver mas para morrer soterrados em concreto", dissera um gerente da fbrica a recm-chegados, e Lange tinha ouvido o discurso e se sentira arrasado.
Sua carta para Oraniemburg fora precedida de alguns telefonemas; tanto a carta como os telefonemas insistiam na mesma proposio: "Herr Schindler, com seus utenslios de ranchos e granadas antitanque de 45mm,  considerado por esta Inspetoria um colaborador de grande importncia na luta pela nossa sobrevivncia nacional. Formou uma equipe de peritos e nenhuma medida que possa perturbar o trabalho desses homens, sob a superviso de HerrDirektor Schindler, deve ser tomada." O oficial encarregado do pessoal mostrou-se impressionado e disse que ia falar francamente com Herr Schindler. No havia planos para alterar o estado de coisas atual ou interferir com a populao do campo em Zablocie. Contudo, Herr Direktor devia compreender que a situao dos judeus, mesmo a dos tcnicos em armamentos, era sempre arriscada.
Veja, o caso de nossos prprios empreendimentos. Ostindustrie, a companhia da SS, emprega prisioneiros em trabalhos com turfa; uma fbrica de escovas e fundio de ferro em Lublin; fbricas de equipamentos em Random; uma oficina de peles em Trawniki. Mas outras sucursais da SS esto continuamente desbaratando a tiros a fora de trabalho, e agora a Ostindustrie, para todas as finalidades prticas, est inutilizada. Da mesma forma, nos centros de liquidao de judeus, a equipe nunca retm uma percentagem suficiente de prisioneiros para o trabalho de fbrica. Esse item tem ocasionado muita correspondncia; essa gente dos campos  intransigente. Mas, naturalmente  concluiu o oficial batendo com os dedos na carta , farei o que puder para ajud-lo. Herr Schindler.
Pg.234 
 Compreendo o problema  disse Oskar, fitando o SS, com um sorriso radioso. Se h algum modo de eu poder expressar a minha gratido... 
No final, Oskar deixou Oranienburg, com pelo menos algumas garantias sobre a continuidade de seu campo em Cracvia. 
O novo regulamento cerceava os amantes estabelecendo uma separao penal dos sexos  conforme estipulado numa srie de memorandos do Escritrio Central de Economia e Administrao. As cercas entre a priso dos homens e a das mulheres, a cerca perimetral, a cerca em torno do setor industrial, todas elas eram eletrificadas. A voltageni o espao entre os arames farpados, o nmero de cabos e isoladores ele trificados eram todos determinados pelas diretrizes do Escritrio. Amon e seus oficiais no tardaram em notar as possibilidades disciplinares decorrentes dessa disposio. Agora se podia deixar uma pessoa de p durante vinte e quatro horas consecutivas, entre a cerca eletrificada externa e a neutra interna. Se a pessoa cambaleava de cansao, sabia que uns poucos centmetros atrs de suas costas havia cem volts. Mundek Korn, por exemplo, ao voltar ao campo com um grupo de trabalho em que estava faltando um prisioneiro, foi posto de p como  beira de um abismo durante todo um dia e uma noite.
Mas talvez pior do que o risco de cair contra o fio eletrificado era a maneira como se ligava a corrente, desde o final da chamada da noite at a hora de despertar de manh, como se homens e mulheres estivessem na muda. O tempo para contatos fsicos ficava agora reduzido a uma breve fase de perambulao na Appellplatz, antes da ordem berrada para que todos se enfileirassem. Cada casal combinava certa melodia, assobiando-a em meio da multido, de ouvido atento ao refro da resposta, de tal modo que o ar ressoava como uma floresta de sibilncia. Rebecca Tannenbaum tambm tinha uma melodia de cdigo.
As exigncias do Escritrio do General Pohl haviam forado os prisioneiros a adotar os estratagemas de acasalamento dos pssaros. E assim prosseguiu o romance entre Josef e Rebecca.
Josef conseguiu, no depsito de roupas, o vestido de uma mulher que morrera; muitas vezes, depois da chamada dos homens, ele se dirigia para as latrinas, envergava o vestido comprido e colocava na cabea uma touca ortodoxa. Depois saa e se encaminhava para as fileiras das mulheres. O seu cabelo curto no chamava a ateno de nenhum guarda da SS, pois que a maioria das mulheres tivera a cabea rapada por causa dos piolhos. Assim vestido, juntamente com 13 mil prisioneiros, ele penetrava no conjunto das mulheres e passava a noite sentado na Cabana 57, fazendo companhia a Rebecca. 
Pg.235 
Na caserna de Rebecca, as mulheres mais velhas levavam a srio o namoro. Se Josef queria fazer uma corte tradicional  sua amada, elas tambm estavam dispostas a assumir os seus papis tradicionais de chaperons. Portanto Josef era bem-vindo entre elas, fornecendolhes a oportunidade de representar suas funes sociais de antes da guerra. Do alto de seus beliches, elas vigiavam os dois namorados at todos adormecerem. Se uma delas pensava: "No vamos ser muito exigentes numa poca como esta, com o que as crianas fazem na calada da noite", nunca expressava em palavras esse pensamento. De fato, duas das mulheres mais velhas se apertavam num beliche estreito para que Josef dispusesse de um s para ele. O desconforto, o cheiro do outro corpo, o risco de apanhar piolhos uma da outra  nada disso era to importante, to crucial para os seus padres atuais como o desejo de que o namoro progredisse de acordo com as normas.
No final do inverno, Josef, usando a braadeira do Escritrio de Construo, saiu na neve estranhamente imaculada entre a cerca interna e a barreira eletrificada e, de rgua em punho, sob os olhos das torres de vigia abobadadas, fingiu estar medindo a terra-de-ningum para alguma finalidade arquitetural.
Na base dos pilares de concreto juncados de isoladores de porcelana cresciam as primeiras flores silvestres do ano. Segurando numa das mos a rgua de ao, com a outra ele colheu as flores e enfiou-as por dentro do casaco. Em seguida, encaminhou-se atravs do campo em direo  Rua Jerozolimska. Passava pela casa de Amon, com as flores escondidas no peito, quando o dono apareceu no limiar da porta da entrada e desceu imponente os degraus. Josef Ba estacou. Era muito perigoso parar, parecer imobilizado diante de Amon. Mas tendo parado, s lhe restava continuar na mesma posio. Temeu que o corao, que com tanta intensidade e honestidade ele entregara  rf Rebecca, agora provavelmente fosse tomar-se apenas mais um alvo para Amon.
Mas, quando Amon passou por ele, sem o notar, sem fazer objeo por estar ele ali parado com uma rgua intil na mo, Josef Ba concluiu que isso significava uma espcie de garantia. Ningum escapava a Amon a no ser por milagre do destino. Muito bem-trajado com sua vestimenta de caador, Amon tinha certa vez entrado inesperadamente no campo pelo porto dos fundos e encontrara uma moa sentada numa limusine na garagem olhando-se no espelho retrovisor. As vidraas do carro que ela estava encarregada de limpar estavam ainda sujas. Por isso, ele a matara. E havia tambm o caso da me e filha que Amon notara pela janela de uma cozinha, descascando batatas com certa lentido. Ele se debruara no peitoril da janela e matara ambas 
Pg.236 
a tiros. No entanto, ali diante de sua casa estava algo que ele odiava, um desenhista judeu apaixonado, com a rgua pendurada na mo. E Amon passara por ele sem se deter. Ba sentiu um mpeto de celebrar a sua incrvel sorte com algum ato solene. E o casamento era, naturalmente, o mais imaginvel ato solene.
Voltou ao Prdio da Administrao, subiu as escadas para o escritrio de Stern e, encontrando Rebecca, pediu-a em casamento. Foi uma alegria e uma preocupao para Rebecca refletir que agora se tratava de um caso urgente.
Nessa noite, envergando o vestido da defunta, ele foi de novo visitar sua me e o conselho das senhoras na Cabana 57. Esperavam apenas a chegada de um rabino. Mas, quando apareciam rabinos, demoravam-se ali apenas uns poucos dias a caminho de Auschwitz  no o tempo suficiente para as pessoas, que estivessem precisando dos ritos de kidduschin e nissuin conseguissem localiz-los e lhes pedissem que exercessem pela ltima vez seu sacerdcio, antes de entrarem no forno crematrio.
Josef casou-se com Rebecca em fevereiro, numa noite de frio intenso de um domingo. No havia um rabino. A Sra. Ba, me de Josef, oficiou a cerimnia. Eram judeus da Reforma, por isso podiam dispensar um ketubbah escrito em aramaico. Na oficina do joalheiro Wulkan, algum tinha feito duas alianas de uma colher de prata que a Sra. Ba escondera entre os caibros do telhado. No cho da caserna, Rebecca rodeou Josef sete vezes e Josef esmagou vidro  uma lmpada queimada do Escritrio de Construo  sob os calcanhares.
Haviam reservado para o casal o beliche mais alto e, para maior privacidade, penduraram cobertores em volta. s escuras Josef e Rebecca subiram para o seu ninho; ao redor comearam as piadas maliciosas. Nos casamentos na Polnia havia sempre um perodo de trgua, quando o amor profano tinha a chance de se expressar. Se os convivas no desejavam pronunciar eles prprios os tradicionais subentendidos, podiam contratar um bufo profissional especializado em piadas para casamento. Mulheres que na casa dos vinte ou dos trinta teriam assumido ares de desaprovao com os gracejos salgados do bufo e com as gargalhadas dos homens, s de vez em quando se permitindo um sorriso, estando agora na maternidade, nessa noite tomaram o lugar de todos os bufes de casamento, ausentes ou mortos, do sul da Polnia.
Josef e Rebecca no estavam juntos havia mais de dez minutos no beliche de cima, quando se acenderam as luzes da caserna. Espiando por uma fresta nos cobertores, Josef viu o Untersturmfher Scheidt patrulhando os corredores de beliches. O mesmo antigo e temeroso senso 
Pg.237 
do destino se apoderou de Josef. J tinham descoberto a sua ausncia na caserna dos homens e mandado um dos piores oficiais para procur-lo na caserna de sua me. Amon fingira no t-lo visto nesse dia diante de sua casa s para que Scheidt, que era rpido no gatilho, pudesse vir mat-lo na sua noite de npcias!
Ele sabia tambm que todas as mulheres estavam comprometidas  a me, a noiva, as testemunhas, as companheiras que tinham cochichado todas aquelas piadas deliciosamente embaraosas. Josef comeou a balbuciar desculpas, pedindo para ser perdoado. Rebecca disse-lhe que calasse a boca. Depois tirou todos os cobertores que estavam servindo de cortina, raciocinando que Scheidt no iria olhar o beliche de cima, a no ser que algo provocasse a sua curiosidade. As mulheres dos beliches de baixo passaram-lhe seus pequenos travesseiros de palha. Josef podia ter orquestrado o namoro mas agora era o menino que devia ser escondido. Rebecca empurrou-o com fora para um canto do beliche e cobriu-o com travesseiros. Viu Scheidt passar abaixo dela e sair pela porta dos fundos. As luzes se apagaram. Em meio a um ltimo murmrio de gracejos, o casal Ba voltou  sua privacidade.
Minutos depois, as sirenes soaram. Todos se sentaram na escurido. O rudo significou para Ba que sim, eles estavam decididos a liquidar com a sua noite nupcial. Tinham encontrado o seu beliche desocupado e agora o estavam caando.
Na caserna escura, as mulheres debatiam-se lentamente de um lado para o outro. Elas tambm sabiam. Do alto de seu beliche, Josef podia ouvir o que diziam. O seu amor  antiga ia causar a morte de todas elas. A Alteste da caserna, que procurara tanto ajudar, seria a primeira a levar um tiro, quando as luzes se acendessem e fosse encontrado o noivo disfarado com seu vestido de mulher.
Josef Ba agarrou suas roupas, beijou rapidamente a mulher, escorregou para o cho e correu para fora. Na escurido da noite, o rudo das sirenes parecia furar-lhe os tmpanos. Disparou na neve suja, com o palet e o velho vestido numa trouxa debaixo do brao. Quando as luzes se acendessem, ele seria visto pelas torres de vigia. Mas teve a ideia maluca de que iria conseguir chegar  cerca antes das luzes, talvez mesmo salt-la entre as alternaes da corrente. Uma vez de volta ao campo dos homens, poderia inventar uma histria a respeito de diarreia, de ter ido  latrina e desmaiado no cho, recobrando os sentidos com o rudo das sirenes. 
Enquanto corria desabaladamente, ele sabia que, mesmo que o eletrocutassem, no poderia confessar com que mulher estivera. Avanando para o arame fatal, no refletiu que haveria uma cena como a de colgio na Appellplatz, e que Rebecca seria obrigada, de uma ou outra forma, a se denunciar. 
Pg.238 
A cerca entre os campos dos homens e das mulheres em Plaszvia era de nove fios eletrificados. Josef Ba tomou impulso e saltou, esperando que seus ps        encontrassem apoio no terceiro fio e, esticando as mos, ele alcanasse o segundo fio no alto. Imaginou-se saltando os fios com uma rapidez de rato. O que aconteceu foi que ele caiu sobre a rede de arame e simplesmente ali ficou pendurado. Julgou que o frio do metal em suas mos era a primeira mensagem da corrente eltrica Mas no havia corrente alguma. Nem luzes. Josef Ba, estendido sobre a cerca, no especulou sobre o motivo de no haver voltagem. Alcanou o alto da rede e caiu no campo dos homens. Voc  um homem casado", disse para si mesmo. Atravessou a lavanderia e entrou na latrina. "Uma terrvel diarreia, Herr Oberscharfhrer. O mau cheiro quase o sufocou. A cegueira de Amon no dia das flores... a consumao, esperada com incmoda pacincia, duas vezes interrompida... Scheidt e as sirenes... o problema   com as luzes e os fios eletrificados  cambaleante e nauseado, refletiu at quando iria ele suportar a ambiguidade de sua vida. Como todos os outros, o que desejava era uma segurana mais definida.
Foi um dos ltimos a entrar nas fileiras diante da sua caserna. Estava trmulo mas certo de que o Alteste o ajudaria. "Sim, Herr ntersturmfhrer dei permisso ao Hftling Ba para ir  latrina."
No estavam em absoluto procurando-o, mas sim trs jovens sionistas, que tinham fugido num caminho de produtos da oficina de estofamento, onde se fabricavam colches de capim para a Wehrmacht 
Pg.239 
Capitulo 27 
 No dia 28 de abril de 1944, Oskar  examinando-se de perfil no espelho   constatou que, em seu trigsimo sexto aniversrio, beijava sua cintura estava mais grossa. Mas pelo menos hoje, quando beijava as moas, ningum se dava ao trabalho de denunci-lo. Qualquer informante entre os tcnicos alemes devia sentir-se desmoralizado, pois a SS tinha soltado Oskar da Rua Pomorska e da priso de Montelupich, ambas consideradas centros supostamente impregnveis  influncia.
Para marcar o dia, Emilie enviou da Tchecoslovquia as habituais congratulaes e Ingrid e Klonowska lhe deram presentes. Seus arranjos domsticos pouco tinham-se modificado nos quatro anos e meio que ele passara em Cracvia. Ingrid continuava sendo a sua consorte, Klonowska uma amante, Emilie uma esposa compreensivelmente ausente. Nada se sabe das queixas ou perplexidades que cada uma delas pudesse sentir mas tornara-se bvio em seu trigsimo stimo aniversrio que as suas relaes com Ingrid pareciam um pouco mais frias; que Klonowska, sempre uma amiga leal, contentava-se com uma ligao meramente espordica; e que Emilie continuava considerando o seu casamento indissolvel. Mas, no momento, cada qual deu seu presente a Oskar e manteve-se calada.
Outros participaram da comemorao. Amon permitiu que Henry levasse o seu violino para a Rua Lipowa  noite, sob a guarda do melhor bartono da guarnio ucraniana. Naquele estgio Amon estava muito satisfeito com a sua associao com Schindler. Em troca do contnuo apoio ao campo da Emalia, ele tinha solicitado e obtido o uso permanente do Mercedes de Oskar  no o calhambeque que Oskar tinha comprado de John por um dia mas o carro mais elegante da garagem da Emalia. 
Pg.240 
O recital realizou-se no gabinete do HerrDirektor. Ningum compareceu, a no ser o prprio Oskar. Era como se ele estivesse cansado de gente. Quando o ucraniano foi ao toalete, Oskar revelou sua depresso a Henry. Estava preocupado com as notcias da guerra. Seu aniversrio chegara num hiato. Os exrcitos soviticos tinham parado atrs da regio fronteiria de Pripet na Bielo-Rssia e diante de Lww.
Os receios de Oskar intrigaram Henry. "Ser que ele no compreende que, se os russos no forem detidos, ser o fim de suas operaes aqui?
 J pedi muitas vezes a Amon que deixe voc vir permanentemente para c  disse Oskar a Rosner.  Voc e sua mulher e seu filho. Mas ele se recusa. Aprecia muito voc. Mas eventualmente...
Henry sentiu-se grato. Mas achou que devia fazer ver a Oskar que sua famlia estava bem garantida em Plaszvia. Sua cunhada, por exemplo, fora apanhada em flagrante por Goeth fumando no trabalho e ele ordenara a sua execuo. Mas um dos NCO pediu permisso para informar Herr Commandant de que a moa era a Sra. Rosner, mulher do acordeonista Rosner.
 Oh!  disse Amon, e suspendeu a execuo.  Mas lembre-se, moa, que no permito que fumem no trabalho.
Nessa noite, Henry descreveu a Oskar a atitude de Amon, em relao aos Rosner  imunes graas ao seu talento musical , atitude essa que o persuadira e  sua mulher Manei a trazerem para dentro do campo Olek, seu filho de oito anos. O menino estivera escondido na casa de amigos em Cracvia mas a situao estava ficando cada vez mais perigosa. Uma vez dentro do campo, Olek podia se misturar ao grupo de crianas, muitas sem registro nos livros da priso, cuja presena em Plaszvia encontrava apoio na conivncia dos prisioneiros e era tolerada por alguns dos funcionrios mais jovens. Todavia, o maior risco fora fazer Olek penetrar no campo. Poldek Pfefferberg, que tivera de ir de caminho  cidade para apanhar caixas de ferramentas, tinha contrabandeado o menino para dentro do campo. Os ucranianos quase haviam descoberto o garoto no porto, quando ele estava ainda do lado de fora, vivendo em contraveno com todos os estatutos raciais do Governo-Geral do Reich. Os ps dele tinham furado a caixa metida entre os tornozelos de Pfefferberg. "Sr. Pfefferberg, Sr. Pfefferberg!", ouvira Poldek, enquanto os ucranianos revistavam o fundo do caminho. "Meus ps esto de fora!" 	Henry podia rir agora do incidente, embora com cautela, pois ainda havia muitos obstculos a serem vencidos. Mas Schindler reagiu dra-maticamente, com um gesto que parecia inspirado na melancolia leve- mente alcolica que se apossara dele nessa noite do seu aniversrio. Agarrou pelo espaldar sua cadeira e suspendeu-a at o retraio do Fhrer.
Pg.241 
Por um instante, pareceu que ia arremess-la contra o retrato. Mas tornou a girar sobre os calcanhares, baixou resolutamente a cadeira at as quatro pernas estarem a igual distncia do cho, e atirou-a com fora sobre o tapete, fazendo  estremecer a parede. Depois disse:
 Eles esto queimando corpos l fora, no  mesmo? Henry fez uma careta, como se o mau cheiro empestasse na sala.
Sim, j comearam  admitiu. 
Agora que Plaszvia era  na linguagem dos burocratas  um campo de concentrao, seus prisioneiros constataram ser menos perigoso deparar com Amon. Os chefes de Oranienburg no permitiam mais as execues sumrias. Os tempos em que era fuzilado quem no descascasse batatas com bastante rapidez pertenciam ao passado. Agora s podiam ser liquidados atravs de um processo legal. Tinha de haver um interrogatrio e um relatrio remetido em trs cpias para Oranienburg. A sentena precisava ser confirmada no apenas pelo escritrio do General Glck mas tambm pelo Departamento W (Empreendimentos Econmicos) do General Pohl. Se um comandante matasse algum dos trabalhadores essenciais, o Departamento W podia verse a braos com reivindicaes de compensao. Allach-Munich, Ltd.,por exemplo, fabricantes de porcelana, que usavam trabalho escravo de Dachau, tinham recentemente exigido uma indenizao de 31.800 RM porque "em resultado da epidemia de febre tifide que surgiu em 1943, deixamos de ter  nossadisposio mo-de-obra de prisioneiros desde 26 de janeiro de 1943 at 3 de maro de 1943. Em nossa opinio temos direito  compensao, de acordo com a Clusula 2 do Fundo de Compensao Comercial..."
O Departamento W ficava ainda mais obrigado a compensaes, se a perda de mo-de-obra especializada era causada pelo zelo de algum oficial da SS rpido no gatilho.
Assim, para evitar a burocracia e as complicaes departamentais, Amon passou a conter-se um pouco. As pessoas que apareciam na sua proximidade, na primavera e comeo do vero de 1944, de certa forma se sentiam mais seguras, embora nada soubessem sobre o Departamento W e os Generais Pohl e Glcks. Para elas era um indulto to misterioso quanto a prpria demncia de Amon.
Contudo, como Oskar tinha mencionado a Henry Rosner, eles agora queimavam os corpos em Plaszvia. Preparando-se para a ofensiva russa, a SS estava abolindo suas instituies no Leste. Treblinka, Sobibor e Beizec haviam sido evacuados no outono anterior. A Waffen SS, que os administrava, recebera ordem de dinamitar as cmaras de gs e crematrios, no deixar vestgio algum reconhecvel, e fora transferida 
Pg.242
para a Itlia, a fim de combater os guerrilheiros. O imenso complexo de Auschwitz, em terreno seguro no norte da Silsia, completaria a grande tarefa no Leste e, uma vez esta concluda, o crematrio seria soterrado. Pois, sem a evidncia do crematrio, os mortos no podiam prestar testemunho, eram um sussurro ao vento, uma poeira inconsistente nas folhas dos lamos.
Plaszvia no era de soluo to simples, porque os seus mortos jaziam por toda parte em seu redor. No furor da primavera de 1942 cadveres  sobretudo os das pessoas assassinadas nos ltimos dois dias do gueto  eram jogados a esmo em valas comuns nos bosques. Agora, o Departamento D encarregou Amon de descobrir todas aquelas valas.
Os clculos quanto  quantidade de corpos variam muito. Publicaes polonesas, baseadas no trabalho da Comisso Central para Investigao de Crimes Nazistas na Polnia e em outras fontes de informao, afirmam que 150 mil prisioneiros, muitos deles em trnsito para outros locais, passaram por Plaszvia e seus cinco subcampos. Desses, os poloneses acreditam que 80 mil morreram ali, muitos em execues em massa dentro de Chujowa Grka ou vtimas de epidemias. 
Essa estimativa desconcerta os sobreviventes de Plaszvia que se lembram do horrendo trabalho de queimar os mortos. Afirmam que s o nmero de corpos, por eles exumados, atinge mais ou menos entre oito mil e dez mil  proporo apavorante, e que eles no tm a menor vontade de exagerar. A diferena entre as duas estimativas fica mais chocante, quando lembramos que execues de poloneses, ciganos e judeus continuariam em Chujowa Grka e em outros pontos nas circunvizinhanas de Plaszvia, durante quase todos aqueles anos, e que os prprios SS adotaram a prtica de queimar corpos imediatamente aps as execues em massa no morro do forte austraco. Alm disso, Amon no iria conseguir realizar a sua inteno de remover dos bosques todos os corpos. Alguns milhares mais seriam encontrados em exumaes no ps-guerra e hoje, quando os subrbios de Cracvia se aproximam cada vez mais de Plaszvia, ainda so encontrados ossos nas escavaes para fundaes.
Oskar viu a enfiada de piras na elevao do terreno acima das oficinas, durante uma visita pouco antes de seu aniversrio. Quando voltou, uma semana depois, a atividade havia aumentado. Os corpos eram desenterrados por prisioneiros que trabalhavam de rosto tapado. Em cobertores, padiolas e macas eram levados para o local da incinerao e depositados sobre toras de madeira. A pira era arrumada camada por camada, e quando alcanava a altura do ombro de um homem, encharcada com combustvel e acesa. Pfefferberg se horrorizara, vendo  
 Pg.243 
a vida temporria com que as chamas animavam os mortos, a maneira como os corpos  se sentavam, atirando para longe as toras ardentes, os membros estirando-se, as bocas se escancarando como para um derradeiro grito. Um jovem SS da estao de despiolhamento corria entre as piras, sacudindo a pistola e esbravejando ordens frenticas. 
A fuligem dos mortos recaa nos cabelos dos vivos e sobre as roupas postas a secar nos varais do quintal dos oficiais subalternos. Oskar ficou pasmo ao ver a indiferena com que o pessoal do campo aceitava a fumaa, como se a fuligem no ar proviesse de alguma honesta e inevitvel precipitao industrial. E no ar enfumaado, Amon saa a cavalo com Majola, ambos muito calmos em suas montarias. Leo John levava o filho de doze anos para apanhar sapos no terreno pantanoso da mata. As chamas e a fedentina no lhes perturbavam a vida quotidiana.
Curvando-se para trs ao volante de seu BMW, com as vidraas fechadas e um leno tapando-lhe a boca e o nariz, Oskar pensou que eles deviam estar queimando os Spiras junto com os outros. Espantarase, ao saber que a SS tinha executado todos os policiais judeus do gueto e suas famlias no ltimo Natal, mal Symche Spira terminara de dirigir o desmantelamento do gueto. Todos eles, com suas mulheres e filhos, haviam sido levados para ali numa tarde cinzenta e executados, quando o frio sol de inverno desapareceu. Acabaram fuzilando os mais fiis (Spira e Zellinger) bem como os mais relutantes. Spira e a tmida Sra. Spira e os obtusos filhos do casal, a quem Pfefferberg to pacientemente dera aulas  tinham sido todos colocados nus dentro de um crculo de fuzis, encostados uns contra os outros, tremendo de frio. O uniforme OD napolenico de Spira era agora apenas um monte de pano para reciclagem, atirado  entrada do forte. E at o ltimo instante, Spira continuara afirmando a todos que aquilo no ia acontecer.
A execuo tinha chocado Oskar como prova de que, para os judeus, no havia obedincia ou subservincia que pudesse garantir-lhe a sobrevivncia. E agora os Spira estavam sendo queimados to annima e ingratamente como haviam sido executados.
At mesmo os Gutter! O evento se dera aps um jantar em casa de Amon, no ano anterior. Oskar retirara-se cedo para casa, porm mais tarde soubera do que acontecera depois da sua sada. John e Neuschel tinham comeado a implicar com Bosch. Acusavam-no de ser supersensvel. Bosch gostava muito de se gabar de ser um veterano das trincheiras. Mas nunca o tinham visto efetuar uma execuo. Durante horas bateram na mesma tecla  a brincadeira da noite. Afinal, Bosch dera ordem para acordarem David Gutter e seu filho na caserna, e a Sra. Gutter e a filha na caserna das mulheres. Nesse 
Pg.244
caso tambm se tratava de servos fiis. David Gutter tinha sido o ltimo  presidente do Judenrat e cooperado em tudo  nunca fora  Rua Pomorska, tentando protestar contra os desmandos das Aktionen SS ou contra o nmero dos transportes com destino a Beizek. Gutter tinha assinado todas as ordens e considerado razoveis todas as exigncias- Alm disso, Bosch utilizara-o como agente dentro e fora de Plaszvia, mandando-o a Cracvia com caminhes de mveis estofados na oficina do campo, ou jias, para vender no mercado negro. E Gutter a tudo acedefa porque era realmente um canalha mas principalmente porque acreditava que assim sua mulher e seus filhos ficariam imunes.
s duas horas daquela manh polar, Zauder, um policial judeu, amigo de Pfefferberg e de Stern  que seria mais tarde fuzilado por Pilarzik, num dos desmandos alcolicos daquele oficial , achava-se de planto naquela noite no porto das mulheres e ouviu Bosch ordenando aos Gutter que se colocassem em posio, numa depresso do terreno prximo do local. Os filhos imploravam mas David e a Sra.
Gutter mantinham-se calmos, sabendo que de nada adiantaria argumentar. E agora Oskar via todos aqueles testemunhos  os Gutter. os Spira, os rebeldes, os sacerdotes, as crianas e as garotas bonitas com documentao ariana falsificada , todos aqueles testemunhos sendo amontoados naquele morro horrendo para serem obliterados no caso de os russos chegarem a Plaszvia e no aprovarem o que se fize-
ra no campo. 
Deve haver cuidado, dizia Oranienburg numa carta a Amon, quanto  futura disposio de todos os corpos, e para essa finalidade estava enviando um representante de uma firma de engenharia de Hamburgo para supervisionar a construo dos crematrios. Entrementes, os mortos, enquanto esperavam para ser desenterrados, deviam ter suas valas cuidadosamente assinaladas.
Quando, naquela segunda visita, Oskar viu a extenso das fogueiras no Chujowa Grka. o seu primeiro impulso foi permanecer no carro, aquele mecanismo alemo equilibrado, e voltar para casa. Ao invs, foi procurar seus amigos na oficina e depois visitou o escritrio de Stem Pensava que, com toda aquela fuligem se acumulando nas janelas, no seria de admirar se os internos de Plaszvia cogitassem de suicdio. Contudo, era ele quem parecia mais deprimido. No fez nenhuma das suas ironias habituais, tais como: "Ento. Hei-r Stern. se Deus fez o homem  Sua imagem, qual a raa que mais se assemelha a Ele? Acha que um .polons se parece mais com Ele do que um tcheco?" Hoje nenhuma brincadeira lhe ocorreu. Apenas perguntou: 
O que esto todos pensando?
Pg.245 
   Stern respondeu que prisioneiros eram prisioneiros. Faziam o seu trabalho e esperavam sobreviver.
 Vou tir-los daqui  resmungou Oskar de repente. Bateu na mesa com o punho cerrado.  Vou tirar vocs todos daqui!
 Todos?  no pde Stern deixar de perguntar. Tais macios salvamentos bblicos no se encaixavam na poca.
Voc, pelo menos  disse Oskar.  Voc.
Pg.246 
Captulo 28 
                 No gabinete de Amon, no Prdio da Administrao, havia dois datilgrafos. Um deles era uma moa alem, Frau Kochmann; o outro, Mietek Pemper, um prisioneiro jovem e estudioso. Pemper um dia passaria a ser secretrio de Oskar mas, no vero de1944, ele trabalhava para Amon e, como qualquer outro em tal situao, no era muito otimista quanto s suas chances de sobrevivncia. O seu primeiro contato mais prolongado com Amon foi to acidental quanto o fora o de Helen Hirsch, a criada. Pemper foi chamado ao gabinete de Amon, depois de algum t-lo recomendado ao comandante. O jovem prisioneiro era estudante de contabilidade, timo datilgrafo e taqugrafo e capaz de tomar ditado em polons e alemo. A sua prodigiosa memria era famosa. Assim, por ser um prisioneiro de tanta capacidade, Pemper foi parar no escritrio de Amon, e, s vezes, ia tomar ditados em casa do comandante. 
               Por ironia, no final, a memria fotogrfica de Pemper mais do que a de qualquer outro prisioneiro, iria causar o enforcamento de Amon em Cracvia. Mas Pemper no sonhava que jamais chegasse esse dia. Em 1944, se tentasse adivinhar quem seria a vtima mais provvel de sua memria quase perfeita, ele diria que era o prprio Mietek Pemper.
Pemper exercia a funo de secretrio auxiliar. Para assuntos confidenciais, Amon devia usar Frau Kochmann, mais lenta como taqugrafa e muito menos competente do que Mietek. s vezes, Amon quebrava esse regulamento e deixava que o jovem Pemper tomasse um ditado confidencial. E Mietek, mesmo quando se achava sentado diante da mesa de Amon com o bloco nos joelhos, no podia impedir que suposies contraditrias o distrassem de seu trabalho. A primeira era 
Pg.247 
que todos aqueles relatrios e memorandos internos, cujos detalhes estava memorizando, fariam dele uma testemunha vital no dia ainda remoto em que Amon se visse perante um tribunal. A outra suposio era que Amon, no final, teria de apag-lo como quem apaga uma fita confidencial de gravao.
Contudo, todas as manhs Mietek no somente organizava seus papis de datilografia, carbonos e cpias, mas tambm uma dzia deles para a secretria alem. Depois de ter ela datilografado tudo, Pemper fingia destruir os carbonos mas, na realidade, guardava-os e lia-os mais tarde. No tinha nenhuma documentao por escrito mas a sua reputao de boa memria vinha desde os tempos de colegial. Mietek sabia que, se algum dia houvesse aquele tribunal, se ele e Amon se sentassem no recinto da corte de justia, ia deixar o comandante pasmado com a preciso de datas de suas provas.
Pemper teve a oportunidade de ver alguns documentos confidenciais espantosos, como, por exemplo, memorandos sobre a aplicao do chicote nas mulheres. A ordem era recomendar aos comandantes dos campos que o castigo surtisse o maior efeito possvel. Seria considerado aviltante envolver no processo membros da SS; portanto, mulheres tchecas deviam ser aoitadas por mulheres eslovacas e eslovacas por tchecas. Com referncia s russas e polonesas, devia ser aplicada a mesma ttica. Recomendava-se aos comandantes usar a imaginao para explorar diferenas nacionais e culturais.
Outro boletim lembrava-lhes que eles no tinham pessoalmente o direito de impor uma sentena de morte. Os comandantes podiam solicitar autorizao por telegrama ou carta do Escritrio Central de Segurana do Reich. Amon fizera isso na primavera com dois judeus que tinham fugido do subcampo em Wieliczka e que ele pretendia enforcar. Um telegrama de permisso chegara de Berlim, assinado, como Pemper notou, pelo Dr. Ernst Kaltenbrunner, Chefe do Escritrio Central de Segurana do Reich.
Agora, em abril, Pemper leu um memorando de Gerhard Maurer, Chefe da Distribuio de Mo-de-obra da Seo D do General Glck. Maurer queria que Amon lhe informasse quantos hngaros poderiam ser temporariamente mantidos em Plaszvia. O seu destino final era a Fbrica de Armamentos Germnica, DAW, que era uma subsidiria da Krupp, fabricando fusos de granada de artilharia no enorme complexo de Auschwitz. Devido ao fato de a Hungria s recentemente ter sido anexada como Protetorado da Alemanha, esses judeus e dissidentes hngaros estavam em melhores condies de sade do que os que tinham anos de vida em guetos e prises. Eram portanto uma bno para as fbricas de Auschwitz. Infelizmente, as acomodaes 
Pg. 248 
na DAW ainda no estavam prontas mas, se o comandante de Plaszvia pudesse aceitar uns sete mil,  espera de uma soluo, a Seo D lhe seria extremamente grata.
A resposta de Goeth, quer lida ou datilografada por Pemper, era que Plaszvia atingira o mximo de sua capacidade de prisioneiros e no havia espao para construes dentro das cercas eletrificadas. No obstante, Amon estava disposto a aceitar at dez mil prisioneiros em trnsito, se (a) lhe fosse permitido liquidar os elementos improdutivos dentro do campo; e (b) se ele pudesse colocar ao mesmo tempo dois prisioneiros em cada beliche. Em resposta, Maurer escreveu que a dupla utilizao de beliches no podia ser permitida no vero por representar o risco de uma epidemia de tifo; alm disso, idealmente, de acordo com os regulamentos, deveria haver um mnimo de trs metros cbicos de ar por pessoa. Mas estava disposto a autorizar Goeth a realizar a primeira opo. A Seo D informaria Auschwitz-Birkenau ou, pelo menos, a ala de extermnio daquele grande empreendimento  que esperasse o envio de um refugo de prisioneiros de Plaszvia.Simultaneamente, seria providenciado o transporte Ostbahn em vages de gado, naturalmente, partindo do porto de Plaszvia.
Desse modo, Amon teria condies de separar os prisioneiros dentro do prprio campo. 
Com a bno de Maurer e da Seo D, ele iria num s dia abolir tantas vidas quantas Oskar,  custa de astcias e de dinheiro a rodo,estava abrigando na Emalia. Amon batizou a sua sesso de seleo Die Gesundheitaktion, a Operao Sade.
Organizou tudo, como se se tratasse de uma feira rural. Quando comeou, no domingo, 7 de maio, a Appellplatz amanheceu com faixas: A CADA PRISIONEIRO, O TRABALHO APROPRIADO! Altofalantes tocavam baladas de Strauss e canes de amor. Sob as faixas fora colocada uma mesa, em torno da qual estavam sentados Dr. Blancke, o mdico da SS, Dr. Leon Gross e vrios funcionrios.O conceito de "sade" de Blancke era to excntrico como o de qualquer mdico da SS. J tinha livrado a clnica da priso dos doentes crnicos,injetando-lhes benzina nas veias. Essas injees no podiam, por definio alguma, ser consideradas eutansias. O paciente era tomado de convulses que terminavam, aps um quarto de hora, em morte por sufocao. Marek Biberstein, outrora presidente do Judenrat e agora,aps dois anos de priso na Montelupich, fazendo parte da populao de Plaszvia, sofrera um ataque do corao e fora levado para a Krankenstube. Antes de Blancke ter tempo de aplicar-lhe a benzina, Dr. Idek Schindel, tio de Genia, a moa cuja figura distante tanto estimulara Schindler dois anos antes, tinha-se adiantado para o leito de Biberstein  
Pg.249 
com alguns colegas, e um deles injetara no paciente uma dose mais caridosa de cianureto.
Naquele dia, flanqueado pelos arquivos de toda a populao do campo, Blancke ia chamando os prisioneiros de cada caserna e, quando terminava com uma bateria de fichas, esta era substituda por outra.
Ao chegarem  Appellplatz, os prisioneiros recebiam ordem de despir-se, formar filas e correr nus de um lado para o outro diante dos mdicos. Blancke e Leon Gross, o mdico judeu colaborador, faziam anotaes nas fichas, apontavam para um prisioneiro, chamavam outro para verificar-lhe o nome. Os prisioneiros continuavam correndo e os mdicos procuravam neles sinais de doena ou fraqueza muscular. Era um estranho e humilhante exerccio. Homens com as costas deformadas (Pfefferberg, por exemplo, cujas costas Hujar desconjuntara com um golpe do cabo do chicote); mulheres com diarria crnica, que haviam esfregado repolho-roxo nas faces para lhes dar um colorido  todos correndo e tentando, literalmente, salvar suas vidas.A jovem Sra. Kinstlinger, que correra pela Polnia nas Olimpadas de Berlim, sabia que tudo aquilo no passara de um jogo. Esta era a verdadeira competio. De estmago revirado, com a respirao em suspenso, ela estava correndo  sob o compasso da msica enganosa para escapar da morte.
Ningum soube dos resultados at o domingo seguinte, quando,sob as mesmas faixas e msicas, a turba de prisioneiros foi de novo reunida. Quando foram lidos os nomes, e os rejeitados do Gesundheitaktion levados, marchando, para a extremidade leste da praa, houve gritos de indignao e susto. Amon tinha esperado um tumulto e pedido o auxlio da guarnio da Wehrmacht em Cracvia, que ficara de prontido para o caso de os prisioneiros se amotinarem. Quase 300 crianas haviam sido encontradas, durante a inspeo do domingo anterior, e estavam agora sendo levadas  fora; eram to altos os protestos e o choro dos pais, que a maioria da guarnio, juntamente com destacamentos da Polcia de Segurana convocados de Cracvia, tiveram de reforar o cordo de isolamento, que separava os dois grupos.O confronto durou horas, enquanto os guardas foravam para trs o mpeto dos pais desesperados e afirmavam as mentiras habituais aos que tinham parentes entre os rejeitados. Nada fora anunciado mas todos sabiam que no havia futuro para aqueles do outro lado, os que tinham fracassado no teste. Entremeada de valsas e canes cmicas,uma triste babel de mensagens passava aos gritos de um grupo para o outro. Henry Rosner sofrendo tormentos a idia de seu filho, Olek  escondido em alguma parte do campo  teve a estranha experincia de ver um jovem SS que, com lgrimas nos olhos, denunciava o 
Pg.250 
que estava acontecendo e jurava que ia se apresentar como voluntrio na Frente Leste. Mas os oficiais gritaram que, a no ser que os prisioneiros se portassem com um pouco mais de disciplina, eles ordenariam aos seus homens que abrissem fogo. Talvez Amon tivesse esperana de que uma justificvel rajada de balas iria diminuir ainda mais o nmero de prisioneiros.
No final da seleo, 1.400 adultos e 268 crianas se viram, cercados por armas, na extremidade leste da Appellplatz, prontos para serem imediatamente embarcados para Auschwitz. Pemper assistia  cena e memorizava os nmeros, que Amon considerava decepcionantes. Embora no fosse a quantidade que Amon esperara, iria criar um espao imediato para a permanncia temporria dos hngaros.
No sistema de fichas do Dr. Blancke, as crianas de Plaszvia no haviam sido registradas com a mesma preciso que os adultos. Muitas delas passaram aqueles dois domingos escondidas; tanto elas como seus pais, instintivamente sabendo que suas idades e a ausncia de seus nomes e outros detalhes da documentao do campo faria delas evidentes alvos do processo de seleo.
No segundo domingo, Olek Rosner escondeu-se no teto de uma cabana. Com ele mais duas crianas passaram o dia inteiro escondidas acima dos caibros, o dia inteiro mantiveram a disciplina do silncio,o dia inteiro contiveram suas bexigas, entre os piolhos, ratos e os pequenos embrulhos de pertences dos prisioneiros. Porque as crianas sabiam to bem como qualquer adulto que a SS e os ucranianos temiam os espaos acima do teto. Acreditavam que ali se abrigava o micrbio do tifo e tinham sido informados pelo Dr. Blancke que bastava um fragmento de excremento de piolho em alguma arranhadura da pele para provocar um tifo epidmico. Algumas das crianas de Plaszvia estavam, havia meses, abrigadas numa cabana prxima da priso dos homens, na qual fora pregada a tabuleta ACHTUNG TYPHUS.
Naquele domingo, para Olek Rosner, a Aktion de sade de Amon era muito mais perigosa do que os piolhos transmissores de tifo. Outras crianas, algumas das 268 arrebanhadas naquele dia, ao se iniciar a Aktion, de fato tinham procurado em vo esconder-se. Cada criana de Plaszvia, com aquela mesma capacidade de encontrar solues, escolhera um esconderijo de sua preferncia. Algumas preferiram depresses sob as cabanas, algumas a lavanderia, outras um galpo atrs da garagem. Mas muitos desses esconderijos tinham sido descobertos nesse domingo ou no anterior, e no mais ofereciam refgio.
Outro grupo fora trazido, sem nada suspeitar,  Appellplatz. Alguns pais conheciam esse ou aquele NCO. Era como certa vez Himmler se queixara, pois mesmo os Oberscharfhrers SS, que no hesitavam
Pg.251 
em executar pessoas, tinham os seus favoritos, como se a praa fosse um recreio de escola. Se houvesse um problema com as crianas, pensavam certos pais, sempre poderiam apelar para um SS que conhecessem melhor.
No domingo anterior, um rfo de treze anos pensou que estava a salvo porque, em outras chamadas, o tinham tomado por um rapaz.Mas nu, no pde esconder a infantilidade de seu corpo. Mandaram que ele se vestisse e fosse se reunir ao grupo de crianas. Agora, enquanto os pais do outro lado da praa gritavam chamando seus filhos e enquanto os alto-falantes berravam uma cano sentimental, intitulada Mammi, kaufmir em Pferdchen (Mame, compre-me um pnei),o menino simplesmente passou de um grupo para o outro, impelido pelo instinto infalvel que anteriormente demonstrara a garotinha de roupa vermelha na Praa Zgody. E como acontecera com o Chapeuzinho Vermelho, ningum percebera a sua manobra. Ele se manteve, um falso adulto, entre os outros, enquanto a msica odiosa ressoava e seu corao batia com tanta fora que parecia querer escapar de sua gaiola de costelas. Depois, fingindo sentir as cimbras da diarria, pediu a um guarda que o deixasse ir  latrina.
As longas instalaes das latrinas ficavam atrs do campo dos homens, e ali chegando o menino passou por cima da tbua em que os  homens se sentavam para defecar. Com um brao de cada lado da fossa, ele foi descendo e procurando encontrar apoio para os joelhos e os ps. O mau cheiro deixava-o engasgado e moscas invadiam-lhe a boca, ouvidos e narinas. Ao chegar a um espao mais amplo e tocar no fundo da fossa, pareceu-lhe ouvir o que sups ser um murmrio alucinatrio de vozes acima do fervilhar das moscas. "Eles estavam atrs de voc?", perguntou uma voz. E outra respondeu: "Que diabo,este lugar  nosso!"
Havia dez crianas ali, ao seu redor.
No seu relatrio, Amon fez uso da palavra Sonderbehadiung  Tratamento Especial. Era um termo que se tornaria famoso em anos vindouros, mas essa era a primeira vez que Pemper o ouvia. Evidentemente, tinha um qu de sedativo, at mesmo de medicinal, mas Mietek agora no podia mais ignorar que aquele "tratamento" nada tinha a ver com medicina.
Um telegrama de Amon, ditado nessa manh para ser transmitido a Auschwitz, era bem mais explcito quanto a seu significado. Amon insistia em que, para tornar mais difcil uma fuga, os selecionados para Tratamento Especial deviam abandonar, junto ao desvio da estrada, quaisquer sobras de trajes civis que ainda possussem e vestir as 	Pg.252 
roupas listradas de prisioneiros, que lhes seriam fornecidas. Como havia grande escassez de roupas listradas, as usadas por candidatos de Plaszvia ao Tratamento Especial deviam ser imediatamente devolvidas a esse Campo de Concentrao, para serem reusadas, mal os portadores das mesmas chegassem a Auschwitz.
E todas as crianas que tinham ficado para trs em Plaszvia, das quais o maior nmero era das que tinham partilhado a fossa da latrina com o rfo grado, mantiveram-se escondidas ou se fizeram passar por adultos. Mas novas buscas as descobriram e levaram ao Ostbahn para a lenta viagem de um dia, percorrendo os 60 quilmetros at Auschwitz. Os vages de gado foram usados dessa maneira, em todo o vero, levando tropas e suprimentos para as linhas de frente paralisadas perto de Lww e, na viagem de volta, desperdiando tempo em desvios, enquanto mdicos da SS observavam as incessantes filas de gente nua correndo diante dos seus olhos. 
Pg.253 
Captulo 29 
Sentado no gabinete de Amon, com as janelas escancaradas para  um irrespirvel dia de vero, Oskar desde o incio teve a impresso de que aquela reunio era uma tapeao. Talvez Madritsch e Bosch achassem o mesmo, pois os seus olhares se desviavam de Amon para as carretas de pedra l fora, para caminhes ou carroas que por l passavam. Somente o Untersturmfhrer Leo John, que tomava anotaes, achava seu dever permanecer muito ereto na cadeira e com todos os botes do palet abotoados.
Amon anunciara-a como uma conferncia de segurana. Declarou que, apegar de a Frente ter-se estabilizado, o avano do corpo central do Exrcito russo para os subrbios de Varsvia tinha encorajado a atividade dos guerrilheiros por todos os setores do Governo-Geral.Judeus, que estavam a par disso, sentiam-se encorajados a tentar fugas. No sabiam, observou Amon, que estavam em melhor situao por detrs das cercas de arame farpado do que expostos a guerrilheiros poloneses, matadores de judeus. Todos deviam estar atentos a um ataque dos guerrilheiros e, pior do que tudo, a uma possvel conivncia entre guerrilheiros e prisioneiros.
Oskar procurou imaginar os guerrilheiros invadindo Plaszvia, libertando todos os poloneses e judeus, repentinamente fazendo deles um exrcito. Era um sonho, sem dvida, e quem poderia acreditar em tal sonho? Mas ali estava Amon, esforando-se por convenc-los de que ele acreditava nessa possibilidade. Aquela pequena comdia certamente tinha uma finalidade. Oskar estava disso convencido.
 Se os guerrilheiros entrarem aqui no seu campo, espero que no seja numa noite em que eu tenha sido convidado  disse Bosch.
Amen, amen  murmurou Schindler. 
Pg.254 
Depois da reunio, qualquer que fosse o seu significado, Oskar levou Amon at o seu carro estacionado defronte do Prdio da Administrao.
Abriu a mala. Dentro havia uma sela ricamente pirogravada, com desenhos caractersticos da regio de Zakopane nas montanhas ao sul da Cracvia. Oskar julgava necessrio continuar agradando Amon com presentes, mesmo agora que o pagamento pelo trabalho forado da Emalia nada mais tinha a ver com o Hauptsturmfhrer Goeth. O extrato das contas ia diretamente para a rea de Cracvia, que representava o quartel-general do General Pohl, em Oranienburg.
Oskar ofereceu levar de carro Amon e sua sela at a casa do comandante.
Num dia de calor escaldante, alguns dos empurradores de carretas estavam mostrando um pouco menos do esforo exigido. Mas a sela tinha abrandado o zelo de Amon e, de qualquer forma, no lhe era mais permitido atirar a esmo nos prisioneiros. O carro passou pelo quartel da guarnio e chegou ao desvio, onde se achavam estacionados muitos vages de gado. Oskar pde ver, pela bruma pairando acima dos vages e misturando-se ao vapor tremulante emanando dos tetos, que os vages estavam repletos. Apesar do rudo da locomotiva,podiam-se ouvir gemidos vindos l de dentro, gente implorando por gua.
Oskar freou o carro e ficou ouvindo. Era-lhe permitido isso,considerando-se a esplndida e dispendiosa sela na mala do carro. Amon riu com indulgncia de seu amigo sentimental.
 Em parte  gente de Plaszvia  disse ele  e tambm h prisioneiros do campo de trabalho em Szebnie. E poloneses e judeus de Montelupich. Esto indo para Mauthausen.  Depois sorriu maliciosamente.  Eles se queixam agora? No sabem o que so motivos de queixa de verdade...
Os tetos dos vages estavam bronzeados de calor.
 No faz objeo  perguntou Oskar  se eu chamar a sua brigada de bombeiros?
Amon deu uma risada, que significava: 0-que-vai-voc-inventar mais? Bem entendido, no deixaria ningum mais chamar os bombeiros, mas tolerava isso de Oskar porque o seu amigo era um sujeito muito original e o incidente daria uma boa anedota para ser contada a uma mesa de jantar.
Mas quando Oskar deu ordem aos ucranianos que tocassem o sino chamando os bombeiros judeus, Amon se espantou. No ignorava que Oskar sabia o que significava Mauthausen. Se esguichassem gua nos vages, era como fazer-lhes uma promessa de um futuro. E tais 
Pg.255 
promessas no constituam, segundo o cdigo de qualquer mortal, uma verdadeira crueldade? Ao espanto de Amon, misturou-se uma tolerncia sorridente, quando os jatos de gua das mangueiras caram sibilando sobre os tetos escaldantes. Neuschel tambm veio do seu escritrio para abanar a cabea e sorrir, enquanto os prisioneiros l dentro gemiam e gritavam palavras de gratido. Grn, o guarda-costas de Amon, que estivera conversando com o Untersturmfhrer John, comeou a bater nas coxas e soltar exclamaes vendo chover toda aquela gua. Mesmo esticadas ao mximo, as mangueiras s alcanavam metade da composio de vages. Oskar, ento, pediu a Amon que lhe emprestasse um caminho e uns poucos ucranianos para irem at Zablocie buscar as mangueiras de incndio da DEF. Eram mangueiras de 200 metros,disse Oskar. Amon, por alguma razo, achou o pedido hilariante.
 Claro que autorizo o caminho!  disse Amon disposto a fazer qualquer coisa por aquela comdia humana.
Oskar entregou aos ucranianos um bilhete para Bankier e Garde.Quando os ucranianos partiram, Amon estava to disposto a entrar no esprito da coisa que permitiu que fossem abertas as portas dos vages para que fossem entregues aos prisioneiros alguns baldes de gua e retirados os mortos com os rostos inchados e rosados pelo calor. Ao redor da estrada de ferro, oficiais SS e NCOs divertiam-se com a cena.''Do que pensa ele que os est salvando?"
Quando as grandes mangueiras da DEF chegaram e todos os vages foram devidamente encharcados, a brincadeira adquiriu novas dimenses. No seu bilhete para Bankier, Oskar tambm dera instrues ao gerente para ir ao seu prprio apartamento e encher um cesto grande com bebidas e cigarros, alguns bons queijos e salsichas e outras tantas coisas. Entregou pessoalmente o cesto ao NCO no final do trem.Tudo s claras mas o homem pareceu um tanto embaraado com a largueza da ddiva e escondeu o cesto rapidamente no ltimo vago, com receio de que um dos oficiais o denunciasse. Contudo, Oskar parecia estar to curiosamente nas boas graas do comandante que o NCO o ouviu respeitosamente.
 Quando o trem parar perto das estaes, abra as portas dos vages ordenou Oskar.
Anos mais tarde, dois sobreviventes daquele transporte, Dr. Rubinstein e Dr. Feldstein, contariam a Oskar que o NCO ordenara frequentemente que fossem abertas as portas e se enchessem os baldes de gua regularmente, durante a tediosa jornada para Mauthausen. Mas para a maioria dos passageiros dos vages, naturalmente, aquilo no passara de um conforto antes da morte.
Quem visse Oskar movimentando-se ao longo da composio de
 Pg.256 
vages, acompanhado pelas risadas dos SS, fazendo uma caridade que era em grande parte intil, poderia perceber que ele estava agora menos afoito do que alucinado. At o prprio Amon notara que seu amigo entrara em nova fase. Todo aquele desespero para inundar at o ltimo carro, depois subornando um SS em plena vista dos colegas 
bastaria uma pequena mudana no tom do riso de Scheidt ou John ou Hujar para provocar uma tremenda denncia contra Oskar, uma informao que a Gestapo no poderia ignorar. E ento Oskar Schindler iria parar na Montelupich e, em vista de anteriores acusaes raciais contra ele, provavelmente acabaria sendo mandado para Auschwitz.Assim Amon ficou horrorizado com a insistncia de Oskar em tratar aqueles condenados, como se fossem parentes pobres viajando de terceira classe mas sendo enviados para um destino normal.
Pouco depois das duas horas, uma locomotiva puxou toda a msera fila de vages para a linha principal da estrada de ferro, e as mangueiras de novo foram enroladas. Schindler levou Amon e sua sela para casa. Amon podia ver que Oskar estava ainda preocupado e, pela primeira vez, desde que existia a relao entre os dois, deu ao amigo alguns conselhos sobre como viver.
Voc tem de relaxar  disse Amon.  No pode sair correndo atrs de cada carregamento de presos que sai do campo. 
Adam Garde, engenheiro e prisioneiro da Emalia, notou tambm sintomas dessa mudana em Oskar. Na noite de 20 de julho, um SS apareceu na caserna de Garde e despertou-o. O Herr Direktor telefonara ao corpo da guarda e dissera que precisava ver profissionalmente o engenheiro Garde em seu gabinete.
Garde encontrou Oskar ouvindo o rdio, com o rosto afogueado,uma garrafa e dois copos na sua frente sobre a mesa. Por detrs da escrivaninha havia agora um mapa em relevo da Europa. O mapa nunca estivera ali nos dias da expanso germnica mas Oskar parecia ter um vivo interesse no recuo das frentes alems. Nessa noite, o seu rdio estava ligado com a estao Deutschiandsender, e no  como usualmente acontecia  com a BBC da Inglaterra. Estava sendo transmitida uma msica inspirada, o que, frequentemente, significava o preldio de notcias importantes.
Oskar parecia estar ouvindo com avidez. Quando Garde entrou,ele se ps de p e convidou o jovem engenheiro a sentar-se. Serviu o conhaque e estendeu um copo a Garde.
           Houve uma tentativa para matar Hitler  disse Oskar. A notcia fora transmitida no comeo da noite, e a informao era que Hitler sobrevivera ao atentado. A estao tinha prometido que ele logo 
Pg.257 
falaria ao povo alemo. Mas at agora isso no ocorrera. As horas se passavam, e nada de Hitler. Agora a estao estava tocando Beethoven, com insistncia, como acontecera por ocasio da queda de Stalingrado.
Oskar e Garde continuaram ali sentados durante horas. Um evento sedicioso, um judeu e um alemo ouvindo juntos  a noite inteira,se necessrio fosse  para apurar se o Fhrer tinha morrido. Adam Garde,  claro, sentia tambm o peito ardendo de esperana. Notou que os gestos de Oskar eram lentos, como se a possibilidade de o lder estar morto lhe tivesse afrouxado os msculos. Bebia sem cessar e insistia com Garde para fazer o mesmo. Se fosse verdade, disse Oskar,ento os alemes, os alemes triviais como ele prprio, poderiam comear a redimir-se. Simplesmente porque algum prximo de Hitler tivera a coragem de remov-lo da face da terra. Oskar soprava nuvens de fumaa.
 Ser o fim da SS  prenunciou ele.  At amanh de manh,Himmler j dever estar na cadeia. Oh, Deus meu, o alvio de ver o sistema liquidado!
O noticirio das 10 horas da noite apenas repetiu a informao anterior. Houvera um atentado contra a vida do Fhrer mas fracassara, e o Fhrer ia falar  nao dentro de poucos minutos. Quando se passou uma hora e Hitler no falou, Oskar animou-se com uma fantasia que seria popular em relao a muitos alemes com a aproximao do fim da guerra.
 Nosso sofrimento terminou  disse ele.  O mundo voltou  sanidade. A Alemanha poder juntar-se aos Aliados contra os russos, As esperanas de Garde eram mais modestas. Na pior das hipteses, esperava que se restabelecesse um gueto nos antigos moldes de Franz Josef.
Os dois continuaram bebendo, enquanto a msica ressoava; parecia cada vez mais provvel que a Europa seria nessa noite agraciada com a morte vital  recuperao do seu equilbrio mental. Eram de novo cidados do Continente; no mais o prisioneiro e o Herr Direktor.As promessas da rdio de transmitir uma mensagem do Fhrer se repetiam, e cada vez Oskar ria mais enfaticamente.
Chegou a meia-noite e eles passaram a no dar mais ateno s promessas da rdio. Sentiam a respirao mais leve naquela nova Cracvia ps-Fhrer. Previam que na manh do dia seguinte todo mundo estaria danando nas praas, sem medo de castigo. A Wehrmacht prenderia Frank no Castelo de Wawel e sitiaria o complexo da SS na Rua Pomorska.
Um pouco antes de uma hora da manh, a palavra de Hitler foi 
Pg.258 
transmitida de Rastenberg. Oskar se convencera a tal ponto de que jmais teria de ouvir de novo aquela voz, que, por uns poucos segundos no lhe reconheceu o timbre, apesar de to familiarizado, e julgou que era apenas um porta-voz do Partido, contemporizando. Mas Garde tambm ouviu e, logo na primeira palavra, soube de quem era a voz.
"Meus camaradas alemes!", comeou a voz. "Se eu lhes falo hoje,  em primeiro lugar para que possam ouvir a minha voz e saber que estou perfeitamente bem; em segundo lugar, para que fiquem sabendo de um crime sem paralelo na histria da Alemanha."
O discurso terminou quatro minutos depois, com uma referncia aos conspiradores. "Desta vez, acertaremos nossas contas com eles de acordo com os mtodos que ns, nacionalsocialistas, estamos habituados a adotar."
Adam Garde nunca aderira  fantasia a que Oskar se entregara no decorrer daquela noite. Pois Hitler era mais do que um homem;era um sistema com ramificaes. Mesmo que morresse, no estava na natureza de um fenmeno como Hitler desaparecer no espao de uma s noite.
Mas Oskar passara aquelas ltimas horas acreditando, com uma convico febril, na morte do Fhrer, e quando se evidenciou que tudo no passara de uma iluso, foi o jovem Garde quem assumiu o papel de consolador, ao passo que Oskar mergulhou numa tristeza quase melodramtica.
 Foi v a nossa esperana de libertao  disse ele servindo mais duas novas doses de conhaque e abrindo sua caixa de cigarros.  Leve para voc esta garrafa de conhaque e uns cigarros e trate de dormir.Teremos de esperar um pouco mais pela nossa liberdade.
Na confuso do conhaque, das notcias e de sua sbita inverso a altas horas da noite, Garde no estranhou que Oskar estivesse falando em "nossa liberdade", como se a situao deles fosse equivalente, ambos prisioneiros, que tinham de esperar passivamente para serem liberados. Mas de volta ao seu beliche, Garde pensou: " espantoso que HerrDirektor tenha falado daquela maneira, como algum facilmente dado a fantasias e a acessos de depresso. Em geral, ele  to pragmtico." 
A Rua Pomorska e os campos nas cercanias de Cracvia fervilhavam de rumores, naquele fim de vero, a respeito de iminentes novas providncias a respeito dos prisioneiros. Tais boatos preocuparam Oskar em Zablocie, e em Plaszvia Amon foi informado extra-oficialmente que os campos seriam dispersados. 
 De fato, aquela reunio sobre segurana nada tinha a ver com salvar 
Pg.259 
Plaszvia dos guerrilheiros, mas sim com o prximo fechamento do campo. Amon chamara Madritsch, Oskar e Bosch a Plaszvia apenas para dar a si mesmo uma colorao protetora. Tornou-se ento plausvel para ele ir a Cracvia falar com Wilhelm Koppe, o novo chefe de polcia da SS no novo Governo-GeraI. Amon sentou-se na outra extremidade da mesa de Koppe, com um falso ar de preocupao, estalando as juntas dos dedos como se estivesse tenso com a perspectiva de uma invaso de Plaszvia. Contou a Koppe a mesma histria que contara a Oskar e aos outros  organizaes de guerrilheiros tinham surgido no campo, sionistas de dentro das cercas de arame farpado tinham conseguido estabelecer comunicao com radicais do Exrcito do Povo Polons e com a Organizao de Combate Judaica. Como podia compreender o Obergruppenfhrer, era difcil impedir esse tipo de comunicao; mensagens podiam entrar no campo escondidas dentro de um po. Mas ao primeiro sinal de rebelio ativa, ele  Amon Goeth , como comandante, teria necessidade de agir sumariamente. A pergunta que Amon queria fazer era, se ele primeiro atirasse e depois comunicasse oficialmente a Oranienburg, o eminente Obergruppenfhrer Koppe lhe daria o seu apoio?
Nenhum problema, respondeu Koppe. Realmente no tinha simpatia por burocratas. Em anos passados, como chefe de polcia da Wartheland, tinha comandado a frota de caminhes de extermnio, que transportavam Untermenschen para zonas rurais e, ento, pondo o motor em funcionamento, bombeavam o gs do escapamento para dentro dos caminhes trancados. Essa tambm era uma operao clandestina, que no necessitava ser transmitida oficialmente aos burocratas. A resposta de Koppe foi que Amon devia usar seu prprio critrio; se assim agisse, ele o apoiaria.
Oskar tinha percebido na reunio que Amon no estava realmente preocupado com os guerrilheiros. Se soubesse na ocasio que Plaszvia ia ser liquidado, ele teria compreendido o verdadeiro significado da representao de Amon. Pois Amon estava preocupado com Wilek Chilowicz, o chefe de polcia judeu do campo. Amon usara frequentemente Chilowicz como seu agente no mercado negro. Chilowicz conhecia bem Cracvia. Sabia onde vender farinha, arroz, manteiga, que o comandante retinha para si subtrados aos suprimentos do campo.Conhecia os negociantes, que se interessariam por produtos da oficina de jias de fantasia, em que trabalhavam prisioneiros tais como Wulkan. Amon estava preocupado com toda a panelinha de Chilowicz: a Sra. Marysia Chilowicz, que desfrutava de privilgios graas  sua posio como esposa de Wilek; Mietek Finkeistein, um associado; a irm de Chilowicz, Sra. Ferber; e o marido, Sr. Ferber. Se existia uma  
Pg.260 
aristocracia em Plaszvia, era composta pela famlia Chilowicz. Tinham poder sobre os prisioneiros, mas sua posio era uma faca de dois gumes: sabiam tanto sobre Amon quanto sobre qualquer msero maquinista na fbrica Madritsch. Se e quando Plaszvia fechasse, eles fossem transferidos para outro campo, Amon estava certo de que tentariam se aproveitar do que sabiam sobre suas transaes, assim que se vissem numa posio desvantajosa. Ou assim que estivessem com fome.
Naturalmente, Chilowicz estava tambm preocupado, e Amon percebia nele a dvida quanto a lhe ser permitido sair de Plaszvia. Amon decidiu usar a prpria preocupao de Chilowicz como uma alvanca. Chamou ao seu gabinete Sowinski, um auxiliar SS recrutado da Alta Tatras da Tchecoslovquia, para uma conferncia. Sowinski seria encarregado de procurar Chilowicz e embrom-lo com um oferecimento de fuga. Amon tinha certeza de que Chilowicz se apressaria em aceitar a transao.
Sowinski saiu-se bem da sua misso. Disse a Chilowicz que tinha condies de retirar do campo todo o seu cl num grande caminho movido a lenha. Mas se usasse gasolina em vez de lenha, era possvel caberem umas seis pessoas na fornalha destinada  lenha.
Chilowicz interessou-se pela proposta. Sowinski precisaria, naturalmente, de entregar um bilhete a amigos do lado de fora do campo, que providenciariam um veculo. Sowinski levaria o cl de caminho ao ponto do encontro. Chilowicz estava disposto a pagar o servio em diamantes. Mas acrescentou que, como prova de confiana mtua, Sowinski teria de fornecer-lhe uma arma.
Sowinski relatou as condies da transao ao comandante, que lhe deu uma pistola calibre 38 com o pino limado. A arma foi entregue a Chilowicz, que evidentemente no teria a oportunidade nem a necessidade de test-la. Isso contudo permitiu a Amon jurar tanto a Koppe quanto a Oranienburg que encontrara uma arma em poder do prisioneiro.
Foi num domingo, em meados de agosto, que Sowinski se encontrou com a famlia Chilowicz no galpo de material de construo e  os escondeu no caminho. Depois desceu a Rua Jerozolimska, que ia dar no porto. Ali haveria formalidades de rotina; depois o caminho estaria livre de seguir caminho. Na fornalha vazia, nas pulsaes dos cinco fugitivos, havia a febril, quase insuportvel, esperana de deixar Amon para trs.
No porto, contudo, achavam-se Amon, Amthor e Hujar, mais o ucraniano Ivan Scharujew. Procederam a uma inspeo minuciosa. Com um meio sorriso, depois de vistoriar a plataforma do caminho, eles deixaram a fornalha por ltimo. Fingiram surpresa ao descobrir 
Pg.261 
a infeliz famlia Chilowicz, como sardinhas em lata dentro da fornalha. Assim que Chilowicz foi arrastado para fora, Amon "encontrou"a arma ilegal enfiada em sua bota. Os bolsos de Chilowicz estavam repletos de diamantes, subornos que lhe haviam sido dados pelos desesperados prisioneiros do campo.
Prisioneiros, em seu dia de folga, souberam que Chilowicz achavase no porto, sob sentena. A notcia provocou o mesmo temor, a mesma confuso de emoes que desencadeara um ano antes, na noite em que Symche Spira e os seus OD haviam sido executados. E nenhum prisioneiro podia decifrar o significado daquele fato em relao s suas prprias chances.
A famlia Chilowicz foi executada, um a um, com tiros de pistola. Muito amarelo devido a uma doena do fgado, no auge de sua obesidade, resfolegando como um tio velho, foi Amon quem colocou o cano da arma na nuca de Chilowicz. Mais tarde, os corpos ficaram em exibio na Appellplatz com tabuletas pregadas no peito: AQUELES QUE VIOLAM LEIS JUSTAS PODEM ESPERAR UMA MORTE SEMELHANTE.
Naturalmente, esta no foi a moral que assimilaram os prisioneiros ante aquele espetculo.
Amon passou a tarde preparando dois longos relatrios, um para Kopp, outro para a Seo D do General Glck, explicando como tinha salvo Plaszvia de uma conspirao incipiente  quando um grupo de conspiradores tinha tentado fugir do campo  executando todos os lderes. No terminou a reviso de ambos os relatrios seno s 11 horas da noite. Frau Kochmann era muito lenta para um trabalho to tardio; assim, o comandante mandou acordar Mietek Pemper para ser levado  sua casa. Na sala da frente, Amon declarou tranquilamente ao rapaz que acreditava que ele tinha sido cmplice na tentativa de fuga de Chilowicz. Atnito, Pemper no soube o que responder. Lanou um olhar ao redor, em busca de alguma inspirao; viu, ento, que a bainha da perna de sua cala estava descosturada. Como poderia sair do campo, com a roupa naquele estado?, perguntou.
O raciocnio de franco desespero de sua resposta satisfez Amon.Ordenou que o rapaz se sentasse e deu-lhe instrues a respeito de como os relatrios deviam ser datilografados e as pginas numeradas.Amon bateu com os dedos espaulados nas folhas de papel. 
Quero um servio de primeira classe  disse ele. Pemper refletu: Assim so as coisas aqui  posso morrer agora por ser um fugitivo, ou mais tarde, por ter lido as justificativas de Amon."
         Pg.262 
              Quando Pemper estava saindo da casa com os rascunhos na mo Goeth seguiu-o at o ptio e gritou uma ltima ordem, em tom afvel: 
-Quando voc datilografar a lista dos insurretos, quero que deixe espao acima da minha assinatura, onde possa ser inserido mais um nome.
Pemper concordou com um gesto de cabea, discreto como qualquer secretrio profissional. Parou meio segundo, procurando uma inspirao, alguma resposta rpida, que inverteria a ordem de Amon de um espao extra. O espao para o seu nome. Mietek Pemper. Naquele odioso silncio trrido da noite de domingo, na Rua Jerozolimska, nada de plausvel lhe ocorreu.
 Sim, Herr Commandant  respondeu Pemper.
Ao encaminhar-se para o Prdio da Administrao, Pemper lembrou-se de uma carta que Amon lhe dera para datilografar no incio do vero. Era dirigida ao pai, um editor vienense, cheia de preocupao filial por uma alergia, que estivera incomodando o velho na primavera anterior. Amon esperava que a alergia j tivesse deixado em paz o seu velho pai. A razo de Pemper ter-se lembrado daquela carta,entre tantas outras, era que meia hora antes de ele ter sido chamado ao gabinete de Amon para taquigraf-la, o comandante tinha arrastado para fora uma jovem que trabalhava no arquivo e a executado. A justaposio da carta e da execuo provou a Pemper que, para Amon,assassinato e alergia eram eventos de igual valor. Se dizia a um datilgrafo que deixasse espao em branco, onde pudesse ser inserido o prprio nome, a nica coisa a fazer era deixar o espao.
Pemper passou mais de uma hora datilografando, e, no final, deixou o espao destinado ao seu nome. No obedecer  ordem seria ainda mais prontamente fatal. Corria um boato, entre os amigos de Stern,que Schindler tinha em mente algum plano a respeito dos prisioneiros,alguma ttica para salv-los, mas nessa noite os boatos de Zablocie no significavam mais nada. Mietek continuou datilografando; Mietek deixou em cada um dos dois relatrios o espao para a sua sentena de morte. E todos os carbonos que ele to laboriosamente gravara na mente  todas aquelas provas ficariam perdidas, anuladas pelo fatal espao, que ele estava deixando no final da lista de Amon.
Quando ambos os relatrios tinham sido datilografados  perfeio, ele retomou  casa do comandante. Amon manteve-o esperando junto  janela, enquanto permanecia sentado lendo os documentos.Pemper pensou que talvez o seu prprio corpo fosse exibido depois na Appellplatz, com alguma frase declamatria: QUE ASSIM PEREAM TODOS OS JUDEUS BOLCHEVIQUES!
Por fim, Amon veio at a janela. 
Pg.263 
 Pode ir para a sua cama  disse ele.
Herr Commandant?
 Eu disse, pode ir para a cama.
Pemper retirou-se. Caminhava agora com passos menos firmes.Depois do que ele tinha visto. Amon no podia deixar que ele continuasse vivo. Mas talvez o comandante julgasse que no havia pressa em mat-lo. Entrementes, um dia de vida sempre era vida.
O espao em branco acabou sendo utilizado para um prisioneiro idoso que, atravs de entendimentos imprudentes com homens como John e Hujar, tinha revelado que possua diamantes escondidos em algum lugar fora do campo. Enquanto Pemper mergulhava no sono de um condenado que teve a sua pena comutada, Amon mandou chamar o velho prisioneiro  sua casa e ofereceu-lhe a vida em troca de revelar onde estavam escondidos os diamantes. Depois de conseguir a informao, evidentemente mandou execut-lo e acrescentou-lhe o nome no relatrio a Koppe e Oranienburg, juntamente com a sua modesta alegao de ter extinguido a centelha de uma rebelio.
Pg. 264
Captulo 30 
As ordens, rotuladas OKH (Alto-Comando do Exrcito) j se achavam sobre a mesa de Oskar. Devido  situao da guerra, informava o Diretor de Armamentos que KL Plaszvia e, portanto, o campo da Emalia teriam de ser desativados. Os prisioneiros da Emalia seriam enviados para Plaszvia,  espera de redistribuio.O prprio Oskar devia encerrar a sua operao Zablocie o mais rapidamente possvel, retendo no recinto apenas os tcnicos necessrios ao desaparelhamento da fbrica. Para mais instrues, ele devia dirigirse  Junta de Evacuao, OKH, Berlim.
A reao inicial de Oskar foi um acesso de fria. Ofendia-o o tom,o senso de um funcionrio distante resolvendo desobrig-lo de quaisquer compromissos. Havia um homem em Berlim  ignorante do po do mercado negro que ligava Oskar aos seus prisioneiros  que considerava razovel que o dono de uma fbrica abrisse seus portes e deixasse que seus trabalhadores fossem levados para qualquer outra parte.Mas a pior arrogncia era o fato de que a carta no definia a "redistribuio". O Governador-Geral Frank era mais honesto e tinha feito um discurso notrio algum tempo antes: "Quando, finalmente, ganharmos a guerra, ento, pelo que me toca, poloneses, ucranianos e toda essa ral podem ser transformados em picadinho de carne ou qualquer outra coisa que se queira." Frank tivera a coragem de dar um nome preciso ao processo. Em Berlim, eles falavam em "redistribuio" e, com isso, se consideravam justificados.
Amon sabia o que significava "redistribuio" e, na prxima visita de Oskar a Plaszvia, disse-lhe francamente do que se tratava. Todos os homens de Plaszvia seriam enviados a Grss-Rosen. As mulheres iriam para Auschwitz. Grss-Rosen era um vasto campo 
Pg.265
de pedreiras na Baixa Silsia. A Terra & Pedra da Alemanha, grande empreendimento da SS com filiais em toda a Polnia, Alemanha e territrios conquistados, consumia os prisioneiros de Grss-Rosen.Os processos em Auschwitz eram, naturalmente, mais diretos e modernos.
Quando a notcia da extino da Emalia chegou s oficinas da fbrica e se espalhou pelas casernas, alguns dos presos de Schindler julgaram que era o fim de todo o santurio. Os Periman, cuja filha abandonara a sua cobertura de ariana para interceder por eles, empacotaram os seus cobertores e conversaram filosoficamente com seus vizinhos de beliche. Emalia lhes dera um ano de tranquilidade, um ano de sopa, um ano de sanidade. Talvez fosse o bastante. Mas agora eles se consideravam condenados  morte. Era o que as suas vozes deixavam transparecer.
O Rabino Levartov estava tambm resignado. Chegara a hora do seu acerto de contas com Amon. Edith Liebgold, que fora recrutada por Bankier para o turno da noite nos primeiros dias do gueto, notou que, embora Oskar passasse horas falando solenemente com os seus supervisores judeus, no mais fazia ao seu pessoal promessas mirabolantes. Talvez se sentisse to perplexo e humilhado quanto os outros, com aquelas ordens de Berlim. Assim, no parecia mais ser o profeta que Edith conhecera na noite em que, pela primeira vez, ela viera a Emalia, mais de trs anos antes.
Ainda assim, no final do vero, quando seus prisioneiros fizeram as trouxas e marcharam de volta a Plaszvia, corria entre eles o boato de que Oskar falara em compr-los de volta. Dissera isso a Garde; dissera a Bankier. Quase podiam ouvi-lo falando  aquela certeza sincera, aquele rouquenho tom paternal. Mas, ao subirem os prisioneiros a Rua Jerozolimska, passando pelo Prdio da Administrao, fitando com espanto de recm-chegados as turmas puxando carretas da pedreira,a memria das promessas de Oskar era quase como uma sobrecarga de amargura.
A famlia Horowitz estava de volta a Plaszvia. O pai, Dolek, no ano anterior conseguira a transferncia de todos eles para a Emalia, mas agora ali estavam de novo, Richard, de seis anos de idade, a me, Regina. Niusia, com onze anos, de novo costurava pelos em vassouras e via, das altas janelas, os caminhes subindo para o morro do forte austraco, e a fumaa negra das cremaes erguer-se no cu. Plaszvia continuava como era quando ela sara de l no ano anterior. Era-lhe impossvel acreditar que aquilo tudo teria um fim.
Mas o pai de Niusia acreditava que Oskar faria uma lista de pessoas e conseguiria tir-las dali. A lista de Oskar, na mente de alguns 
Pg.266 
deles, passara a ser mais do que uma mera tabulao. Era uma Lista. Uma esperana que talvez se concretizasse.
Uma noite, na casa de Amon, Oskar falou na idia de levar judeus consigo para fora de Cracvia. Era uma noite tranquila, no final do vero. Amon parecia satisfeito de v-lo. Em vista do estado de sade do comandante  tanto o Dr. Blancke como o Dr. Gross o haviam advertido que, se no moderasse a comida e a bebida, acabaria morrendo  ultimamente os visitantes em sua casa tinham escasseado.
Instalados na sala, eles bebiam, com a recente moderao de Amon. De repente, Oskar tocou no assunto. Queria levar seus trabalhadores especializados para a sua fbrica na Tchecoslovquia. E tambm talvez precisasse de mais alguns prisioneiros de Plaszvia. Procuraria a ajuda da Junta de Evacuao para encontrar um local adequado, em alguma parte na Morvia, e recorreria  Ostbahn para fazer o transporte de Cracvia para sudeste. Deu a entender a Amon que ficaria grato com o apoio que dele recebesse. A palavra gratido sempre excitava Amon. Sim, acedeu ele, se Oskar conseguisse a cooperao de que precisava de todas as juntas em questo, Amon permitiria que fosse feita uma lista de prisioneiros.
Quando o acordo ficou acertado, Amon quis jogar cartas. Gostava de blackjack, uma verso do vingt-et-un francs. Era um jogo difcil para os oficiais subalternos fingirem perder, sem tomar a coisa muito bvia. No permitia bajulao excessiva. Era, portanto, um jogo para valer, e isso agradava a Amon. Alm do mais, nessa noite Oskar no estava interessado em perder. Pagaria muito bem a Amon por aquela lista.
O comandante comeou apostando modestamente, em cdulas de 100 zlotys, como se os seus mdicos lhe houvessem aconselhado moderao tambm no jogo. Mas passou a aumentar as apostas, e quando chegaram a 500 zlotys, Oskar recebeu a combinao mais alta de cartas, um s e um valete, o que significava que Amon teria de pagar-lhe o dobro da aposta.
Amon mostrou-se desconsolado por ter perdido mas no se irritou. Mandou que Helen Hirsch lhes trouxesse caf. A moa entrou,uma pardia da criada de um cavalheiro, muito engomada, vestida de preto, mas com o olho direito fechado pela inchao. Helen era to pequena que Amon tinha de se abaixar para espanc-la. Agora ela j conhecia Oskar, mas no levantou os olhos para ele. Havia quase um ano que ele lhe prometera tir-la dali. Sempre que aparecia na casa de Amon, dava um jeito de esgueirar-se pelo corredor at a cozinha para perguntar como ia ela. J era alguma coisa, mas no alterava a sua  
Pg.267 
situao na vida. Poucas semanas antes, por exemplo, pelo fato de a sopa no estar na temperatura correia  Amon era exigente com respeito a sopa, sujeiras de mosca no corredor, pulgas nos ces o comandante tinha chamado Ivan e Petr e lhes ordenado que levassem Helen ao vidoeiro no jardim e sumariamente a fuzilassem. Observara-a da janela, enquanto ela caminhava na frente da Mauser de Petr, implorando baixinho ao jovem ucraniano: ''Petr, quem voc vai matar?  Helen, Helen que lhe d bolos! Como vai poder atirar em Helen?" Petr, respondendo da mesma maneira, de dentes cerrados: "Eu sei, Helen. No queria, mas sou obrigado. Se me negar,sou eu quem ele vai matar." Ela curvara a cabea, apoiando-a na casca manchada da rvore. Tantas vezes j havia perguntado a Amon por que ele no a matava, ela queria morrer com simplicidade, aborrec-lo com a sua aceitao. Mas no era possvel. Estava tremendo tanto que Amon o notou. Seus joelhos dobravam. Ouviu ento Amon gritar da janela:
 Tragam de volta a cadela. No faltar ocasio de liquidar com ela. Mas, por enquanto, talvez ainda seja possvel educ-la.
Em meio de seus acessos de selvageria insana, havia breves fases em que ele tentava personificar o patro benigno. Um dia, dissera a Helen que ela era realmente uma criada muito bem-treinada. "Se depois da guerra voc precisar de uma referncia, eu lhe darei todas as que quiser." Helen sabia que era s da boca para fora, um devaneio.E voltara para Amon o seu ouvido surdo,o que tivera o tmpano perfurado por uma pancada. Sabia que cedo ou tarde iria morrer, vitimada pela fria de Amon.
Naquela vida, o sorriso de um visitante era apenas um conforto momentneo. Nessa noite, colocou uma enorme cafeteira de prata ao lado do Herr Commandant  ele continuava bebendo incrveis quantidades de caf, com quilos de acar  fez uma mesura e retirou-se.
Uma hora depois, quando Amon j tinha perdido 3.700 zlotys e queixava-se amargamente do seu azar, Oskar sugeriu uma variao nas apostas. Ia precisar de uma criada em Morvia, disse, quando se mudasse para a Tchecoslovquia. L, ser-lhe-ia difcil conseguir uma to inteligente e bem-treinada como Helen Hirsch. Todas elas eram camponesas. Assim, props que jogassem uma rodada, apostando o dobro ou nada. Se Amon ganhasse, Oskar lhe pagaria 7.400 dotys. Porm se perdesse, a sua dvida subiria a 14.800 dotys.
 Mas se eu ganhar  disse Oskar  voc ter de ceder Helen Hirsch para a minha lista.
Amon queria pensar melhor na proposta. Mas Oskar ponderou 
Pg.268 
que, de qualquer jeito, ele teria de abrir mo da criada, pois ela ia ser mandada para Auschwitz . Amon estava to habituado com Helen que lhe era difcil perd-la. Quando pensava em um fim para ela provavelmente sempre fora liquid-la ele mesmo, num mpeto passional. Se a perdesse nas cartas, estaria obrigado, com o esprito esportivo de um autntico vienense, a desistir do prazer pessoal daquele assassinato.
Em outra ocasio, Schindler tinha pedido que Helen fosse destacada para trabalhar na Emalia. Mas Amon recusara. Havia apenas um ano que parecera a todos que Plaszvia iria durar algumas dcadas e que o comandante e sua criada envelheceriam juntos, ou pelo menos at que algum erro cometido por Helen encerrasse abruptamente o vnculo entre eles. Um ano antes, ningum teria acreditado que aquele relacionamento terminaria porque os russos tinham chegado s portas de Lww. Quanto a Oskar, a sua proposta fora feita em tom displicente. No parecia haver, em sua oferta a Amon, nenhum paralelo com Deus e Sat, apostando nas cartas almas humanas. No perguntou a si mesmo que direito tinha de incluir a jovem numa aposta. Se perdesse, a sua chance de tir-la dali de algum outro modo seria bem precria. Mas naquele ano todas as chances eram precrias. At mesmo as de Oskar.
Oskar levantou-se e procurou na sala uma folha de papel com cabealho oficial, na qual escreveu para Amon assinar, caso este perdesse a aposta: "Autorizo que o nome da prisioneira Helen Hirsch seja includo em qualquer lista de mo-de-obra especializada, a ser utilizada por Herr Oskar Schindler em sua fbrica DEF."
Amon deu as cartas e Oskar recebeu um 8 e um 5; Oskar pediu mais cartas e recebeu um 5 e um s. Devia ser o suficiente. Depois, Amon deu as cartas para si mesmo. Primeiro foi um 5, depois um rei.
 Meu Deus do cu!  exclamou Amon, que praguejava com muita distino, considerando-se demasiado requintado para usar palavreado obsceno.  Perdi.  E soltou uma risadinha; mas no estava achando nada divertido.  Minhas primeiras cartas foram um 3 e um 5. Com um 4 eu estaria garantido. E ento recebi este maldito rei.
Terminada a partida, ele assinou a autorizao. Oskar juntou todas as fichas que tinha ganho nessa noite e devolveu-as a Amon.
 Cuide bem da moa por mim  recomendou ele  at chegar a hora de eu mandar busc-la.
Na sua cozinha, Helen no podia saber que acabava de ser salva por um baralho.
Pg.269
Provavelmente por Oskar ter contado a Stern o que se passara naquela noite em casa de Amon, correram boatos no Prdio da Administrao e at mesmo nas oficinas sobre um plano que Oskar tencionava pr em prtica. Existia uma lista Schindler. Fazer parte dela era a melhor coisa que se poderia desejar. 
Pg.270 
Captulo 31  
Em determinado ponto de qualquer discusso sobre Schindler,os sobreviventes amigos de Herr Direktor apertam os olhos, abaf nam a cabea e se empenham na tarefa quase matemtica de descobrir a soma de suas motivaes. Pois um dos sentimentos mais comuns aos judeus de Schindler  ainda: "No sei por que ele fez tudo aquilo." Para comear, pode-se dizer que Oskar era um jogador, um sentimental que amava a luminosidade, a simplicidade de fazer o bem;que Oskar era por temperamento um anarquista, que se comprazia em ridicularizar o sistema; e que sob a sua jovial sensualidade havia a capacidade de se indignar com a selvageria humana, de reagir a essa selvageria e de no se deixar dominar. Mas nem todos esses motivos somados explica a tenacidade com que, no outono de 1944, ele preparou um abrigo final para a sua gente da Emalia.
E no s para aquela gente. Em princpios de setembro ele foi em seu carro a Podgrze e visitou Madritsch, que quela altura empregava mais de 3 mil prisioneiros em sua fbrica de uniformes. Essa fbrica seria agora desmontada. Madritsch receberia de volta suas mquinas de costura e seus operrios desapareceriam.
 Se trabalhssemos em conjunto  props Oskar  poderiamos salvar mais de quatro mil prisioneiros. Os meus e os seus. Poderamos dar-lhes proteo em Morvia.
Madritsch seria sempre, e com razo, reverenciado pelos seus prisioneiros sobreviventes. O po e as galinhas contrabandeados para dentro de sua fbrica eram pagos do seu prprio bolso e com srios riscos. Poderia ser considerado um homem mais equilibrado do que Oskar. No to entusistico, no to sujeito a obsesses. Nunca tnha sido preso. Mas fora muito mais humano do que seria prudente e, 
Pg.271
se fosse menos sagaz e enrgico, teria acabado em Auschwitz.
Agora Oskar apresentava-lhe uma viso de um campo Madritsch Schindler em alguma parte na Alta Jeseniks; algum enevoado, seguro e pequeno povoado industrial.
Madritsch sentiu-se atrado pela idia mas no se apressou em dizer sim. Via que, embora a guerra estivesse perdida, o sistema SS tinha-se tornado no menos, porm, mais implacvel. Tinha razo de presumir que, infelizmente, os prisioneiros de Plaszvia  nos prximos meses  seriam destrudos nos campos de morte a oeste. Porque, se Oskar era pertinaz e alucinado, tambm o eram o Escritrio Central da SS e seus operadores, os comandantes dos Campos de Concentrao.
Madritsch, porm, no deu um "no" definitivo. Precisava de tempo para pensar melhor. Embora no pudesse dizer isso a Oskar,  provvel que ele temesse se empenhar num projeto de sociedade com um sujeito temerrio e demonaco como Schindler.
Sem ter recebido uma resposta clara de Madritsch, Oskar resolveu agir. Foi para Berlim e l convidou o Coronel Erich Lange para jantar. Em conversa, afirmou-lhe que poderia dedicar-se inteiramente  manufatura de granadas, se conseguisse transferir sua maquinaria pesada.
Lange era crucial. Podia garantir contratos; podia fornecer as recomendaes de que Oskar necessitava para convencer a Junta de Evacuao e os funcionrios alemes em Morvia.
Mais tarde, Oskar diria desse sombrio oficial do estado-maior que ele o ajudara concretamente. Lange estava ainda naquele estado de exaltado desespero e repulsa moral caracterstico de muitos homens que tinham trabalhado dentro do sistema, mas nem sempre pelo sistema.
 Podemos conseguir isso  disse Lange  mas vai ser preciso algum dinheiro. No para mim. Para outros.
Apresentado por Lange, Oskar conversou com um oficial da Junta de Evacuao no OKH, na Rua Bendler. Era provvel, disse esse oficial, que, em princpio, a evacuao fosse aprovada. Mas havia um obstculo maior. O Governador cum Gauleiter da Morvia, que administrava a regio do seu castelo em Liberec, seguia a poltica de manter os campos de trabalho de judeus fora de sua provncia. Nem a SS nem a Inspetoria de Armamentos conseguira at ento faz-lo mudar de atitude. Um homem com quem discutir esse impasse, disse o oficial, era um engenheiro veterano da Wehrmacht na Inspetoria de Armamen-tos, chamado Sussmuth. Oskar poderia discutir com Sussmuth quais os locais disponveis, na Morvia, para a execuo do seu plano. Em todo o caso, Herr Schindler podia contar com o apoio da Junta de Evacuao. 
Pg.272 
 Mas o senhor deve compreender que em vista das presses, sob as quais vive o pessoal da Junta, e da reduo que a guerra trouxe aos seus confortos pessoais, eles provavelmente dariam uma resposta mais rpida, se o senhor pudesse compens-los de alguma forma. Ns, pobres funcionrios da cidade, estamos com falta de presunto, charutos bebidas, roupas, caf... todo tipo de coisas.
O oficial parecia pensar que Oskar carregava consigo a metade dos produtos do tempo de paz da Pol`nia. Em vez de remeter aos cavalheiros da Junta um pacote de presentes, Oskar teve de comprar artigos de luxo aos preos do mercado negro de Berlim. Um velho senhor no balco do Hotel Adlon pde adquirir excelentes schnapps para Herr Schindler por um bom preo, cerca de 80 RM a garrafa. E no se podia mandar aos membros da Junta menos de uma dzia de garrafas.Mas o caf era como ouro, e havanas estavam por um preo absurdo.Os cavalheiros poderiam precisar de muita presso para conseguiremvencer a resistncia do Governador da Morvia.
Em meio s negociaes de Oskar, Amon Goeth foi preso. 
Algum devia t-lo denunciado. Algum oficial subalterno invejoso, ou um cidado apreensivo, que estivera na casa do comandante e ficara chocado com o estilo sibarita de Amon. Um investigador da SS chamado Eckert iniciou uma devassa nas transaes financeiras de Amon.No cabiam s investigaes de Eckert os disparos de Amon contra prisioneiros. Mas os desfalques e as negociatas no mercado negro lhe eram pertinentes, assim como as queixas de alguns dos seus oficiais subalternos sobre a maneira excessivamente severa como ele os tratava.
Amon estava de licena em Viena, hospedado com o seu pai, o editor, quando a SS veio prend-lo. Deram tambm uma busca em um apartamento que o Hauptsturmfhrer Goeth mantinha na cidade e descobriram 80 mil RM escondidos, cuja provenincia Amon no pde explicar satisfatoriamente. Alm disso, encontraram, empilhados at o teto, cerca de um milho de cigarros. Ao que parecia, o apartamento de Amon em Viena era mais um depsito de mercadorias do que um pied--terre.
 primeira vista poderia parecer surpreendente que a SS  ou antes, os oficiais do Escritrio Central de Segurana do Reich  se dispusessem  tarefa de prender um funcionrio to eficiente como o  Hauptsturmfhrer Goeth. Mas j haviam investigado irregularidades em Buchenwald e tentado encurralar Koch, o seu comandante. Tinham at procurado juntar provas para prender o notrio Rudolf Hss e interrogado uma judia vienense, que se suspeitava estivesse grvida daquele astro do sistema de campos de concentrao. Por isso Amon, 
Pg.273 
furioso em seu apartamento, enquanto o revistavam, no podia ter muita esperana de impunidade.
Amon foi levado para Breslau e colocado numa priso da SS para aguardar outras investigaes e o julgamento. Os oficiais deram prova de sua ingenuidade, quanto  maneira como eram conduzidos os negcios em Plaszvia, indo  casa de Amon para interrogar Helen Hirsch,sob suspeita de estar envolvida nas negociatas do comandante. Nos meses seguintes, duas vezes ela foi levada s celas no subsolo do quartel-general da SS em Plaszvia para interrogatrio. Fizeram-lhe perguntas sobre os contatos de Amon no mercado negro - quem eram os seus agentes, como ele fazia funcionar a oficina de jias em Plaszvia, a oficina de alfaiate, de estofamento. Ningum a espancou ou ameaou. Mas estavam convencidos de que ela era membro de uma gangue que a atormentava. Se Helen por acaso tivesse sonhado com uma improvvel e gloriosa salvao, no teria ousado sequer pensar que Amon seria preso pela sua prpria gente. Sentia-se agora  beira da loucura na sala do interrogatrio, quando eles tentaram atrel-la a Amon.
Chilowicz poderia ajud-los, disse-lhes ela. Mas Chilowicz estava morto.
Eram policiais por profisso; aps algum tempo, decidiram que ela nada podia dizer-lhes, exceto umas poucas informaes sobre a cozinha suntuosa na casa de Goeth. Poderiam ter-lhe perguntado a respeito de suas cicatrizes mas sabiam que no adiantava acusar Goeth de sadismo. Ao tentar investigar sadismo no campo de Sachsenhausen tinham sido expulsos do recinto por guardas armados. Em Buchenwaid haviam entrado em contato com uma testemunha importante,um NCO disposto a testemunhar contra o comandante, mas o informante fora encontrado morto em sua cela. O chefe do grupo de investigadores ordenara que amostras de um veneno encontrado no estmago do NCO fossem ministradas a quatro prisioneiros russos. Viu-os morrer, obtendo assim a prova contra o comandante e o mdico do campo. Embora o comandante houvesse sido condenado por assassinato e sadismo, era uma justia estranha. Antes de tudo, fez com que o pessoal do campo se unisse e liquidasse com todas as provas vivas. Assim os homens do Escritrio V no interrogaram Helen a respeito de suas cicatrizes. Continuaram perguntando-lhe sobre negociatas e acabaram por deix-la em paz.
Investigaram tambm Mietek Pemper, que teve a prudncia de no lhes revelar muito a respeito de Amon, certamente nada sobre seus crimes contra seres humanos. Ouvira apenas rumores das falcatruas de Amon. Representou o papel do datilgrafo profissional, alheio a todo material confidencial. "O Herr Commandant nunca discutiria tais asssuntos 
Pg.274 
comigo", insistia ele. Mas a sua representao era motivada pela mesma incerteza de Helen Hirsch. Se existia uma circunstncia, que mais provavelmente garantia a ele a chance de sobrevivncia, era a priso de Amon. Pois no havia desfecho mais certo de sua vida do que este: quando os russos chegassem a Tarnow, Amon ditaria as suas ltimas cartas e depois assassinaria o datilgrafo. Portanto, o que preocupava Mietek era que soltassem Amon cedo demais.
Mas os investigadores no estavam interessados somente na questo das especulaes de Amon. O juiz da SS que interrogou Pemper fora informado pelo Oberscharfhrer Lorenz Landsdorfer que o Hauptsturmfhrer Goeth permitira que o seu funcionrio judeu datilografasse as diretrizes e os planos a serem seguidos pela guarnio de Plaszvia, no caso de o campo ser atacado por guerrilheiros. Ao explicar a Pemper como devia datilografar os planos, Amon mostrara-lhe cpias de planos similares para outros campos de concentrao. O juiz se alarmou tanto com essa revelao de documentos secretos a um prisioneiro judeu que ordenou a priso de Pemper.
Pemper passou duas semanas terrveis numa cela do quartel da SS. No foi espancado mas interrogado regularmente por vrios investigadores do Escritrio V e por dois juizes da SS. Julgou ler nos olhos daqueles homens a concluso de que a coisa mais garantida era fuzil-lo. Um dia, durante um interrogatrio sobre planos de emergncia para Plaszvia, Pemper perguntou a seus interrogadores:
 Por que me manter aqui? Uma priso  uma priso. Dessa maneira, estou sob sentena de priso perptua.
Era um argumento calculado para provocar uma soluo, ou o soltavam ou lhe davam um tiro. Quando terminou a sesso, Pemper passou algumas horas de ansiedade, at tornarem a abrir a porta de sua cela. Levaram-no para fora e o devolveram ao campo de Plaszvia. No foi a ltima vez, porm, que ele seria interrogado a respeito de questes relativas ao Comandante Goeth.
Em vista de Pemper ter sido preso, os auxiliares de Amon no pareceram muito dispostos a falar em seu favor. Eram cautelosos. Bosch, que tanto se servira das bebidas do comandante, declarou ao Untersturmfhrer John que era perigoso tentai subornar aqueles decididos investigadores do Escritrio V. Quanto aos superiores de Amon, Scherner se fora, destacado para caar guerrilheiros, e acabaria sendo morto numa emboscada nas florestas de Niepolomice. Amon estava nas mos de homens de Oranienburg, que nunca tinham jantado na Goethhaus  ou, se tinham jantado, saram de l escandalizados ou invejosos.
Aps ser libertada pela SS, Helen Hirsch, agora trabalhando para o novo comandante, Hauptsturmfhrer Bscher, recebeu um bilhete  
Pg.275 
amistoso de Amon, pedindo-lhe que fizesse um embrulho de roupas, alguns romances e histrias policiais, e algumas bebidas para reconfortlo em sua cela. A Helen pareceu a carta de um parente. "Queira ter a bondade de me remeter o seguinte:", dizia ele, e terminava com: "Esperando tornar a v-la dentro em breve." 
Enquanto isso, Oskar fora  cidade de Troppau para ver o engenheiro Sussmuth. Levava consigo bebidas e diamantes, mas nesse caso no foram necessrios. Sussmuth disse a Oskar que j havia proposto a instalao de pequenos campos de trabalho judeus nas cidades fronteirias da Morvia, a fim de manufaturar peas para a Inspetoria de Armamentos. Naturalmente, esses campos estariam sob o controle central de Auschwitz ou Grss-Rosen, pois as reas de influncia dos grandes campos de concentrao cruzavam a fronteira polonesa-tchecoslovaca. Mas havia mais segurana para prisioneiros em pequenos campos de trabalho do que se poderia esperar na grande necrpole do prprio Auschwitz. Evidentemente, Sussmuth no conseguira fazer aprovar o seu plano. O Castelo de Liberec tinha vetado a sua proposta. Ele nunca tivera influncia alguma. O apoio que Oskar conseguira do Coronel Lange e dos membros da Junta de Evacuao  que poderia realmente representar alguma influncia.
Sussmuth tinha, em seu escritrio, uma lista de locais adequados para receber fbricas evacuadas da zona de guerra. Perto de Zwittau, a cidade natal de Oskar, junto a uma aldeia chamada Brinnlitz, havia uma grande fbrica de txteis de propriedade de dois vienenses, os irmos Hoffman. Anteriormente, eles negociavam com manteiga e queijos em sua cidade de origem mas tinham-se mudado para a Sudetenland atrs das legies (exatamente como Oskar fora para Cracvia) e se tornado magnatas da indstria txtil. O anexo inteiro da fbrica estava desocupado e sendo utilizado para guardar mquinas de tecelagem obsoletas. A zona era servida pela estao de estrada de ferro em Zwitau, onde o cunhado deSchindler administrava os vages de carga E um ramal da estrada passava prximo dos portes da fbrica.
 Os irmos Hoffman so especuladores  disse Sussmuth, sorrindo.  Tm certo apoio do Partido local o Conselho Municipal e o chefe do distrito esto no bolso deles. Mas voc pode contar com o apoio do Coronel Lange. Escreverei imediatamente para Berlim  prometeu Sussmuth  recomendando a utilizao do anexo Hoffman.
Oskar conhecia desde a infncia a aldeia alem de Brinnlitz. O carter racial da aldeia transparecia em seu prprio nome, pois os tchecos a teriam chamado de Brnenec, da mesma forma que uma Zwittau 
Pg.276 
tcheca se teria tornado Zvitava. Os cidados de Brinnlitz no gostariam muito da perspectiva de ter mil e tantos judeus em suas cercanias.
A populao de Zwittau, de onde eram recrutados alguns dos operrios dos Hoffman, tampouco gostaria dessa contaminao  j quase no fim da guerra  em seu rstico complexo industrial.
Em todo caso, Oskar foi fazer uma rpida vistoria do local. No se aproximou do escritrio dos Irmos Hoffman, pois isso daria ao irmo mais inflexvel, o que era diretor da companhia, motivo de suspeita. Mas conseguiu penetrar no anexo, sem qualquer dificuldade. Era uma antiquada caserna industrial de dois andares, construda em torno de um ptio. O andar trreo tinha o p-direito alto e estava cheio de velhas mquinas e engradados de l. O sobrado devia ter sido destinado aos escritrios e equipamentos mais leves. O seu piso no aguentaria o peso das grandes prensas. O andar de baixo serviria para as novas oficinas da DEF, o escritrio e, a um canto, o apartamento de Herr Direktor. No andar de cima seriam instalados os prisioneiros.
Oskar gostou muito do local. Voltou para Cracvia ansioso por dar andamento ao projeto, fazer as despesas necessrias, conversar de novo com Madritsch, pois Sussmuth podia encontrar tambm um local para Madritsch se instalar  talvez mesmo dentro de Brinnlitz.
Na volta, ele constatou que um bombardeiro dos Aliados, derrubado por um caa da  Lufwaffe, tinha cado sobre duas cabanas do campo. A fuselagem enegrecida jazia retorcida entre as runas das cabanas. Apenas uma pequena equipe de prisioneiros permanecia na Emalia para encerrar a produo e cuidar da fbrica. Tinham visto o bombardeiro cair em chamas. Dois homens jaziam l dentro, carbonizados. A equipe da Lufwaffe, que viera para levar os corpos, dissera a Adam Garde que o bombardeiro era um Stirling e os homens australianos. Um deles  segurava os restos queimados de uma Bblia inglesa; devia ter cado com ela na mo. Dois outros tinham descido de praquedas nos subrbios. Um fora encontrado morto por efeito dos ferimentos, ainda com os arreios. Os guerrilheiros tinham encontrado primeiro o outro e o mantinham escondido em alguma parte. Os avies australianos estavam jogando suprimentos para os guerrilheiros, na floresta virgem situada a leste de Cracvia.
Se Oskar precisasse de alguma confirmao, ali estava a prova.
Aqueles homens tinham vindo de longnquas cidadezinhas, dos confins da Austrlia, para apressar a queda de Cracvia. Imediatamente ele telefonou ao funcionrio encarregado do material circulante, no escritrio do Presidente Gereis da Ostbahn, e convidou-o a jantar para discutirem a necessidade potencial da DEF de obter vages-plataforma. 
Pg.277
Uma semana depois da conversa de Oskar com Sussmuth, os membros da Junta de Armamentos de Berlim informaram ao Governador da Morvia que a fbrica de armamentos de Oskar ia ser instalada no anexo da tecelagem de Hoffman, em Brinnlitz. Os burocratas do Governador nada mais podiam fazer. Sussmuth disse por telefone a Oskar que apressasse a escrita da transao. Mas Hoffman e outros membros do Partido na rea de Zwittau j estavam conferenciando e aprovando resolues contra a intruso de Oskar na Morvia. O Kreisleitor do Partido em Zwittau escreveu a Berlim, queixando-se de que prisioneiros judeus da Polnia poriam em perigo a sade dos alemes moravianos. Muito provavelmente haveria um surto de meningite cerebrospinal pela primeira vez, desde tempos imemoriais, e a pequena fbrica de armamentos de Oskar, de dbio valor para o esforo de guerra, atrairia bombardeiros dos Aliados, com o resultante prejuzo da importante tecelagem dos Hoffman. A populao de criminosos judeus no campo Schindler seria maior do que a pequena e decente populao de Brinnlitz e se tornaria um cncer no honesto flanco de Zwittau.
Um protesto dessa ordem no teve chance de ser atendido, pois foi direto para o escritrio de Erich Lange, em Berlim. Apelos dirigidos a Troppau eram obstaculizados pelo honesto Sussmuth. No obstante, surgiram cartazes nos muros da cidade natal de Oskar: MANTENHAM AFASTADOS OS CRIMINOSOS JUDEUS.
E Oskar estava pagando. Estava pagando ao Comit de Evacuao em Cracvia para ajudar a apressar as guias de transferncia da sua maquinaria. O Departamento da Economia em Cracvia precisava ser encorajado para providenciar a liberao de depsitos bancrios. A moeda corrente no tinha muito valor naqueles dias; sendo assim ele pagava em mercadorias  quilos de ch, sapatos de couro, tapetes, caf, peixe enlatado. Passava as tardes nas ruas estreitas junto  praa do mercado de Cracvia regateando os preos exorbitantes de tudo o que os burocratas desejavam. Se assim no fizesse, ele tinha certeza de que o deixariam esperando at o ltimo judeu ir para Auschwitz
Foi Sussmuth quem avisou Oskar de que pessoas de Zwittau escreviam  Inspetoria de Armamentos, acusando-o de atuar no mercado negro.
 Se esto mandando cartas  disse Sussmuth  pode apostar que as mesmas cartas esto sendo endereadas ao chefe de polcia da Morvia, o Obersturmfhrer Otto Rasch. Portanto, aconselho-o a ir travar conhecimento com Rasch e mostrar-lhe que sujeito encantador voc . 
Pg.278 
Oskar tinha conhecido Rasch quando ele era chefe de polcia da SS de Katowice. Por sorte, Rasch era amigo do diretor da Ferrum AG em Sosnowiec, de quem Oskar tinha comprado o ao para a sua fbrica. Mas apressando-se em ir a Brno para chegar antes dos informantes, Oskar no confiou apenas no sentimento frgil de amizades por tabela. Levou consigo um diamante lapidado no estilo brilhante que em determinado momento, ele exibiu na entrevista. Quando o diamante rolou sobre a mesa e foi parar ao lado de Rasch, essa foi a garantia de que Oskar precisava para o seu plano.
Mais tarde, Oskar calculou que gastara 100 mil RM  quase 40 mil dlares  a fim de facilitar a transferncia de sua fbrica para Brinnlitz. Poucos dos sobreviventes iriam considerar exagerado o clculo; havia mesmo os que abanavam a cabea e opinavam: No, mais Na certa a quantia foi bem maior." 
Oskar tinha feito o que chamava de lista preparatria, a qual entregara no Prdio da Administrao. Havia mais de mil nomes na lista os nomes de todos os prisioneiros do campo da Emalia e mais alguns nomes novos. O de Helen Hirsch figurava entre eles e Amon no estava mais l para discutir a respeito de sua criada.
Essa lista ter-se-ia alongado se Madritsch tivesse ido para a Morvia com Oskar, que juntamente com Titsch continuava insistindo com Madritsch. Os prisioneiros de Madritsch mais ntimos de Titsch sabiam que a lista estava sendo compilada, e que podiam aspirar a ela. Titsch disse-lhes sem rodeios que eles deviam fazer o possvel para entrar na lista. Em meio de toda a papelada de Plaszvia, os nomes nas doze pginas da lista de Oskar eram os nicos com acesso ao futuro.
Mas Madritsch continuava sem decidir se queria fazer uma aliana com Oskar e acrescentar os seus 3 mil prisioneiros ao total.
Aqui tambm existe uma incerteza prpria das lendas quanto  exala cronologia da lista de Oskar. A incerteza no se refere  existncia da lista  uma cpia dela pode ser vista ainda hoje nos arquivos do Yad Vashem. E tampouco h incerteza, como veremos, quanto aos nomes lembrados por Oskar e Titsch no ltimo minuto e acrescentados no final do documento. Os nomes na lista so explcitos. Mas as circunstncias encorajam divagaes. O problema  que a lista  lembrada com uma veemncia que lhe tira a nitidez. A lista  um bem absoluto. A lista  vida. Em todo o seu pequeno redor abre-se um precipcio.
Alguns daqueles cujos nomes apareceram na lista contam que houve uma festa na casa de Goeth, uma reunio de membros da SS e empresrios para comemorar o tempo de existncia do campo. Alguns 
Pg.279
chegam mesmo a acreditar que Goeth compareceu  festa mas, como a SS no soltava ningum sob fiana, isso no  possvel. Outros acreditam que a festa se realizou no prprio apartamento de Oskar acima da sua fbrica. Durante mais de dois anos, ele dera l excelentes reunies. Um prisioneiro da Emalia se lembra de uma madrugada em 1944
quando estava de planto noturno e Oskar saiu do seu apartamento por volta de uma hora da manh, escapulindo do alarido dos seus convidados e trazendo consigo dois bolos, duzentos cigarros e uma garrafa de bebida para o seu amigo vigia.
Na festa de graduao de Plaszvia, onde quer que se tenha realizado, os convivas incluam Dr. Blancke, Franz Bosch e, segundo informaes, o Oberfhrer Julian Scherner, de frias de sua luta contra os guerrilheiros. Madridtsch tambm tinha comparecido, assim como Titsch. Segundo contou Titsch mais tarde, foi nessa festa que Madritsch informou pela primeira vez a Oskar que no iria para a Morvia com ele.
 J fiz tudo o que podia pelos judeus  disse-lhe Madritsch, confiante. Era uma alegao razovel, e ele no se deixou persuadir, apesar das insistncias de Oskar e Titsch. 
Madritsch era um homem justo; por isso mais tarde lhe seriam prestadas merecidas homenagens. Mas simplesmente no acreditava que Morvia poderia funcionar. Se acreditasse,  bem provvel que tivesse feito a tentativa.
O que se sabe ainda a respeito daquela festa  que a urgncia exigia a sua realizao imediata, pois a listaSchindler teria de ser entregue naquela mesma noite. As verses contadas pelos sobreviventes coincidem todas nesse particular. Se havia algum exagero nessas verses, este provavelmente se baseava em prvias conversas com Oskar, que era dado a enfeitar as suas histrias. Mas, no comeo de 1960, o prprio Titsch confirmou a verdade substancial desses fatos. Talvez o novo e temporrio Comandante de Plaszvia, o hauptsturmfher Bscher, tivesse dito aSchindler: "Basta de confuses, Oskar! Temos de finalizar toda a documentao e transporte." Talvez houvesse alguma outra forma de prazo de entrega imposto pelo Ostbahn quanto  disponibilidade do transporte.
Assim, no final da lista de Oskar, Titsch datilografou, acima das assinaturas oficiais, nomes de prisioneiros de Madritsch. Quase setenta foram acrescentados por Titsch, pelo que ele prprio e Oskar podiam lembrar-se. Entre esses, figurava a famlia Feigenbaum  a filha adolescente do casal sofria de um incurvel cncer dos ossos; e o jovem Lutek com a sua duvidosa capacidade de consertar mquinas de 
Pg.280  
costura. Agora eles estavam todos transformados pela escrita de Titsch em peritos em munies. No apartamento havia cantorias, conversas em voz alta e risadas, uma nvoa de fumaa de cigarros e, a um canto, Oskar e Titsch discutindo nomes de pessoas, esforando-se por acertar a ortografia de patronmicos poloneses.
No final, Oskar teve de segurar o pulso de Titsch, dizendo que eles j tinham ultrapassado os limites tolerveis, e que as autoridades iam protestar contra o tamanho da lista. Titsch continuou procurando lembrar-se de nomes, e na manh seguinte iria acordar maldizendo-se por s ter-se lembrado de um certo nome quando j era demasiado tarde. Mas agora ele estava no seu limite de resistncia, angustiado com aquela tarefa. Parecia-lhe quase uma blasfmia, como se s de pensar em pessoas ele as estivesse recriando. No era a tarefa que o revoltava.
Era a prova de no que se transformara o mundo  o que tornava o ar pesado no apartamento deSchindler, to irrespirvel para Titsch.
Todavia, a lista era vulnervel devido ao coordenador do pessoal, Mareei Goldberg. O novo Comandante, Bscher, que estava ali simplesmente para fechar o campo, pouco se importava com os nomes que compunham a lista mas apenas com os seus limites numricos. Portanto, Goldberg era quem tinha o poder de fazer alteraes. J era voz corrente entre os prision eiros que Goldberg era subornvel. Os Dresner sabiam disso. Juda Dresner  tio do Chapeuzinho Vermelho Genia, marido da Sra. Dresner, a quem em outros tempos havia sido recusado um esconderijo na parede, e pai de Janek e da jovem Danka  Juda Dresner sabia. "Pagamos a Goldberg, dizia simplesmente a famlia para explicar como fora includa na listaSchindler mas nunca se saberia qual tinha sido o preo do suborno. Presumivelmente, Wulkan, o joalheiro, tinha conseguido ser includo juntamente com a mulher e o filho pelo mesmo processo. 
Poldek Pfefferberg foi informado da existncia da lista por um NCO da SS chamado Hans Schindler. Rapaz de vinte e poucos anos, Schindler tinha to mau nome como qualquer outro SS em Plaszvia, mas Pfefferberg cara nas suas boas graas de um modo que de vez em quando acontecia no relacionamento entre prisioneiros e membros da SS. Tudo tinha comeado no dia em que coubera a Pfefferberg. como lder do grupo de sua caserna, a responsabilidade de limpar vidraas. Ao inspecionar o servio, Schindler encontrara uma ndoa, e comeara a descompor Poldek de um modo que, frequentemente, significava o preldio de uma execuo. Pfefferberg perdeu a pacincia e disse a Schindler que ambos sabiam que as vidraas estavam absolutamente limpas e que, se Schindler queria um pretexto para mat-lo, devia agir o quanto antes. A exploso de Pfefferberg contraditoriamente 
Pg.281 
divertira Schindler. Depois disso, s vezes Schindler parava pfefferberg para perguntar-lhe como ele e sua mulher estavam passando, e de vez em quando lhe dava uma ma para Mila. No vero de 1944, Poldek apelara desesperadamente para ele a fim de arrancar Mila de um vago cheio de mulheres que iam ser mandadas de plaszvia para o terrvel campo de Stutthof no Bltico. Mila j se achava nas fileiras, entrando nos vages de gado, quando Schindler veio correndo, sacudindo um pedao de papel e chamando-a pelo prprio nome. Em outra ocasio, um domingo, ele apareceu embriagado na caserna de Pfefferberg e, diante de Poldek e de alguns outros prisioneiros, comeou a chorar pelo que ele chamava de "coisas horrveis" que fizera em Plaszvia. Disse que a sua inteno agora era expiar suas culpas na Frente Leste. Algum tempo depois, acabou l se alistando.
Mas antes ele disse a Poldek queSchindler tinha uma lista e que Poldek devia fazer o impossvel para ser includo nela. Poldek foi ao Prdio da Administrao para implorar a Goldberg que acrescentasse o seu nome e o de Mila  lista. Naquele ltimo ano e meio,Schindler freqentemente fora procurar Poldek na oficina de carros do campo e sempre lhe prometera que o salvaria. Poldek, porm, se tornara um soldador to competente que os supervisores da oficina, que precisavam prestigiar a si mesmos, nunca abririam mo dele. Agora Goldberg tinha a mo pousada sobre a lista  ele prprio j se inclura nela  e aquele velho amigo de Oskar, anteriormente um convidado assduo no apartamento da Rua Straszewskiego, esperava ter o seu nome includo na lista por uma questo sentimental.
 Voc tem diamantes?  perguntou Goldberg.
 Est falando srio?  perguntou Poldek.
 Para esta lista  disse Goldberg, homem de prodigioso poder contingente   preciso ter diamantes.
Agora que o amante vienense de boa msica, o Hauptsturmfhrer Goeth fora preso, os irmos Rosner, msicos da corte, estavam livres para batalhar para entrar na lista. Dolek Horowitz, que no passado conseguira transferir sua mulher e filhos para a DEF, agora tambm persuadiu Goldberg a inclu-lo na lista juntamente com sua famlia.
Horowitz sempre tinha trabalhado no depsito central de mercadorias em Plaszvia e conseguira economizar uma pequena fortuna. Agora esse dinheiro passou para as mos de Mareei Goldberg.
Entre os includos na lista figuravam os irmos Bejski, Uri e Moshe, oficialmente com as profisses de montador de mquinas e projetista. Uri tinha alguns conhecimentos de fabricao de armas e Moshe um dom para forjar documentos. As especificaes da lista so to pouco
Pg.282
explcitas que no  possvel saber se foi por causa dessas aptides que eles tinham sido includos.
Josef Ba, o cerimonioso noivo, em dado momento seria includo, mas sem o saber. Convinha a Goldberg manter todo mundo em suspenso quanto  lista. Considerando a natureza de Ba,  possvel presumir que, se ele houvesse procurado pessoalmente Goldberg, s poderia ter sido com a condio de que sua me, sua mulher e ele prprio fossem todos includos. S tarde demais Ba iria descobrir que apenas o seu nome estava na lista para Brinnlitz.
Quanto a Stern, HerrDirektor o inclura desde o incio. Stern era o nico padre confessor que Oskar alguma vez tivera, e as suas sugestes exerciam grande influncia sobre ele. Desde o primeiro dia de outubro, nenhum prisioneiro judeu tivera permisso de sair de Plaszvia quer para marchar para a fbrica de cabos condutores ou para qualquer outra finalidade. Ao mesmo tempo, os encarregados das prises polonesas tinham comeado a destacar guardas para as casernas, a fim de impedir os prisioneiros judeus de negociar po com os poloneses.
O po ilegal atingiu tal preo que seria difcil pag-lo em moeda corrente. No passado, podia-se trocar um po por um casaco, 250 gramas por uma camisa limpa. Agora  como com Goldberg  era preciso ter diamantes.
No decorrer da primeira semana de outubro, Oskar e Bankier foram por algum motivo a Plaszvia e, como de costume, visitaram Stern no Escritrio de Construo. A mesa de trabalho de Stern ficava num corredor prximo ao antigo gabinete de Amon. L era possvel falar com mais liberdade. Stern contou aSchindler o que se estava passando com o preo inflacionado do po de centeio. Oskar voltou-se para Bankier e murmurou:
 Providencie para que Weichert receba 50 mil zlotys.
O Dr. Michael Weichert era diretor do antigo Auxlio Mtuo Comunal Judaico, agora rebatizado Escritrio Judaico de Compensao. Ele e seus auxiliares tinham permisso para operar por questes de aparncia e, em parte, porque Weichert mantinha conexes com gente de alta categoria na Cruz Vermelha Alem. Embora muitos judeus-poloneses nos campos o tratassem com compreensvel desconfiana, e embora essa desconfiana motivasse o seu julgamento depois da guerra  ele foi absolvido  Weichert era exatamente o homem capaz de providenciar rapidamente 50 mil zl de po e fazer com que a mercadoria entrasse em Plazvia.
Stern e Oskar prosseguiram em sua conversa. Os 50 mil zl eram um mero obiter dieta em relao aos assuntos que discutiam sobre a insegurana do momento e sobre Amon e como ele devia estar passando 
Pg.283
na sua cela em Breslau. Naquela mesma semana o po do mercado negro foi contrabandeado para o campo, escondido sob fardos de roupa, carvo e sucata. E naquele mesmo dia o preo voltou ao seu nvel normal.
Era um belo caso de conivncia entre Oskar e Stern, a que se seguiriam outras instncias.
Pg. 284
Captulo 32 
Pelo menos um dos prisioneiros da Emalia, dos riscados por Goldberg para dar lugar a outros  parentes, sionistas, especialistas e subornadores  iria culpar Oskar por sua excluso da lista.
Em 1963, a Sociedade Martin Buber receberia uma lamentvel carta de um nova-iorquino, ex-prisioneiro da Emalia. Segundo ele, na Emalia, Oskar tinha prometido libertao. Em troca, o pessoal do seu campo deixara-o rico com o seu trabalho. Contudo, alguns deles se viram excludos da lista. Esse homem via a sua prpria omisso como uma traio pessoal e  com toda a fria de algum que tivera de passar por tremendos sofrimentos para pagar pela mentira de outro homem  culpava Oskar por tudo o que acontecera depois: por Grss-Rosen, pelo abominvel penedo de Mauthausen de onde prisioneiros eram lanados e, finalmente, pela marcha para a morte, com a qual a guerra terminaria.
O curioso  que a carta, cheia de justa clera, mostra com exatido grfica que a vida na lista era uma questo exequvel, ao passo que a vida fora dela era uma tortura. Mas parece injusto condenar Oskar pela manipulao de nomes praticada por Goldberg. As autoridades do campo, no caos daqueles ltimos dias, assinariam qualquer lista que Goldberg lhes apresentasse, desde que no excedesse muito drasticamente o nmero de l. 100 prisioneiros. Oskar tinha obtido uma concesso; no podia ele prprio policiar Goldberg o tempo todo. Passava os dias argumentando com burocratas, as noites bajulando-os com jantares.
Tinha, por exemplo, de receber autorizaes de embarque para as suas mquinas Hilo e prensas de metal, que dependiam de velhos amigos do escritrio do GeneralSchindler, alguns dos quais atrasavam
Pg.285 
o andamento dos papis, enquanto investigavam problemas, que poderiam vir a prejudicar o salvamento dos 1.100 prisioneiros de Oskar.
Um desses homens da Inspetoria criara um problema, alegando que as mquinas de fabricao de armamentos de Oskar tinham-lhe chegado s mos por meio da seo de concesses da Inspetoria de Berlim, e sob aprovao da seo de licenas, especificamente para uso na Polnia. Nenhuma das duas sees fora notificada do projeto de mudana para Morvia. Ambas tinham de ser notificadas; podia se passar um ms at concederem a autorizao. Oskar no dispunha de um ms. Plaszvia estaria deserta at o final de outubro; todos os prisioneiros estariam j em Grss-Rosen ou Auschwitz. No final, o problema foi solucionado com os habituais presentes de suborno.
Alm dessas preocupaes, Oskar temia os investigadores da SS que tinham prendido Amon. Receava ser preso ou  o que dava na mesma  ser acirradamente interrogado sobre seus contatos com o excomandante. E demonstrou prudncia, antecipando o que ia acontecer, pois sabia que a explicao que Amon oferecera pelos 80 mil RM encontrados em seu apartamento, fora: "OskarSchindler me deu esse dinheiro para que eu fosse menos severo com os judeus. Portanto, tratou de se manter em contato com amigos seus na Rua Pomorska, os quais poderiam inform-lo sobre a direo que o Escritrio V estava adotando com referncia s investigaes sobre Amon.
Finalmente, como o seu campo em Brinnlitz estaria sob a superviso superior de KL Grss-Rosen, ele j entrara em contato com o Comandante de Grss-Rosen, Sturmbannfhrer Hassebroeck. Sob a gerncia de Hassebroeck, mil prisioneiros iriam morrer pelo sistema Grss-Rosen, mas quando Oskar conferenciou com ele pelo telefone e viajou para a Baixa Silsia a fim de visit-lo, a impresso que deixou era de no estar em absoluto preocupado com o comandante. Agora, ele j estava habituado a lidar com assassinos de classe e notou que Hassebroeck parecia at ser-lhe grato por ampliar o imprio Grss Rosen incluindo neste a Morvia. Pois Hassebroeck pensava realmente em termos de imprio. Controlava 103 subcampos. (Brinnlitz seria o nmero 104 e, com os seus mil prisioneiros e sua indstria sofisticada, representaria um acrscimo importante.) Dos campos de Hassebroeck, 78 ficavam localizados na Polnia, 16 na Tchecoslovquia, 10 no Reich. Era um conjunto bem maior do que Amon jamais consguira.
Com tantos subornos, bajulaes e, ainda, formulrios a preencher ocupando-o na semana em que o campo de Plaszvia era desmantelado, Oskar no poderia ter encontrado tempo para controlar Goldberg, mesmo que tivesse meios para faz-lo. De qualquer forma, a descrio que os prisioneiros fazem no campo em suas ltimas vinte e quatro.
Pg.286
horas  de agitao e caos, enquanto Goldberg  Senhor das Listas , no centro, esperava ofertas.
O Dr. Idek Schindel, por exemplo, procurou Goldberg para ser transferido para Brinnlitz, juntamente com seus dois irmos mais moos. Goldberg se recusou a dar uma resposta eSchindler s iria descobrir na noite de 15 de outubro, quando os prisioneiros de sexo masculino estavam sendo levados para os vages de gado, que ele e seus irmos no estavam na listaSchindler. Mesmo assim, eles se juntaram  fila dos que partiam. Houve, ento, uma cena semelhante a uma gravura admoestatria do Juzo Final: os pecadores tentando esgueirar-se na fila dos justos e sendo descobertos pelo anjo da Justia, naquele caso o Oberscharfhrer Mller, que se adiantou para o mdico e o fustigou na face esquerda e na direita, de novo esquerda e direita com o seu chicote de couro, enquanto lhe perguntava, com uma risadinha: "Por que quer entrar nesta fila?"
Schindel seria destacado para permanecer com o pequeno grupo encarregado de destruir Plaszvia e depois seguiria viagem com um vago cheio de mulheres doentes para Auschwitz. Seriam postos numa cabana em algum canto de Birkenau e ali deixados para morrer. Contudo, ignorados pelos funcionrios e excludos do regime habitual do campo, sobreviveriam. Schindel seria mandado para Flossenburg e ento  juntamente com seus irmos  ingressaria na marcha da morte. Com a sua vida por um fio, ele conseguiria sobreviver, mas seu irmo mais moo seria assassinado na marcha, no penltimo dia da guerra.
Esta  uma imagem da maneira como a listaSchindler, sem nenhuma malcia da parte de Oskar mas com muita malcia da parte de Goldberg, ainda atormentava sobreviventes, como os atormentou naqueles dias desesperados de outubro.
Todo mundo tem uma histria a contar sobre a lista. Henry Rosner entrou na fila para Brinnlitz, mas um NCO notou o seu violino e, sabendo que Amon iria querer msica, se fosse solto da priso, mandou Rosner de volta. Rosner ento escondeu seu violino sob o capote, firmando-o debaixo do brao. Depois tornou a entrar na fila e transps o porto rumo aos vages deSchindler. Rosner fora um dos prisioneiros a quem Oskar fizera promessas, e portanto sempre estivera na lista. O mesmo se dava com os Jereth: o velho Sr. Jereth da fbrica de embalagem e a Sra. Chaja Jereth, includa inexatamente na lista como uma Metallarbeiterin  metalrgica. Os Periman tambm estavam includos, como antigos trabalhadores da Emalia, assim como os Levartov. O fato era que, apesar de Goldberg, Oskar conseguiu incluir na lista a maioria das pessoas que queria, embora deva ter havido algumas surpresas entre elas. Um homem com tanta experincia da vida
Pg.287
como Oskar no poderia se surpreender muito de ver o prprio Gold berg entre os habitantes de Brinnlitz.
Mas havia alguns acrscimos mais bem-vindos do que Goldberg poldek Pfefferberg, por exemplo, que fora acidentalmente esquecido e depois rejeitado por Goldberg pelo fato de no possuir diamantes, fez saber que queria comprar vodca  a compra seria paga em roupas ou po. Quando adquiriu a garrafa, ele conseguiu permisso para ir lev-la  Rua Jerozolimska, onde Schindler estava de planto. Entregou a garrafa a Schindler e pediu-lhe que forasse Goldberg a incluir Mila e ele na lista.
 Sabe queSchindler  disse ele  teria nos inscrito se tivesse se lembrado.  Poldek no tinha dvida de que estava negociando sua prpria vida.
 Sei  concordou Schindler.  Vocs dois devem ser includos.
E um enigma para a mente humana que um homem como Schindler, num tal momento, no perguntasse a si mesmo: "Se este homem e sua mulher merecem ser salvos, por que no todos os outros?"
Quando chegou o momento, os Pfefferberg estavam na fila para Brinnlitz. E tambm, para sua grande surpresa, Helen Hirsch e sua irm mais nova, cuja sobrevivncia sempre fora a obsesso de Helen.
Os homens da lista Schindler embarcaram no trem num domingo, 15 de outubro. Ainda levaria toda uma semana at a partida das mulheres. Embora os 800 homens houvessem sido mantidos isolados durante o embarque e fossem para dentro de vages de carga reservados exclusivamente para o pessoal deSchindler, na composio havia tambm outros carros transportando 1.300 prisioneiros, todos com destino a Grss-Rosen. Ao que parece, alguns temiam ter de fazer uma parada em Grss-Rosen, a caminho do campo deSchindler, mas a maioria acreditava que a jornada seria direta. Estavam resignados a suportar a longa viagem para a Morvia  aceitavam a perspectiva de passar algum tempo dentro dos vages, em entrocamentos e desvios. Talvez tivessem de esperar horas a fio at que passasse o trfego com prioridade. A primeira neve cara na semana anterior; iria fazer frio. Cada prisioneiro recebera apenas 300 gramas de po para todo o percurso da viagem e em cada vago havia apenas um balde de gua. Quanto s funes fisiolgicas, teriam de usar um canto do vago, ou, se muito aglomerados, urinar e defecar em p onde se achavam. Mas, no final, apesar de todos os desconfortes e sofrimentos, eles chegariam ao estabelecimento deSchindler!  
Pg.288 
As 300 mulheres da lista entrariam nos vages no domingo seguinte, no mesmo estado de esprito esperanoso.
Alguns prisioneiros notaram que Goldberg no viajava com mais bagagem do que eles. Certamente possua contatos fora de Plaszvia a quem devia ter confiado os seus diamantes. Os que ainda esperavam influenci-lo em favor de um tio, um irmo, ou irm, deram-lhe espao suficiente para se sentar confortavelmente. Os outros agacharam-se , com os joelhos encostados no queixo. Dolek Horowitz segurava nos braos seu filho Richard, de seis anos. Henry Rosner fez um ninho de roupas no cho para Olek, de nove anos.
Foram trs dias. s vezes, em desvios da estrada de ferro, a respirao dos passageiros congelava nas paredes do vago. O ar era sempre escasso mas, quando se respirava com mais fora, era glido e ftido.
O trem finalmente parou, ao cair de uma friorenta tarde de outono. As portas foram destrancadas e esperou-se dos passageiros que desembarcassem com a rapidez de homens de negcios que tivessem compromissos marcados. Guardas SS corriam entre eles, gritando ordens e censurando-os por cheirarem mal. "Dispam tudo!", esbravejavam os NCO. "Tudo para a desinfeco!" Os prisioneiros empilharam as roupas e marcharam nus para dentro do campo. Por volta das seis da tarde, continuavam nus e perfilados na Appellplatz desse amargo destino. Havia neve nas cercanias; a superfcie do cho estava congelada.
No era um campo^Schindler. Era Grss-Rosen. Os que tinham pago a Goldberg fitaram-no com um dio assassino, ao passo que os SS de sobretudo caminfiavam ao longo das filas, chicoteando as ndegas dos que tremiam ostensivamente. 
Assim foram mantidos na Appellplatz a noite inteira, pois no havia cabanas disponveis. S a uma hora avanada da manh do dia seguinte os prisioneiros foram postos ao abrigo. Ao se referir quelas dezessete horas em que tinham estado expostos a um frio indizvel, que penetrava at o mago, os sobreviventes no mencionam morte alguma. Talvez a vida sob o jugo da SS, ou mesmo na Emalia, tenha-os deixado preparados para suportar uma noite como aquela. Embora mais amena do que nas noites anteriores, ainda assim a temperatura era mortfera. Naturalmente alguns deles estavam demasiado empolgados com a perspectiva de Brinnlitz para se deixarem abater pelo frio.
Mais tarde, Oskar veria os prisioneiros que haviam sobrevivido ao frio e ao enregelamento. Certamente, o idoso Sr. Garde, pai de Adam Garde, conseguiu sobreviver quela noite, assim como os pequenos Olek Rosner e Richard Horowitz.
Por volta das 11 horas da manha seguinte, eles foram conduzidos aos chuveiros. Poldek Pfefferberg, levado para l com os outros, olhou 
Pg.289
desconfiado para o chuveiro acima de sua cabea, sem saber se era gua ou gs que iria jorrar. Era gua! Mas antes de ser ligada, barbeiros ucranianos passaram entre eles, raspando-lhes a cabea, os pelos pbicos, as axilas. Os prisioneiros ficavam imveis, olhando fixo em frente, enquanto os ucranianos trabalhavam com navalhas sem gume. "Est muito cega", queixou-se um dos prisioneiros. "No!", replicou o ucraniano e desfechou um golpe na perna do prisioneiro para mostrar que a lmina no estava to cega assim.
Depois dos chuveiros, receberam uniformes listrados e foram para a caserna. Os SS mandaram que todos se sentassem em fileiras, como remadores de galeras, um homem de costas entre as pernas de outro atrs dele e, por sua vez, estreitando com as pernas o companheiro sentado na sua frente. Mediante esse processo, dois mil homens couberam em trs cabanas. Kapos alemes, armados de porretes, se instalaram em cadeiras contra a parede e ficaram de vigia. Os homens estavam de tal forma comprimidos  cada centmetro do espao do cho ocupado - que levantar-se dali e ir  latrina, mesmo quando os Kapos o permitiam, significava caminhar por sobre cabeas e ombros, ouvindo protestos.
No centro de uma cabana havia uma cozinha onde estavam sendo preparados sopa de nabos e po assado. Poldek Pfefferberg, voltando da latrina, encontrou a cozinha sob a superviso de um NCO do Exrcito polons, que ele conhecera no comeo da guerra. O NCO deu a Poldek um pouco de po e permitiu que ele dormisse junto ao fogo da cozinha. Os outros, porm, passavam as noites comprimidos naquela corrente humana.
Todos os dias deviam se perfilar na Appellplatz e ficar ali em silncio durante dez horas.  noite, porm, depois de ser distribuda a sopa rala, eles tinham permisso para caminhar em redor da cabana e falar uns com os outros. Mas, s nove horas, soava um apito; era o sinal para retornarem s suas estranhas posies em cadeia.
No segundo dia, apareceu um oficial SS na Appellplatz procurando o escriturrio que compusera a listaSchindler. Ao que parecia, a lista no tinha chegado de Plaszvia. Tremendo em seu uniforme de pano ordinrio, Goldberg foi conduzido a um escritrio, onde lhe disseram que datilografasse de memria a lista. No final do dia ele ainda no tinha terminado o trabalho e, de volta s casernas, foi cercado de pedidos finais de incluso. Ali, na amarga obscuridade, a esperana da lista continuava incitando e atormentando, embora at aquele momento o nico resultado com que agraciara os nela inscritos fora trazlos a Grss-Rosen. Cercando Goldberg, Pemper e outros, comearam a pression-lo para na manh seguinte colocar no papel o nome do Dr. Alexander Biberstein. Alexander era irmo de Marek Biberstein, que
Pg.290 
fora aquele primeiro, otimista presidente da Judenrat de Cracvia. No incio da semana Goldberg confundira Biberstein, dizendo-lhe que ele estava na lista. S depois de j ter sido embarcado, o mdico descobriu que no estava includo no grupoSchindler. Mesmo num lugar como Grss-Rosen, Mietek Pemper tinha bastante confiana no futuro para ameaar Goldberg de represlias depois da guerra, se o nome de Biberstein no fosse acrescentado.
Ento, no terceiro dia, os 800 homens da lista deSchindler, agora revisada, foram apartados, levados  estao de despiolhamento para mais um banho, tiveram permisso para se sentar por algumas horas, e logo se puseram a especular e a conversar como aldees em frente de suas cabanas. Depois, mais uma vez marcharam para o desvio da estrada de ferro. Com uma pequena rao de po, entraram nos vages de gado. Nenhum dos guardas encarregados de embarc-los admitiu saber para onde eles iriam. Todos se agacharam no cho conforme as ordens. Procuravam manter gravado em suas mentes o mapa da Europa Central e continuamente calculavam a passagem do sol, especulando sua direo por lampejos de claridade atravs de pequenos ventiladores de tela de arame, no alto, quase no teto dos vages. Olek Rosner foi erguido at o ventilador do seu vago e disse que podia ver florestas e montanhas. Os entendidos afirmavam que o trem estava viajando na direo sudeste. Tudo indicava um destino tcheco mas ningum ousava dizer o que estava pensando.
Essa jornada de cerca de 150 quilmetros levou quase dois dias; quando as portas se abriram, na madrugada do segundo dia, eles estavam na estao de Zwittau. Desembarcaram e foram levados atravs da cidade ainda adormecida, uma cidade que paralisara em fins da dcada de 1930. At as frases escritas nos muros  MANTENHAM OS JUDEUS FORA DE BRINNLITZ  soavam estranhamente para eles, como slogans de antes da guerra. Naqueles ltimos tempos, tinham vivido num mundo em que at a prpria respirao lhes era regateada.
Parecia quase uma agradvel ingenuidade da populao de Zwittau querer recusar-lhes um mero local. Uns cinco ou seis quilmetros entre colinas, seguindo o desvio da estrada de ferro, chegaram ao pequeno povoado industrial de Brinnlitz, e na tnue claridade da manh viram na sua frente a slida estrutura do anexo Hoffman transformado no Arbeitslager (Campo de Trabalho) Brinnlitz, com torres de vigia, cercado por arame farpado, um quartel da guarda dentro do recinto e, mais adiante, o porto da fbrica e os dormitrios do campo.
Quando a fila de prisioneiros transps o porto, Oskar apareceu no ptio da fbrica usando um chapu tirols.
 Pg.291
Captulo 33  
Esse campo, como a Emalia, havia sido equipado a expensas de Oskar. De acordo com a regra burocrtica, todos os campos de fbricas eram construdos  custa do dono. Considerava-se que qualquer industrial recebia incentivos suficientes relativos  mo-de-obra barata para justificar um pequeno gasto de arame e madeira. Na realidade os industriais bem-amados da Alemanha, tais como Krupp e Farben, construam seus campos com material doado pela SS, assim como uma grande abundncia de mo-de-obra. Oskar no estava entre os bem-amados e nada recebia. Tinha conseguido arrancar de Bosch uns poucos vages de cimento, pelo que Bosch teria considerado um desconto no preo do mercado negro. Da mesma fonte conseguiu duas a trs toneladas de gasolina e leo combustvel para uso na produo e remessa de mercadorias. Da Emalia ele tinha trazido uma parte do arame farpado. Mas em redor do anexo Hoffman, totalmente desnudo, ele tinha de instalar cercas de alta tenso, latrinas, um quartel para os cem guardas da SS, escritrios, um ambulatrio e cozinhas. Para aumentar a despesa, o Sturmbannfhrer Hassebroeck j viera de Grss Rosen para uma inspeo; partira com um fornecimento de conhaque e louas e o que Oskar descrevia como "ch aos quilos!" Hassebroeck tinha tambm recebido honorrios de inspeo e contribuies para o compulsrio Auxlio de Inverno arrecadadas pela Seo D, sem dar de volta nenhum recibo. 0 carro dele tinha uma capacidade considervel para esse tipo de coisas", declararia Oskar mais tarde. Em outubro de 1944, ele no tinha a menor dvida de que Hassebroeck j estava adulterando os livros de contabilidade de Brinnlitz.
Inspetores enviados diretamente de Oranienburg tinham tambm de ser agradados. Quanto s mercadorias e equipamento da DEF,  
Pg.292 
grande parte achava-se ainda em trnsito e iria necessitar de 250 vages de carga para o transporte total. Era espantoso, dizia Oskar, como, no descalabro em que se achava o Estado, funcionrios da Ostbahn podiam, se devidamente encorajados, desencavar tal nmero de vages.
O aspecto estranho da situao, do prprio Oskar, muito lampeiro, com o seu chapu tirols, ao emergir no frio ptio, era que, ao contrrio de Krupp e Farben e todos os outros empresrios que mantinham escravos judeus, ele no tinha a menor inteno de lucro. No tinha plano algum de produo; no existiam em sua cabea diagramas de vendas. Embora quatro anos antes, ele houvesse chegado a Cracvia com a firme inteno de ficar rico, agora no alimentava mais nenhuma ambio.
Ali, em Brinnlitz, a situao industrial era extremamente precria. Muitos dos perfuradores, prensas e tornos no haviam ainda chegado e os novos pisos de cimento teriam de ser preparados para suportar o peso das mquinas. O anexo estava ainda cheio de maquinaria velha de Hoffman. Alm disso, por aqueles 800 supostos operrios de munio, que tinham acabado de transpor o porto do anexo, Oskar estava pagando 7.50 RM por dia de mo-de-obra especializada, 6 RM por operrios comuns. Isso somava quase US$14.000 por semana para o trabalho masculino; quando as mulheres chegassem, a quantia ultrapassaria US$18.000. Portanto, Oskar estava cometendo um estrondoso erro comercial mas comemorava o seu erro exibindo um chapu tirols.
As ligaes sentimentais de Oskar tambm tinham sofrido alteraes. A Sra. EmilieSchindler viera para Zwittau morar com ele em seu apartamento trreo. Brinnlitz, ao contrrio de Cracvia, ficava muito perto de sua cidade para permitir a Emilie uma desculpa para sua separao do marido. Para uma catlica, a questo agora era formalizar a separao ou recomear a viver com Oskar. Parece ter havido,no mnimo, uma tolerncia entre os dois, um grande respeito mtuo.
 primeira vista, ela poderia parecer um zero matrimonial, uma esposa injustiada que no sabia como resolver o seu dilema. A princpio alguns prisioneiros se preocuparam com o que ela pensaria, quando descobrisse que espcie de fbrica e que espcie de campo Oskar dirigia. No sabiam ainda que Emilie daria a sua discreta contribuio,baseada no em obedincia conjugal mas nas suas prprias idias.
Ingrid viera com Oskar para Brinnlitz a fim de trabalhar na nova fbrica mas estava residindo fora do campo e s permanecia ali no horrio de trabalho. Havia um positivo esfriamento naquela ligao e ela nunca mais tornaria a viver com Oskar. Mas no daria mostra alguma de animosidade e no decorrer dos meses seguintes Oskar iria freqentemente  
Pg.293 
visit-la em seu apartamento. A picante Klonowska, a chique patriota polonesa, ficara para trs em Cracvia; tambm naquele caso no parecia ter havido amarguras. Oskar continuaria em contato com ela durante as visitas a Cracvia e ela tornaria a ajud-lo sempre que a SS causasse problemas. A verdade era que, embora suas ligaes com Klonowska e Ingrid estivessem esfriando com muita cordialidade, seria um erro acreditar que ele estivesse se tornando um marido fiel. 
No dia da chegada, Oskar disse aos homens que eles podiam confiar na vinda de suas mulheres. Acreditava que elas chegariam com um pouco mais de atraso do que eles. A jornada das mulheres, contudo, seria diferente. Aps uma curta viagem, partindo de Plaszvia, a locomotiva levou-as, juntamente com centenas de outras prisioneiras, para dentro do campo de Auschwitz-Birkenau. Quando se abriram as portas dos vages, elas se viram numa imensa interseo dividindo o campo. Experientes homens e mulheres da SS, falando com calma, comearam a classific-las. A seleo das mulheres prosseguiu com aterradora indiferena. Quando uma no se movia com suficiente rapidez, era espancada com um porrete; o golpe, porm, no tinha nada de pessoal. Era uma classificao. Para as sees SS do desvio de Birkenau, tratava-se apenas de um tedioso dever. Conheciam todos os apelos, todas as histrias. Conheciam cada subterfgio de que algum quisesse lanar mo.
Sob os holofotes, as mulheres, aturdidas, perguntavam umas s outras o que aquilo significava. Mas mesmo em seu espanto, com os sapatos j se enchendo de lama, que era o elemento maior de Birkenau, elas tinham conscincia de mulheres SS apontando para elas e dizendo a mdicos uniformizados que mostrassem algum interesse,"Schindlergrupper!'' E os bem-trajados jovens mdicos se afastavam, deixando-as em paz por algum tempo.
Depois do banho. Algumas delas esperavam ser tatuadas. Sabiam dessa prtica em Auschwitz. A SS tatuava o brao das pessoas que pretendia usar. Mas se tencionava liquid-las, no se dava a esse trabalho. O mesmo trem que trouxera as mulheres da lista, transportara tambm mais cerca de duas mil que, no sendo Schindlerfrauen, passavam pelas selees normais. Rebecca Bau, excluda da lista Schindler, tinha passado e recebido um nmero; a robusta me de Josef Bau tambm ganhara uma tatuagem naquela grotesca loteria de Birkenau.Uma menina de quinze anos, vinda de Plaszvia, tinha olhado para a sua tatuagem e ficara encantada porque tinha dois cincos, um trs e dois setes  nmeros venerados no Tashizg, ou calendrio judaico.Com uma tatuagem, podia-se sair de Birkenau e ir para um dos campos 
Pg.294 
de trabalho de Auschwitz, onde pelo menos havia chance de sobrevivncia.
Mas as mulheres Schindler, sem tatuagem, receberam ordem de tornar a vestir-se e foram levadas para uma cabana sem janelas no campo feminino. Ali, no centro do piso, havia um fogo de ferro encaixado em tijolos. Era o nico conforto. No havia sequer um catre. As Schindlerfrauen teriam de dormir de duas ou de trs numa fina enxerga de palha. O cho de argila era mido, a gua brotava dele e encharcava as enxergas e cobertores esfarrapados. Era como a casa da morte,no corao de Birkenau. Elas se deitaram ali e cochilaram, geladas e desconfortveis, naquela extenso de lama.
Era frustrante para quem tinha imaginado um local acolhedor, uma aldeia na Morvia. Era uma cidade enorme mas percebia-se que sua existncia era efmera. Em determinado dia, mais de 250 mil poloneses, ciganos e judeus ali residiam por um curto espao de tempo. Havia milhares mais em Auschwitz I, o primeiro e menor campo, onde morava o Comandante Rudolf Hss. E na grande rea industrial chamada Auschwitz III, mais alguns milhares trabalhavam enquanto tinham foras. As mulheres Schindler no haviam sido precisamente informadas das estatsticas de Birkenau ou do prprio ducado de Auschwitz. Contudo, podiam ver, por detrs das btulas a oeste do enorme conjunto, uma constante fumaa erguendo-se de quatro fornos crematrios e numerosas piras. Acreditavam que agora estavam  deriva e que seriam arrastadas para l. Mas, nem com toda a capacidade de imaginar e de transmitir boatos, que caracteriza a vida numa priso, elas poderiam calcular quantas pessoas seriam ali envenenadas com gases, em um dia, quando o sistema estivesse em pleno funcionamento.O nmero era  de acordo com Hss  nove mil. 
As mulheres ignoravam igualmente que tinham chegado a Auschwitz numa ocasio em que o desenvolvimento da guerra e certas negociaes secretas entre Himmler e o conde sueco Folke Bernadotte estavam impondo uma nova direo ao seu prosseguimento. O segredo dos centros de extermnio no pudera ser guardado, pois os russos tinham escavado o campo de Lublin e encontrado as fornalhas contendo ossos humanos e mais de quinhentos tambores de gs venenoso. Essas descobertas haviam sido publicadas pela imprensa do mundo inteiro,e Himmler, que queria ser tratado com seriedade, como o bvio sucessor do Fhrer depois da guerra, estava disposto a fazer promessas aos Aliados de que ia cessar o uso de gases venenosos contra os judeus.Mas essa ordem s foi emitida por ele em meados de outubro  no h certeza da data. Uma cpia foi para o General Pohl em Oranienburg; 
Pg.295 
a outra para Kaltenbrunner, Chefe de Segurana do Reich. Ambos ignoraram a diretriz, assim como Adolf Eichmann. Judeus de Plaszvia, Theresienstadt e Itlia continuaram a ser liquidados com gases at meados de novembro. Contudo, supe-se que a ltima seleo para as cmaras de gs foi feita em 30 de outubro.
Nos primeiros oito dias de sua estada em Auschwitz, as mulheres Schindler estiveram em perigo iminente de morrer nas cmaras de gs.E mesmo depois disso, enquanto as ltimas vtimas das cmaras, em todo o decorrer de novembro, continuavam a ser encaminhadas para a extremidade oeste de Birkenau, suprindo material para os fornos crematrios e piras, as mulheres Schindler no notaram mudana alguma no aspecto essencial do campo. De qualquer modo, todas as suas ansiedades tinham muita razo de ser, pois a maioria das pessoas que ainda restavam, depois de serem desativadas as cmaras de gs, seriam fuziladas  como aconteceu com todos os que trabalhavam nos crematrios  ou morreriam de doenas.
Em todo caso, as mulheres Schindler passaram por frequentes inspees mdicas gerais, tanto em outubro quanto em novembro. Algumas delas haviam sido apartadas nos primeiros dias e colocadas em cabanas reservadas para doentes fatais. Os mdicos de Auschwitz Josef Mengele, Fritz Klein, Konig e Thilo  no somente trabalhavam na plataforma de Birkenau mas tambm percorriam o campo, comparecendo a chamadas, invadindo os chuveiros, perguntando com um sorriso: "Qual  a sua idade, titia?" A Sra. Clara Sternberg viu-se destacada para uma cabana de mulheres idosas. A Sra. Lola Krumholz, de sessenta anos, tambm foi cortada do Schindlergruppe e levada para o local reservado aos idosos, onde a inteno era deix-los simplesmente morrer, a fim de no acarretar mais despesas  administrao.A Sra. Horowitz, supondo que a sua frgil filha de onze anos, Niusia,no poderia sobreviver a uma inspeo nos chuveiros, escondeu-a numa caldeira de sauna vazia. Uma das funcionrias SS que tinha sido destacada para vigiar as mulheres Schindler  uma bonita loura viu-a esconder a menina mas no a denunciou. Era uma jovem ambiciosa e de gnio violento, e depois pediria  Sra. Horowitz que lhe desse em troca um broche que Regina tinha conseguido conservar at ento.Filosoficamente, Regina entregou o broche. E havia uma outra SS, extremamente gentil, que lhe fez propostas lsbicas e talvez tenha exigido um suborno mais pessoal.
s vezes, na hora da chamada, um ou mais mdicos surgiam diante das cabanas.  perspectiva daquela visita, as mulheres esfregavam argila nas faces para lhes dar certo rubor. Numa dessas inspes, Regina descobriu pedras para sua filha, Niusia, pisar em cima, e o jovem 
Pg.296
Mengele de cabelos prateados adiantou-se para ela e perguntou-lhe com voz macia a idade da filha; depois a esmurrou por ter mentido. Mulheres que caam, quando golpeadas nessas inspees, eram arrastadas por guardas, ainda meio inconscientes, at a cerca eletrifcada que circundava o campo e atiradas contra os arames. J tinham arrastado Regina at o meio do caminho, quando ela se recuperou e implorou-lhes que no a fizessem morrer eletrifcada, que a deixassem voltar para a sua fileira. Os carrascos a soltaram e, quando ela se esgueirou de volta para o seu lugar, l estava a sua frgil filha, muda e imobilizada em cima das pedras.
Essas inspees podiam ocorrer a qualquer hora. As mulheres Schindler foram chamadas uma noite e ficaram de p na lama, enquanto suas cabanas eram revistadas. A Sra. Dresner, que certa vez havia sido salva por um jovem OD, saiu da cabana com Danka, sua alta filha adolescente, e ali ficaram naquele estranho lamaal de Auschwitz que, como a lendria lama de Flandres, no congelava, quando tudo mais j congelara  as estradas, os telhados, o viajante.
Tanto Danka quanto a Sra. Dresner tinham sado de Plaszvia com as suas roupas de vero, que eram as nicas que lhes restavam.Danka usava uma blusa, um casaquinho leve, uma saia marrom. Como comeara a nevar naquela tarde, a Sra. Dresner tinha sugerido a Danka que rasgasse um pedao do seu cobertor e o usasse enrolado debaixo da saia. Mas, durante a inspeo da cabana, o SS descobriu o cobertor rasgado.
O oficial, que se achava diante das mulheres Schindler, chamou a Alteste do grupo  uma holandesa que at a vspera nenhuma delas conhecia  e disse que ela seria fuzilada juntamente com qualquer outra prisioneira que estivesse usando um pedao de cobertor sob a roupa.A Sra. Dresner sussurrou a Danka que se desvencilhasse do pedao de cobertor e que ela o levaria de volta para a cabana. Era uma idia vivel. A choupana ficava ao nvel do cho. Uma mulher da fila de trs podia esgueirar-se pela porta adentro. Como em outra ocasio, Danka obedecera sua me na questo do esconderijo na parede na Rua Dabrowski, em Cracvia, obedeceu agora, puxando de sob a saia a tira do cobertor mais ordinrio de toda a Europa. De fato, enquanto a Sra. Dresner estava na cabana, o oficial da SS passou pela fila e escolheu a esmo uma mulher da idade da Sra. Dresner  provavelmente a Sra. Stemberg  e mandou que a levassem para algum lugar pior do campo, um lugar onde no mais era possvel cogitar da Morvia.
Talvez as outras mulheres enfileiradas no quisessem compreender o que significava aquele simples ato de eliminao. Na verdade, era uma prova de que nenhum grupo especial das chamadas "prisioneiras 
Pg.297
industriais" estava a salvo em Auschwitz. Nenhuma identificao das Schindlerfrauen as manteria imunes por muito tempo. J houvera outros grupos de "prisioneiros industriais" que tinham desaparecido em Auschwitz. A Seo W do General Pohl tinha mandado de Berlim, no ano anterior, trens carregados de operrios judeus qualificados. I. G. Farben, precisando de mo-de-obra, fora informado pela Seo W que podia selecionar o seu pessoal naqueles transportes. E, efetivamente, a Seo W sugerira ao Comandante Hss que descarregasse os trens na fbrica de I. G. Farben, a certa distncia dos crematrios em Auschwitz-Birkenau. Dos 1.750 prisioneiros, todos homens, do primeiro trem, mil foram imediatamente eliminados nas cmaras de gs. Dos quatro mil nos prximos quatro transportes de trens, 2.500 foram imediatamente para as "casas de banho". Se a administrao de Auschwitz no se detinha para I. G. Farben e o Departamento W, no iria ter escrpulos com relao s mulheres de um obscuro fabricante de panelas.
Morar em cabanas, como as das mulheres Schindler, equivalia a viver ao ar livre. As janelas no tinham vidraas e serviam apenas para amparar um pouco as golfadas de ar frio sopradas da Rssia. A maioria das mulheres sofria de disenteria. Estropiadas por clicas, elas se arrastavam na lama, em seus tamancos, para o tambor de ao que lhes servia de latrina. A mulher que cuidava da limpeza do tambor recebia pelo seu servio um prato de sopa extra. Mila Pfefferberg, tomada por uma crise de disenteria, saiu uma noite cambaleando da sua cabana.
A mulher de planto  que no era m pessoa e que Mila conhecera em menina  insistiu que ela no podia usar o tambor, teria de esperar pela prxima prisioneira que viesse utiliz-lo e ento Mila ajudaria a outra a esvazi-lo. Mila argumentou mas no conseguiu demover a mulher. Sob as frias estrelas, aquele servio do tambor se tornara uma espcie de profisso; havia regulamentos. Com o tambor como pretexto, a mulher de planto passara a acreditar que ordem, higiene e sanidade eram possveis.
A mulher seguinte chegou arquejante, curvada e desesperada. Era muito jovem. Nos pacficos dias de Lodz, Mila a tinha conhecido como uma respeitvel senhora casada. Assim as duas obedeceram e arrastaram o tambor uns 300 metros pela lama. A moa que ajudava Mila na penosa tarefa perguntou: "Onde est Schindler agora?"
Nem todas as mulheres Schindler faziam essa pergunta ou a faziam naquele tom ferozmente irnico. Havia uma operria da Emalia,chamada Lusia, uma viva de vinte e dois anos, que estava sempre repetindo: "Vocs vo ver, vai tudo dar certo. Um dia ainda vamos sentir o calor da sopa de Schindler em nosso estmago." Ela prpria no 
Pg.298
sabia por que continuava repetindo essas afirmaes. Na Emalia, nunca fora inclinada a fazer planos. Trabalhava no seu turno, tomava sua sopa e dormia. Jamais predissera eventos grandiosos. Sempre se contentara com a sobrevivncia do momento. Agora estava doente e no havia explicao para as suas profecias. O frio e a fome a estavam desgastando; no entanto, surpreendia-se a si mesma por repetir as promessas de Oskar.
Mais tarde, durante sua permanncia em Auschwitz, elas foram removidas para uma caserna mais prxima dos crematrios e no podiam saber se iriam para os chuveiros ou para as cmaras de gs. Entretanto, Lusia continuou repetindo a sua mensagem de esperana.Ainda assim, os azares do campo tendo-as impelido para aquele limite geogrfico do mundo, aquele plo, aquele fosso, o desespero no se fazia sentir muito entre as Schindlerfrauen. Ainda se podiam ver mulheres entretidas com conversas de receitas de cozinha de antes da guerra. Quando os homens chegaram a Brinnlitz, o abrigo era apenas um arcabouo. Nos dormitrios, ainda sem leitos, tinha sido espalhada palha no cho. Mas o ambiente era aquecido pelo vapor das caldeiras.Naquele primeiro dia, tampouco havia cozinheiros. Sacos de nabos se empilhavam no que seria a cozinha e os homens os devoraram crus.Mais tarde foi feita uma sopa e assado o po e o engenheiro Finder comeou a determinar os encargos de cada um. Mas desde o incio,a no ser que houvesse algum SS vigiando, o trabalho era vagaroso. misterioso como um grupo de prisioneiros podia perceber que o Herr Direktor no mais tomava parte em nenhum esforo de guerra. O ritmo de trabalho em Brinnlitz era astucioso. Como Oskar no parecesse interessado na questo de produo, a lentido passou a ser a vingana dos prisioneiros, o seu protesto.
Era uma coisa maravilhosa aquele atraso do trabalho. Por toda parte na Europa, os escravos trabalhavam at o limite de suas 600 calorias por dia, na esperana de conquistar as boas graas de algum chefe de turma e atrasar a transferncia para o campo da morte. Mas ali, em Brinnlitz, havia a intoxicante liberdade de usar a p em ritmo lento e ainda assim sobreviver.
Essa inconsciente poltica de atuao no se evidenciou nos primeiros dias. Havia ainda muitos prisioneiros ansiosos por suas mulheres. Dolek Horowitz tinha a mulher e a filha em Auschwitz; os irmos Rosner as suas mulheres. Pfefferberg sabia o impacto que algo de to vasto e terrvel, como Auschwitz, causaria em Mila. Jacob Sternberg e seu filho adolescente preocupavam-se com a Sra. Clara Sternberg. Pfefferberg recorda-se de homens agrupando-se em redor deSchindler, na oficina da fbrica, perguntando-lhe onde estavam suas respectivas mulheres.
 Pg.299 
 Vou traz-Ias para c  retorquia Schindler mas no entrava em explicaes. No dizia abertamente que a SS em Auschwitz talvez precisasse ser subornada. No contava que tinha enviado a lista com os nomes das mulheres ao Coronel Erich Lange ou que ele e Lange pretendiam ambos traz-las para Brinnlitz de acordo com a lista. Nada disso. Simplesmente: "Vou traz-las para c."
A guarnio da SS, que se instalou em Brinnlitz naqueles dias, deu a Oskar motivo para alguma esperana. Eram reservistas de meia-idade,convocados para permitir que os SS mais jovens pudessem seguir para a linha de frente. No havia tantos lunticos como em Plaszvia e Oskar sempre os mantinha amenizados com as especialidades de sua cozinha  comida simples porm abundante. Numa visita ao quartel dos reservistas, ele fez o seu habitual discurso sobre as capacidades especializadas dos seus prisioneiros, a importncia das suas manufaturas.Disse que granadas antitanques e invlucros para um projtil ainda estavam na lista secreta. Pediu que a guarnio evitasse penetrar nas oficinas da fbrica, pois isso iria perturbar a atividade dos trabalhadores.
Oskar podia ler nos olhos daqueles homens o pensamento de que aquela cidade tranquila lhes convinha. Imaginavam a si mesmos esperando ali que terminasse o cataclisma. No queriam se intrometer nas oficinas, como um Goeth ou um Hujar. No queriam que HerrDirektor desse queixa deles.
Todavia, o oficial de comando da guarnio ainda no chegara.Estava vindo do seu posto anterior no campo de trabalho em Budzyn,que, at os recentes avanos russos, tinha fabricado peas de avies de bombardeio. Oskar sabia que ele devia ser mais jovem, mais atento, mais intrometido. O provvel era que no aceitasse muito facilmente que lhe fosse negado o acesso ao campo.
Enquanto supervisionava as obras do preparo de pisos de cimento, da abertura de rombos no teto para se encaixarem as grandes mquinas Hilos, ocupado com as providncias para abrandar os NCOs e lutando contra o constrangimento ntimo de se readaptar  vida matrimonial com Emilie, Oskar foi preso uma terceira vez.
A Gestapo apareceu na hora do almoo. Oskar no estava em seu gabinete, pois seguira de carro naquela manh para Brno, a fim de tratar de um negcio. Um caminho vindo de Cracvia acabara de chegar ao campo carregado de algumas riquezas portteis de Herr Direktor  cigarros, caixas de vodca, conhaque, champanha. Certas pessoas diriam mais tarde que o carregamento era de propriedade de Goeth, que Oskar concordara em guardar na Morvia em troca do apoio de 
Pg.300 
Goeth aos seus planos em Brinnlitz. Como fazia um ms que Goeth estava preso e sem autoridade, os artigos de luxo no caminho podiam ser considerados de propriedade de Oskar.
Era o que pensavam os homens que estavam descarregando o caminho e que ficaram nervosos  vista dos membros da Gestapo no ptio da fbrica. Gozavam de privilgios de mecnicos e assim lhes foi permitido guiar o caminho at um riacho no sop de uma colina, onde jogaram nas guas as caixas de bebida. Os duzentos mil cigarros foram escondidos sob um grande transformador na usina de fora.
Era significativo que houvesse tanto cigarro e tanta bebida no caminho, sinal de que Oskar, sempre dado a negociar mercadorias, tencionava agora dedicar suas atividades financeiras ao mercado negro.
O caminho estava sendo levado de volta  garagem, quando soou a sirene para a sopa do meio-dia. Em dias anteriores o HerrDirektor tinha comido com os prisioneiros; os mecnicos esperavam que ele o fizesse de novo nesse dia, pois assim poderiam explicar-lhe o que acontecera com o precioso carregamento do caminho.
Efetivamente, Oskar voltou de Brno pouco depois mas foi detido no porto por um dos homens da Gestapo, postado ali com a mo erguida e que lhe ordenou que saltasse imediatamente do carro.
 Esta  minha fbrica  um prisioneiro ouviu Oskar responder, irritado.  Se quer falar comigo, pode entrar no meu carro. Ou ento, siga-me at o meu gabinete.
Ele entrou guiando no ptio, com os dois homens da Gestapo caminhando rapidamente de cada lado do veculo.
Em seu gabinete, os homens perguntaram a Oskar sobre suas conexes com Goeth, com as pilhagens de Goeth. Ele respondeu que tinha ali umas tantas malas pertencentes a Goeth e que as estava guardando, a seu pedido.
Os homens do Escritrio V pediram para ver as malas; Oskar levou-os ao seu apartamento, onde os apresentou formal e friamente a Frau Schindler. Depois foi buscar as malas e abriu-as. Estavam cheias de roupas civis e velhas fardas do tempo em que Amon era um esbelto NCO SS. Depois de revistar as malas, os homens deram voz de priso a Oskar.
Emilie, ento, tornou-se agressiva. Eles no tinham o direito, disse ela, de levar o seu marido, a no ser que explicassem por que o estavam prendendo. As autoridades em Berlim no iam ficar satisfeitas com aquilo, acrescentou.
Oskar aconselhou-a a calar-se e disse-lhe apenas que telefonasse  amiga dele, Klonowska, e lhe pedisse para cancelar os seus compromissos marcados. 
Pg.301 
Emilie sabia o que o recado significava. Klonowska repetiria a sua atuao telefnica, ligando para Martin Plathe em Breslau, para o pessoal do General Schindler, todos eles gente importante. Um dos homens do Escritrio V colocou algemas nos pulsos de Oskar. Depois ele foi conduzido de carro para a estao de Zwittau e escoltado no trem at Cracvia.
A impresso que se tem  que essa priso o assustou mais do que as duas anteriores. No h histrias de coronis da SS apaixonados,que tivessem partilhado uma cela com ele e bebido a sua vodca. Contudo, mais tarde, Oskar recordou-se de alguns detalhes. Ao ser escoltado pelos homens do Escritrio V pela grande loggia neoclssica da estao central de Cracvia, um homem chamado Huth aproximou-se do grupo. Era um engenheiro civil de Plaszvia, que sempre se mostrara obsequioso para com Oskar, mas tinha a reputao de ter praticado muitos atos secretos de bondade. Talvez tenha sido um encontro acidental mas d a impresso de que Huth podia estar trabalhando em combinao com Klonowska. Huth insistiu em apertar a mo alegemada de Oskar. Um dos homens do Escritrio V protestou.
 Acha que deve realmente apertar a mo de prisioneiros?  perguntou ele a Huth.
Imediatamente o engenheiro fez um discurso em favor de Oskar. Esse era o Herr Direktor Schindler, um homem muito respeitado em toda Cracvia, um importante industrial.
 Nunca vou poder pensar nele como um prisioneiro  acrescentou Huth.
Qualquer que fosse o significado desse encontro, Oskar foi colocado num carro e levado atravs da sua to conhecida cidade at a Rua Pomorska. Deixaram-no num quarto como o que ocupara durante sua primeira priso, com uma cama, uma cadeira e uma pia, mas com grades na janela. Oskar estava preocupado, embora demonstrasse uma tranquilidade de urso. Em 1942, quando lhe tinham dado voz de priso um dia depois de ele ter completado trinta e quatro anos, os rumores de que havia cmara de tortura nos pores da Rua Pomorska eram indefinidos e aterradores. Agora no eram mais indefinidos. Sabia que o Escritrio V o torturaria, se estivesse realmente decidido a incriminar Amon.
Nessa noite Herr Huth veio visit-lo, trazendo numa bandeja um jantar e uma garrafa de vinho. Huth tinha falado com Klonowska. O prprio Oskar nunca esclareceu se Klonowska arranjara de antemo aquele "encontro casual". De qualquer modo, Huth disse-lhe que Klonowska estava apelando para os seus velhos amigos.
No dia seguinte, ele foi interrogado por um grupo de doze investigadores,     	 	  Pg.302  
um deles, juiz do Tribunal da SS. Oskar negou que tivesse dado dinheiro para que o comandante, nas palavras da transcrio do testemunho de Amon, "tivesse condescendncia com os judeus".
 Eu posso ter-lhe dado dinheiro como emprstimo  admitiu Oskar.
 Por que um emprstimo?  quiseram saber os investigadores.
 Dirijo uma indstria de guerra essencial  replicou Oskar, repetindo o seu velho refro.  Tenho uma turma da mo-de-obra especializada. Se meus trabalhadores so perturbados,  prejudicial para mim, para a Inspetoria de Armamentos, para o esforo de guerra.Quando eu descobria que no meio dos prisioneiros em Plaszvia havia um metalrgico competente para um trabalho especializado, ento naturalmente pedia-o ao comandante. Eu tinha pressa e no queria me sujeitar a burocracias. O meu interesse era a produo e o que significava para mim e para a Inspetoria de Armamentos. Em considerao  ajuda prestada pelo Herr Commandant nessas questes,  possvel que eu lhe tenha feito um emprstimo.
Essa defesa envolvia certa deslealdade para com Amon, seu antigo anfitrio. Mas Oskar no teria hesitado. Com os olhos brilhando de transparente franqueza, tom baixo, a nfase discreta  sem dizer palavras precisas  deu a entender aos investigadores que o dinheiro lhe fora extorquido. Mas isso no os impressionou, e eles tornaram a trancafi-lo na cela.
O interrogatrio prosseguiu em um segundo, terceiro e quarto dias.Ningum o ameaou mas os policiais se mostraram irredutveis. No final, teve de negar qualquer espcie de amizade com Amon. No foi preciso um esforo muito grande; de qualquer modo, ele detestava profundamente o comandante.
 No sou um homossexual  defendeu-se ele para os cavalheiros do Escritrio V, aproveitando-se de boatos que ouvira sobre Goeth e suas jovens ordenanas.
O prprio Amon nunca compreenderia que Oskar o desprezava e estava disposto a incrimin-lo perante o Escritrio V. Amon sempre tivera iluses a respeito de amizades. Em seus momentos sentimentais, acreditava que Mietek Pemper e Helen Hirsch amavam o seu patro.Os investigadores provavelmente no o informariam de que Oskar estava na Rua Pomorska e teriam ouvido, sem dizer palavra, Amon insistindo com eles: "Chamem o meu velho amigo Schindler. Ele poder depor a meu favor. 
O que mais ajudou Oskar, quando se viu diante dos investigadores, foi provar que tinha tido poucas conexes comerciais com o comandante. Embora s vezes houvesse aconselhado Amon ou lhe 
Pg.303 
indicado contatos, jamais participara de transao alguma, nunca recebera um zloty com as vendas de Amon das raes da priso, ou anis da oficina de ourivesaria, ou roupas da fbrica de confeces ou mveis da seo de estofamento. Deve tambm t-lo ajudado o fato de suas mentiras parecerem to fracas, at mesmo para policiais, e de quando ele dizia a verdade ser irresistivelmente convincente. Nunca dava a impresso de estar grato por acreditarem na sua palavra. Por exemplo, quando os cavalheiros do Escritrio V pareceram comear a admitir a possibilidade de haver alguma verdade na alegao de que o emprstimo de 80 mil RM fora concedido na base da extorso, Oskar perguntou-lhes se, no final, o dinheiro lhe seria devolvido, o dinheiro que pertencia a Herr Direktor Schindler, o impecvel industrial.
 Um terceiro fator a favor de Oskar era que suas credenciais provaram ser autnticas. O Coronel Erich Lange, quando o Escritrio V lhe telefonou, insistiu na importncia de Schindler para o esforo de guerra. Sussmuth, consultado pelo telefone em Troppau, disse que a fbrica de Oskar estava envolvida na produo de "armas secretas", no era, como veremos mais adiante, uma declarao falsa. Mas, quando dita incisivamente, era enganadora e de peso desvirtuado. Pois o Fhrer prometera "armas secretas". A expresso era carismtica e agora oferecia uma proteo a Oskar. Contra uma expresso como "armas secretas", qualquer onda de protesto dos burgueses de Zwittau no produzia efeito algum.
Mas, mesmo para Oskar, a sua priso oferecia perigos. Por volta do quarto dia, um dos interrogadores visitou-o no para interrog-lo mas para cuspir nele. O cuspe escorreu pela lapela da roupa de Oskar.O homem vociferou contra ele, chamando-o de amigo de judeus, de ir para a cama com judias. Era uma ttica bem diferente do legalismo dos interrogatrios. Mas Oskar no tinha certeza se aquilo no fora planejado, se no representava a verdadeira denncia que impulsionara a sua priso.
Aps uma semana, Oskar enviou uma mensagem, transmitida por Huth e Klonowska, para o Oberfhrer Scherner. Na mensagem dizia que o Escritrio V estava pressionando-o de tal maneira, que ele achava que no poderia proteger por muito mais tempo o antigo chefe de polcia. Scherner abandonou sua misso de contra-atacar guerrilheiros (que em breve o mataria) e compareceu  cela de Oskar no dia seguinte. Era um escndalo o que o Escritrio estava fazendo, disse Scherner. E quanto a Amon?, perguntara Oskar, calculando que Scherner iria dizer que era tambm um escndalo.
Ele merece de sobra o castigo  replicara Scherner. Parecia que todo mundo estava desertando Amon.  No se preocupe  tinha
Pg.304 
acrescentado Scherner, antes de sair.  Vamos tir-lo daqui.
Na manh do oitavo dia, eles o soltaram. Oskar tratou de partir imediatamente  dessa vez, sem exigir transporte. Bastava-lhe ver-se solto na fria calada. Atravessou Cracvia de bonde e foi a p at a sua antiga fbrica em Zablocie. Ainda havia ali uns poucos zeladores poloneses; do seu gabinete no andar de cima ele telefonou para Brinnlitz e avisou a Emilie que estava livre.
Mosh Bejski, um projetista de Brinnlitz, lembra-se da confuso,enquanto Oskar estava fora  os boatos, as perguntas a respeito do que significava aquela priso. Mas Stern, Maurice Finder, Adam Garde e outros tinham consultado Emilie sobre a comida, a distribuio de trabalho, a proviso de leitos no campo. Foram os primeiros a descobrir que Emilie no era uma mera figura de proa. No era uma mulher feliz e sua infelicidade tornara-se mais amarga com a priso de Oskar pelo Escritrio V. Pareceu-lhe uma injustia da sorte a SS vir intrometer-se na reunio ainda no bem concretizada do casal. Mas a Stern e aos outros parecia evidente que ela no estava ali para cuidar do pequeno apartamento do andar trreo simplesmente por dever matrimonial. Havia tambm outro motivo, que se poderia chamar de compromisso ideolgico. Numa parede do apartamento via-se uma imagem de Jesus, com o corao exposto e em chamas. Stern vira a mesma reproduo em casas de catlicos poloneses. Mas no havia nenhum ornamento semelhante em qualquer dos dois apartamentos de Oskar em Cracvia. O Jesus do corao exposto nem sempre era tranquilizador,quando visto em cozinhas polonesas. Mas no apartamento de Emilie era o smbolo de uma promessa pessoal: a promessa de Emilie.
Em princpios de novembro, Oskar voltou de trem. Estava com a barba por fazer e cheirava mal, depois de tantos dias na priso.Espantou-se, ao saber que as mulheres continuavam em Auschwitz-Birkenau.
No planeta Auschwitz, onde as mulheres Schindler moviam-se com tanta cautela, com tanto medo como qualquer viajante espacial, Rudolf Hss reinava como o fundador, o construtor do campo  seu gnio supremo. Leitores do romance de William Styron, Escolha de Sofia* o identificavam como o patro de Sophie. Um patro bem diferente do que Amon fora para Helen Hirsch; mais imparcial, polido, equilibrado; ainda assim, porm, o infatigvel sacerdote daquela provncia canibalesca. Embora na dcada de 1920 ele tivesse assassinado um professor do Ruhr, por ter denunciado um ativista alemo, e cumprido
*Publicado no Brasil pela Editora Record. (N. do F.) 
Pg.305  
pena pelo crime, nunca assassinou com as prprias mos prisioneiro algum de Auschwitz. Considerava-se um tcnico. Era apologista das cpsulas  base de cianureto, que soltavam vapores de gs, quando expostas ao ar, e travara uma longa contenda pessoal e cientfica com seu rival, o Kriminalkommissar Christian Wirth, que tinha jurisdio sobre o campo de Beizec e era chefe da corrente partidria do monxido de carbono. Tinha havido um dia terrvel em Beizec, testemunhado por um oficial qumico da SS, Kurt Gerstein, quando o mtodo do Kommissar Wirth levara trs horas para liquidar um grupo de judeus atulhados nas cmaras. Uma prova de que Hss era a favor de uma tecnologia mais eficiente  parcialmente confirmada pelo crescimento contnuo de Auschwitz e o declnio de Beizec.
Em 1943, quando Rudolf Hss deixou Auschwitz para ocupar o posto de Chefe Interino da Seo D em Oranienburg, o local j se tornara em algo mais do que um campo. Era mais do que uma excelente organizao. Era um fenmeno. O mundo moral parecia no ter-se deteriorado tanto quanto se invertera, transformado num buraco negro, sob a presso de toda a malcia humana  um local em que tribos e histrias eram absorvidas e vaporizadas e a linguagem passava a ter novos significados. As cmaras subterrneas eram chamadas "pores de desinfeco", as cmaras ao nvel do solo "casas de banho", e o Oberscharfhrer Moll, cuja funo era ordenar a insero dos cristais azuis para dentro dos tetos dos "pores", costumava gritar para os seus assistentes. "Muito bem, agora vamos lhes dar algo para mastigar!"
Hss voltara a Auschwitz em maio de 1944 e reinava sobre o campo todo na ocasio em que as mulheres Schindler estavam ocupando uma caserna em Birkenau, bem junto do posto do humorista Moll. Segundo a mitologia Schindler, foi com o prprio Hss, que Oskar batalhou pelas suas 300 mulheres. Certamente Oskar teve conversas telefnicas e outros entendimentos com Hss. Mas tinha tambm de tratar c om o Sturmbannfhrer Fritz Hartjensein, Comandante de Auschwitz II  isto , de Auschwitz-Birkenau  e com o Untersturmfhrer Franz Hssler, o encarregado, naquela grande cidade, do subrbio das mulheres.
O certo  que Oskar agora mandou uma moa com uma valise cheia de bebidas, presunto e diamantes para negociar com aqueles funcionrios. Alguns dizem que Oskar, depois de mandar a moa, fez ele prprio uma visita, levando consigo um associado, influente oficial na S.A.(Sturmabteilung ou Tropa de Assalto), o Standartenfhrer Peltze, que,segundo ele revelou mais tarde a amigos, era um agente britnico. Outros alegam que Oskar se manteve afastado de Auschwitz por uma questo 
Pg.306
de estratgia e preferiu ir a Oranienburg e  Inspetoria de Armamentos em Berlim, para tentar pressionar Hss por outros lados.
A histria que Stern iria narrar publicamente, anos mais tarde num discurso em Tel Aviv  a seguinte: depois de Oskar sair da priso Stern procurou-o e  "pressionado por alguns dos meus camaradas'' implorou-lhe que fizesse algo decisivo a respeito das mulheres atoladas em Auschwitz. Durante essa conferncia, uma das secretrias de Oskar entrou na sala  Stern no mencionou o nome.Schindler olhou para a moa e apontou para um dos prprios dedos, em que brilhava um anel com um grande diamante. Perguntou-lhe se ela gostaria de possuir aquela vistosa jia. A moa demonstrou vivo interesse, segundo Stern, que cita as palavras de Oskar: "Pegue esta lista de mulheres arrume uma valise com a melhor comida e a melhor bebida que encontrar na minha cozinha. Depois siga para Auschwitz. Deve saber que o comandante tem uma queda por garotas bonitas. Se tiver sucesso na sua misso, ganhar este anel. E outras coisas mais."
 uma cena digna de um daqueles episdios do Velho Testamento, quando, pelo bem de uma tribo, uma mulher  oferecida ao invasor. E tambm uma cena da Europa Central, com seus grandes diamantes coruscantes e suas transaes com a carne de uma mulher.
De acordo com o que conta Stern, a secretria partiu para Auschitz. Como dois dias depois ela ainda no tivesse voltado, o prprio Schindler  acompanhado do obscuro Peltze  foi resolver o assunto.
Segundo a mitologia Schindler, Oskar realmente mandou uma das suas amantes para dormir com o comandante  fosse ele Hss, Hartjenstein ou Hssier  e deixar diamantes no travesseiro. Alguns, como Stern, dizem que foi "uma das secretrias", mas outros citam o nome de uma Aufseher, bonita lourinha da SS, naqueles ltimos tempos a amante de Oskar e servindo na guarnio de Brinnlitz. Mas, ao que parece, essa moa continuava ainda em Auschwitz, juntamente com as Schindlerfrauen.
Segundo a prpria Emilie Schindler, a emissria era uma jovem de vinte e dois ou vinte e trs anos, natural de Zwittau, e seu pai fora um velho amigo da famlia Schindler. Ela voltara recentemente da Rssia ocupada, onde tinha trabalhado como secretria na administrao alem. Era uma boa amiga de Emilie e se oferecera como voluntria para a tarefa.  pouco provvel que Oskar tivesse pedido um sacrifcio sexual de uma amiga da famlia. Embora ele fosse um pilantra nessas questes, esse lado da histria  certamente um mito. No sabemos at onde foram as transaes da moa com os oficiais de Auschwitz.Sabemos apenas que ela penetrou naquele reino de horrores e atuou corajosamente.
Pg.307
Oskar mais tarde contou que, em suas negociaes com os dirigentes da necrpole Auschwitz, mais uma vez eles tentaram convenc-lo de que as mulheres, depois de passarem algumas semanas ali, no valiam mais grande coisa para o trabalho. Por que ele no esquecia aquelas suas trezentas Schindlerfrauerft ?No seria difcil substitu-las por outras trezentas do infindvel rebanho que chegava constantemente a Auschwitz. Em 1942, um NCO SS lhe fizera a mesma proposta na estao de Prokocim: "No vale a pena insistir s no nome dessas mulheres, Herr Direktor.''
Agora, como em Prokocim, Oskar repetiu a sua costumeira alegao.
 H no grupo tcnicas insubstituveis na manufatura de armas. Eu mesmo as treinei durante anos. Elas so operrias especializadas, como no podem ser facilmente encontradas. Os nomes eu sei.
 Um momento  disse o oficial.  Vejo aqui na lista uma menina de nove anos, filha de uma tal Phila Rath. E mais uma menina de onze anos, filha de Regina Horowitz. Est querendo me dizer que uma menina de nove e outra de onze anos so especialistas em munies?
 Do polimento em granadas de 45 milmetros  retorquiu Oskar.  Foram selecionadas por causa de seus dedos compridos, que podem atingir o interior da granada de maneira que a maioria dos adultos no consegue.
Tal conversa, em apoio  moa amiga da famlia, era mantida por Oskar em pessoa ou por telefone. Oskar transmitia notcias sobre as negociaes ao crculo mais ntimo dos seus prisioneiros, que se encarregavam de pass-las aos homens nas oficinas. A alegao de Oskar de que precisava de crianas para polir o interior das granadas antitanques era uma farsa escandalosa. Mas ele j a usara mais de uma vez.Em 1943, uma rf chamada Anita Lampel foi chamada uma noite  Appellplatz de Plaszvia e l deparara com Oskar discutindo com uma mulher de meia-idade, a Alteste do campo das mulheres, que argumentava, usando mais ou menos as mesmas palavras que Hss/Hssler diriam depois, em Auschwitz:
 No me venha com essa de que precisa de uma menina de quatorze anos para a Emalia. No pode afirmar que o Comandante Goeth permitiu colocar uma menina dessa idade no seu grupo para a Emalia.  (A Alteste temia, naturalmente, que, se a lista de prisioneiros para a Emalia tivesse sido adulterada, ela  quem seria a culpada.)
Naquela noite, em 1943, Anita Lampel ouvira, atnita, Oskar, que jamais vira as suas mos, alegar que ele a escolhera pelo valor industrial
Pg.308
do comprimento de seus dedos, e que o Herr Commandan dera a sua aprovao.
Anita Lampel estava em Auschwitz, mas agora era uma moa alta e no mais precisava da alegao dos dedos compridos, que passou a ser usada em favor das filhas da Sra. Horowitz e da Sra. Rath.
O contato de Schindler tivera razo em dizer que as mulheres haviam perdido quase por completo o seu valor industrial. Nas inspees mulheres jovens como Mila Pfefferberg, Helen Hirsch e sua irm no podiam evitar que as clicas da disenteria as deixassem curvadas e envelhecidas. A Sra. Dresner perdera todo o apetite, at mesmo pela sopa de ersatz. Danka no conseguia convencer sua me a se aquecer um pouco, ingerindo-a. Isso significava que ela logo se tornaria uma Mussulman. O termo era uma gria do campo, derivada do que as pessoas se lembravam de ter visto em jornais cinematogrficos sobre a fome em pases mulumanos. O nome era dado s prisioneiras, que cruzavam a linha que separava os vivos esfaimados dos praticamente mortos.
Clara Sternberg, de quarenta e poucos anos, foi isolada do grupo Schindler e transferida para um local, que se poderia descrever como uma cabana Mussulman. Ali, cada manh, as mulheres moribundas eram enfileiradas diante da porta e se procedia a uma seleo. s vezes, era Mengele quem as examinava. Das 500 mulheres nesse novo grupo de Clara Sternberg, podiam ser apartadas umas cem em determinado dia; em outro dia, 50 mulheres. Coloriam o rosto com a argila de Auschwitz e, se possvel, mantinham as costas retas. E era prefervel engasgar a tossir...
Foi depois de uma dessas inspees que Clara sentiu que no lhe restavam mais reservas para continuar a esperar, para correr o risco dirio. Tinha em Brinnlitz um marido e um filho adolescente; agora, porm, eles lhe pareciam mais remotos do que os canais do Planeta Marte. No podiam imaginar Brinnlitz, ou o marido e o filho vivendo l. Ento saiu cambaleando pelo campo das mulheres  procura dos fios eltricos. Quando da sua chegada, tivera a impresso de que as cercas eletrificadas estavam por toda parte. Agora, que precisava delas, no conseguia encontr-las. Cada vez que dobrava uma esquina, via-se em outra rua enlameada, que a frustrava com as suas cabanas igualmente miserveis. Quando viu uma conhecida de Plaszvia, uma cracoviana como ela prpria. Clara se deteve. "Onde fica a cerca eltrica?", perguntou  mulher. A pergunta parecia razovel  sua mente perturbada e Clara no tinha dvida de que a amiga, se tivesse algum sentimento de fraternidade, iria apontar-lhe o caminho para a cerca. A resposta que a mulher deu a Clara era igualmente insana mas tinha um ponto de vista firme, um equilbrio, um cerne perversamente lgico.
Pg.309
 No se mate na cerca. Clara  insistiu a mulher.  Se o fizer, nunca ir saber o seu destino.
Aquele argumento sempre fora o mais poderoso junto a suicidas em potencial. Se voc se matar, nunca ir saber como terminou a histria. Clara no tinha maior interesse na histria. Mas, de certa forma, a argumentao surtiu efeito. Ela recuou; quando voltou  sua cabana, sentiu-se mais perturbada do que quando sara  procura da cerca. Mas a amiga de Cracvia  com as suas palavras  conseguira que ela eliminasse do pensamento o suicdio como uma opo. 
Algo de terrvel aconteceu em Brinnlitz: Oskar, o viajante moraviano, se ausentara. Estava negociando com panelas e diamantes, bebidas e charutos, por toda parte na provncia. Algumas das mercadorias eram cruciais. Biberstein fala dos remdios e instrumentos cirrgicos que chegavam ao Krankenstube, em Brinnlitz. Nenhum desses ltimos artigos era de distribuio normal. Oskar deve ter negociado os remdios com os depsitos da Wehrmacht ou talvez com a farmcia de um dos hospitais maiores em Brno.
Qualquer que fosse a causa de sua ausncia, ele estava fora quando um inspetor de Grss-Rosen chegou a Brinnlitz e visitou a oficina com o Untersturmfhrer Josef Liepold, o novo comandante, sempre disposto a aproveitar qualquer chance para se intrometer na fbrica.
O inspetor trazia ordens de Oranienburg de passar em revista os subcampos de Grss-Rosen, recolhendo as crianas para serem usadas nas experincias cientficas do Dr. Josef Mengele, em Auschwitz. Olek Rosner e seu pequeno primo Richard Horowitz, que acreditavam no necessitar ali de um esconderijo, brincavam correndo um atrs do outro ao redor do anexo e em meio de mquinas de tecelagem abandonadas.
Tambm se achava nas imediaes o filho do Dr. Leon Gross, o mdico que tinha tratado da recente diabetes de Amon, que ajudara o Dr. Blancke na Aktion de Sade e que tinha ainda outros crimes pelos quais responder. O inspetor observou ao Untersturmfhrer Liepold que aqueles meninos no eram, evidentemente, operrios essenciais de munio. Liepold  baixo, moreno, no to doido quanto Amon  era ainda assim um oficial convicto da SS e no se deu ao trabalho de defender os garotos.
Mais adiante, durante a inspeo, o flho de nove anos de Roman Ginter foi descoberto. Ginter conhecia Oskar desde o tempo em que o gueto fora fundado, pois fornecera sucata da Emalia  metalrgica de Plaszvia. Mas o Untersturmfhrer Liepold e o inspetor no tomaram conhecimento de quaisquer relaes especiais, O filho de Ginter foi mandado sob escolta para o porto juntamente com os outros meninos.
Pg.310
O filho de Frances Spira, com dez anos e meio de idade, mas alto e aparentando uns quatorze anos, estava nesse dia trabalhando no alto de uma comprida escada, limpando as janelas de um segundo andar, e escapou do reide.
As ordens eram para que tambm fossem arrebanhados os pais dos meninos, talvez porque isso anularia o risco deles se revoltarem dentro dos subcampos. Portanto, Rosner, o violinista, Horowitz e Roman Ginter foram presos. O Dr. Leon Gross correu  clnica para negociar com a SS. Estava rubro de indignao. O esforo era para provar quele inspetor de Grss-Rosen que ele estava lidando com um prisioneiro responsvel, um amigo do sistema. O esforo de nada adiantou.
Um SS Unterscharfhrer, com uma arma automtica, recebeu a misso de escolt-los a Auschwitz.
O grupo de pais e filhos viajou de Zwittau at Katowice, na Alta Silsia, em um trem de passageiros comum. Henry Rosner esperava hostilidade dos outros passageiros. Em vez disso, uma mulher atravessou o vago e acintosamente deu a Olek e a cada um dos outros um bico de po e uma ma, o tempo todo de olhos pregados no sargento, desafiando-o a reclamar. O Unterscharfhrer, porm, tratou-a com polidez formal. Mais tarde, quando o trem parou em Usti, ele deixou os prisioneiros sob a guarda de seu auxiliar e dirigiu-se para o caf da estao, trazendo de volta biscoitos e caf pagos do seu prprio bolso.
Ele, Rosner e Horowitz se puseram a conversar. Quanto mais o Unterscharfhrer falava, menos parecia pertencer  mesma laia de Amon, Hujar, John e todos aqueles outros.
 Estou levando vocs para Auschwitz  disse ele  e depois tenho de voltar a Brinnlitz, acompanhando umas mulheres.
Assim, ironicamente, os primeiros homens de Brinnlitz a descobrir que suas mulheres iam sair de Auschwitz foram Rosner e Horowitz, quando eles prprios estavam a caminho de Auschwitz.
Rosner e Horowitz ficaram radiantes. Contaram a seus filhos que aquele bom homem ia levar suas mes para Brinnlitz. Rosner perguntou ao Unterscharfher podia entregar uma carta a Manei, e Horowitz pediu-lhe o mesmo para Regina. As duas cartas foram escritas em pedaos de papel que o Unterscharfhrer lhes forneceu, o mesmo papel que ele usava para escrever  prpria mulher. Em sua carta Rosner indicava a Mandei um endereo em Podgrze onde encontr-lo, no caso de ambos sobreviverem.
Quando Rosner e Horowitz tinham terminado de escrever, o SS ps as cartas no bolso. "Onde estava voc nestes ltimos anos?", pensou Rosner. "Comeou sendo um fantico? Aplaudiu quando os deuses no rostro esbravejavam: 'Os judeus so a nossa desgraa'?"
Pg.311
No decorrer da viagem, Olek tinha escondido o rosto no brao de Henry e se pusera a chorar. A princpio no quis revelar qual era a sua mgoa. Quando finalmente falou, foi para dizer que estava desolado por ter arrastado Henry para Auschwitz, e assim ser a causa
da morte do seu prprio pai. Henry poderia ter tentado acalm-lo pregando-lhe mentiras mas no teria adiantado. Todas as crianas tinham conhecimento das cmaras de gs. E respondiam com petulncia, quando se tentava engan-las.
O Unterscharfhrer curvou-se. No podia ter ouvido as palavras de Olek mas havia lgrimas em seus olhos. Isso causou espanto ao menino  como se espanta qualquer criana, quando v um animal de circo andar de bicicleta. Fitou o homem. O que lhe parecia surpreendente era que aquelas lgrimas eram fraternais, lgrimas de um companheiro de cativeiro.
 Sei o que vai acontecer  disse o Unterscharfhrer.  Ns perdemos a guerra. Voc ser tatuado e vai sobreviver.
Henry teve a impresso de que o homem estava fazendo promessas no ao menino mas a si mesmo, armando-se com a garantia de que  dentro de cinco anos, talvez, quando se lembrasse daquela viagem de trem  poderia usar aquela lembrana para aliviar sua conscincia.
Na tarde em que tentara encontrar a cerca eletrificada. Clara Sternberg ouviu uma chamada de nomes e o som de risadas femininas na direo das cabana dasSchindlerfrauen. Ento saiu de sua cabana mida e viu as mulheres Schindler enfileiradas por trs da cerca interior do campo feminino. Algumas delas estavam vestidas apenas com blusas e calas compridas. Mulheres esquelticas, sem a menor chance de sobrevivncia. Mas estavam tagarelando como meninas. At a SS loura parecia feliz, pois tambm seria liberada de Auschwitz.
Schindler gruppe!  gritou ela.  Vocs vo para as saunas e depois vo tomar o trem.  A SS loura parecia ter o senso da importncia do momento.
Das cabanas em redor, prisioneiras fadadas a morrer olhavam com uma expresso vazia as alegres eleitas de Schindler. No se podia deixar de observ-las porque elas, subitamente, estavam como que fora de proporo com o resto do campo. O fato no alterava nada,  claro. No passava de um evento excntrico; no tinha o menor significado na vida da maioria; no invertia o processo ou diminua a fumaa no ar.
Mas para Clara Sternberg a cena era intolervel. Como o era tambm para a Sra. Krumholz, de sessenta anos, quase agonizando numa cabana reservada s mulheres mais velhas. A Sra. Krumholz comeou
Pg.312
 a discutir com a Kapo holandesa  porta da sua cabana.
 Vou me reunir s outras  anunciou ela.
A Kapo apresentou uma srie de argumentos, e no fnal declarou:
 Voc estar melhor ficando aqui. Se for, vai morrer num vago de carga. Alm disso, terei de explicar por que a deixei partir.
 Pode dizer aos seus superiores  declarou a Sra. Krumholz
 que foi porque eu fazia parte da listaSchindler. Os registros confirmaro o meu nome. Quanto a isso, no h dvida.
Durante cinco minutos elas discutiram e, no decorrer da discusso, falaram de suas famlias, apurando as origens uma da outra, talvez  procura de um ponto vulnervel na lgica estrita da disputa.
Acabaram descobrindo que o sobrenome da holandesa era tambm Krumholz e as duas comearam a discutir a procedncia de suas famlias.
 Creio que o meu marido est em Sachsenhausen  disse a Sra.
Krumholz holandesa.
 O meu marido e o meu filho foram para Mauthausen, creio eu  disse a Sra. Krumholz de Cracvia.  Eu devo ir para o campo Schincdler na Morvia. E para l que vo aquelas mulheres diante da cerca.
 Elas no vo a parte alguma, acredite-me  assegurou a Sra.
Krumholz holandesa.  Ningum aqui vai a parte alguma, a no ser numa direo Pois eu acho que elas vo para alguma parte  insistiu a primeira Sra. Krumholz.  Por favor!
Mesmo que asSchindlerfrauen estivessem iludidas, ela queria participar daquela iluso. A Kapo holandesa finalmente compreendeu isso e deixou que a Sra- Krumholz tentasse seguir o seu destino.
Uma cerca erguia-se agora entre a Sra. Krumholz, a Sra. Sternberg e o resto das mulheresSchindler. No era uma cerca eletrificada.
No obstante, fora erguida de acordo com o regulamento da Seo D, com pelo menos dezoito fios de arame. Os fios eram mais juntos na parte superior. Na inferior eram esticados paralelamente, com uma separao de uns quinze centmetros. Mas entre cada grupo de paralelos havia um espao de menos de trinta centmetros. Naquele dia, segundo testemunhas e o depoimento das prprias mulheres, tanto a Sra.
Krumholz como a Sra. Sternberg conseguiram atravessar a cerca e ir reunir-se s mulheresSchindler para participar daquele sonho de salvao. Arrastando-se por uma abertura de talvez uns vinte e dois centmetros, suspendendo o arame, rasgando a roupa e a carne nas farpas, elas lograram se colocar entre as eleitas da listaSchindler. Ningum as deteve, porque ningum acreditou naquela possibilidade. Para as
Pg.313
outras mulheres de Auschwitz, era de qualquer modo um exemplo irrisrio. Qualquer outra fugitiva, depois de vencer a primeira cerca, iria deparar com outra e mais outra, at a ltima de alta voltagem. Mas para Sternberg e Krumholz no existiam outras cercas. As roupas que elas tinham trazido do gueto e remendado tantas vezes na enlameada Plaszvia agora pendiam dos arames. Nuas e com o sangue brotando de arranhes, elas correram a juntar-se s mulheresSchindler.
A Sra. Rachela Korn, condenada, aos quarenta e quatro anos, a uma cabana de hospital, fora tambm arrastada pelo vo da janela por sua filha, que agora a mantinha ereta na colunaSchindler. Era como uma festa de aniversrio tanto para ela como para as outras duas. Todas as mulheres pareciam estar congratulando-as.
Na casa de banho, as mulheres Schindler foram barbeadas. Moas letonas rasparam a passeata de piolhos de suas cabeas, axilas e pbis. Depois do banho de chuveiro, foram levadas nuas para a cabana do oficial intendente, onde lhes forneceram roupas de gente que morrera. Quando se viram de cabea raspada e com roupas disparatadas, as mulheres se puseram a rir _ um riso de meninas. A figura da frgil Mila Pfefferberg, pesando agora uns trinta e poucos quilos, enfiada num vestido que pertencera a uma senhora gorda, a fez rolar de rir. Meio mortas e vestidas de trapos com cifras pintadas, elas saltitavam e arremedavam manequins numa passarela e desatavam em risadas, como colegiais.
 O que Schindler vai fazer com todas essas velhas?  Clara
Sternberg ouviu uma SS perguntar a uma colega.
 Isso no  da conta de ningum  replicou a outra.  Ele que abra um asilo de velhos, se quiser.
Quaisquer que fossem as expectativas, era sempre apavorante entrar nos trens. Mesmo com baixa temperatura, havia sempre uma sensao de abafamento aliado  escurido. Ao entrar num vago, as crianas sempre corriam para onde houvesse alguma fresta de claridade. Foi o que fez Niusia Horowitz nessa manh, colocando-se contra uma parede de onde se soltara uma ripa. Quando ela olhou pela abertura. pde ver do outro lado da linha frrea as cercas do campo dos homens. Notou que havia aqui e ali crianas espalhadas, olhando para o trem e acenando as mos. Parecia haver uma insistncia muito pessoal naqueles gestos. Niusia achou estranho que uma das crianas fosse to parecida com o seu irmo de seis anos, que estava a salvo com Schincdler. E o menino ao lado dele era um ssia de seu primo Olek Rosner. Ento compreendeu. Era Richard. Era Olek.
Voltando-se, ela puxou sua me pela roupa. Ento Regina olhou para fora. passou pelo mesmo cruel processo de identificao e ps-se 
Pg.314
a soluar. A essa altura a porta do vago j fora trancada; as duas
se viram comprimidas na quase total escurido. Cada gesto, cada rastro de esperana ou pnico era contagioso. Todas as outras puseramse tambm a soluar. Manei Rosner, junto  cunhada, espiou pela abertura, viu o filho e desatou em pranto.
Um troncudo NCO tornou a abrir a porta do vago e perguntou quem estava fazendo todo aquele barulho. Nenhuma delas tinha motivo para se apresentar, mas Mandei e Regina foraram a passagem e apresentaram-se diante do homem.
  meu filho quem est l do outro lado  disseram ambas. E Manei acrescentou:  Quero que ele veja que ainda estou viva.
O NCO mandou que elas descessem para a plataforma. As duas se postaram diante dele, sem entender qual era a sua inteno.
 Seu nome?  perguntou o NCO a Regina.
Ela deu o seu nome e o viu procurar algo sob o cinto de couro. Julgou que ele estivesse puxando do revlver. Mas o que tinha na mo era uma carta do marido para ela. O homem entregou tambm carta de Henry Rosner. Depois fez uma breve narrativa da partida dos seus maridos de Brinnlitz. Manei pediu que ele permitisse que elas entrassem debaixo do vago, entre os trilhos, como para urinar. Isso s vezes era permitido quando os trens sofriam um atraso maior. O NCO deu-lhes a permisso.
Assim que Mandei se viu debaixo do vago, soltou o agudo assobio que costumava usar na Appellplatz de Plaszvia para ser localizada por Henry e Olek. Olek ouviu o assobio e ps-se a acenar com a mo. Em seguida, virou a cabea de Richard e apontou na direo de suas mes, espiando por entre as rodas do trem.
Depois de muito acenar, Olek estendeu o brao, puxou a manga da camisa e mostrou os nmeros tatuados ao longo de seu antebrao.
Naturalmente, as mulheres responderam com acenos de mo e aplaudiram o jovem Richard, quando ele suspendeu tambm a manga da camisa para mostrar a sua tatuagem. Vejam!", estavam dizendo os meninos, com suas mangas enroladas, "ns temos permanncia." Mas, entre as rodas, as mulheres estavam num frenesi de ansiedade.
 O que aconteceu com eles?  perguntavam uma para outra.
 Em nome de Deus, o que esto fazendo aqui?  Mas as cartas talvez explicassem melhor as coisas. Ento, elas as abriram e leram; de- pois as guardaram e recomearam a chorar.
Em seguida, Olek estendeu a mo e mostrou que tinha umas poucas batatas. 
Veja s!  gritou ele, e Manei pde ouvi-lo distintamente. No precisa se preocupar porque no estou passando fome.
Pg.315
 Onde est seu pai?  gritou Manei.
 Trabalhando  respondeu Olek.  Logo ele estar de volta do trabalho. Estou guardando essas batatas para ele.
 Ai, meu Deus!  murmurou Manei para a cunhada.  As batatas na mo dele so toda a sua comida.
O pequeno Richard foi mais franco.
 Mamushka, Mamushka, Mamushka!  gritou ele.  Estou com tanta fome!
Mas tambm mostrou umas poucas batatas nas mos e disse que ia guard-las para o pai. Dolek e o violinista Rosner estavam trabalhando na pedreira.
Henry Rosner foi o primeiro a chegar. Adiantou-se para junto da cerca, erguendo o brao esquerdo nu.
 A tatuagem!  gritou, triunfante. Mas ela podia ver que ele estava tremendo, ao mesmo tempo suando e com frio. A vida em Plaszvia no tinha sido suave mas l lhe era permitido dormir na oficina de pintura e repousar das horas que passara tocando Lehar na casa de Amon Goeth. Aqui, a banda que, s vezes, acompanhava as fileiras marchando para as "casas de banho", no tocava o tipo de msica de Rosner.
Quando Dolek apareceu, Richard conduziu-o at a cerca, de onde ele podia avistar as duas mulheres de faces encovadas, mas ainda bonitas, espiando de sob o vago. O que ele e Henry mais temiam era que as mulheres se oferecessem para ficar. No poderiam ficar com os filhos no campo dos homens, e se achavam numa situao favorecida no trem, que certamente se poria em marcha naquele mesmo dia. A idia de uma reunio de famlia era ilusria e os dois homens junto  cerca de Birkenau recearam que as mulheres optassem por morrer ali. Portanto. Dolek e Henry falaram com falsa animao  como pais em tempo de paz que tivessem decidido levar os filhos para passar o vero no Bltico, a fim de que as mes pudessem ir descansar em Carisbad.
 Cuide de Niusia  gritou Dolek repetidas vezes, lembrando  sua mulher que eles tinham tambm uma filha, a filha que se achava no vago acima da cabea de Regina.
Finalmente alguma sirene misericordiosa soou no campo dos homens. Os homens e os meninos tiveram ento que deixar a cerca. Mandei e Regina subiram molemente de volta ao trem e a porta fechou. Ficaram quietas. Nada mais poderia surpreend-las 
O trem partiu  tarde, com as habituais incertezas. Mila Pfeffer-berg acreditava que, se o destino delas no fosse o campo de Schin-dier, metade das mulheres comprimidas nos vages no resistiria mais
Pg.316
uma semana. Ela prpria julgava que os seus dias estavam contados. Lusia adoecera com escarlatina. A Sra. Dresner, tratada por Danka mas esvaia^ido-se em disenteria, parecia agonizante.
Mas no vago de Niusia Horowitz, as mulheres viam montanhas e pinheiros pela fenda da ripa. Algumas delas, quando crianas, tinham estado naquelas montanhas, e reconhec-las, ainda que de dentro dos ftidos vages, lhes dava uma injustificada sensao de frias. E sacudiam as companheiras sentadas em meio daquela imundcie toda. "Estamos quase chegando", prometiam s outras. Mas aonde? Mais uma falsa chegada liquidaria todas elas.
Na fria madrugada do segundo dia, elas receberam ordem de sair dos vages. Podiam ouvir o silvo da locomotiva em alguma parte na neblina. Cristais de gelo sujo se penduravam nas subestruturas do trem e o ar as congelava. Mas no era o ar pesado, pungente de Auschwitz. Estavam em algum desvio ferrovirio no identificado. Marcharam, sentindo os ps dormentes em seus tamancos, todas elas tossindo. Logo viram mais adiante um grande porto e, mais alm, uma vasta construo de alvenaria de onde se erguiam chamins; pareciam iguais s que haviam ficado para trs em Auschwitz. Um grupo de homens SS esperavam ao porto, batendo as mos para afugentar o frio. O grupo ao porto, as chamins  tudo parecia parte de uma horrenda continuidade. Uma jovem ao lado de Mila comeou a chorar.
 Eles nos fizeram viajar dias e dias at aqui s para nos transformar em fumaa de chamin!  disse ela.
 No  replicou Mila , no desperdiariam assim o seu tempo. Poderiam ter feito isso em Auschwitz.
Porm o seu otimismo era como o de Lusia  ela no poderia dizer o que o motivava.
Ao se aproximarem do porto, perceberam que HerrSchindler estava entre os homens SS. A primeira coisa que notaram foi a sua famosa estatura, o seu fsico atltico. Podiam ver-lhe as feies sob o chapu tirols, que ele ultimamente usava para comemorar a volta  terra natal. A seu lado, achava-se um oficial SS baixo e moreno. Era o Comandante de Brinnlitz, o Untersturmfhrer Liepold. Oskar j tinha descoberto  as mulheres logo iriam perceber  que Liepold, ao contrrio de sua guarnio de meia-idade, ainda no perdera a f naquela proposio denominada "a Soluo Final". Contudo, embora ele fosse o respeitado representante do Sturmbannfhrer Hassebroeck e a suposta encarnao da autoridade no campo, foi Oskar quem se adiantou quando as mulheres enfileiradas pararam. Elas o fitavam com olhares atnitos. Um fenmeno na nvoa. Algumas sorriram. Mila Pferfferberg, como as outras mulheres postadas naquela fileira, recorda 
Pg.317 
que foi um momento da mais profunda e devota gratido, um momento indescritvel. Anos depois, uma das mulheres que havia participado daquela viagem, lembrando aquela manh, tentaria explicar isso diante de uma equipe da televiso alem. Ele era o nosso pai, a nossa me, a nossa nica f. Nunca nos falhou."
Oskar, ento, comeou a falar. Era mais um dos seus discursos absurdos, cheios de promessas mirabolantes.
 Ns sabamos que vocs viriam  disse ele.  De Zwittau nos avisaram. Quando entrarem no nosso prdio encontraro sopa e po esperando-as.  E depois, displicentemente, com uma segurana pontifcia, acrescentou:  No tm de se preocupar com mais coisa alguma. Agora esto comigo.
Palavras contra as quais o Untersturmfhrer era impotente. Embora irritassem Liepold, Oskar no tomou conhecimento dessa irritao. Enquanto Herr Direktor conduzia as prisioneiras para dentro, no havia nada que Liepold pudesse fazer para interferir naquela segurana.
Os homens sabiam. Estavam na sacada de seu dormitrio, olhando para baixo. Sternberg e o filho procurando pela Sra. Clara Sternberg. Feigenbaum pai e Lutek Feigenbaum, procurando Nocha, sua frgil filha. Juda Dresner e o filho Janek, o velho Sr. Jereth, o Rabino Levartov, Ginter, Garde e at Mareei Goldberg, todos forando a vista para descobrir suas respectivas mulheres. Mundek Korn procurava no s por sua me e irm como por Lusia, a otimista, pela qual ele tinha um interesse especial. Ba agora foi tomado de uma melancolia da qual nunca mais se livraria de todo. Pela primeira vez sentiu que, definitivamente, sua me e sua mulher jamais chegariam a Brinnlitz.Mas o joalheiro Wulkan, vendo Chaja Wukan abaixo, no ptio da fbrica, percebeu agora com espanto que existiam pessoas que intervinham e conseguiam milagrosos salvamentos.
Pfefferberg acenou para Mila um pacote que estivera guardando para lhe oferecer  um novelo de l roubado de um dos caixotes que Hoffman deixara para trs, e uma agulha de ao que ele fabricara no departamento de soldagem. O filho de dez anos de Francs Spira tambm estava olhando do alto da sacada. Para se impedir de gritar, ele enfiara o punho na boca, pois havia muitos SS no ptio
As mulheres cambalearam pelas pedras do calamento vestidas com os trapos trazidos de Auschwitz. Tinham as cabeas raspadas. Algumas estavam demasiado doentes e enfraquecidas para serem reconhecidas com facilidade. No obstante, era um grupo espantoso. No surpreenderia ningum saber mais tarde que em nenhuma outra parte da Europa devastada ocorrera uma reunio semelhante. Que nunca houvera e jamais haveria, um salvamento de Auschwitz como aquele. 
Pg.318
As mulheres foram ento levadas para o seu dormitrio separado. Havia palha no cho  os leitos ainda no tinham sido providenciados. Uma moa SS serviu-lhes, de uma enorme terrina, a sopa de que Oskar lhes falara no porto. Era substanciosa, nutritiva. Em sua fragrncia havia o sinal sensvel do valor de outras imponderveis promessas. "Vocs no tm de se preocupar com mais coisa alguma.
Mas no podiam aproximar-se de seus homens. Por enquanto, o dormitrio das mulheres estava de quarentena. O prprio Oskar, a conselho de sua equipe mdica, preocupava-se com as possveis doenas por elas trazidas de Auschwitz.
Havia, porm, trs pontos em que o isolamento podia ser rompido. Um era um tijolo solto acima do beliche do jovem Moshe Bejski.Os homens passariam as noites seguintes de joelhos no colcho de Bejski, comunicando mensagens pela parede. Por outro lado, havia no andar trreo uma pequena clarabia que dava para as latrinas das mulheres. Pfefferberg empilhou ali caixotes, fazendo um cubculo, onde um homem podia sentar-se e transmitir mensagens. Finalmente, de manh cedo e tarde da noite, havia uma inslita agitao na barreira de arame entre a sacada dos homens e a das mulheres. Era ali que o casal Jereth se encontrava; o velho Sr. Jereth, de cuja madeira fora construda a primeira caserna da Emalia; sua mulher, que precisara de um refgio na ocasio das Aktionen no gueto. Os prisioneiros costumavam brincar a respeito dos dilogos entre o Sr. e a Sra. Jereth: "Seus intestinos funcionaram hoje, minha querida?", perguntava gravemente o Sr. Jereth  mulher, que acabara de chegar das cabanas assolada? de disenteria de Birkenau.
Em princpio, ningum queria ir para uma clnica. Em Plaszvia a clnica tinha sido um lugar perigoso, onde o Dr. Blancke aplicava o seu tratamento terminal de injeo de benzina. Mesmo ali em Brinnlitz, havia o risco de sbitas inspees, do tipo que j levara dali os meninos. De acordo com os memorandos de Oranienburg, uma clnica de campo de trabalho no deveria ter ningum sofrendo de doena grave. No era uma casa de misericrdia. Havia sido fundada para prestar os primeiros socorros a acidentes de trabalho. Mas quer eles quisessem ou no, a clnica de Brinnlitz estava repleta de mulheres. A adolescente Janka Feigenbaum foi internada l. Sofria de cncer e ia morrer, mesmo que estivesse no melhor dos hospitais. Mas, pelo menos, estava no melhor lugar que as circunstncias permitiam. A Sra. Dresner foi levada para l, assim como dzias de outras mulheres, que no podiam comer e reter o alimento no estmago. Lusia, a otimista, e duas outras moas estavam com escarlatina e no podiam ser internadas na clnica. Foram, ento, instaladas em leitos no poro, junto 
Pg.319
ao calor das caldeiras. Apesar do atordoamento de sua febre, Lusia tinha conscincia do calor prodigioso daquele poro. Na clnica, Emilie trabalhava to silenciosa quanto uma freira. Os que estavam bem de sade em Brinnlitz, os homens que desmontavam as mquinas de Hoffman e as levavam para um depsito mais adiante, mal a notavam. Um deles disse mais tarde que ela era apenas uma esposa calada e submissa. Os doentes que se recuperavam o conseguiam apoiados no esprito inventivo de Oskar, na grande trapaa que era o campo de Brinnlizt. At as mulheres, que ainda se aguentavam em p, concentravam suas atenes no grandioso, mgico, oniprovidente Oskar.
Manci Rosner, por exemplo. Um pouco mais tarde na histria de Brinnlitz, Oskar aparecera no setor dos tornos mecnicos, onde ela trabalhava no turno da noite, e entregara-lhe o violino de Henry. Durante uma viagem, para falar com Hassebroeck em Grss-Rosen, ele tinha arranjado tempo para ir ao depsito e descobrir l o violino. Custara-lhe cem RM reav-lo. Ao entregar o instrumento a Manci, ele lhe sorrira de um modo que parecia prometer-lhe a devoluo eventual do prprio violinista.
 O mesmo instrumento  murmurara ele.  Mas... por enquanto... uma msica diferente.
Era difcil para Manci, diante de Oskar e do violino milagroso, ver por trs da pessoa do Herr Direktor a sua silenciosa esposa. Mas, para os moribundos, Emilie era mais visvel. Alimentava-os com semolina, que arranjava sabe Deus onde, preparada em sua prpria cozinha e levada para a Krankenstube. O Dr. Alexander Biberstein acreditava que a Sra. Dresner estava perdida, mas Emilie alimentou-a com colheradas de semolina, durante sete dias consecutivos, e a disenteria cedeu. O caso da Sra. Dresner parece confirmar a declarao de Mila Pfefferberg de que, se Oskar no as houvesse salvo de Birkenau, a maioria delas no teria resistido uma semana mais.
Emilie cuidou tambm de Janka Feigenbaum, a jovem de dezenove anos, com cncer dos ossos. Lutek Feigenbaum, irmo de Janka, que trabalhava na oficina da fbrica, s vezes via Emilie saindo do seu apartamento no andar trreo, com um caldeiro de sopa feita em sua prpria cozinha, para a moribunda Janka. "Ela devia ser dominada por Oskar", diria Lutek. "Como ramos todos ns. Mas no, Emilie era dona de si mesma."
 Quando os culos de Feigenbaum se quebraram, Emilie providenciou o conserto. A receita ficara no consultrio de algum mdico em Cracvia desde o tempo do gueto. Ela pediu a algum que ia a Cracvia que recuperasse a receita e trouxesse de volta os culos j prontos. 
Pg.320
O jovem Feigenbaum considerou o gesto de uma bondade acima do comum, especialmente dentro de um sistema que positivamente desejava a sua miopia, que planejava tirar os culos de todos os judeus da Europa. H muitas histrias a respeito de Oskar fornecendo culos novos para vrios prisioneiros. Quem sabe se algumas das bondades de Emilie nessa questo dos culos no foram absorvidas pela lenda de Oskar, da mesma forma que os feitos de heris menores eram obliterados pela figura de um Rei Arthur ou de um Robin Hood? 
Pg.321 
Captulo 34 
Os mdicos da Krankenstube eram os Drs. Hilfstein, Handler, Lewkowicz e Biberstein. Estavam todos preocupados com a probabilidade de uma epidemia de tifo. Porque tifo no era apenas um risco para a sade; era, por edital, um motivo para fechar Brinnlitz, colocar de volta os contaminados nos vages de gado e mand-los para morrer na caserna ACHTUNG TYPHUS! de Birkenau. Numa das visitas matutinas de Oskar  clnica, cerca de uma semana depois da chegada das mulheres, Biberstein avisou-o de que havia mais dois casos suspeitos entre as mulheres. Dor de cabea, febre, mal-estar, dores generalizadas por todo o corpo eram os sintomas. Biberstein estava esperando que aparecesse dentro de poucos dias a caracterstica erupo tifide. As duas doentes suspeitas precisavam ser isoladas em alguma parte da fbrica.
No era necessrio Biberstein dar muitas explicaes sobre a doena a Oskai.fA conkelsimonetaminao do tfo provinha da picada do piolho. Os prisioneiros eram infestados por incontrolveis populaes de piolhos. A doena levava talvez duas semanas incubada. Podia estar agora incubada em dez, cem prisioneiros. Mesmo com a instalao dos novos beliches, as pessoas dormiam muito amontoadas. Amantes transmitiam uns aos outros os piolhos virulentos, quando se encontravam, rpida e secretamente, em algum recanto escondido da fbrica. Os piolhos do tifo eram tremendamente migratrios. Parecia agora que sua energia iria vencer as resistncias de Oskar 
Assim, quando Oskar ordenou uma unidade de despiolhamento  chuveiros, uma lavanderia para ferver as roupas, uma aparelhagem de desinfeco  a ser construda no andar superior, no era uma ordem administrativa sem razo de ser. A unidade funcionaria com vapor 
Pg.322 
quente bombeado dos pores. Os soldadores deviam trabalhar em turnos constantes no projeto. E eles trabalharam de boa vontade, pois era isso que caracterizava as indstrias secretas de Brinnlitz. A indstria oficial era simbolizada pelas mquinas Hilo, erguendo-se do novo piso de cimento das oficinas. Tanto Oskar como os prisioneiros, conforme observou mais tarde Moshe Bejski, estavam interessados em que as mquinas fossem instaladas corretamente, pois davam ao campo um aspecto convincente. Mas as indstrias no registradas de Brinnlitz eram as que contavam. As mulheres tricotavam com l surrupiada dos sacos da Hoffman, deixados para trs. E s paravam e assumiam um zelo industrial, quando algum oficial SS ou NCO passava pela fbrica a caminho do gabinete do HerrDirektor ou quando Fuchs e Shoenbrun, os ineptos engenheiros civis ("No chegavam aos ps dos nossos engenheiros", dizia mais tarde um prisioneiro), saam de seus escritrio. |
O Oskar de Brinnlitz era o mesmo Oskar do qual se lembravi os antigos empregados da Emalia. Um bon vivant, um homem de hbitos desregrados. No final de seu turno, Mandei e Pfefferberg, encalorados de trabalhar na instalao dos canos de vapor, dirigiram-se para um tanque de gua situado logo abaixo do teto da oficina. Alanram o local subindo uma escada e atravessando um passadio. A gua ali era quente e l de cima no se podia ser avistado por quem estivesse embaixo. Chegando ao alto, os dois soldadores tiveram a surpresa de ver que o tanque j estava ocupado. Oskar boiava nele, nu e musculoso. Uma SS loura, a mesma que Regina Horowitz subornara com um broche, com os seios flutuando na superfcie, fazia-lhe companhia. Ao perceber a presena deles, Oskar fitou-os muito francamente. O pudor sexual era, para ele, um conceito, algo como o existencialismo, louvvel mas de difcil compreenso. Os soldadores notaram que a SS era deliciosa.                                    
Pediram desculpas e retiraram-se, abanando a cabea, assobiando do baixinho, rindo  como colegiais. L em cima, Oskar se deliciava como Zeus, em folguedos libertinos.
Afinal a epidemia no se espalhou. Biberstein considerou que tinha siddo evitada graas  unidade de despiolhamento de Brinnlitz. Quando a disenteria cedeu, ele atribuiu isso  comida. No seu depoimento, nos arquivos do Yad Vashem, Biberstein declara que, rio incio  do campo a rao diria era de mais de 2.000 calorias. Em todo o sofrido irverno no do continente europeu, somente os judeus de Brinnlitz estavam sendo bem alimentados. Entre milhes, apenas a sopa dos mil prisioneiro de Schindler era nutritiva.
Havia tambm o mingau. Mais adiante, numa estrada que partia
Pg.323
do campo, junto ao riacho onde os mecnicos de Oskar tinham recentemente despejado as bebidas provenientes do mercado negro, erguia-se um moinho. Munido de um passe de trabalho, um prisioneiro podia ir at l, com alguma incumbncia de um dos departamentos da DEF. Mundek Korn lembra-se de ter regressado ao campo, carregado de comida. No moinho, o prisioneiro simplesmente amarrava as calas nos
tornozelos e afrouxava o cinto. Ento o moleiro seu amigo enchia-lhe as calas com farinha de aveia. O prisioneiro tornava a apertar o cinto e voltava ao campo  um grande repositrio, de valor inestimvel  e passava pelas sentinelas com o andar meio torto, at entrar no anexo. Uma vez l dentro, outros prisioneiros afrouxavam-lhe as calas nos tornozelos e a farinha escorria, aparada em recipientes apropriados.
No departamento de projetos, o jovem Moshe Bejski e Josef Ba j tinham comeado a forjar passes do tipo que permitia aos prisioneiros irem ao moinho. Oskar foi um dia ao departamento e mostrou a Bejski documentos estampados com a chancela da autoridade de racionamento do Governo-Geral. Os melhores contatos de Oskar para alimentos do mercado negro situavam-se ainda na rea de Cracvia. Podia providenciar embarques por telefone. Mas na fronteira da Morvia, era preciso exibir os documentos de liberao do Departamento de Alimentao e Agricultura do Governo-Geral. Oskar mostrou os carimbos dos papis, que tinha na mo, e perguntou a Bejski se podia copi-los.
Bejski era um excelente artfice e capaz de trabalhar horas a fio, sem dormir. Confeccionou ento para Oskar a primeira de muitas chancelas oficiais, que iria produzir. Seus instrumentos eram lminas de navalha e vrios pequenos utenslios de corte. Seus carimbos tornaram-se os emblemas da absurda burocracia de Brinnlitz. Fabricava carimbos do Governo-Geral, do Governador da Morvia, carimbos que adornavam falsas licenas de viagem, que permitiam aos prisioneiros ir de caminho a Brno ou Olomouc, onde se abasteciam de quilos de po, gasolina do mercado negro, farinha, tecidos e cigarros. Leon Salpeter, um farmacutico de Cracvia, outrora membro da Judenrat de Mark Biberstein, era o encarregado do depsito em Brinnlitz. Ali os mseros suprimentos enviados de Grss-Rosen por Hassebroeck eram estoca dos, juntamente com legumes, farinhas e cereais comprados por Oskar com a autorizao dos carimbos minuciosamente copiados por Bejski, com a guia e a cruz gamada do regime.
  preciso lembrar  recorda um ex-prisioneiro do campo de Oskar  que a vida era rdua em Brinnlitz mas, comparada  de qualquer outro campo, era um paraso!
Pg.324
Os prisioneiros pareciam estar conscientes de que a comida era escassa em toda parte; mesmo fora dos campos, poucos podiam saciar sua fome. 
E Oskar? Cortava Oskar suas raes no mesmo nvel que as dos prisioneiros? A resposta foi uma risada indulgente.
Oskar? Por que haveria Oskar de cortar suas raes? Ele era o Herr Direktor.Quem ramos ns para discutir suas refeies?  E depois, franzindo a testa, no caso de algum julgar essa atitude subserviente.  Vocs no compreendem. ramos gratos por estar ali. No havia outro lugar para ns. 
Como em seu casamento, Oskar continuava sendo, por temperamento. um absentesta, mantendo-se afastado de Brinnlitz por longos perodos. s vezes Stern, abastecedor das necessidades dirias do campo, passava a noite acordado, esperando por ele. No apartamento de Oskar, Itzhak e Emilie eram as pessoas que ficavam de viglia. O erudito contador sempre dava a interpretao mais leal s perambulaes de Oskar pela Morvia. Em um discurso anos mais tarde, Stern diria: "Ele viajava dia e noite, no somente para comprar alimentos para os judeus no campo de Brinnlitz  usando papis forjados por um dos prisioneiros  mas para nos comprar armas e munies, prevendo o caso de a SS resolver matar-nos, quando batesse em retirada." 
A imagem de um HerrDirektor incansavelmente previdente  um crdito  afeio e  lealdade de Itzhak. Mas Emilie teria compreendido que nem todas as ausncias tinham a ver com a qualidade humana do gangsterismo de Oskar.
Durante uma dessas ausncias de Oskar, Janek Dresner, de dezenove anos, foi acusado de sabotagem. Na realidade, Dresner no tinha nenhuma prtica de metalurgia. Em Plaszvia passava o tempo no departamento de despiolhamento, estendendo toalhas aos SS, que vinham tomar um banho de chuveiro ou uma sauna, e fervendo as roupas crivadas de piolhos dos prisioneiros. (Ele fora contaminado de febre tifide pela picada de um piolho e sobrevivera somente porque seu primo, o Dr. Schindel. diagnosticara a sua doena como sendo uma angina.)
A suposta sabotagem ocorreu porque o supervisor alemo, engenheiro  Schoenbrun, transferira-o do torno para uma das grandes prensas de metal. Os engenheiros tinham levado uma semana para a metrificao da mquina mas a primeira vez que Dresner ligou o boto e comeou a us-la, provocou um curto-circuito que rachou uma das lminas. Schoenbrun passou uma descompostura no rapaz  e se dirigiu ao escritrio para fazer um relatrio incriminador. Cpias da queixa
Pg.325
de Schoenbrun foram datilografadas e remetidas s Sees D e W em Oranienburg, a Hassebroeck em Grss-Rosen e ao Untersturmfhrer Liepold, em seu escritrio, junto ao porto da fbrica.
Pela manh, Oskar ainda no tinha voltado. Assim, em vez de remeter os relatrios, Stern tirou-os da mala postal do escritrio e escondeu-os. A queixa dirigida a Liepold j havia sido entregue em mo mas esse oficial pelo menos foi correio, nos termos da organizao que ele servia e que no o autorizava a enforcar o rapaz at haver recebido autorizao de Oranienburg e Hassebroeck. Dois dias depois, Oskar ainda no tinha aparecido. "Deve andar numa farra e tanto!", comentavam os maliciosos na oficina. No se sabe como Schoenbrun descobriu que Itzhak estava retendo a correspondncia. Saiu furioso do seu escritrio, dizendo a Stern que o nome dele seria acrescentado aos relatrios. Stern parecia ser um homem de infinita calma; quando Schoenbrun terminou de esbravejar, o prisioneiro explicou que tinha retirado os relatrios da mala postal por achar que Herr Direktor devia, por uma questo de cortesia, ser posto a par do seu contedo antes de serem remetidos. Herr Direktor, disse Stern, ficaria naturalmente horrorizado de descobrir que o prisioneiro causara estragos no valor de 10 mil RM em uma de suas mquinas. Parecia justo, acrescentou Sern, que fosse dada a HerrSchindler a chance de acrescentar suas prprias observaes ao relatrio.
Finalmente, Oskar apareceu no seu carro. Stern interceptou-o e contou-lhe a respeito das acusaes de Schoenbrun. O Untersturmfhrer Liepold estivera esperando para falar tambm com Schindler e parecia ansioso por fazer valer sua autoridade dentro da fbrica, usando o caso de Janek Dresner como pretexto.
 Eu presidirei ao interrogatrio  disse Liepold a Oskar.  Cabe-lhe, como Herr Direktor, fornecer a declarao assinada, atestando a extenso do prejuzo.
 Espere um instante  retorquiu Oskar.  Foi a minha mquina que quebrou. Eu  que vou presidir ao interrogatrio.
Liepold argumentou que o prisioneiro estava sob a jurisdio da Seo D. Mas a mquina, respondeu Oskar, estava sob a autoridade da Inspetoria de Armamentos. Alm disso, ele realmente no podia permitir um julgamento na oficina da fbrica. Se Brinnlitz fosse uma fbrica de confeces ou de produtos qumicos, ento talvez no causasse muito impacto na produo. Mas tratava-se de uma fbrica de munies engajada na manufatura de componentes secretos.
 No permitirei que a minha fora de trabalho seja perturbada  declarou Oskar.
O argumento de Oskar venceu a discusso, talvez por que Liepold 
Pg.326 
tivesse resolvido ceder, pois tinha medo dos contatos de Oskar. Assim, o tribunal se reuniu  noite na seo de implementos de mquinas da DEF, tendo Herr Oskar Schindler como presidente; os outros membros eram Herr Schoenbrun e Herr Fuchs. Uma jovem alem sentou-se ao lado da mesa judiciria para anotar o processo e, quando o jovem Dresner foi levado para o recinto, deparou com um tribunal solene e plenamente constitudo. Segundo um edital de 11 de abril de 1944, da Seo D, o que aguardava Janek era o primeiro e crucial estgio de um processo que, em vista do relatrio de Hassebroeck e da resposta de Oranienburg, deveria terminar com o seu enforcamento na oficina da fbrica, na presena de todo o pessoal de Brinnlitz, inclusive seus pais e sua irm.
Janek notou que nessa noite no havia em Oskar o menor vestgio de sua familiaridade habitual. Conhecia a personalidade de Oskar, pelo que outros diziam, sobretudo seu pai, e agora no podia compreender o que significava a expresso severa do Herr Direktor, enquanto lia as acusaes de Schoenbrun. Estaria ele realmente indignado com o dano causado  mquina? Ou seria uma expresso estudada?
Quando a leitura terminou, o HerrDirektor comeou a fazer perguntas. No havia muito o que Dresner pudesse responder. Alegou que no estava familiarizado com a mquina. Explicou que a sua instalao apresentava dificuldades. Estava nervoso e tinha cometido um erro. Afirmou ao Herr Direktor que no tivera a menor inteno de sabotagem. Schoenbrun aparteou que, se Janek no tinha competncia para trabalhar na fabricao de armamentos, no devia estar ali. O Herr Direktor lhe afirmara que todos os prisioneiros tinham experincia na indstria de armamentos. No entanto, ali estava o Hftling Dresner, alegando ignorncia.
Com um gesto colrico,Schindler ordenou ao prisioneiro que descrevesse detalhadamente tudo o que fizera na tarde fatdica. Dresner comeou a falar sobre os preparativos para pr a mquina em funcionamento, a sua instalao, a prova dos controles, a ligao da fora, a sbita partida do motor, a ruptura do mecanismo. Enquanto Dresner falava, Herr Schindler mostrava-se cada vez mais agitado; comeou a andar de um lado para outro, fitando ferozmente o rapaz. Dresner estava descrevendo a alterao que fizera em um dos controles, quando Herr Schindler parou, de punhos cerrados, olhar furibundo.
 O que est dizendo?  perguntou ao ru.
Dresner repetiu o que tinha dito.
 Ajustei o controle de presso, Herr Direktor.
Oskar adiantou-se e aplicou-lhe um murro no queixo. A cabea de Dresner vibrou mas de alegria, pois Oskar  de costas para os outros
Pg.327
juizes  piscou-lhe o olho com uma expresso que no deixava dvida. Depois, gesticulando no ar com seus grandes braos, mandou que o rapaz se retirasse.
 A estupidez de vocs, seus malditos!  repetiu ele vrias vezes.  No posso acreditar!
Em seguida, voltando-se, apelou para Schoenbrun e Fuchs, como se eles fossem os seus nicos aliados.
 Eu gostaria que eles tivessem inteligncia bastante para sabotar uma mquina. Ento, pelo menos, eu poderia arrancar-lhes a pele! Mas o que se pode fazer com gente assim? So um total desperdcio de tempo.  Tornou a cerrar os punhos e Dresner recuou ante a ameaa de outro murro.  Fora daqui!  berrou Oskar.
Ao passar pela porta, Dresner ouviu Oskar dizer aos outros que era melhor esquecer tudo aquilo e que tinha um bom conhaque Maretell l no meu gabinete".
Essa hbil subverso pode no ter satisfeito Liepold e Schoenbrun, pois o processo no chegara a uma concluso formal; no terminara em um julgamento. Mas eles no podiam queixar-se de que Oskar tivesse evitado um interrogatrio ou tratado a questo com leviandade.
O relato que Dresner fez anos mais tarde do incidente faz supor que Brinnlitz mantinha os seus prisioneiros com vida por meio de uma srie de truques rpidos, quase mgicos. De qualquer modo, a estrita verdade  que Brinnlitz, tanto como priso quanto como empreendimento industrial, era, por sua natureza e num sentido literal, uma ininterrupta, fascinante e total tramia.
Pg. 328 
Captulo 35 
Pois a fbrica no produzia absolutamente nada. "Nem uma s granada", dizem ainda os prisioneiros de Brinnlitz, abanando a cabea. Nem uma s granada de 45mm manufaturada na DEF podia ser usada, nem um s revestimento de foguete. O prprio Oskar contrasta a produo da DEF nos anos de Cracvia com a de Brinnlitz. Em Zablocie, os utenslios esmaltados manufaturados somavam 16.000.000 RM. Em igual perodo, a seo de munies da Emalia produziu granadas no valor de 500.000 RM. Entretanto, Oskar explica que em Brinnlitz, "em consequncia da diminuio da produo de esmaltados", no havia praticamente produo alguma. A produo de armamentos, diz ele, deparou com "dificuldades de incio de produo". Mas o fato  que ele conseguiu remeter um caminho de "peas de munio" avaliadas em 35.000 RM, no decorrer dos meses em Brinnlitz. "Essas peas", informou Oskar mais tarde, "haviam sido transferidas para Brinnitz, j meio fabricadas. Fornecer menos ainda (para o esforo de guerra) era impossvel, e a desculpa de 'dificuldades de incio tornava-se cada vez mais arriscada para mim e os meus judeus, porque o Ministro de Armamentos Albert Speer aumentava seus pedidos de ms para ms."
O perigo da poltica de Oskar de no-produo era dar-lhe m reputao junto ao Ministrio de Armamentos, alm de enfurecer as outras administraes. O sistema da fbrica era fragmentado: uma oficina produzia as granadas, outra os fusos, uma terceira acondicionava explosivos e reunia os componentes. Dessa forma, segundo se raciocinava, um reide areo contra a fbrica no poderia desmantelar o escoamento das armas. As granadas de Oskar, despachadas em trens de carga para outras fbricas mais alm na ferrovia, eram inspecionadas ali por engenheiros
Pg.329
que ele no conhecia e que estavam fora de sua influncia. Os produtos da Brinnttz, invariavelmente, deixavam de ser aprovados pelo controle de qualidade. Oskar costumava mostrar as cartas com reclamaes a Stern, a Finder, a Pemper ou Carde. E soltava gargalhadas estrondosas, como se os homens que escreviam as crticas fossem burocratas de pera-bufa.
Mais tarde, ocorreu um caso semelhante no campo. Na manh de 28 de abril de 1945, Stern, Mietek e Pemper estavam no gabinete de Oskar; os prisioneiros corriam um perigo extremo, pois tinham sido, como veremos, condenados todos  morte pelo Sturmbannfhrer Hassebroeck. Nesse dia, Oskar estava completando trinta e sete anos; uma garrafa de conhaque j fora aberta para comemorar o seu aniversrio. Na mesa via-se um telegrama da fbrica de montagem de armamentos perto de Brno. O telegrama dizia que a granadas antitanques de Oskar eram to mal fabricadas que no tinham passado em nenhum dos testes de controle de qualidade. Eram calibradas imprecisamene e, pelo fato de o metal no ter sido temperado na temperatura exata, espatifavam-se quando testadas.
Oskar estava extasiado com o telegrama, passando-o a Stern e Pemper para que o lessem. Pemper recorda-se de que ele fez uma das suas declaraes fantsticas; " o melhor presente de aniversrio que eu poderia ter recebido. Porque sei agora que nenhum pobre infeliz foi morto com um produto meu."
Esse incidente revela algo sobre dois frenesis contrastantes. H certa demncia num industrial como Oskar, que se regozija quando no fabrica. Mas h tambm uma tranqila loucura no tecnocrata alemo que, j depois de Viena ter cado em mos do inimigo e de os homens do Marechal Koniev terem abraado os americanos no Elba, ainda considera que uma fbrica de armamentos no alto de uma colina tem tempo para melhorar sua performance e contribuir condignamente para os grandiosos princpios de disciplina e produo.
Mas a questo principal que se impe, com o incidente do telegrama no dia do seu aniversrio,  como Oskar pde se manter durante aqueles meses, os sete meses que precederam aquela data.
O pessoal de Brinnlitz lembra-se de uma srie de inspees e conferncias. Homens da Seo D vistoriavam a fbrica com listas na mo. O mesmo faziam os engenheiros da Inspetoria de Armamentos. Oskar sempre convidava-os para almoos e jantares, amaciava-os com presunto e conhaque. No Reich no restavam mais muitos bons almoos e jantares. Os prisioneiros, nos tomos, fornalhas, prensas de metal, notavam que os inspetores uniformizados cheiravam a lcool e cambaleavam pela fbrica. H uma histria contada por todos os prisioneiros 
Pg.330
sobre certo inspetor que se gabou, numa das ltimas visitas  fbrica, antes do trmino da guerra, que a ele Schindler no ia seduzir com agrados, almoos e bebidas. Nas escadas que levavam dos dormitrios para o andar trreo da fbrica, conta a histria que Oskar fez o homem tropear, rolar da escada, um tombo que lhe rachou a cabea e quebrou-lhe uma perna. O pessoal de Brinnlitz, entretanto, no consegue identificar ao certo quem era esse SS. H quem diga que era Rasch, chefe de polcia da Mora via. O prprio Oskar nunca mencionou o caso. A anedota  uma dessas histrias que refletem a imagem que os prisioneiros faziam de Oskar, como um protetor que abrange todas as possibilidades. E de justia,  preciso admitir que os prisioneiros tinham o direito de espalhar esse tipo de fbulas. Eram eles os que corriam maior risco. Se as fbulas lhes falhassem, seriam eles os maiores prejudicados.
Os inspetores eram tapeados na Brinnlitz, graas  inexorvel astcia dos trabalhadores categorizados de Oskar. O calibre das fornalhas era fraudulentamente manipuladopelos eletricistas. A agulha do ponteiro registrava a temperatura correia, enquanto o interior da fornalha estava de fato centenas de graus abaixo da temperatura registrada. "Escrevi aos fabricantes", dizia Oskar aos inspetores de armamentos. E adotava a expresso grave e preocupada de quem v os seus lucros se desgastarem. Culpava a oficina, os supervisores alemes incompetentes. E tornava a falar em "dificuldades de incio de produo, insinuando que haveria futuras toneladas de munies, uma vez resolvidos os problemas.
Nos departamentos de mquinas operatrizes, como nas fornalhas, tudo parecia normal. As mquinas davam a impresso de estar perfeitamente calibradas mas de fato tinham um micromilmetro a menos.
A maioria dos inspetores que l apareciam sempre saam no s munidos de cigarros e conhaque mas com uma vaga simpatiapelos espinhosos problemas que aquele bom sujeito estava enfrentando.
Mais tarde, Stern sempre diria que Oskar comprava caixotes de granadas de outros fabricantes tchecos para constar, durante as inspees, que eram de sua fabricao. Pfefferberg conta a mesma coisa.
Em todo caso, Brinnlitz perdurou graas aos estratagemas inventados por Oskar.
Havia ocasies em que, para impressionar as hostis autoridades locais, ele convidava importantes funcionrios para uma visita  fbrica e um bom jantar. Mas sempre eram homens cuja competncia nada tinha a ver com assuntos de engenharia ou produo de armamentos.
Depois da temporada do Herr Direktor na Rua Pomorska, Liepold, Hoffman e o Kreisleiter local do Partido escreveram a todas as autoridades 
Pg.331
do seu conhecimento  locais, provinciais ou de Berlim  queixando-se dele, de seu moral e conexes, denunciando suas infraes raciais e do cdigo penal. Sussmuth informou-o a respeito da quantidade de cartas que chegavam a Troppau. Oskar, ento, convidou Ernst Hahn a visitar Brinnlitz. Hahn era subcomandante do Escritrio Central de Berlim, encarregado de servios s famlias da SS. 'Tratava-se de um bbado inveterado", diz Oskar com a sua costumeira superioridade de rprobo. Hahn levou consigo um amigo de infncia, Franz Bosch, que, como Oskar j comentara na sua narrativa, era tambm "um bbado notrio". Alm disso, era o assassino da famlia Gutter. Entretanto, Oskar, engolindo o seu desprezo, deu-lhe as boas-vindas, pelo valor, como relaes-pblicas, que o sujeito tinha.
Quando Hahn chegou  cidade, estava usando exatamente a esplndida, impecvel farda que Oskar desejava, ornamentada de gales e condecoraes, pois Hahn era um SS da velha guarda, dos primeiros tempos de glria do Partido. Junto com esse deslumbrante Standartenfhrer chegou um igualmente ofuscante adjunto.
Liepold foi tambm convidado e veio de sua casa alugada fora do recinto do campo, para jantar com os visitantes. Desde o comeo da noite, ele ficou desnorteado. Porque Hahn adorou Oskar: os bbados sempre o adoravam. Mais tarde Oskar descreveria as fardas como "pomposas". Mas, pelo menos, Liepold se convenceu de que, se escrevesse cartas com queixas a autoridades distantes, era provvel que fossem parar na mesa de algum companheiro de bebida do Herr Direkor, e que isso poderia vir a representar um perigo para si mesmo.
Pela manh, Oskar foi visto atravessando Zwittau de carro, rindo com aqueles homens glamourosos de Berlim. Os nazistas locais, perfilados nas caladas, batiam continncia  passagem de todo aquele esplendor do Reich.
Hoffman no se deixou embromar to facilmente quanto os outros. As trezentas mulheres de Brinnlitz no tinham, segundo as prprias palavras de Oskar, "a menor possibilidade de trabalhar". J ficou dito que muitas delas passavam os dias tricotando. No inverno de 1944, para aqueles cujo nico agasalho era o uniforme listrado, o tric no constitua um hobby sem utilidade. Contudo, Hoffman apresentou uma queixa formal  SS a respeito da l que as mulheresSchindler tinham roubado de caixotes no anexo. Considerava o caso um escndalo, que vinha mostrar as verdadeiras atividades da suposta fbrica de munies de Schindler. Quando Oskar visitou Hoffman, encontrou o velho muito exaltado.
 Solicitamos a Berlim a sua remoo  informou Hoffman.
Desta vez inclumos declaraes autenticadas, informando que sua
Pg.332
fbrica est funcionando em infrao com as leis econmicas e raciais. Sugerimos a nomeao de um engenheiro reformado da Wehrmacht para administrar a fbrica e transform-la em algo decente.
Oskar ouviu Hoffman, pediu desculpas, tentou parecer contrito. Depois telefonou ao Coronel Erich Lange, em Berlim, e pediu-lhe que retivesse a petio da panelinha Hoffman em Zwittau. Ainda assim, para evitar um processo judicial, Oskar teve de gastar 8.000 RM e durante todo aquele inverno as autoridades de Zwittau, tanto civis como do Partido, perseguiram-no, chamando-o  prefeitura para inform- lo das queixas de vrios cidados a respeito dos seus prisioneiros ou do estado de seus escoadouros. 
A otimista Lusia teve uma experincia pessoal com inspetores SS que exemplifica o mtodoSchindler.
Lusia continuava no poro  passaria l o inverno inteiro. As outras moas haviam melhorado e foram transferidas para cima, a fm de se recuperarem. Mas parecia a Lusia que Birkenau a contaminara com um veneno de um efeito ilimitado. Sua febre no cedia; suas juntas estavam inflamadas; carbnculos se formavam em suas axilas. Quando um arrebentava e cicatrizava, outro aparecia. O Dr. Handier, contra a opinio do Dr. Biberstein, lancetou alguns com uma faca de cozinha. Lusia continuou no poro, bem alimentada, mas de uma palidez mortal, contaminada. Em toda a extenso da Europa, aquele era o nico espao em que ela podia sobreviver. Lusia sabia disso e s esperava que o imenso conflito passasse por sobre sua cabea.
Naquele buraco aquecido, no subsolo da fbrica, a noite e o dia eram irrelevantes. No momento em que a porta no alto do poro se escancarou, tanto podia ser qualquer hora do dia ou da noite. Ela estava habituada a visitas mais silenciosas de Emilie Schindler. Ouviu botas nos degraus e se retesou na cama. Soaram-lhe como uma Aktion.
Efetivamente, era Herr Direktor acompanhado de dois oficiais de Grss-Rosen. A Lusia pareceu que aquelas botas tinham vindo para espezinh-la. Oskar estava ao lado deles, enquanto olhavam na obscuridade ambiente as caldeiras e o leito da enferma. Ocorreu a Lusia que talvez ela fosse a escolhida do dia. O sacrifcio que era preciso oferecerlhes para que se fossem, satisfeitos. Estava parcialmente escondida por uma caldeira mas Oskar no fez nenhuma tentativa para escond-la e se adiantou mesmo at sua cama. Os dois cavalheiros da SS pareciam afogueados, com o andar inseguro; por isso Oskar teve chance de falar com ela. Suas palavras foram de uma estupenda banalidade mas Lusia nunca as esqueceria: "No se preocupe. Est tudo bem."
Pg.333
Postou-se bem junto da cama, como para afianar aos inspetores que no se tratava de um caso infeccioso.
 Uma judia  disse ele, tranqilamente.  Eu no quis coloc-la na Krunkenstube. Inflamao das articulaes. De qualquer jeito, est liquidada. Os mdicos no lhe do mais do que trinta e seis horas de vida.
Depois ele comeou a dissertar sobre a gua quente, de onde provinha, e o vapor para a seo de despiolhamento. Apontou para manmetros, encanamentos, cilindros. Deu a volta na cama dela como se fosse algo neutro, parte dos mecanismos. Lusia no sabia para onde olhar, se devia abrir ou fechar os olhos. Tentou parecer em coma. Talvez fosse um pouco excessivo, mas Lusia achou plausvel, no momento em que, conduzindo os SS de volta  base da escada, Oskar lhe lanou um sorriso disfarado. Permaneceria ali seis meses e retornaria  superfcie na primavera, para voltar a ser mulher em um mundo alterado.
Durante o inverno, Oskar armazenou um arsenal independente. De novo aparecem as lendas. Alguns dizem que as armas tinham sido compradas da resistncia tcheca, no final do inverno. Mas Oskar fora, em 1938 e 1939, um bvio nacionalsocialista e pode ter receado negociar com os tchecos. De qualquer modo, a maioria das armas provinha de uma fonte impecvel, do Obersturmbannfhrer Rasch, SS e chefe de polcia da Morvia. O pequeno depsito secreto inclua carabinas e armas automticas, algumas pistolas, granadas de mo. Mais tarde, Oskar descreveria a transao com a sua habitual displicncia: adquirira as armas "a pretexto de defender minha fbrica, em troca de um anel de brilhante para a mulher de Rasch". 
Oskar no d detalhes de sua atuao no gabinete de Rasch, no Castelo Spilberk, em Brno. Entretanto, no  difcil imagin-los: o Herr Direktor mostrando-se preocupado com um possvel levante dos seus escravos; com a continuao da guerra, est disposto a morrer, na sua mesa de trabalho, empunhando uma arma automtica, depois de ter,num gesto compassivo, liquidado sua mulher com uma bala, a fim de proteg-la de algo pior. O Herr Direktor menciona tambm a chance de os russos chegarem at o seu porto.
 Os meus engenheiros civis, Fuchs e Schoenbrun, os meus honestos tcnicos, a minha secretria de lngua alem, todos eles merecem que se lhes dem meios para resistir. Naturalmente, so palavras bem pessimistas. Eu preferiria falar de assuntos mais caros aos nossos coraes, Herr Obersturmbannfhrer. Sei de sua paixo por jias finas. Permite que lhe mostre esta pea, que encontrei a semana passada?
E assim o anel aparecia junto ao mata-borro de Rasch, e Oskar 
Pg.334
murmurando: "Logo que vi este anel, pensei em Frau Rasch."
Uma vez de posse das armas, Oskar nomeou Uri Bejski, irmo do falsificador de carimbos, guarda do arsenal. Uri era um rapaz de baixa estatura, bonito, cheio de vida. As pessoas notavam que ele vivia entrando no apartamento dosSchindler, como se fosse um filho. Emilie gostava muito de Uri e entregou-lhe as chaves do apartamento.FrauSchindler mantinha tambm uma relao maternal com o filho sobrevivente de Spira. Costumava lev-lo  sua cozinha e dar-lhe fatias de po com margarina.
Depois de selecionar um pequeno corpo de prisioneiros para treinamento, Uri levou um de cada vez ao depsito de Salpeter, para ensinar-lhe o manejo do Gewehr 41 W. Assim se formaram trs esquadres do comando, compostos de cinco homens cada um. Alguns daqueles treinados por Bejski eram bem jovens, como Lutek Feigenbaum; outros eram veteranos poloneses, tais como Pfefferberg, e ainda outros, que os prisioneiros deSchindler apelidaram "a turma de Budzyn".
A turma de Budzyn era constituda de oficiais judeus e integrantes do Exrcito polons, que tinham sobrevivido  liquidao do campo de trabalho de Budzyn sob a administrao do Untersturmfhrer Liepold. Este ltimo trouxera-os para o seu novo posto de comando em Brinnlitz. Eram uns cinquenta e trabalhavam nas cozinhas de Oskar. Os prisioneiros se recordam que eles eram muito politizados. Tinham sido doutrinados com o marxismo durante sua priso em Budzyn e ansiavam por uma Polnia comunista. Parecia uma ironia que, em Brinnlitz, eles vivessem nas aquecidas cozinhas do mais apoltco dos capitalistas, Herr Oskar Schindler.
Era boa a convivncia deles com o grosso dos prisioneiros, os quais, a no ser pelos sionistas, eram apenas adeptos da sobrevivncia. Vrios da turma tomavam lies particulares com Uri Bejski sobre armas automticas, pois, no Exrcito polons dos anos 30, no existiam armas to sofisticadas.                                        
Nos ltimos e mais movimentados dias do poder de seu marte em Brno  durante alguma festa ou recital de msica no castelo se Frau Rasch tivesse olhado bem no cerne do diamante, que lhe lhe fora doado por Oskar Schindler, tera visto ali refletido o seu pior pesadelo e do seu Fhrer: um judeu marxista armado. 
Pg.335
Captulo 36
Velhos companheiros de bebida de Oskar, entre outros Amon e Bosch, s vezes pensavam que ele estava sendo vtima de um vrus judaico. No se tratava de uma metfora. Acreditavam nisso em termos virtualmente literais e no culpavam em absoluto o enfermo. Tinham visto o mesmo acontecer a outros bons homens. Alguma rea do crebro era dominada por uma servido meio bacteriolgica, meio mgica. Se lhes perguntassem se era infecciosa, eles diriam que sim, altamente infecciosa. Teriam citado o caso do Oberleutnant Sussmuth, como um exemplo conspcuo do contgio. 
Oskar e Sussmuth conspiraram no decorrer do inverno de 1944-45 para transferir outras trs mil mulheres de Auschwitz, em grupos de 300 a 500 de cada vez, para pequenos campos na Morvia. Oskar fornecia sua influncia, a parte financeira, os subornos para essas transaes. Sussmuth encarregava-se da burocracia. Nas fbricas de tecelagem da Morvia havia escassez de mo-de-obra e nem todos os proprietrios abominavam a presena de judeus com tanta virulncia quanto Hoffman. Pelo menos cinco fbricas alems na Morvia  em Freudenthal e Jagerndorf, em Leibau, Grulich e Traenau  aceitaram esses grupos de mulheres e organizaram um campo em seu recinto. Nenhum desses campos era de maneira alguma um paraso, e, em sua administrao, os SS podiam ter mais autoridade do que Liepold jamais poderia esperar ter em Brinnlitz. Mais tarde, Oskar descreveria essas mulheres como "vivendo sob regime suportvel". Mas o tamanho reduzido desses campos txteis j era por si s uma ajuda  sobrevivncia das prisioneiras, pois as suas guarnies eram compostas de homens mais velhos, menos exigentes, menos fanticos. O tifo estava sempre rondando e a fome pesando no vazio das costelas. Mas esses 
Pg.336
estabelecimentos pequenos, quase rurais, em sua maioria escapavam s ordens de extermnio, que nessa primavera eram frequentes nos campos maiores.
Mas, se a septicemia judaica infectara Sussmuth, no caso de Oskar os sintomas eram galopantes. Com a conivncia de Sussmuth, Oskar tinha solicitado mais 30 metalrgicos.  um fato evidente que ele perdera o interesse em produo. Mas via, com aquele lado coerente de sua mente, que se sua fbrica quisesse ter validade de existncia junto  Seo D, ele necessitaria de mo-de-obra qualificada. Quando se exa'minam outros eventos daquele inverno insano, nota-se que Oskar queria os 30 homens extras, no por estarem eles habituados a manusear tornos e mquinas mas simplesmente porque eram mais 30 homens. No  demasiado fantstico dizer que ele os desejava com a paixo total que caracterizava o exposto corao em chamas de Jesus pendurado na parede de Emilie. Como esta narrativa tem tentado evitar a canonizao do Herr Direktor, ainda tem de ser provada a noo de que o sensual Oskar era um salvador de almas.
Um desses 30 metalrgicos, um homem chamado Moshe Henigman, deixou um relato pblico de sua inacreditvel libertao. Pouco depois do Natal, 10 mil prisioneiros das pedreiras de Auschwitz III  de estabelecimentos tais como a fbrica da armamentos Krupp Weschel-Union e a Terra e Pedra, da usina de petrleo sinttico e da fbrica de peas de avio da Farben  foram separados e encaminhados para Grss-Rosen. Talvez algum planejador acreditasse que, uma vez chegando  Baixa Silsia, eles poderiam ser distribudos entre os campos de fbricas da regio. Se era esse o esquema, no foi o que compreenderam os SS que marchavam com os prisioneiros; tampouco levaram em considerao o frio implacvel ou como ia ser alimentada a coluna. Os claudicantes, os que tossiam, eram apartados no incio de cada estgio e executados. Dos 10 mil, conta Henigman, no final de dez dias restavam vivos apenas l .200. Mais ao norte, os russos de Koniev tinham atravessado o Vstula, ao sul de Varsvia, e se apossado de todas as estradas no trajeto da coluna para o nordeste. O reduzido grupo de prisioneiros foi ento levado para um acampamento da SS prximo a Opole. O comandante local entrevistou os prisioneiros e fez-se uma lista dos trabalhadores qualificados. Mas as selees prosseguiram diaamente, e os rejeitados eram fuzilados. O homem que ouvia o seu nome sendo chamado nunca sabia o que esperar: se um pedao de po ou um tiro. Contudo, quando foi chamado o nome de Henigman, levaram-no para um vago com mais 30 outros, sob a vigilncia de um SS e um Kapo, e o trem rumou para o sul. "Deram-nos comida para a viagem", recorda Henigman. "O que nunca antes acontecera."
Pg.337
Mais tarde Henigman falou na maravilhosa irrealidade de sua chegada a Brinnlitz. "No podamos acreditar que existisse ainda um campo, em que homens e mulheres trabalhavam juntos, em que no havia espancamentos nem presena de nenhum Kapo." Sua reao  marcada por uma pequena hiprbole, pois havia segregao em Brinnlitz. Ocasionalmente, a amante loura de Oskar aplicava um tapa com a palma da mo e, certa vez, quando um menino roubou uma batata da cozinha e foi denunciado a Liepold, o comandante obrigou-o a ficar o dia inteiro em p num banco no ptio, com a batata enfiada na boca, a saliva escorrendo-lhe pelo queixo, e a tabuleta SOU UM LADRO DE batata pendendo-lhe do pescoo.
Mas, para Henigman, esse tipo de coisa no merecia ser relatado. "Como se pode descrever", pergunta ele, "a mudana do inferno para o paraso?"
Quando encontrou Oskar, recebeu a recomendao de primeiro fortificar-se. "Avise aos supervisores, quando estiver em condies de trabalhar", disse o Herr Direktor, E Henigman, ante aquela estranha inverso da poltica dos campos, sentiu que no somente chegara a um local de paz mas que estava vivendo um sonho.
Como 30 funileiros fossem apenas um fragmento dos 10 mil,  preciso repetir que Oskar era apenas um deus menor dos salvamentos. Mas como qualquer esprito tutelar, ele salvou igualmente Goldberg e Helen Hirsch, e tentou salvar a vida do Dr. Leon Gross e de Olek Rosner. Com a mesma e desinteressada equidade, ele fez uma dispendiosa transao com a Gestapo, na regio de Morvia. Sabemos que foi um contrato, mas no sabemos o quanto lhe custou. Certamente, uma fortuna.
Um prisioneiro chamado Benjamin Wrozlawski. um dos implicados na transao, pertencera anteriormente ao campo de trabalho de Gliwice. Ao contrrio do campo de Henigman, Gliwice no ficava na regio de Auschwitz mas era bastante prximo para ser considerado um dos campos subsidirios de Auschwitz. Em 12 de janeiro, quando Koniev e Zhukov lanaram a sua ofensiva, o horrendo reino de Hss e todos os seus satlites ficara na iminncia de uma captura. A providncia que se tomou foi embarcar os prisioneiros em Ostbahns e remetlos para Fernwaid. Mas Wrozlawski e um seu amigo, chamado Roman Wilner, pularam para fora do trem. Uma forma popular de fuga era atravs dos ventiladores afrouxados nos tetos dos vages. Mas os prisioneiros que se aventuravam a fugir dessa maneira frequentemente eram baleados por guardas postados no topo dos vages.
Wilner foi ferido durante a fuga mas conseguiu escapar juntamente com Wrozlawski, passando por tranquilas localidades na fronteira da 
Pg.338
Morvia. Finalmente, eles foram presos numa daquelas aldeias e levados para o centro da Gestapo em Troppau.
Assim que chegaram, foram revistados e metidos numa cela; um oficial da Gestapo apareceu e disse que nada de mal lhes ia acontecer. Mas eles no tinham motivo algum para acreditar na sua palavra. O oficial disse ainda que, apesar do ferimento de Wilner, no ia transferilo para um hospital; simplesmente ele seria levado de volta ao campo.
Wrozlawski e Wilner ficaram trancafiados numa cela durante quase duas semanas. Era preciso entrar em contato com Oskar e ser estabelecido o preo do resgate. Entrementes, o oficial continuava falando com eles, como se estivessem sob uma custdia protetora; mas os prisioneiros cada vez mais achavam a ideia absurda. Quando a porta se abriu e os dois foram levados para fora, presumiram que iam ser fuzilados. Ao invs, foram conduzidos para a estao ferroviria por um SS, que os escoltou num trem que seguia na direo sudeste, para Brno.
A chegada a Brinnlitz teve para ambos a mesma qualidade surrealista, deliciosa e inquietante, que tivera para Henigman. Wilner foi internado na clnica, sob os cuidados dos mdicos Handier. Lewkowicz, Hilfstein e Biberstein. Quanto a Wrozlawski, levaram-no para uma espcie de zona de convalescena, instalada  por medidas extraordinrias que logo seriam explicadas  a um canto do andar trreo da
fbrica. O Herr Direktor visitou ambos e perguntou como se sentiam.A pergunta despropositada alarmou Wrozlawski, assim como o local onde o haviam instalado. Temia, conforme contou anos mais tarde, que do hospital fosse levado para ser executado, como acontecia em outros campos. Passaram a aliment-lo com o substancioso mingau de Brinnlitz; Schindler frequentemente vinha v-lo. Mas Wrozlawski confessa que permanecia confuso e lhe era difcil compreender o fenmeno Brinnlitz.
Graas a um acordo entre Oskar e a Gestapo provincial, 11 fugitivos vieram aumentar a j abarrotada populao do campo. Cada um deles tinha escapulido de uma coluna ou saltado de um vago de gado. Vestindo as roupas listradas, eles tinham tentado manter-se escondidos. Normalmente, todos deviam ter sido fuzilados. 
Em 1963, o Dr. Steinberg. de Tel Aviv, testemunhou mais outro exemplo da ousada, contagiosa e indubitvel generosidade de Oskar. Steinberg era o mdico de um pequeno campo de trabalho nas montanhas Sudeten. O Gauleiter em Liberec mostrou-se menos capaz, quando a Silsia caiu nas mos dos russos, de manter os campos de trabalho fora de sua saudvel provncia da Morvia. O campo em que Steinberg estava preso era um dos muitos novos campos espalhados entre as montanhas. 
Pg.339
Era um campo da Luftwaffe, encarregado da manufatura de algum componente no-especifcado de avies. Ali viviam 400 prisioneiros. A comida era ruim, relata Steinberg, e o trabalho tremendamente duro.
A par dos rumores sobre o campo de Brinnlitz, Steinberg conseguiu um passe e tomou emprestado um caminho da fbrica para ir ver Oskar. Ao chegar, descreveu-lhe as condies desesperadoras no campo da Luftwaffe; diz ele que Oskar concordou imediatamente em ceder-lhe parte das provises de Brinnlitz. A questo principal, que preocupava Oskar, era sob que pretexto Steinberg poderia vir regularmente a Brinnlitz apanhar os sortimentos. Ficou decidido que ele usaria como desculpa obter assistncia regular dos mdicos na clnica do campo.
A partir daquela data, conforme declara Steinberg, duas vezes por semana ele ia a Brinnlitz e voltava para o seu campo com um sortimento de po, semolina, batatas e cigarros. Se aconteciaSchindler estar por perto do depsito, na hora em que Steinberg estava fazendo o carregamento, ele lhe dava as costas e afastava-se do local. Steinberg no relaciona a quantidade exata de alimentos mas d a sua opinio de mdico de que, se no fossem as provises de Brinnlitz, 50 dos prisioneiros no campo da Luftwaffe teriam morrido, antes da primavera.
A no ser o resgate das mulheres em Auschwitz, o mais espantoso de todos os salvamentos realizados por Oskar foi o dos prisioneiros da Goleszw, uma fbrica de cimento dentro de Auschwitz III, de propriedade da SS. Como se viu com os trinta metalrgicos, durante todo o ms de janeiro de 1945, os pavorosos feudos de Auschwitz estavam sendo desmantelados, e, em meados do ms, 120 trabalhadores da pedreira de Goleszw foram jogados para dentro de vages de gado. A jornada deles seria to dura quanto tantas outras mas terminaria de maneira melhor do que a maioria. Vale a pena observar que, como os homens de Goleszw, quase todos os outros prisioneiros na rea de Auschwitz estavam sendo mandados para outros locais. Dolek Horowitz foi para Mauthausen. O jovem Richard, porm, foi deixado para trs com outras crianas pequenas. Os russos iriam encontr-lo mais para o fim do ms, num campo de Auschwitz abandonado pela SS, e afirmariam veridicamente que ele e outros meninos tinham sido retidos ali para experincias mdicas. Henry Rosner e Olek, de nove anos (aparentemente no mais considerados teis para os laboratrios), partiram de Auschwitz numa coluna, obrigados a marchar cinquenta quilmetros; os que ficavam para trs eram baleados. Em Sosnowiec, foram atulhados em vages de carga. Como uma especial gentileza, 
Pg.340 
um guarda SS, encarregado de separar as crianas, deixou Olek e Henry ficarem no mesmo vago. Dentro, o vago estava to cheio que todos tinham de se manter de p.  medida que alguns homens morriam de frio e sede, um senhor, que Henry descreveu como "um judeu inteligente", ia suspendendo-os em seus cobertores nas argolas destinadas a amarrar cavalos, presas no teto. Dessa maneira sobrava um pouco mais de espao para os vivos. A fim de dar mais conforto a Olek, Henry teve a idia deix-lo em seu cobertor da mesma maneira, preso nas argolas. O menino no somente melhorou a sua posio mas, quando o trem parava em estaes ou desvios, passou a gritar para alemes l fora que jogassem bolas de neve pelos gradis do vago. A neve caa no interior e os homens lutavam por uns poucos cristais de gelo.
O trem levou sete dias para chegar a Dachau; durante esse tempo morreu a metade dos passageiros que viajavam no vago de Rosner. Quando, finalmente, a locomotiva parou e a porta se abriu, um cadver rolou l de dentro. Olek, saltando na neve, quebrou um pingente de gelo debaixo do vago e ps-se a lamb-lo desesperadamente. Assim eram as viagens na Europa, em janeiro de 1945.
Para os prisioneiros da pedreira de Goleszw foi ainda pior. O conhecimento de embarque para os seus dois vages de carga, preservado nos arquivos do Yad Vashem, mostra que eles viajaram sem comida durante mais de dez dias, com as portas trancadas e to congeladas que no podiam ser abertas. R., um rapazinho de dezesseis anos, recorda que eles raspavam o gelo das paredes internas para aliviar a  sede. Mesmo chegando a Birkenau, no foram desembarcados. O processo de matana estava em seus ltimos dias de fria. No havia tempo para se ocupar dos prisioneiros, que eram abandonados em desvios, tornavam a partir, ligados a locomotivas, que arrastavam seus vages mais uns oitenta quilmetros  e novamente desligados. Eram levados at os portes de campos, cujos comandantes se recusavam a receb-los sob a alegao inegvel de que lhes faltava valor industrial, e porque de qualquer modo facilidades  acomodaes e raes  estavam por toda parte no seu limite.
s primeiras horas de uma madrugada em fins de janeiro, eles foram desligados do trem e abandonados num desvio da estrada em Zwitau. Oskar conta que um amigo seu telefonou da estao para dizer que se ouviam gritos humanos e as paredes no interior dos vages sendo arranhadas. Os apelos eram feitos em muitas lnguas, pois os homens ali trancados eram, segundo informaes, eslovacos, poloneses, tchecos, alemes, franceses, hngaros, holandeses e srvios. O amigo que deu o telefonema era muito provavelmente o cunhado de Oskar, que lhe pediu que mandasse os dois vages para o desvio de Brinnlitz.
Pg.341
Era uma manh de um frio tenebroso  30 graus abaixo de zero, diz Stern. Mesmo o preciso Biberstein diz que a temperatura era no mnimo de 20 graus abaixo de zero. Poldek Pfefferberg foi acordado em seu leito, apanhou as ferramentas de soldagem e saiu caminhando  na neve at o desvio, para serrar as portas que o frio tornara rgidas como ferro. Ele tambm podia ouvir os gemidos espectrais vindos do interior.
 difcil descrever o que ele viu, quando finalmente as portas puderam ser abertas. Em cada vago uma pirmide de cadveres, com os membros em estranhas contores, ocupava o centro do vago. Os cem ou cento e poucos homens ainda vivos exalavam um mau cheiro terrvel, tinham a pele enegrecida pelas queimaduras do frio e estavam esquelticos. Nenhum deles pesava mais do que 35 quilos.
Oskar no se achava no desvio mas dentro da fbrica, onde um canto aquecido da oficina estava sendo preparado para receber os prisioneiros de Goleszw. As ltimas velhas mquinas de Hoffman foram desmontadas e transportadas para as garagens. Uma camada de palha foi espalhada no cho. Schindler j tinha ido ao gabinete do comandante para se entender com ele. O Untersturmfhrer Liepold no queria receber os prisioneiros de Goleszw; nisso ele era igual a todos os outros comandantes naquelas ltimas semanas. Liepold frisou que ningum podia alegar que aquela gente podia ser considerada til para a fabricao de munies. Oskar admitiu isso mas garantiu que os inscreveria no seu livro e pagaria 6 RM por dia a cada um deles. "Posso us-los depois de se recuperarem", declarou Oskar.
Liepold reconheceu dois aspectos do caso. O primeiro, que nada podia conter Oskar. O segundo, que um acrscimo no campo de Brinnlitz e nos honorrios de mo-de-obra podiam muito bem agradar Hassebroeck. Assim, Liepold se disps a registrar prontamente os homens com datas atrasadas; desde o momento em que os prisioneiros de Goleszw entraram pelo porto da fbrica, Oskar j estava pagando para t-los ali.
Dentro da oficina, eles foram enrolados em cobertores e se deitaram na palha. Emilie veio do seu apartamento, seguida de dois prisioneiros carregando um enorme caldeiro de mingau de aveia. Os mdicos trataram com unguentos as ulceraes causadas pelo frio. O Dr. Biberstein disse a Oskar que aquela gente precisava de vitaminas, embora tivesse certeza de que no se podia encontr-las na Morvia.
Entrementes, os 16 cadveres congelados foram colocados num galpo. Olhando-os, o Rabino Levartov sabia que, com aqueles membros retorcidos pelo frio, seria difcil enterr-los segundo os rituais ortodoxos, pois estes no permitiam que se quebrassem ossos. Entretanto, 
Pg.342 
Levartov sabia que a questo teria de ser discutida com o comandante. Liepold tinha instrues da Seo D determinando que a SS incinerasse os mortos. Na sala das caldeiras as condies eram perfeitas, pois as fornalhas industriais eram quase capazes de volatizar um cadver. Contudo,Schindler j recusara, por duas vezes, permisso para incinerar os mortos.
A primeira vez tinha sido quando Janka Feigenbaum falecera na clnica de Brinnlitz. Liepold ordenara imediatamente que o seu corpo fosse incinerado. Oskar soube por Stern que isso seria algo abominvel para os Feigenbaum e para Levartov, e sua resistncia  idia talvez proviesse tambm do resduo catlico de sua prpria alma. Naquele tempo, a Igreja Catlica opunha-se firmemente a cremaes. Alm de recusar a Liepold o uso da fornalha, Oskar deu ordem aos carpinteiros para fabricarem um caixo e ele prprio forneceu um cavalo e uma carroa, permitindo que Levartov e a famlia fossem escoltados por uma guarda at o bosque, onde a jovem seria enterrada. Feigenbaum pai e filho tinham caminhado atrs da carroa, contando os passos desde o porto, a fim de que, quando terminasse a guerra, eles pudessem reaver o corpo de Janka.
Liepold se enfurecia com essas concesses aos prisioneiros de Brinnlitz. Alguns deles chegam mesmo a comentar que Oskar tinha para com Levartov e a famlia Feigenbaum mais delicadeza e cortesia do que costumava ter para com Emilie.
A segunda vez que Liepold quis usar as fornalhas foi quando faleceu a velha Sra. Hofstatter. A pedido de Stern, Oskar mandou fabricar outro caixo e colocar no interior uma placa de metal com os dados biogrficos da Sra. Hofstatter. Levartov e um minyan, um quorum de dez homens que recitam o Kaddish para o defunto, tiveram permisso de deixar o campo para assistir ao funeral.
Stern diz que foi por causa da Sra. Hofstatter que Oskar fundou um cemitrio judaico na parquia catlica de Deutsch-Bielau, uma aldeia prxima do campo. Segundo ele, Oskar fora  parquia da igreja no domingo em que a Sra. Hofstatter morreu e fez uma proposta ao padre. Um conselho da parquia, convocado s pressas, concordou em vender-lhe uma pequena rea de terra logo atrs do cemitrio catlico. No resta dvida de que alguns membros do conselho resistiram  proposta, pois naquela poca a lei cannica era rigidamente interpretada em suas provises sobre quem podia e quem no podia ser enterrado em terreno consagrado.
Outros prisioneiros de certa autoridade dizem, entretanto, que o terreno para o cemitrio judaico foi comprado por Oskar, na ocasio da chegada dos vages de Goleszw com o seu dzimo de corpos retorcidos. 
Pg.343
Em um relatrio feito mais tarde, Oskar d a entender que foram os cadveres de Goleszw que o levaram a comprar o cemitrio. Segundo um relato, quando o padre da parquia apontou uma rea atrs do muro da igreja reservada aos suicidas e sugeriu que os mortos de Goleszw fossem enterrados ali, Oskar respondeu que aqueles mortos no eram suicidas mas sim vtimas de um genocdio.
De qualquer forma, os mortos de Goleszw e o falecimento da Sra. Hofstatter devem ter ocorrido mais ou menos na mesma ocasio e foram,todos sepultados com os rituais completos, no nico cemitrio judaico de Deutsch-Bielau.
E bvio, pela maneira como se referiam ao sepultamento, que a cerimnia teve uma enorme fora moral para os prisioneiros da Brinnlitz. Os corpos retorcidos desembarcados dos vages de carga pareciam menos do que humanos. V-los era como constatar a precariedade da vida. A coisa inumana no carecia de alimentao, banho, aquecimento. A nica maneira de devolver-lhe a humanidade era por meio do ritual. Portanto, os ritos de Levartov, o exaltado canto gregoriano do Kaddish adquiriam para os prisioneiros da Brinnlitz uma gravidade muito maior do que a mesma cerimnia poderia ter tido, na relativa tranqilidade da Cracvia de antes da guerra.
A fim de manter o cemitrio judaico em ordem para o caso de futuras mortes, Oskar empregou um Unterscharfhrer SS, como guardio, e lhe pagava regulammente. Emilie ocupava-se com suas prprias transaes. Munida de um mao de papis falsificados por Bejski, ela fez dois prisioneiros colocarem, num caminho da fbrica, um carregamento de vodca e cigarros e mandou que eles a levassem  grande cidade mineira de Ostrava, prxima da fronteira do Governo-Geral. No hospital militar, ela conseguiu acordos com diversos contatos de Oskar para levar de volta ao campo ungentos para queimaduras de frio, sulfa e as vitaminas que Biberstein julgava ser impossvel obter. Tais jornadas eram agora rotineiras para Emilie. Ela estava se tornando uma viajante, como o seu marido.
Aps aquelas primeiras mortes, no houve outras. Os prisioneiros que tinham vindo de Goleszw eram Mussulmen, e o princpio bsico dessa condio era a sua irreversibilidade. Mas havia em Emilie uma pertincia que no lhe permitia aceitar isso. No os deixava em paz com os seus caldeires de mingau. "Daquela gente que fora salva de Goleszw", disse o Dr. Biberstein, "ningum teria permanecido com vida sem os cuidados dela." Nas oficinas, comearam a ser vistos homens tentando parecer teis. Um dia um almoxarife judeu pediu a um deles que levasse um caixote para a oficina. "O caixote pesa trinta e 
Pg.344 
cinco quilos", disse o rapaz, "e eu peso trinta e dois. Como  que vou
poder carreg-lo?"
Naquela fbrica de mquinas ineficientes, manipuladas por espantalhos vivos, Herr Amon Goeth apareceu num dia de inverno, depois de ter sido solto da priso, para apresentar seus respeitos aos Schincdler. O tribunal libertara-o em Breslau por causa de sua diabetes. A roupa que ele usava era velha e poderia ter sido um uniforme despojado das insgnias. As especulaes quanto ao motivo dessa visita perduram at hoje. Alguns julgaram que Goeth estava em busca de um auxilio financeiro, outros que Oskar era depositrio de algo  dinheiro ou outro valor qualquer, resultado de uma ltima transao de Amon em Cracvia, e na qual Oskar talvez houvesse atuado como intermedirio de Amon. Outros, que trabalhavam no escritrio de Oskar, acreditam que Amon chegou mesmo a pedir um cargo de gerncia em Brinnlitz. Ningum poderia dizer que lhe faltava experincia. O fato  que todas as trs verses dos motivos que levaram Amon a aparecer em Brinnlitz possivelmente so correias. Mas  pouco provvel que Oskar tivesse alguma vez atuado como intermedirio de Amon.
Quando Amon passou pelo porto do campo, era visvel que a priso e as atribulaes o haviam emagrecido. Seu rosto se afilara. As feies eram mais como as com que Amon chegara a Cracvia, no Ano-Novo de 1943, para liquidar o gueto, mas ao mesmo tempo diferentes, pois agora a sua tonalidade variava entre o amarelo da ictercia e o cinza da priso. E algum, que tivesse a coragem de fit-lo nos olhos, veria neles uma nova expresso de passividade. Contudo alguns prisioneiros, erguendo os olhos de seus tornos, vislumbravam aquela figura do fundo de seus piores pesadelos, passando sorrateiramente por janelas e portas, atravessando a fbrica em direo ao gabinete de Herr Schindler. Galvanizada com aquela presena, Helen Hirsch s desejou que ele sumisse de novo. Mas outros o vaiaram, quando Amon passou, e cuspiram de lado. Mulheres mais maduras ergueram seu tric para ele num gesto de desafio. Pois havia vingana na prova de que, apesar de todos os horrores cometidos por ele, Ado ainda labutava e Eva tecia.
Se Amon desejava um emprego em Brinnlitz  e havia poucos outros lugares para onde podia ir um Hauptsturmfhrer reformado , Oskar convenceu-o a desistir da ideia, ou lhe pagou para desistir. Assim, o encontro entre os dois foi do tipo de todos os outros anteriores. Por cortesia, Oskar levou-o a dar uma volta pela fbrica; na passagem pela oficina, a reao contra Amon foi ainda mais forte. De volta ao gabinete, houve quem ouvisse Amon exigindo de Oskar que punisse os prisioneiros por aquele desrespeito e Oskar respondendo em tom vago, prometendo que faria algo a respeito daqueles judeus perniciosos e 
Pg.345 
expressando sua habitual considerao por Herr Goeth.
Embora a SS o tivesse posto em liberdade, o inqurito sobre seus negcios no cessara. Um juiz do tribunal SS aparecera em Brinnlitz, poucas semanas antes, para interrogar de novo Mietek Pemper sobre a atuao administrativa de Amon. Antes de se iniciar o interrogatrio, Liepold sussurrara a Pemper que devia ter cuidado, pois o juiz poderia querer levlo a Dachau para o executar, depois de ele ter prestado o seu testemunho.
O prudente Pemper tinha feito o possvel para convencer o juiz de que o seu trabalho, no escritrio central de Plaszvia, sempre fora sem nenhuma importncia.
De alguma forma, Amon soubera que os investigadores da SS tinham vindo atrs de Pemper. Pouco depois de chegar a Brinnlitz, ele encurralou o seu ex-datilgrafo num canto do escritrio de Oskar, querendo saber que perguntas o juiz lhe fizera. Pemper julgou ver, com justa razo, nos olhos de Amon, um ressentimento por seu antigo prisioneiro ser ainda uma fonte viva de testemunho para o tribunal da SS. Evidentemente, Amon devia se sentir impotente ali, emagrecido, acabrunhado em seu velho uniforme, superado pela autoridade de Oskar. Mas nunca se podia ter certeza. Continuava sendo Amon, e tinha o hbito de comandar.
 O juiz me proibiu de falar com quem quer que seja sobre o meu interrogatrio  respondeu Pemper.
Amon mostrou-se indignado e ameaou ir queixar-se a Herr Schincdler. A ameaa, como se pode calcular, d a medida da nova impotncia do ex-comandante de Plaszvia. Nunca antes ele tivera de recorrer a Oskar para que um prisioneiro fosse castigado.
Quando da segunda noite da visita de Amon, as mulheres j estavam se sentindo triunfantes. Ele no as podia tocar. At Helen Hirsch, elas conseguiram persuadir a no tem-lo. Mas ainda assim, o sono de Helen voltara a ser inquieto.
A ltima vez que Amon foi avistadopelos prisioneiros j estava se preparando para tomar o carro que o levaria  estao ferroviria de Zwittau. Nunca antes Amon fizera trs visitas a algum lugar, sem causar a desgraa de algum pobre miservel. Era bvio agora que ele no tinha mais poder algum. Todavia, nem todos os prisioneiros estavam armados de suficiente coragem para encar-lo, antes de sua partida. Trinta anos mais tarde, no sono dos veteranos de Plaszvia em Buenos Aires ou Sydney, em Nova York ou Cracvia, em Los Angeles ou Jerusalm, Amon continuava sendo uma imagem de pavor.
Quando se olhava para Goeth  disse Pfefferberg  o que se via era a cara da morte.
Assim, nos seus prprios termos, Amon Goeth nunca fracassou totalmente.
Pg.346 
Captulo 37 
Quando Oskar completou 37 anos, o aniversrio foi comemorado por ele prprio e todos os seus prisioneiros. Um dos metalrgicos tinha manufaturado uma pequena caixa para botes de camisa e abotoaduras; quando o Herr Direktor apareceu na oficina, Niusia Horowitz, a menina de doze anos de idade, foi empurrada para a frente, a fim de pronunciar em alemo a sua pequena saudao ensaiada.
 Herr Direktor  disse ela num tom de voz que ele teve de se curvar para ouvir , todos os prisioneiros lhe desejam um feliz aniversrio.
Era um Shabbat, o que vinha a calhar, pois a populao de Brinnlitz sempre se lembraria da data como festiva. De manh cedo,  hora em que Oskar comeou a comemorar o aniversrio com conhaque Martell em seu gabinete, exibindo um telegrama insultuoso dos engenheiros de Brno, dois caminhes carregados de po branco entraram no ptio do campo. Uma parte da mercadoria foi para a guarnio e at mesmo para Liepold que, depois do que bebera na vspera, estava dormindo at tarde em sua casa na aldeia. Essas ddivas eram necessrias para impedir que a SS reclamasse da maneira pela qual Herr Direktor favorecia os prisioneiros. Estes receberam cada um trs quartos de um quilo de po. Examinavam o po, enquanto o saboreavam. Havia especulaes a respeito de onde Oskar o conseguira em tal quantidade.Talvez a explicao em parte estivesse na boa vontade de Daubek, o gerente local do moinho, que virava de costas, enquanto os prisioneiros de Brinnlitz enchiam de farinha as calas. Mas naquele sbado o po foi realmente comemorado mais em termos da magia do evento.
Embora o dia seja lembrado como festivo, no havia de fato muito 
Pg.347
motivo para jbilo. No decorrer da semana anterior, chegara um telegrama do Herr Commandant Hassebroeck de Grss-Rosen dirigido a Liepold de Brinnlitz, dando-lhe instrues a respeito das providncias a tomar com relao aos prisioneiros do campo, no caso de uma aproximao dos russos. Devia-se proceder a uma seleo final, dizia o telegrama de Hassebroeck. Os velhos e os incapacitados seriam imediatamente fuzilados e os em boas condies de sade levados para fora do campo em direo a Mauthausen.
Ainda que os prisioneiros na oficina da fbrica nada soubessem a respeito do telegrama, sentiam um medo instintivo de algo semelhante.Durante toda aquela semana tinham-se espalhado rumores de que poloneses haviam sido trazidos para cavar imensas sepulturas nos bosques adiante de Brinnlitz. O po branco parecia ter chegado como um antdoto daqueles rumores, uma garantia de futuro. Contudo, a impresso geral era que comeara uma era de perigos mais sutis do que os do passado.
Se os operrios de Oskar nada sabiam sobre o telegrama, o mesmo acontecia com o prprio Herr Commandant Liepold. O telegrama fora entregue primeiro a Mietek Pemper no escritrio contguo ao gabinete de Liepold. Pemper abrira-o no vapor, tornara a fech-lo e levara-o diretamente a Oskar, que o leu e depois voltou-se para Mietek.
 Muito bem  rosnou ele.  Vamos ter de dizer adeus ao Untersturmfhrer Liepold.
Pois tanto a Oskar como a Pemper parecia que Liepold era o nico SS na guarnio capaz de obedecer a um tal telegrama. O vice-comandante era um homem de quarenta e tantos anos, um Oberscharfhrer chamado Motzek. Ainda que Motzek fosse capaz de matar motivado pelo pnico, proceder ao frio assassinato de l .300 seres humanos estava alm das suas foras.
Dias antes do seu aniversrio, Oskar fez uma srie de queixas confidenciais a Hassebroeck a respeito do comportamento excessivo do Herr Commandant Liepold. Em seguida, visitou Rasch, o influente chefe de polcia de Brno, e fez a mesma espcie de acusaes contra Liepold. Mostrou a ambos, Hassebroeck e Rasch, cpias de cartas que tinha escrito ao General Glcks, em Oraniemburg. Oskar estava contando que Hassebroeck se lembrasse de generosidades passadas e da promessa de futuras vantagens se resolvesse a fazer presso para a transferncia de Liepold, sem se dar ao trabalho de investigar o comportamento do Untersturmfhrer com relao aos prisioneiros de Brinnlitz.
Era uma manobra caracterstica deSchindler  a mesma que aplicara no jogo de cartas com Amon. A aposta agora abrangia a salva 
Pg.348 
guarda de todos os homens de Brinnlitz, de Hirsch Krischer, Prisioneiro N? 68821, mecnico de automveis de 48 anos, a Jarum Kiaf, Prisioneiro N? 77196, operrio no-especializado e sobrevivente dos vages de Goleszw; e inclua tambm as mulheres, Berta Aftergut de 29 anos, metalrgica, N 76201, e Jenta Zwetschenstiel, de 36 anos. N? 76500.
Oskar reforou as queixas contra Liepold, com um convite ao comandante para jantar no seu apartamento, dentro da fbrica. Era o dia 27 de abril, vspera do aniversrio deSchindler. Por volta das onze horas daquela noite, os prisioneiros que trabalhavam na fbrica espantaram-se ao ver o comandante embriagado cambaleando pela oficina, apoiado ao sbrio HerrDirektor. Em sua passagem, Liepold tentou focalizar trabalhadores individualmente. Esbravejando, ele apontou para a grande viga mestra acima das mquinas. O Herr Direktor at ento o mantivera fora da oficina mas agora ali estava ele, a definitiva autoridade punidora.
 Malditos judeus!  berrou ele.  Esto vendo aquela viga?  l que vou enforcar vocs. Todos vocs!
Oskar guiou-o pelo ombro, murmurando-lhe:
 Muito bem, muito bem. Mas no esta noite, no lhe parece?
Em alguma outra ocasio...
No dia seguinte, Oskar procurou Hassebroeck e outros com as suas previsveis acusaes. O homem perambula bbado pela oficina, esbravejando ameaas de execues imediatas. Eles no so operrios! So tcnicos altamente especializados, empenhados na manufatura de armas secretas etc. etc. E ainda que Hassebroeck fosse responsvel pela morte de milhares de trabalhadores das pedreiras, e acreditasse que toda a mo-de-obra judaica devia ser liquidada, quando os russos avanassem, no podia deixar de concordar que a fbrica de Herr Schindler devia ser tratada como um caso especial.
Liepold, disse Oskar, estava sempre declarando que gostaria de ir para a frente de batalha. Era jovem, era saudvel, estava disposto. "Est bem", respondera Hassebroeck, "vou ver o que se pode fazer a respeito." Enquanto isso, o prprio Comandante Liepold passou o aniversrio de Oskar de cama, refazendo-se do jantar da vspera.
Em sua ausncia, Oskar fez um espantoso discurso de aniversrio. Estivera comemorando o dia todo mas ningum se lembra de falta de clareza nas suas palavras. No temos em mo o texto desse discurso, mas h outro, pronunciado dez dias depois, na noite de 8 de maio, do qual possumos uma cpia. Segundo os que os ouviram, ambos os discursos seguiam a mesma linha de pensamento, isto , ambos continham promessas de sobrevivncia.
Todavia, cham-los de discursos  reduzir-lhes a finalidade. O que 
Pg.349 
Oskar estava tentando, instintivamente, era  a realidade, alterar a imagem que tanto os prisioneiros como os SS faziam de si mesmos. Muito antes, com obstinada certeza, ele garantira a uma turma de seus operrios, entre eles Edith Liebgold, que sobreviveriam  guerra. E adotara o mesmo dom de profecia, quando recebera as mulheres de Auschwitz, naquela manh de novembro, e lhes declarara: "Agora esto a salvo, esto comigo." No se pode ignorar que, em outra poca e em outras condies, o Herr Direktor poderia ter-se tornado um demagogo, no estilo de Huey Long, de Louisiana, ou John Lang, da Austrlia, cujo dom era convencer os ouvintes de que eles estavam todos unidos para escapar por um triz s maldades dos outros homens.
O discurso de aniversrio de Oskar foi em alemo,  noite, na oficina, para os prisioneiros ali reunidos. Um destacamento da SS teve de ser chamado para montar guarda numa reunio to ampla; tambm estavam presentes os empregados civis alemes. Quando Oskar comeou a falar, Poldek Pfefferberg ficou de cabelo em p. Olhou em redor as fisionomias impassveis de Schoenbrun e Fuchs, e as dos SS com suas armas automticas. "Vo matar esse homem", pensou ele. "E ento tudo estar perdido." 
O discurso frisava duas promessas principais. Em primeiro lugar, a grande tirania estava chegando ao seu final. Falava dos guardas SS, postados junto s paredes, como se eles tambm estivessem presos e ansiando por serem "libertados. Muitos deles, explicou Oskar aos prisioneiros, haviam sido recrutados, sem o prprio consentimento, para a Waffen SS. A segunda promessa de Oskar era que ele permaneceria em Brinnlitz at ser anunciado o trmino das hostilidades. "E mais cinco minutos", acrescentou. O discurso, como os ltimos pronunciamentos de Oskar, acenava para os prisioneiros com a promessa de um futuro, ao mesmo tempo que anunciava a sua irredutvel inteno de no deixar que eles fossem parar nas valas comuns nos bosques. Lembravalhes o quanto investira neles e os fez criar novo nimo.
Contudo, pode-se imaginar o quanto as palavras de Oskar confundiram os SS que as estavam ouvindo. Tranquilamente, ele insultara a organizao da SS. Pemper saberia, pela reao dos guardas, se eles iam protestar ou engolir o que fora dito. Oskar advertia-os tambm de que permaneceria em Brinnlitz at o fim, e que portanto seria uma testemunha.
Mas Oskar no se sentia to otimista quanto parecia. Mais tarde, confessou que, na ocasio, estava preocupado com qual seria a atuao das unidades militares com relao a Brinnlitz, quando batessem em retirada da zona de Zwittau. Chegou mesmo a dizer: "Estvamos em pnico com o que os guardas SS poderiam fazer, em desespero de
Pg.350
causa." Deve ter sido um pnico mudo, pois prisioneiro algum, comendo o po branco do aniversrio, parece ter percebido. Oskar estava tambm preocupado com o fato de algumas unidades de Vlasov terem sido postadas nos arredores de Brinnlitz. Essas tropas eram membros da ROA, o Exrcito Russo de Liberao, formado no ano anterior, a mando de Himmler, com vastas fileiras de prisioneiros russos no Reich, e comandadas pelo General Andrei Vlasov, um ex-general sovitico capturado trs anos antes diante de Moscou. Constituam uma tropa perigosa para a populao de Brinnlitz, pois seus componentes sabiam que Stalin iria quer-los de volta para um castigo especial e que os Aliados os devolveriam  Rssia. Portanto, as unidades de Viasov estavam tomadas de violento desespero eslavo, que alimentavam com vodca. Quando batessem em retirada, em busca das tropas americanas a oeste, ningum sabia que atrocidades poderiam cometer.
Dois dias depois do aniversrio de Oskar, vrias ordens chegaram  mesa de Liepold. Uma delas anunciava que o Untersturmfhrer Liepold havia sido transferido para o batalho de artilharia Waffen SS,nas proximidades de Praga. Embora Liepold no pudesse ter ficado radiante com a ordem, parece que fez suas malas e partiu, sem protestar. Dissera muitas vezes nos jantares oferecidos por Oskar, sobretudo aps a segunda garrafa de vinho tinto, que teria preferido estar numa unidade de combate. Ultimamente, um bom nmero de oficiais graduados, da Wehrmacht e da SS, comandando as foras em retirada,comparecera a jantares no apartamento do HerrDirektor. As conversas  mesa eram sempre no sentido de incitar Liepold a tomar parte ativa nos combates. Ele nunca se havia deparado com as provas que os outros convidados possuam, de que a causa estava perdida.
 pouco provvel que Liepold tenha procurado falar com Hassebroeck, antes de sua partida. As comunicaes telefnicas eram precrias, pois os russos tinham cercado Breslau e estavam bem prximos de Grss-Rosen. Mas a transferncia no teria surpreendido ningum da roda de Hassebroeck, pois Liepold frequentemente fizera diante deles profisso de patriotismo. Portanto, deixando o Oberscharfhrer Motzek no comando de Brinnlitz, Josef Liepold partiu para os campos de batalha, um linha-dura que obteve o que desejara.
Com Oskar, os acontecimentos no se fizeram esperar silenciosamente. Nos primeiros dias de maio, ele descobriu, no se sabe bem como  talvez at com telefonemas a Brno, onde as linhas ainda estavam funcionando , que um dos armazns onde costumava negociar tinha sido abandonado. Com meia dzia de prisioneiros, Oskar partiu de caminho para saquear o armazm. Havia vrios bloqueios nas estradas 
Pg.351 
para o sul; em cada um eles exibiam seus papis mirabolantes, forjados, segundo narrou Oskar, "com carimbos e assinaturas das altas autoridades de polcia da SS na Morvia e Bomia". Quando chegaram ao armazm, encontraram o prdio cercado pelo fogo. Os depsitos militares das vizinhanas haviam sido incendiados e tambm houvera reides areos com bombas incendirias. Na direo do interior da cidade, onde a guerrilha tchecoslovaca estava lutando de casa em casa com a guarnio, podiam-se ouvir tiroteios. Herr Schindler deu ordem ao caminho para recuar at a plataforma de carga do armazm, arrombou as portas e descobriu que o interior estava repleto de cigarros de uma marca chamada Egipski.
Apesar desta e de outras despreocupadas pilhagens, Oskar assustou-se com os boatos, provenientes da Eslovquia, de que os russos estavam executando a esmo civis alemes. Mas, pelo noticirio da BBC de Londres, que ouvia todas as noites, ele se reconfortou ao saber que a guerra poderia terminar antes de os russos alcanarem a rea de Zwittau.
Os prisioneiros tambm tinham acesso indireto  BBC e sabiam da realidade dos fatos. Durante toda a permanncia em Brinnlitz, os tcnicos de rdio Zenon Szenwich e Artur Rabner consertavam permanentemente um ou outro dos rdios de Oskar. Na oficina de solda, Zenon ouvia com um audiofone o noticirio das duas horas da tarde da Voz de Londres. Durante o turno da noite, os soldadores ligavam o rdio para ouvir as notcias das duas horas da madrugada. Certa noite,um guarda SS, ao entrar na fbrica para levar um recado ao escritrio, descobriu trs prisioneiros em redor de um rdio. "Estvamos consertando o aparelho para o Herr Direktor'', desculparam-se eles, "e s um minuto atrs conseguimos faz-lo funcionar."
No incio do ano, os prisioneiros esperavam que a Morvia seria tomada pelos americanos. Como Eisenhover tinha parado no Elba, eles agora sabiam que a Morvia cairia na mo dos russos. O crculo de prisioneiros mais prximos de Oskar estava compondo uma carta em hebraico, explicando quem era ele. A carta poderia ser eficaz, se apresentada s foras americanas, que no somente tinham um considervel componente judaico mas tambm rabinos de campanha. Assim,Stern e o prprio Oskar consideravam de importncia vital que o Herr Direktor fosse encontrado primeiro pelos americanos. Em parte, a deciso de Oskar era influenciada pela caracterstica idia que a Europa Central fazia dos russos, considerando-os brbaros, homens de uma religio estranha e duvidosa humanidade. Mas,  parte essa idia, se alguns dos relatos do leste mereciam crdito, os seus receios se justificavam. 
Pg.352
Isso, porm, no o debilitava. Estava atento e em febril expectativa quando, na madrugada de 7 de maio, lhe chegou a notcia, transmitida pela BBC, da rendio da Alemanha. A guerra na Europa ia cessar  meia-noite do dia seguinte, tera-feira, 8 de maio. Oskar acordou Emilie, e o tresnoitado Stern foi chamado ao gabinete do Herr Direktor para comemorarem juntos a rendio. Stern via que Oskar estava confiante quanto  guarnio da SS, mas ter-se-ia alarmado, se pudesse adivinhar como ele iria demonstrar nesse dia a sua confiana.
Na oficina, os prisioneiros mantinham as suas rotinas. Talvez at tivessem trabalhado melhor do que nos outros dias. Mas  tarde, o Herr Direktor desfez aquela falsa aparncia de normalidade, transmitindo pelo alto-falante para todo o campo o discurso de Churchill anunciando a vitria. Lutek Feigenbaum, que compreendia ingls, parou, atnito, junto  sua mquina. Para outros, a voz rouquenha de Churchill marcou a primeira vez, que, depois de tantos anos, eles ouviam a lngua que iriam falar no Novo Mundo. A voz personalssima, to familiar quanto a do Fhrer, agora morto, espalhou-se at os portes e torres de vigia, mas a SS recebeu-a com sobriedade. Suas mentes no mais se voltavam para o interior do campo. Seus olhos, como os de Oskar,se focalizavam  porm com muito mais agudeza  nos russos. De acordo com um telegrama anterior de Hassebroeck, eles deveriam estar em atividade nos bosques verdejantes. Ao invs, esperando pelo soar da meia-noite, fitavam o rosto negro da floresta, especulando se l haveria guerrilheiros. Um agitado Oberscharfhrer Motzek mantinha-os em seus postos e o dever tambm ali os mantinha. Pois o dever,como tantos dos seus superiores iriam alegar perante os tribunais, era a prpria essncia da SS.
Naqueles dois dias inquietos, entre a declarao da paz e sua efetivao, um dos prisioneiros, um ourives chamado Licht, estivera fazendo um presente para Oskar, algo mais expressivo do que a caixinha de metal para abotoaduras, que lhe dera no seu aniversrio. Licht estava trabalhando com ouro de uma original provenincia, que lhe fora fornecido pelo velho Sr. Jereth da fbrica de embalagens. Ficara combinado  at os homens de Budzyn, marxistas convictos, sabiam disso  que Oskar teria de fugir depois da meia-noite. A vontade de marcar essa fuga com uma pequena cerimnia era a preocupao do grupo  Stem,Finder, Garde, os Bejski, Pemper  mais ligado a Oskar. Num momento em que eles prprios no tinham certeza se chegariam a ver a paz,  admirvel que se preocupassem com presentes de despedida.
No entanto, s dispunham de metal inferior. Foi o Sr. Jereth quem sugeriu algo melhor. Abriu a boca para mostrar a sua ponte de ouro. 
Pg.353
Se no fosse por Oskar. disse ele, a SS teria ficado com este ouro.Meus dentes estariam numa pilha em algum depsito da SS, juntamente com o ouro das bocas de Lublin, Lodz, e Lww. 
Era,  claro, uma oferta adequada, e Jereth foi insistente. Mandou que um prisioneiro, que tivera alguma prtica odontolgica em Cracvia, lhe arrancasse a ponte. Licht derreteu o ouro e, na tarde de 8 de maio, estava gravando numa placa uma inscrio em hebraico.Era um verso talmdico, que Stern citara para Oskar no escritrio de Buchheister, em outubro de 1939. "Aquele que salva uma s vida salva o mundo inteiro."
Nessa tarde, numa das garagens da fbrica, dois prisioneiros estavam ocupados removendo o estofo do teto e das portas do Mercedes de Oskar, a inserindo pequenos sacos com os diamantes de Herr Direktor e recolocando cuidadosamente o forro de couro de forma a deixar a superfcie lisa. Para eles, tambm, era um dia estranho. Quando saram da garagem, o sol estava se pondo por detrs das torres, onde os caminhes continuavam carregados mas fatidicamente inativos. Era como se o mundo inteiro estivesse esperando por uma palavra decisiva.
A palavra decisiva parece ter sido transmitida  noite. De novo,como no seu aniversrio, Oskar deu instrues ao comandante para reunir os prisioneiros na oficina da fbrica. De novo os engenheiros alemes e as secretrias, j com os seus planos de fuga arquitetados, compareceram  reunio.
Entre eles achava-se Ingrid, a amante do Herr Direktor. Ela no partiria de Brinnlitz na companhia de Schindler. Ia fugir com o seu irmo, um jovem veterano de guerra que um ferimento aleijara. Considerando que Oskar dava-se a tanto trabalho para prover seus prisioneiros com artigos negociveis,  provvel que tenha fornecido  sua amante meios de sobrevivncia. Mais tarde, os dois iriam encontrar-se, em termos amistosos, em alguma parte no Ocidente.
Como no discurso de aniversrio de Oskar, guardas armados estavam postados junto s paredes. Ainda faltavam seis horas para a guerra terminar e os SS tinham jurado jamais abandonar seus postos.Olhando-os, os prisioneiros tentavam calcular o que lhes ia no ntimo.
Quando foi anunciado que o Herr Direktor ia falar novamente,duas prisioneiras que eram taqugrafas, a Srta. Waidmann e a Sra. Berger, apanharam cada uma lpis e papel e se prepararam para anotar o que ele diria.
Por se tratar de um discurso ex tempore, pronunciado por um homem que sabia que logo se tornaria um fugitivo, era mais enftico falado do que na verso escrita Waidmann-Berger. Ele repetia os termos do seu discurso de aniversrio mas parecia torn-los conclusivos, tanto 
Pg.354
para os prisioneiros quanto para os alemes. Declarava os prisioneiros os herdeiros da nova era; confirmava que todos os outros ali presentes  os SS, ele prprio, Emilie, Fuchs, Schoenbrun  estavam agora precisando ser resgatados.
"A rendio incondicional da Alemanha", disse ele, "acaba de ser anunciada. Aps seis anos de matana cruel de seres humanos, as vtimas esto sendo pranteadas e a Europa agora est tentando voltar  paz e  ordem. Eu gostaria de lhes pedir  a todos os que juntamente comigo viveram esses to duros anos  que mantenham uma ordem e  disciplina incondicionais, a fim de que possam dentro de poucos dias retornar aos seus lares destrudos e saqueados, buscando sobreviventes de suas famlias. Dessa forma, evitaro o pnico, cujas consequncias seriam imprevisveis.''
No se referia,  claro, a pnico entre os prisioneiros. Referia-se a pnico entre os homens postados junto s paredes. Estava convidando os SS a partirem e os prisioneiros a deixar que eles se fossem. O General Montgomery, disse ele, comandante das Foras Aliadas em terra, proclamara que se devia agir de um modo humano para com os vencidos, e todos  ao julgar os alemes  precisavam diferenciar a culpa do dever. "Os soldados na frente de batalha, assim como os homens que cumpriam o seu dever no devem ser responsabilizados pelos atos de um grupo que se dizia alemo."
Oskar estava fazendo a defesa de seus compatriotas, a qual todo prisioneiro que sobrevivera at aquela noite iria ouvir reiteradamente mil vezes nos anos vindouros. Entretanto, se algum adquirira o direito de fazer essa defesa e de lhes darem ouvidos com  pelo menos  tolerncia, esse algum certamente era Herr Oskar Schindler.
"O fato de milhes entre vocs, seus pais, filhos, irmos, terem sido aniquilados mereceu a desaprovao de milhares de alemes e, mesmo nos dias de hoje, milhes deles ignoram a extenso desses horrores." Oskar acrescentou que, pelos documentos e relatos encontrados em Dachau e Buchenwaid no comeo daquele ano, e seus detalhes transmitidos pela BBC, muitos alemes tinham sabido "dessa monstruosa destruio". Portanto, mais uma vez ele lhes pedia que agissem de um modo justo e humano, que deixassem a justia ao encargo dos que eram autorizados a aplic-la. "Se tiverem de acusar uma pessoa, faam a acusao na direo certa. Pois na nova Europa haver juzes, juzes incorruptveis, que sabero fazer justia."
Em seguida, ele falou do seu relacionamento com os prisioneiros naquele ltimo ano. Seu tom era quase nostlgico mas temia tambm ser julgado em conjunto com os Goeths e os Hassebroecks.
"Muitos de vocs sabem das perseguies, chicanas e obstculos 
Pg.355 
que, a fim de proteger os meus trabalhadores, tive de vencer durante esses anos passados. Se j era difcil proteger os modestos direitos do trabalhador polons, arranjar-lhe trabalho e impedir que fosse mandado  fora para o Reich, defender o seu lar e suas pequenas propriedades  a tarefa de proteger o trabalhador judeu muitas vezes parecia insupervel."
Oskar descreveu algumas das dificuldades e agradeceu-lhes por terem-no ajudado a satisfazer as exigncias das autoridades responsveis pelos armamentos. Em vista da escassez de produo de Brinnlitz,os agradecimentos soavam irnicos. Mas no eram proferidos com ironia. O que o Herr Direktor estava dizendo, num sentido bem literal era: "Obrigado por me ajudarem a passar a perna no sistema."
Prosseguiu em seu apelo ao pessoal de Brinnlitz: "Se aps uns poucos dias aqui, as portas da liberdade se abrirem para vocs, lembrem-se de quanta gente nos arredores da fbrica procurou ajud-los com alimentos e roupas. Esforcei-me ao mximo para lhes fornecer mais alimento e prometo fazer o mximo, no futuro, para proteg-los e salvaguardar-lhes o po de cada dia. Continuarei a fazer tudo o que puder por vocs at cinco minutos depois da meia-noite.
"No invadam as casas das vizinhanas para roubar e saquear.Provem que so dignos dos milhes de vtimas desta guerra e abstenham-se de praticar atos individuais de vingana e terror."
Confessou que os prisioneiros jamais tinham sido bem-vindos na regio. "Os judeus Schindler eram tabu em Brinnlitz." Mas existiam preocupaes maiores do que vingana local. "Confio aos Kapos e contramestres a tarefa de manter a ordem nesse campo, no interesse da proteo de todos vocs. Agradeam a Daubek, gerente do moinho,cujos esforos para arranjar-lhes mais alimento foi alm das raias da possibilidade. Em nome de vocs todos, agradeo agora ao bravo Daubek, que tanto fez pelo nosso campo.
"No me agradeam pela sua sobrevivncia, mas sim  sua gente,que trabalhou dia e noite para salv-los do extermnio. Agradeam aos destemidos Stern e Pemper e uns poucos outros que, pensando em vocs e preocupados com a sua sorte, especialmente em Cracvia, diariamente enfrentaram a morte. A honra neste momento torna um dever nosso vigiar e manter a ordem, enquanto estivermos juntos aqui. Peo-lhes, insistentemente, que no tomem seno decises humanas e justas. Quero agradecer aos meus colaboradores pessoais pelo quanto se sacrificaram para me ajudar na minha tarefa."
O discurso de Oskar, passando de um tema a outro, repetindo pontos de vista, retornando desordenadamente a outros, atingiu o mximo de sua temeridade. Voltando-se para a guarnio SS, agradeceu-lhes 
Pg.356 
por terem resistido  barbaridade de sua misso. Alguns prisioneiros pensaram: "Ele nos pediu para no provocarmos esses guardas mas o que est ele prprio fazendo?" Pois a SS era a SS, de Goeth e John e Hujar e Scheidt. Havia coisas que um membro da SS aprendia, coisas que fazia e via, que limitavam a sua humanidade. Os prisioneiros achavam que Oskar estava agora desafiando perigosamente esses limites.
"Eu gostaria", continuou ele, "de agradecer aos guardas SS aqui reunidos que, sem serem consultados, foram convocados pelo Exrcito e pela Marinha para este servio. Como chefes de famlias, h muito eles j se deram conta do quanto a sua tarefa era desprezvel e insensata. Neste campo agiram de um modo excepcionalmente humano e correto."
O que os prisioneiros no percebiam, atnitos e um tanto estimulados com a ousadia de Herr Direktor, era que Oskar estava terminando a tarefa que comeara na noite de seu aniversrio. Estava anulando os SS como combatentes. Pois, se eles ficavam ali, imveis, engolindo aquela verso do que era "humano e correto", ento nada mais lhes restava fazer a no ser abandonar o campo.
"E finalmente", disse Oskar, "solicito a todos que mantenham um silncio de trs minutos em memria das inmeras vtimas, que pereceram nestes anos cruis."
Todos obedeceram. O Oberscharfhrer Motzek, Helen Hirsch, Lusia, que s na semana anterior deixara o poro, Schoenbrun, Emilie e Goldberg, ansiosos para que o tempo passasse, ansiosos por abandonar o campo, mantinham-se em silncio entre as gigantescas mquinas Hilo no final da mais ruidosa das guerras.
Terminados os trs minutos de silncio, os guardas SS abandonaram rapidamente o recinto. Os prisioneiros permaneceram. Olharam em seu redor, em dvida se eram agora realmente os donos do campo. Quando Oskar e Emilie se encaminhavam para o seu apartamento a fim de fazer as malas, os prisioneiros os rodearam. O anel de Licht foi oferecido. Oskar levou algum tempo admirando-o; mostrou a inscrio a Emilie e pediu a Stern que a traduzisse. Quando perguntou onde eles tinham arranjado o ouro e soube que era a ponte dentria de Jereth, os que o cercavam pensaram que ele ia rir; Jereth fazia parte do comit e, exibindo um sorriso banguela, j esperava por uma caoada. Mas Oskar, com um gesto solene, colocou o anel no dedo.Embora ningum houvesse realmente compreendido o que estava acontecendo, aquele era o instante em que os prisioneiros tinham acabado de readquirir sua identidade, e em que Oskar Schindler passara a depender das suas ddivas. 
Pg.357
Captulo 38 
Nas horas que se seguiram ao discurso de Oskar, a guarnio SS comeou a desertar. Dentro da fbrica, aos comandos selecionados entre o pessoal de Budzyn e outros elementos da populao presidiria, j haviam sido distribudas as armas que Oskar armazenara. Esperava-se poder desarmar os SS em vez de travar luta com eles. No seria prudente, como explicara Oskar, atrair ao campo unidades exacerbadas, batendo em retirada. Mas a no ser que se chegas-se a um improvvel acordo, as torres iam ter de ser tomadas com granadas.
A verdade, entretanto, foi que os comandos tiveram apenas de formalizar o desarmamento descrito no discurso de Oskar. Os guardas no porto principal entregaram quase com gratido as suas armas. Nos degraus escuros que levavam ao quartel da SS, Poldek Pfefferberg e um prisioneiro chamado Jusek Horn desarmaram o Comandante Motzek, Pfefferberg espetando as costas do homem com o dedo e Motzek, como qualquer homem normal de mais de quarenta anos e ansioso por rever o seu lar, implorando-lhes que o poupassem. Pfefferberg tomou a pistola do comandante; Motzek, aps uma curta deteno, em que gritou pelo Herr Direktor para salv-lo, foi solto e ps-se a caminho de casa.
As torres, sobre a tomada das quais Uri e outros companheiros deviam ter passado horas especulando e planejando, j haviam sido abandonadas. Alguns prisioneiros, com armas entregues pelas guarnies, foram colocados nas torres para indicar a quem passasse por l que a velha ordem continuava a ser mantida ali.
Quando soou a meia-noite, no havia homens ou mulheres SS visveis no campo. Oskar chamou Bankier ao seu gabinete e lhe entregou 
Pg.358 
a chave de um depsito especial. Tratava-se de um depsito de reabastecimentos navais e estivera situado, at a ofensiva russa na Silsia, em alguma parte na regio de Katowice. Sua finalidade era provavelmente reabastecer as tripulaes das lanchas de patrulhamento do rio e do canal. Oskar descobrira que a Inspetoria de Armamentos queria alugar um depsito para aquele material numa rea menos ameaada. Oskar conseguiu o contrato de estocagem  "com a ajuda de alguns presentes", contou ele depois. E assim dezoito caminhes carregados de casacos, uniformes e roupas de baixo, tecidos de algodo e l, bem como meio milho de bobinas de linha e uma grande quantidade de sapatos, tinham passado pelo porto de Brinnlitz e sua mercadoria descarregada e estocada no depsito. Stern e outros declararam mais tarde que Oskar sabia que ficaria de posse daquele estoque, quando terminasse a guerra, e tencionava distribuir a mercadoria entre os seus prisioneiros para que eles tivessem material com que comear a negociar. Em um documento escrito mais tarde, Oskar alega a mesma coisa. Diz que se esforou por obter o contrato de estocagem "com a inteno de prover com roupas os meus protegidos judeus no fim da guerra... Peritos judeus da indstria txtil calcularam o valor do meu estoque em mais de US$ 150.000 (no cmbio de tempo de paz)".
Ele tinha em Brinnlitz homens capazes de fazer essa avaliao  Juda Dresner, por exemplo, que fora proprietrio de uma loja de tecidos na Rua Stradom; Itzhak Stern, que trabalhara durante anos numa companhia txtil.
No ritual de transferir a preciosa chave para Bankier, Oskar estava vestido com o uniforme listrado de prisioneiro, assim como sua mulher, Emilie. A inverso, pela qual ele estivera trabalhando desde os primeiros tempos da DEF, agora mostrava seus resultados. Quando ele apareceu no ptio para se despedir, todos julgaram que aquele era um disfarce provisrio, que logo seria descartado, quando o Herr Direktor se encontrasse com os americanos. Contudo, o fato de ele envergar aquela roupa grosseira era um impulso, que nunca poderia ser descartado como algo inconseqente. Num sentido mais profundo, Oskar permaneceria para sempre um penhor para Brinnlitz e para a Emalia.
Oito prisioneiros tinham-se prontificado a acompanhar Oskar e Emilie. Eram todos jovens mas incluam um casal, Richard e Anka Rechen. O mais velho era um engenheiro chamado Edek Heuberger, porm quase dez anos mais moo do que osSchindler. Mais tarde, Heuberger iria narrar os detalhes daquela jornada extravagante.
Emilie, Oskar e um motorista viajariam no Mercedes. Os outros os seguiriam num caminho carregado de alimentos, cigarros e bebidas 
Pg.359
para serem negociados ou trocados. Oskar parecia ansioso por partir. Um brao da ameaa russa, o de Viasov, se fora. As tropas j tinham marchado para longe dali. Mas presumia-se que outro se estenderia a Brinnlitz na manh seguinte, ou at antes. Do assento traseiro do Mercedes, em que Emilie e Oskar se achavam sentados com os seus uniformes listrados  no,  preciso admitir, com o ar de prisioneiros; mais como um casal burgus a caminho de um baile  fantasia , Oskar continuava dando conselhos a Stern, ordens a Bankier e Salpeter. Mas era visvel que ele tinha pressa de partir. Todavia, quando o motorista, Dolek Grnhaut, tentou acionar o Mercedes, o motor no funcionou. Oskar saltou do assento traseiro para espiar sob o cap. Estava alarmado  um homem diferente daquele que fizera um discurso to incisivo poucas horas antes. "O que est acontecendo?", perguntava ele repetidamente. Grnhaut levou algum tempo para encontrar o defeito, pois no era o que tinha presumido. Algum, apavorado com a idia da partida de Oskar, tinha cortado os fios.
Pfefferberg, que se reunira aos outros prisioneiros para dar adeus ao Herr Direktor, correu  oficina de solda, voltou com sua caixa de ferramentas e ps-se a trabalhar. Estava suando e com as mos trmulas, pois perturbava-o a urgncia que sentia em Oskar, o qual olhava a todo momento para o porto, como se os russos fossem surgir naquele instante. No era um receio improvvel  outros no ptio se atormentavam com a mesma possibilidade irnica  e Pfefferberg estava levando muito tempo para terminar o trabalho. Mas, finalmente, quando Grnhaut girou a chave de contato, o motor funcionou.
Assim o Mercedes partiu, seguido do caminho. Todos estavam muito nervosos para despedidas formais, mas uma carta, assinada por Hilfstein, Stern e Salpeter, atestando os antecedentes de Oskar e Emilie, foi entregue a Schindler. O comboio passou pelo porto e, na estrada que cortava o desvio, dobrou  esquerda em direo a Havlckuv Brod, para Oskar a parte mais segura da Europa. Havia algo nupcial naquela jornada, pois ele, que chegara a Brinnlitz com tantas mulheres, estava partindo com a prpria esposa. Stern e os outros permaneceram imveis no ptio. Aps tantas promessas, eles eram agora donos de si mesmos e teriam de arcar com o peso e as incertezas dessa nova situao. 
O hiato durou trs dias e teve a sua histria e seus perigos. Com a partida dos guardas SS, o nico representante da mquina de matana que restou em Brinnlitz foi um Kapo alemo que viera de Grss-Rosen com os homens Schindler. Era um homem com antecedentes assassinos na prpria Grss-Rosen e que fizera inimigos em Brinnlitz tambm. Uma
Pg.360
turba de prisioneiros arrastou-o do seu leito para o saguo da fbrica e, sem d nem piedade, o enforcou na mesma viga com que o Untersturmfrer Liepold havia recentemente ameaado o pessoal da fbrica. Alguns prisioneiros tentaram intervir mas no conseguiram conter a fria dos justiceiros.
Foi um evento, o primeiro homicdio da paz, que muitos dos prisioneiros de Brinnlitz iriam para sempre abominar. Tinham visto Amon enforcar o pobre engenheiro Krautwirt na Appellplatz de Plaszvia, e este enforcamento, apesar de ter sido por motivos diferentes, desagradou-os profundamente. Pois Amon era Amon, um ser irremedivel. Mas aqueles enforcadores eram seus irmos. 
Quando o Kapo parou de estrebuchar, largaram-no dependurado acima das mquinas silenciosas. Isso, porm, deixou os assistentes perplexos. Supostamente, aquele espetculo devia alegr-los mas, ao contrrio, trouxe-lhes dvidas. Finalmente, alguns homens, que no haviam participado do enforcamento, cortaram a corda e    incineraram o corpo. O desfecho mostrou como se tornara diferente o campo de Brinnlitz, pois o nico corpo jogado nas fornalhas que, por decreto, deviam ter sido usadas para cremar os mortos judeus, foi o cadver de um ariano.
A distribuio das mercadorias do depsito naval continuou no decorrer de todo o dia seguinte. Metragens tinham de ser cortadas das grandes peas de tecidos. Moshe Bejski disse que cada prisioneiro recebeu trs jardas, juntamente com um conjunto completo de roupas de baixo e algumas bobinas de algodo. Algumas mulheres comearam nesse mesmo dia a confeccionar as roupas que iam usar para sair do campo. Outras preferiram deixar intato o tecido, a fim de que, negociado, garantisse a sua sobrevivncia nos dias vindouros.
Foi distribudo tambm um suprimento dos cigarros Egipski, dos que Oskar se apoderara no armazm incendiado, e cada prisioneiro recebeu uma garrafa de vodca do depsito de Salpeter. Poucos a beberiam, pois era demasiado preciosa.
Ao escurecer da segunda noite, uma unidade Panzer apareceu na estrada proveniente de Zwittau. Escondido atrs de um arvoredo junto ao porto e armado de fuzil, Lutek Feigenbaum teve o mpeto de disparar a arma, assim que despontou o primeiro tanque. Mas se conteve. Os veculos foram passando. O apontador de um dos tanques, no final da coluna, compreendendo que a cerca e as torres de vigia significavam que talvez houvesse criminosos judeus escondidos ali, girou o canho sobre o eixo e disparou dois obuses no campo. Um explodiu no ptio, o outro na varanda das mulheres. Foi uma exibio inconsequente de rancor e, por prudncia ou espanto, nenhum dos prisioneiros armados contra-atacou.
Pg.361
Quando desapareceu o ltimo tanque, os homens dos comandos ouviram gemidos vindos do ptio e do dormitrio das mulheres no andar superior. Uma jovem fora ferida por fragmentos do obus. A vtima achava-se em estado de choque mas a vista dos seus ferimentos desencadeara nas companheiras toda a dor reprimida naqueles ltimos anos. Enquanto as mulheres choravam, os mdicos de Brinnlitz examinaram a jovem e constataram que os ferimentos eram superficiais. 
O grupo de Oskar viajou as primeiras horas de sua fuga na retaguarda de uma coluna de caminhes da Wehrmacht. Naquela noite j eram possveis feitos dessa natureza, e ningum os perturbou. Atrs deles, podiam-se ouvir engenheiros alemes dinamitando instalaes e, ocasionalmente, havia o clamor de alguma distante emboscada dos guerrilheiros tchecos. Na proximidade da cidade de Havlckuv Brod, eles deviam ter ficado mais para trs, porque foram detidos por guerrilheiros tchecos postados no meio da estrada. Oskar continuou fazendo-se passar por um prisioneiro.
 Essa boa gente e eu somos fugitivos de um campo de trabalho. A guarda SS e o Herr Direktor fugiram. Este  o automvel do Herr Direktor.
Os tchecos perguntaram-lhes se tinham armas. Heuberger desceu do caminho e veio participar da discusso. Confessou que tinha um fuzil.
Muito bem, disseram os tchecos, mas  melhor que nos entreguem todas as armas em seu poder. Se os russos os interceptarem e descobrirem as armas, podero no entender a razo de vocs estarem armados. A melhor defesa est nos seus uniformes de priso.
Naquela cidade, a suleste de Praga e no caminho para a ustria, ainda havia a probabilidade de encontrar unidades hostis. Os guerrilheiros encaminharam Oskar e os outros para a Cruz Vermelha tcheca, cuja sede ficava na praa da cidade. L eles poderiam passar em segurana o resto da noite.
Mas, quando chegaram  cidade, o pessoal da Cruz Vermelha sugeriu que, devido  incerteza da paz, provavelmente estariam mais bem protegidos na cadeia local. Os veculos foram deixados na praa,  vista da sede da Cruz Vermelha, e Oskar, Emilie e seus oito companheiros carregaram as suas poucas malas e dormiram nas celas, destrancadas, da cadeia.
Quando de manh voltaram  praa, descobriram que ambos os veculos tinham sido pilhados. Todo o estofamento do Mercedes fora rasgado, os diamantes haviam desaparecido, assim como os pneus do caminho e peas do motor. Os tchecos no se perturbaram com o incidente,
Pg.362
dizendo que todo mundo devia esperar perder alguma coisa em tempos assim. Talvez at tenham suspeitado de que Oskar, com seu cabelo louro e olhos azuis, era um SS fugitivo.
O grupo perdera o seu transporte mas havia um trem de partida para Kaplice, e eles o apanharam, ainda vestidos com os seus uniformes listrados. Heuberger diz que seguiram no trem "at chegar  floresta, e ento caminhamos". Em alguma parte naquela regio fronteiria, bem ao norte de Linz, era provvel que encontrassem os americanos.
O grupo estava percorrendo a p uma estrada, que cortava um bosque, quando deparou com dois jovens americanos mascando chicletes, sentados ao lado de uma metralhadora. Um dos prisioneiros de Oskar dirigiu-se a eles em ingls.
 A ordem que temos  de no deixar passar ningum nesta estrada  disse um dos americanos.
 Mas ser proibido circundar a estrada atravs dos bosques?  perguntou o prisioneiro.
O GI continuou mascando. Uma estranha raa, sempre mascando!  Acho que no  respondeu finalmente o GI.
Assim eles deram a volta pelos bosques e, ao retornar  estrada meia hora depois, esbarraram com uma companhia de infantaria marchando para o norte em coluna dupla. Mais uma vez, recorreram ao intrprete e se puseram a falar com os oficiais de reconhecimento da unidade. O prprio comandante chegou num jipe, saltou, interrogou-os. Foram francos, dizendo-lhe que Oskar era o Herr Direktor e eles judeus. Acreditavam estar em terreno seguro, pois sabiam pela BBC de Londres que as foras americanas incluam muitos americanos de origem alem e judaica. O capito disse-lhes que no sassem dali e partiu sem explicao, deixando-os sob a guarda de dois soldados de infantaria, meio embaraados, que lhes ofereceram cigarros, tipo Virgnia, que tinham aquele aspecto quase reluzente  como o jipe, as fardas, os equipamentos  que caracteriza uma grande e arrogante fbrica de qualidade, superior.
Embora Emilie e os prisioneiros tivessem receio de Oskar ser preso, ele prprio sentou-se na relva, aparentemente despreocupado, e respirou o ar da primavera. Estava de posse de sua carta hebraica e sabia que Nova York era etnicamente uma cidade em que o hebraico no era desconhecido. Meia hora se passou e alguns soldados apareceram, caminhando informalmente pela estrada e no enfileirados como numa infantaria. Eram soldados judeus e entre eles havia um rabino de campanha. Mostraram-se muito efusivos. Abraaram o grupo todo, inclusive Emilie e Oskar. E disseram que eles eram os primeiros sobreviventes 
Pg.363
de campos de concentrao com que o batalho deparava. 
Terminadas as saudaes, Oskar exibiu sua carta judaica de referncia; o rabino leu-a e ps-se a chorar. Transmitiu os detalhes aos outros americanos. Houve aplausos, mais apertos de mo, mais abraos. Os jovens GIs pareciam to abertos, to expansivos, to infantis. Embora s uma ou duas geraes os separassem da Europa Central, estavam to marcados pela Amrica que o espanto que causaram ao grupo no foi menor do que o que o grupo lhes causou.
O resultado foi que o grupoSchindler passou dois dias na fronteira austraca, como convidado do comandante do regimento e do rabino. Beberam um excelente caf autntico, como nunca mais tinham provado desde a fundao do gueto. E comeram opulentamente.
Passados os dois dias, o rabino ofereceu-lhes uma ambulncia capturada, na qual eles viajaram at a cidade em runas de Linz, na Alta ustria. 
No segundo dia de paz em Brinnlitz, os russos ainda no tinham aparecido. O grupo de comando preocupava-se com a obrigao de demorar-se no campo por mais tempo do que seria necessrio. Lembrando-se da nica vez em que tinham visto a SS mostrar medo  fora a ansiedade de Motzek e seus companheiros naqueles ltimos dias  quando houvera um surto de tifo; resolveram pendurar tabuletas com a palavra TIFO ao longo de toda a cerca.
Trs guerrilheiros tchecos apareceram uma tarde no porto e falaram pela cerca com os homens de sentinela. Estava tudo acabado agora, disseram eles. Vocs esto livres para ir para onde quiserem."
Mas os comandos da priso responderam que s sairiam quando os russos chegassem. At l, pretendiam ficar todos no campo.
A resposta demonstrava algo da patologia do prisioneiro, a desconfiana, adquirida aps um tempo na priso, que o mundo fora da cerca era perigoso e a liberdade teria de ser readquirida por estgios. E tambm demonstrava a prudncia deles. Ainda no estavam convencidos da partida da ltima unidade alem.
Os tchecos encolheram os ombros e se foram.
Nessa noite, quando Poldek Pfefferberg fazia parte da guarda no porto principal, ouviu-se o rudo de motocicletas na estrada. As motocicletas no se afastaram, como se dera com as Panzers, mas foram se aproximando do campo. Cinco motocicletas marcadas com o signo da caveira da SS estacaram ruidosamente junto  cerca. Quando os SS  Poldek lembra-se de que eram muito jovens  desligaram os motores e se aproximaram do porto, houve uma violenta discusso entre os homens armados dentro do campo para decidir se os visitantes deviam ser imediatamente baleados.
Pg.364
O NCO no comando do grupo de motocicletas pareceu compreender o perigo inerente  situao. Colocou-se a certa distncia da cerca, com as mos estendidas. Precisavam de gasolina, disse ele. Presumia que, tratando-se de um campo com fbrica, Brinnlitz devia ter gasolina. Pfefferberg aconselhou que era melhor supri-los de combustvel e deixar que se fossem, a criar problemas abrindo fogo sobre eles. Outros elementos do regimento podiam se achar na regio e serem atrados pelo rudo do tiroteio.
No fnal, os SS tiveram permisso para entrar no campo. Alguns dos prisioneiros foram at a garagem providenciar a gasolina. O NCO SS teve o cuidado de dar a entender aos comandos do campo  que estavam vestidos com macaces azuis numa tentativa de parecer guardas informais, ou pelo menos Kapos alemes  que no estava estranhando ver prisioneiros armados defendendo o seu campo.
 Espero que tenham notado que h um surto de tifo aqui  disse Pfefferberg, apontando para as tabuletas.
Os SS se entreolharam.
 J perdemos duas dzias de pessoas  disse Pfefferberg.  Temos mais cinquenta doentes isolados no poro.
Essa informao pareceu impressionar os cavalheiros das caveiras. Estavam cansados. Estavam fugindo. Isso j lhes bastava. No queriam o perigo de contgio alm de todos os outros perigos.
Quando a gasolina chegou, em latas de cinco gales, eles agradeceram, cumprimentaram e se retiraram do campo. Os prisioneiros ficaram observando, enquanto eles enchiam os tanques e, com muita considerao, deixavam junto  cerca as latas que no tinham cabido nos carros laterais de suas motocicletas. Calaram as luvas, acionaram os motores, tendo o cuidado de no aumentar a rotao para no desperdiar gasolina com floreios. O rudo foi desaparecendo do lado sudoeste rumo  aldeia. Esse polido encontro foi o ltimo que aqueles homens, reunidos no porto, teriam com qualquer um usando o uniforme da perversa legio de Heinrich Himmier. 
No terceiro dia o campo foi liberado por apenas um oficial russo. Montado a cavalo, ele emergiu dos desfiladeiros por onde a estrada e o desvio ferrovirio chegavam a Brinnlitz.  medida que se aproximava, tornou-se visvel que o cavalo era um mero pnei. Os ps magros do oficial, nos estribos, quase arrastavam no cho, e suas pernas estavam comicamente dobradas sob o abdmen descarnado do cavalo. Parecia estar trazendo a Brinnlitz uma liberao pessoal, penosamente obtida, pois sua farda estava surrada e a tira de couro que retinha o fuzil to desgastada pelo suor, pelo inverno e pelos combates, que tivera de ser
Pg.365
substitudas por uma corda. Os arreios do cavalo eram tambm de cor da. O oficial era louro e, como os russos sempre se parecem com os poloneses, muito estranho e muito familiar. Aps uma curta conversa em hbrido polons-russo, o comando no porto permitiu que ele entrasse. Logo a notcia de sua chegada se espalhou por toda parte no
campo. Quando ele desmontou, foi beijado pela Sra. Krumholz. Sorriu e pediu, em ambas as lnguas, uma cadeira; um dos homens mais jovens foi busc-la.
Pondo-se de p em cima da cadeira para dar a impresso de ser mais alto, o que, em relao  maioria dos prisioneiros no seria necessrio, ele pronunciou em russo o que parecia um discurso padronizado de libertao. Moshe Bejski conseguiu compreender o sentido principal. Eles haviam sido libertados pelo glorioso Exrcito Sovitico. Estavam livres para ir para a cidade, seguir o rumo da escolha de cada um. Pois, sob o regime sovitico, como num cu fictcio, no havia judeus nem cristos, homens nem mulheres, prisioneiros ou homens livres. No deviam tirar mesquinhas vinganas na cidade. Os Aliados saberiam encontrar seus opressores e sujeit-los a um solene e justo castigo. A conscincia de que agora estavam livres devia sobrepujar quaisquer outras consideraes.
Desceu da cadeira, sorriu, como se quisesse dizer que, uma vez terminado o seu dever de porta-voz, estava pronto para responder a perguntas. Bejski e alguns outros comearam a falar-lhe; ele apontou para si mesmo e disse, em idiche-bielo-russo quebrado  do tipo que se aprende menos dos pais do que dos avs  que era judeu.
Agora a conversa adquiriu um tom mais ntimo.
 J esteve na Polnia?  perguntou-lhe Bejski.
 Sim  admitiu o oficial.  Estou vindo agora da Polnia.
 Restou algum judeu l?
 No vi nenhum.
Os prisioneiros agora o cercavam, traduzindo ou transmitindo a conversa uns para os outros.
 De onde  voc?  perguntou o oficial a Bejski.
 De Cracvia.
 Estive em Cracvia h duas semanas.
 Auschwitz? O que me conta de Auschwitz?
 Ouvi dizer que em Auschwiz ainda restam uns poucos judeus.
Os prisioneiros pareceram pensativos. O russo dava a impresso de que a Polnia era agora um vcuo, e que, se voltassem para Cracvia, iriam sentir-se como ervilhas secas chocalhando dentro de um pote.
 H alguma coisa que eu possa fazer por vocs?  perguntou o oficial.
Pg.366
Alguns gritaram por comida. O oficial achava que poderia arranjar-lhes uma carroa cheia de po e um pouco de carne de cavalo. O carregamento chegaria antes do cair da tarde.
 Mas vocs devem e podem encontrar alimento na cidade  sugeriu o oficial.
Era uma idia radical  que eles deviam simplesmente sair pelo porto afora e comear a fazer compras em Brinnlitz. Para alguns dos prisioneiros essa iniciativa era ainda uma opo inimaginvel.
Os rapazes mais jovens, como Pemper e Bejski, foram atrs do oficial, quando ele j ia sair do campo. Se no havia mais judeus na Polnia, no havia mais lugar algum aonde ir. No queriam que ele lhes desse instrues mas achavam que poderia esclarecer-lhes algumas dvidas. O russo, que estava desamarrando da cerca as rdeas de seu pnei deteve-se um instante.
 No sei  disse ele, encarando-os.  No sei para onde vocs devem ir. No escolham ir para o leste, isso eu posso lhes dizer. Mas tampouco sigam para o oeste.  E recomeou a desamarrar o n das rdeas.  Em parte alguma gostam de ns. 
Conforme lhes aconselhara o oficial russo, os prisioneiros de Brinnlitz finalmente saram pelos portes, a fim de fazer a sua primeira tentativa de contato com o mundo exterior. Os mais jovens foram os primeiros a se aventurar. Danka Schindel saiu no dia seguinte  liberao e escalou a colina coberta de bosques atrs do campo. Lrios e anmonas comeavam florescer e os pssaros migratrios estavam chegando da frica. Danka sentou-se por algum tempo na colina, saboreando o dia; depois rolou para o sop e estirou-se na relva, aspirando as fragrncias e contemplando o cu. Demorou-se tanto ali que seus pais presumiram que os habitantes da cidade ou os russos lhe tivessem causado algum mal.
Goldberg tambm saiu cedo, talvez tivesse sido o primeiro a partir, para arrecadar seus bens em Cracvia. E, assim que pde emigrou para o Brasil.
A maioria dos prisioneiros mais velhos permaneceu no campo. Os russos agora tinham entrado em Brinnlitz, ocupando como quartel dos oficiais uma casa numa colina acima da aldeia. Trouxeram para o campo um cavalo abatido, que os prisioneiros comeram esfaimadamente, alguns deles achando a comida demasiado rica, aps tanto tempo alimentando-se s com vegetais e po e o mingau de EmilieSchindler.
Lutek Feigenbaum, Janek Dresner e o jovem Sternberg foram dar uma batida na cidade, que estava sendo patrulhada por elementos da resistncia tcheca; a populao de Brinnlitz, de origem alem, tinha 
Pg.367  
receio dos prisioneiros liberados. O dono de uma mercearia disse-lhes que eles podiam levar um pacote de acar, que tinha no seu estoque.O jovem Sternberg no resistiu, e, abaixando-se, enfiou na boca um punhado do acar, que o deixou terrivelmente indisposto. Estava descobrindo o que o grupo Schindler j descobrira em Nuremberg e Ravensburg  que a readaptao  liberdade e  abundncia tinha de ser gradual.
O objetivo principal da incurso  cidade fora conseguir po. Feigenbaum, como membro do comando Brinnlitz, estava armado de uma pistola e um fuzil e, quando o padeiro insistiu em que no tinha po, um dos outros lhe disse: "Ameace-o com o fuzil." Afinal, o homem era um Sudetendeutsch e, em teoria, conivente com todos os seus algozes. Feigenbaum apontou a arma para o padeiro e, atravessando a padaria, entrou na moradia dele,  procura de farinha escondida. Na saleta, encontrou a mulher e as duas filhas do padeiro imobilizadas pelo medo. Pareciam to apavoradas, to semelhantes a qualquer famlia de Cracvia durante uma Aktion, que Feigenbaum sentiu-se tomado de uma grande vergonha. Cumprimentando-as com um gesto de cabea, como se estivesse fazendo uma visita social, ele se retirou.
Mila Pfefferberg foi tomada da mesma vergonha, quando fez a sua primeira visita  aldeia. Ao entrar na praa, um guerrilheiro tcheco deteve duas jovens Sudeten e as fez descalar os sapatos para que Mila, que estava de tamancos, pudesse escolher o par que melhor lhe servia. Esse tipo de arbitrariedade a fez corar, e ela se sentou, constrangida, na calada para experimentar os sapatos. O guerrilheiro entregou os tamancos  jovem Sudeten e seguiu caminho. Mila ento correu atrs da moa e devolveu-lhe os sapatos. A Sudetendeutscherin, recorda Mila, no foi sequer corts.
 noite, os russos apareciam no campo  procura de mulheres.Pfefferberg teve de encostar uma pistola na cabea de um soldado que entrara no campo das mulheres e agarrara a Sra. Krumholz. (Durante anos, a Sra. Krumholz iria caoar de Pfefferberg, apontando para ele e acusando-o: "A nica chance que tive de arranjar um homem mais moo, esse patife estragou!") Trs moas foram levadas  mais ou menos voluntariamente  para uma festa dos russos e voltaram trs dias depois dizendo que tinham se divertido muito.
O domnio de Brinnlitz provou ser negativo; dentro de uma semana, os prisioneiros comearam a sair do campo. Alguns, cujas famlias haviam sido aniquiladas, seguiram diretamente para o Ocidente, desejando nunca mais tornar a ver a Polnia. Os irmos Bejski, usando o tecido e a vodca que tinham recebido para pagar a viagem, rumaram para a Itlia e embarcaram num navio sionista com destino  Palestina. 
Pg.368 
Os Dresner atravessaram a p a Morvia e a Bomia e chegaram  Alemanha, onde Janek foi um dos dez primeiros estudantes a se matricular na Universidade Bvara de Erlangen, quando ela voltou a funcionar no final do ano.
Manei Rosner retornou a Podgrze, onde tinha um encontro marcado com Henry. Libertado de Dachau juntamente com Olek, Henry Rosner estava um dia em um pissoir em Munique, quando viu outro homem usando as roupas listradas de uma priso. Perguntou-lhe onde ele estivera preso. "Brinnlitz", respondeu o homem e acrescentou (inexatamente, como se viu mais tarde) que todo mundo, exceto uma velha senhora, tinha sobrevivido em Brinnlitz. Quanto a Manei, saberia da sobrevivncia de Henry atravs de um primo que entrou numa sala, onde Manei estivera esperando, e sacudiu no ar um papel com a lista dos nomes de poloneses liberados de Dachau.
 Manei!  exclamou o primo.  D-me um beijo. Tanto Henry como Olek esto vivos.
Regina Horowitz teve um encontro parecido. Levou trs semanas para ir de Brinnlitz a Cracvia, com sua filha Niusia. L chegando, alugou um quarto  graas  venda de um dos produtos do depsito da Marinha  e ficou esperando por Dolek. Quando ele apareceu, os dois comearam a investigar o paradeiro de Richard, mas nada conseguiram apurar. Um dia, naquele vero, Regina assistiu a um filme de Auschwitz que os russos haviam filmado e estavam exibindo grtis  populao polonesa. Ela viu as famosas sequncias do campo de crianas, que olhavam do outro lado de uma cerca ou eram conduzidas por freiras para longe dos fios de arame eletrificado de Auschwitz I. Por ser to pequeno e atraente, Richard aparecia em quase todas as tomadas. Regina levantou-se gritando e saiu do cinema. O gerente e vrias pessoas presentes tentaram acalm-la na rua. " o meu filho, o meu filho!", continuava ela gritando. Agora que sabia que ele estava vivo,conseguiu descobrir que Richard havia sido entregue pelos russos a uma das organizaes judaicas de salvamento. Admitindo que seus pais estavam mortos, a organizao permitira que ele fosse adotado pela famlia Liebling, velha conhecida dos Horowitz. O endereo foi fornecido a Regina; quando ela chegou  porta do apartamento dos Liebling, pde ouvir Richard l dentro, tamborilando com uma panela e gritando:"Hoje vai ter sopa para todo mundo!" Quando ela bateu na porta,ele chamou a Sra. Liebling para atender.
Assim seu filho lhe foi devolvido. Mas depois de ele ter visto os cadafalsos de Plaszvia e Auschwitz, sua me nunca mais pde lev-lo a um playground, sem que Richard ficasse histrico  vista das armaes de ferro dos brinquedos. 
Pg.369 
Em Linz, o grupo de Oskar procurou as autoridades americanas, entregou a insegura ambulncia e foi levado de caminho a Nuremberg, para um grande centro para prisioneiros de campos de concentrao, que no tinham ainda para onde ir. Estavam descobrindo que, como j suspeitavam, a libertao no se processava sem muitas dificuldades.
Richard Rechen tinha uma tia em Constanz, junto ao lago, na fronteira sua. Quando os americanos perguntaram ao grupo se havia algum lugar para onde eles pudessem ir, falaram na casa dessa tia. A inteno dos oito jovens ex-prisioneiros de Brinnlitz era, se possvel,ajudar o casal Schindler a atravessar a fronteira sua, no caso de subitamente irromper a vingana contra a Alemanha e, mesmo na zona americana, o casal ser injustamente punido. Alm disso, todos os oito eram emigrantes potenciais e acreditavam que seria mais fcil providenciar na Sua a sua regularizao.
Heuberger recorda-se de que o comandante americano em Nuremberg manteve um relacionamento cordial com o grupo mas se recusou a fornecer qualquer espcie de transporte que os levasse para Constanz. Assim, eles fizeram a jornada da melhor maneira que puderam,cruzando a Floresta Negra, ora de trem, ora a p. Perto de Ravensburg, dirigiram-se ao campo de concentrao local e falaram com o comandante americano. Ali tambm permaneceram alguns dias como hspedes, descansando e se alimentando muito bem, com raes do Exrcito.  noite, conversavam at tarde com o comandante, que era de ascendncia judaica; contavam-lhe histrias de Amon em Plaszvia, de Grss-Rosen, Auschwitz, Brinnlitz. Esperavam que ele lhes fornecesse algum transporte para Constanz, possivelmente de caminho.O comandante no podia ceder um caminho mas lhes forneceu um nibus, juntamente com algumas provises para a viagem. Embora Oskar ainda tivesse em seu poder diamantes no valor de l .000 RM e algum dinheiro em espcie, ao que parece, o nibus no foi vendido e,sim, fornecido gratuitamente. Depois de suas negociaes com os burocratas alemes, deve ter sido difcil para Oskar adaptar-se a esse novo tipo de transao.
A oeste de Constanz, na fronteira sua e na Zona de Ocupao francesa, eles estacionaram o nibus na aldeia de Kreuzlingen. Rechen foi  loja de ferragens local e comprou um alicate. Parece que o grupo ainda estava usando o uniforme da priso, quando foi comprado o ali cate. Talvez o homem por trs do balco estivesse influenciado por uma e duas consideraes: (a) aquele era um prisioneiro e, se algo lhe fosse negado, poderia apelar para os seus protetores franceses; (b) tratava-se na realidade de um oficial alemo, fugindo disfarado, e talvez devesse ser ajudado. 
Pg.370 
A cerca de diviso da fronteira cortava Kreuzlingen ao meio e era guardada do lado alemo por sentinelas francesas da Sret Militaire.O grupo aproximou-se dessa barreira, na orla da aldeia, e, depois de cortar os arames, esperou que a sentinela estivesse na outra extremidade para se esgueirar para o lado suo. Infelizmente, uma mulher da aldeia viu-os de uma curva da estrada e correu  fronteira para alertar franceses e suos. Numa tranquila praa da aldeia sua, uma rplica exata da existente no lado alemo, a polcia sua cercou o grupo mas Richard e Anka escapuliram e tiveram de ser perseguidos e apanhados por um carro de patrulha. Dentro de meia hora o grupo estava de volta ao lado dos franceses, que imediatamente revistaram todos eles e descobriram os diamantes e o dinheiro; trancafiaram-nos em celas separadas, numa antiga priso alem.
Para Heuberger era claro que eles estavam sob suspeita de terem sido guardas de campo de concentrao. Nesse sentido, o peso que eles haviam recuperado, como hspedes dos americanos, foi-lhes prejudicial, pois no pareciam to subalimentados, como quando tinham sado de Brinnlitz. Foram interrogados separadamente sobre sua jornada,sobre os valores que estavam levando. Todos podiam contar uma histria plausvel mas no sabiam se os outros tinham contado a mesma coisa. Pareciam apreensivos, sentimento que no haviam nutrido com relao aos americanos, de vez que, se os franceses descobrissem a identidade de Oskar e sua funo em Brinnlitz, iriam normalmente consider-lo culpado.
Falseando a verdade, a fim de proteger Oskar e Emilie, eles permaneceram ali uma semana. Quanto aos Schindler, seus conhecimentos do judasmo eram suficientes para ultrapassarem os bvios testes culturais. Mas as maneiras de Oskar e sua condio fsica no tornavam muito crvel a sua condio de ex-prisioneiro da SS. Lamentavelmente, sua carta hebraica ficara em Linz, nos arquivos dos americanos Edek Heuberger, como lder dos oito prisioneiros, foi o mais interrogado; no stimo dia de sua priso, ao ser levado  sala do interrogatrio, deparou com mais uma pessoa, um homem em trajes civis,que sabia falar polons e viera ali para comprovar a alegao de Heuberger de ter vindo de Cracvia. Por alguma razo  porque o polons adotara uma atitude compassiva no interrogatrio que se seguiu ou talvez devido  familiaridade da lngua  Heuberger perdeu o controle, comeou a chorar e contou toda a histria em polons fluente.Os outros foram chamados um por um, colocados face a face com Heuberger e receberam ordem de contar em polons a sua verso da verdade. Quando, no final da manh, constataram que as verses eram idnticas, inclusive as dos Schindler, o grupo todo, reunido na sala do 
Pg.371
interrogatrio, foi abraado por ambos os interrogadores. Diz Heuberger que o francs estava chorando. Todos se deliciaram com aquele espetculo indito  um interrogador em lgrimas. Quando ele conseguiu se controlar, mandou buscar um almoo para si prprio, seu colega, os Schindler e os oito prisioneiros.
Naquela mesma tarde, transferiu o grupo para um hotel  beira do lago em Constanz, onde eles passaram alguns dias com as despesas pagas pelo governo militar francs.
Nessa noite, quando Oskar se sentou  mesa do jantar no hotel,com Emilie, Heuberger, os Rechen e os outros, os seus haveres j tinham passado para as mos dos soviticos e suas ltimas jias e dinheiro j haviam desaparecido nos interstcios da burocracia de libertao. Estava agora a zero, mas muito bem alimentado, num bom hotel e com a sua "famlia". Dali por diante, seu futuro seria sempre assim.
Pg.372 
Eplogo 
Estava agora encerrado o perodo herico da vida de Oskar. A paz nunca o exaltaria tanto como a guerra o havia feito. Oskar e Emilie foram para Munique. Por algum tempo moraram com os Rosner, pois Henry e o irmo tinham sido contratados para tocar num restaurante de Munique e, com isso, conseguido uma modesta prosperidade. Um dos antigos prisioneiros de Oskar, encontrando-o no exguo apartamento dos Rosner, espantou-se ao v-lo com um palet rasgado. As suas propriedades em Cracvia e Mora via, naturalmente, haviam sido confiscadas pelos russos, e o que lhe restara de jias servira para comprar comida e bebida.
Quando os Feigenbaum chegaram a Munique, ficaram conhecendo a sua mais recente amante, uma sobrevivente judia, no de Brinnlitz, mas de campos piores. Muitos dos visitantes do seu apartamento de aluguel, por mais indulgentes que fossem com relao s fraquezas do herico Oskar, sentiam-se envergonhados por causa de Emilie.
Continuava sendo um amigo extremamente generoso e um excelente desencavador de coisas que ningum mais conseguia encontrar. Henry Rosner recorda que Oskar descobriu um manancial de galinhas em Munique, cidade onde no se encontrava uma s galinha. Procurava sempre a companhia dos seus judeus, os que tinham vindo para a Alemanha  os Rosner, os Pfefferberg, os Dresner, os Feigenbaum, os Sternberg. Alguns cnicos diriam mais tarde que, na poca, era prudente para qualquer um, que tivesse estado envolvido com campos de concentrao, manter-se em contato com amigos judeus, o que emprestava uma colorao protetora. Mas a ligao de Oskar ia alm desse tipo de astcia. OsSchindlerjuden eram agora a sua famlia.
Atravs dos seus amigos judeus, ele soube que Amon Goeth havia 
Pg.373
sido capturado pelos americanos de Patton, no ms de fevereiro anterior, quando se achava internado num sanatrio da SS em Bad Tolz;
estivera preso em Dachau; e, no fim da guerra, fora entregue ao novo Governo polons. De fato, Amon fora dos primeiros alemes remetidos para a Polnia a fim de serem julgados. Vrios ex-prisioneiros foram chamados a depor no julgamento e, entre as testemunhas da defesa, o iludido Amon pensou em convocar Helen Hirsh e Oskar Schindler.
Oskar, porm, no compareceu aos julgamentos em Cracvia. Os que compareceram tiveram a oportunidade de ouvir Amon, agora magro em consequncia da diabetes, apresentar uma defesa moderada mas sem qualquer vislumbre de arrependimento. Todas as ordens para os seus atos de execuo e transporte de prisioneiros haviam sido assinadas por seus superiores, alegou ele, e portanto o crime era deles e no seu. As testemunhas que narraram os assassinatos cometidos com as prprias mos pelo comandante, segundo Amon, estavam exagerando maliciosamente. Alguns prisioneiros tinham sido executados por sabotagem porque numa guerra sempre havia sabotadores.
Mietek Pemper, esperando ser chamado para depor, sentara-se no recinto do tribunal, ao lado de outro ex-prisioneiro de PIaszvia, que fitou Amon no banco dos rus e sussurrou: "Esse homem ainda me apavora." Mas o prprio Pemper, como primeira testemunha da acusao, exps uma lista detalhada dos crimes de Amon. A ele, seguiramse outros, inclusive o Dr. Biberstein e Helen Hirsch, que tinham recordaes bem precisas e dolorosas. Amon foi condenado  morte e enforcado em Cracvia, no dia 13 de setembro de 1946. Havia exatamente dois anos que a SS o prendera em Viena, sob a acusao de atividades no mercado negro. De acordo com a imprensa de Cracvia, ele subiu  forca sem demonstrar remorso e, antes de morrer, fez a saudao nacional socialista.
Em Munique, o prprio Oskar identificou Liepold, que fora detido pelos americanos. Um prisioneiro de Brinnlitz acompanhou Oskar na identificao, e conta que Oskar perguntou a Liepold, que protestava contra ele: "Voc prefere que eu o identifique ou quer deixar isso para os cinquenta judeus enraivecidos que esto esperando l na rua?" Liepold seria tambm enforcado  no pelos seus crimes em Brinnlitz, mas por assassinatos anteriores em Budzyn.
Provavelmente Oskar j tinha planejado tornar-se um fazendeiro na Argentina, dedicar-se  criao de nutrias, grandes roedores aquticos, cuja pele  muito valorizada. Presumia que o mesmo excelente instinto comercial, que o havia levado a Cracvia em 1939, agora o induzia a atravessar o Atlntico. Perdera todo o dinheiro mas a organizao internacional de ajuda judaica, que conhecia os seus antecedentes 
Pg.374 
disposta a ajud-lo. Em 1949 fizeram-lhe um pagamento ex grafia de USS 15.000 e deram-lhe uma referncia ("A Quem Possa Interessar") assinada por M.W. Beckelman, vice-presidente do Conselho Executivo da organizao:  
O comit Americano da Junta de Distribuio investigou minuciosamente as atividades do Sr.Schindler no perodo da guerra e da ocupao... A nossa recomendao irrestrita  que as organizaes e pessoas, a quem o Sr. Shindler possa procurar, faam todo o possvel para ajud-lo, em reconhecimento pelos seus eminentes servios... Sob o pretexto de administrar uma fbrica nazista de trabalhos forados, primeiro na Polniae depois na Sudetenlndia, o Sr. Schindler conseguiu recrutar como seus empregados e proteger judeus e judias destinados a morrer em Auschwitz e em outros infames campos de concentrao... Testemunhas relataram ao nosso comit que o "campo deSchindler em Brinnlitz era o nico, nos territrios ocupados pelos nazistas, em que nunca foi morto um judeu, ou mesmo espancado, mas, ao contrrio, sempre tratado como um ser humano." Agora, quando ele vai iniciar uma nova vida, devemos ajud-lo, como ele ajudou os nossos irmos.  
Quando Oskar embarcou para a Argentina, levou consigo uma dzia de famliasSchindlerjuden, pagando a passagem de muitos deles. Juntamente com Emilie, ele se instalou numa fazenda na provncia de Buenos Aires e l trabalhou durante quase dez anos. Os sobreviventes protegidos de Oskar, que no o viram durante aqueles anos, acham difcil imagin-lo como fazendeiro, j que ele nunca fora um homem capaz de se adaptar a rotinas. Dizem alguns, e talvez seja verdade, que a Emalia e Brinnlitz tiveram xito, durante a sua excntrica administrao, graas  competncia de homens como Stern e Bankier. Na Argentina, Oskar no tinha esse apoio, apenas o bom senso e a experincia de vida rural de sua mulher.
Durante a dcada em que Oskar se dedicou  criao de nutrias, ficou provado que a criao dos animais, em vez de sua captura em armadilhas, no produzia peles de boa qualidade. Muitas outras criaes desse tipo fracassaram naquele perodo; assim, em 1957 os Schindler foram  falncia. Emilie e Oskar mudaram-se para uma casa cedida pela B'nai B'rith em San Vicente, um subrbio ao sul de Buenos Aires, e por algum tempo Oskar procurou trabalho como representante de vendas. Entretanto, um ano depois ele partia para a Alemanha. Emilie permaneceu na Argentina.
Oskar passou a residir num pequeno apartamento em Frankfurt. Tentou arranjar capital para comprar uma fbrica de cimento e cogitou 
Pg.375
da possibilidade de o Ministrio das Finanas da Alemanha Ocidental pagar-lhe uma grande indenizao pela perda de suas propriedades na Polnia e na Tchecoslovquia. Mas nada conseguiu. Alguns dos sobreviventes de Oskar consideraram que o fato de o Governo alemo no lhe pagar o que devia era devido  atuao de remanescentes
do hitlerismo infiltrado no funcionalismo pblico mais categorizado. Mas a reivindicao de Oskar provavelmente fracassou por motivos tcnicos, no sendo possvel detectar malcia burocrtica na correspondncia endereada pelo Ministrio a Oskar.
A empresa Schindler de cimento foi fundada com capital do Comit de Distribuio e com "emprstimos" de vrios judeus Schindler, que tinham feito fortuna na Alemanha do ps-guerra. Mas durou pouco. Em 1961 Oskar tornou a falir. Sua fbrica fora prejudicada por uma srie de invernos rigorosos e pela suspenso das atividades da indstria de construo. Mas alguns dos sobreviventes Schindler acreditam que o fracasso da companhia dele foi causado pelo temperamento irrequieto de Oskar, avesso ao trabalho de rotina.
Naquele ano, sabendo que Oskar estava em dificuldades, os Schinrdlerjuden radicados em Israel convidaram-no a visit-los com despesas pagas. Apareceu um anncio na imprensa de lngua polonesa, em Israel, convidando todos os antigos internos do Campo de Concentrao Brinnlitz, que tinham conhecido "o alemo OskarSchindler", a entrarem em contato com o jornal. Em Tel Aviv Oskar teve uma maravilhosa recepo. Os filhos do ps-guerra de seus sobreviventes o festejaram. Estava mais corpulento e com as feies mais pesadas. Mas nas festas e recepes, aqueles que o tinham conhecido, notaram que ele era o mesmo indmito Oskar. O mesmo senso de humor e voz rouquenha, o escandaloso charme  Charles Boyer, a sede insacivel tinham sobrevivido a suas duas falncias.
Era o ano do julgamento de Adolf Elchmann e a visita de Oskar a Israel despertou certo interesse na imprensa internacional. Na vspera do incio do julgamento de Eichmann, o correspondente do Daily Mail de Londres escreveu um artigo sobre o contraste entre os antecedentes dos dois homens. Citou o prembulo de um apelo dos Schindlerjuden de ajuda a Oskar. "No esqueamos os sofrimentos no Egito, no esqueamos Haman, no esqueamos Hitier. Mas, em meio aos injustos, no esqueamos os justos. Lembremos de OskarSchindler."
Havia certa incredulidade entre os sobreviventes do Holocausto sobre a ideia de um benigno campo de trabalhos forados como o de Oskar, e essa descrena foi formulada por um jornalista numa entrevista coletiva deSchindler, em Jerusalm.
Como pode o senhor explicar  perguntou o jornalista  que
Pg.376
conhecesse todos os membros da SS na regio de Cracvia e mantivesse com eles transaes regulares?
 Naquele estgio dos acontecimentos  respondeu Oskar  seria meio difcil discutir o destino dos judeus com o Chefe Rabino de Jerusalm.
O Departamento das Escrituras do Yad Vashem, mais para o fim da permanncia de Oskar na Argentina, tinha-lhe pedido uma declarao geral de suas atividades em Cracvia e Brinnlitz. Agora, por iniciativa do prprio Departamento e sob a influncia de Itzhak Stern, Jakob Sternberg e Moshe Bejski (que fora o falsificador de carimbos oficiais de Oskar e era agora um respeitvel advogado), os curadores do Yad Vashem comearam a cogitar de um tributo oficial a Oskar. O secretrio da junta era o Juiz Landau, que presidia ao julgamento de Eichmann. O Yad Vashem solicitou e recebeu grande quantidade de testemunhos sobre Oskar. De todas as declaraes, quatro lhe faziam crticas. Embora todas essas quatro testemunhas admitam que, sem Oskar, teriam perecido, criticam os seus mtodos de negociar nos primeiros meses da guerra. Dois dos quatro depoimentos depreciativos foram escritos por um pai e o filho, que no comeo desta narrativa so mencionados pela letra C. Em sua fbrica de esmaltados na Cracvia, Oskar tinha instalado Ingrid, sua amante, como Treuhnder. Um terceiro testemunho  da secretria de C. e repete as alegaes de espancamentos e maus-tratos, queixas essas que Stern transmitira a Oskar em 1940. A quarta crtica  de um homem que alega ter tido, antes da guerra, uma participao na fbrica de esmaltados de Oskar, quando ainda se chamava Rekord  participao esta, declarou ele, que Oskar teria posteriormente ignorado.
O Juiz Landau e seu conselho devem ter considerado insignificantes esses quatro depoimentos, comparados com a profuso de testemunhos de outrosSchindler juden e abstiveram-se de coment-los. Como todos os quatro acusadores declararam que, de qualquer forma, Oskar os tinha salvo, deve ter ocorrido ao conselho perguntar por que, se Oskar cometera quaisquer crimes contra eles, tinha feito to extravagantes esforos para salvar-lhes a vida.
A municipalidade de Tel Aviv foi a primeira a homenagear Oskar. No dia de seu aniversrio, ao completar cinquenta e trs anos, ele inaugurou uma placa no Parque dos Heris. A inscrio descreve-o como o salvador de l .200 prisioneiros de Brinnlitz. Ainda que esse seja um nmero inferior ao dos resgates realmente havidos, essa inscrio declara que a placa simboliza amor e gratido. Em Jerusalm, dez dias mais tarde, ele foi proclamado um Justo, ttulo israelita peculiarmente honroso, baseando-se na concepo de que, entre os no-judeus, 
Pg.377 
o Deus de Israel sempre coloca uma proporo de Justos. Oskar foi tambm convidado a plantar uma alfarroba na Avenida dos Justos que leva ao Museu do Yad Vashem. A rvore ainda l est, marcada por uma placa, num pequeno bosque formado por rvores plantadas em homenagem a outros Justos. Uma rvore para Julius Madritsch, que alimentou ilegalmente e protegeu os seus trabalhadores de um modo nunca visto entre os Krupps e os Farbens, ergue-se tambm no bosque, assim como uma para Raimund Titsch, o supervisor de Madritsch em Plaszvia. Naquele terreno pedregoso, poucas dessas rvores comemorativas atingiram mais do que uns trs metros de altura.
A imprensa alem publicou histrias dos salvamentos de Oskar durante a guerra e das cerimnias do Yad Vashem. Esses relatos, sempre elogiosos, no lhe tornaram a vida mais fcil. Ele era vaiado nas ruas de Frankfurt, atiravam-lhe pedras, um grupo de trabalhadores gritou-lhe insultos, dizendo que deviam t-lo queimado com os judeus.
Em 1963, Oskar esmurrou um homem que o chamara de "Beija-judeu", e o sujeito deu queixa dele na Justia. No tribunal local, o menos categorizado do poder judicirio alemo, Oskar foi admoestado pelo juiz que o condenou a pagar uma multa. "Eu seria capaz de me matar", escreveu ele a Henry Rosner em Queens, Nova York, "se isso no trouxesse tanta satisfao aos meus inimigos."
Essas afrontas aumentaram a sua dependncia em relao aos sobreviventes, que eram sua nica segurana emocional e financeira. O resto de sua vida, Oskar todo ano passaria alguns meses com eles, vivendo satisfeito e cercado de homenagens em Tel Aviv e Jerusalm, comendo de graa num restaurante romeno na Rua Ben Yehudah, Tel Aviv, embora s vezes tendo de se sujeitar ao zelo filial de Moshe Bejski para limitar as doses triplas de conhaque que ele costumava tomar  noite. No final, Oskar retornaria sempre  outra metade de sua alma: a parte deserdada; o modesto, exguo apartamento a umas poucas centenas de metros da estao ferroviria central de Frankfurt. Escrevendo naquele ano de Los Angeles a outros Schindler juden radicados nos Estados Unidos, Poldek Pfefferberg insistiu com todos os sobreviventes para que doassem pelo menos um dia de salrio por ano a OskarSchindler, cujo estado ele descrevia como de "desalento, solido e desiluso". 
Os contatos de Oskar com os Schindler juden continuaram numa base anual. Era uma questo de poca do ano  seis meses com tratamento de heri em Israel, seis meses na penria de Frankfurt. Vivia de bolsos vazios.
Um comit de Tel Aviv, do qual faziam de novo parte Itzhak Stern.
Pg.378
Jakob Sternberg e Moshe Bejski, continuou a lutar tentando conseguir do Governo da Alemanha Ocidental uma penso adequada para Oskar. O motivo alegado por eles era o seu herosmo durante a guerra, os bens que perdera e o seu precrio estado de sade. Contudo, a primeira reao oficial da Alemanha foi condecor-lo com a Cruz do Mrito em 1966, numa cerimnia presidida por Konrad Adenauer.S em 1 de julho de 1968, o Ministrio das Finanas teve o prazer de informar que, a partir daquela data, pagaria a Oskar uma penso de 200 marcos por ms. Trs meses depois, ele recebeu o ttulo pontifcio de Cavaleiro de So Silvestre das mos do Bispo de Limburg.
Oskar ainda se mostrava disposto a cooperar com o Departamento da Justia Federal, na busca dos criminosos de guerra. Nessa questo, ele parece ter sido implacvel. No seu aniversrio em 1967, forneceu informaes confidenciais relativas ao pessoal da SS em Plaszvia. Uma transcrio de seu depoimento mostra que ele no hesitou em depor, mas tambm que foi uma testemunha escrupulosa. Se nada ou pouco sabe de determinado SS, declara-o francamente.  o que diz de Amthor; do SS Zugsburger; de Frulein Ohnesorge, uma das violentas supervisoras. No hesita, entretanto, de chamar Bosch de assassino e explorador. E conta que reconheceu Bosch numa estao de estrada de ferro em Munique, em 1946; aproximou-se dele e perguntou-lhe se depois de Plaszvia ele ainda conseguia dormir. Bosch, revela Oskar, achava-se ento de posse de um passaporte da Alemanha Oriental. Um supervisor de nome Mohwinkel, representante em Plaszvia da Fbrica de Armamentos Alem,  tambm frontalmente acusado de "inteligente, porm brutal". Sobre Grn, o guarda-costas de Goeth, Oskar conta a histria da tentativa de execuo do prisioneiro Lamus, na Emalia, que ele prprio impediu com o suborno de uma garrafa de vodca. (A histria  corroborada por muitos prisioneiros em seus depoimentos no Yad Vashem,) Com referncia ao NCO Ritschek, Oskar diz que esse oficial tinha m reputao mas que no est a par dos crimes que ele possa ter cometido. No tem certeza, tampouco, se a foto que lhe mostrou o Departamento da Justia  realmente de Ritschek. Apenas uma pessoa na lista do Departamento da Justia merece os seus elogios incondicionais: o engenheiro Huth, que tinha ajudado Oskar por ocasio da sua ltima priso. Huth, afirma ele, era muito respeitado e benquisto pelos prprios prisioneiros. 
Ao entrar na casa dos sessenta, Oskar comeou a trabalhar para os Amigos Alemes da Universidade Hebraica. Essa atividade era fruto da insistncia dosSchindlerjuden, preocupados em dar a Oskar uma nova finalidade na vida. O seu trabalho era angariar fundos na Alemanha 
Pg.379 
Ocidental. E mais uma vez usou seu charme e sua velha capacidade de engambelar, junto a funcionrios e homens de negcios. Ajudou tambm a estabelecer um esquema de intercmbio entre crianas alems e israelitas.
Apesar da precariedade de sua sade, ele continuava vivendo e bebendo como um rapaz. Estava apaixonado por uma alem chamada Annemarie, com quem travara conhecimento no Hotel Rei Davi em Jerusalm. Annemarie seria a cavilha emocional do fim de sua vida.
Sua mulher, Emilie, continuava vivendo, sem nenhuma ajuda financeira da parte do marido, na sua casinha em San Vicente, ao sul de Buenos Aires. E l continua no momento em que est sendo escrito este livro. Como em Brinnlitz, Emilie permanece uma figura de discreta dignidade. Em um documentrio da televiso alem em 1973, ela falou  sem nenhum ressentimento ou mgoa de esposa abandonada  sobre Oskar e Brinnlitz, sobre a sua prpria atuao naquele campo. Perceptivelmente, ela observou que Oskar nada fizera de notvel antes da guerra: tampouco fora excepcional, quando terminou o conflito. Portanto, fora uma sorte que naquele brbaro e violento perodo, entre 1939 e 1945, Oskar tivesse encontrado pessoas que fizeram vir  tona os seus mais profundos talentos.
Em 1972, durante uma visita de Oskar ao escritrio executivo, em Nova York, dos Amigos Americanos da Universidade Hebraica, trs Schindlerjuden, scios de uma grande companhia de construo em Nova Jersey, juntamente com outros setenta e cinco prisioneiros Schindler arrecadaram US$ 120.000 para dedicar a Oskar um andar no Centro de Pesquisas Truman, da Universidade Hebraica. Nesse andar ficaria exposto um Livro da Vida, contendo um relato das operaes de resgate e uma lista com os nomes das pessoas que haviam sido salvas por Oskar. Dois desses scios, Murray Pantirer e Isak Levenstein, tinham dezesseis anos de idade quando Oskar os levou para Brinnlitz. Agora, os filhos de Oskar tinham-se transformado em seus pais, seu melhor recurso, a fonte de sua honra.
Nessa ocasio Oskar j estava muito doente. Os mdicos que o tinham examinado em Brinnlitz  entre eles Alexander Biberstein  sabiam do seu estado. Um deles advertiu os amigos mais ntimos de Oskar: "Esse homem no devia estar vivo. Seu corao continua batendo de pura teimosia."
Em outubro de 1974, ele sofreu um colapso em seu pequeno apartamento perto da estao ferroviria de Frankfurt e morreu num hospital no dia nove. Seu atestado de bito certifica que um adiantado endurecimento das artrias do crebro e do corao provocaram o colapso final. Em seu testamento ele manifestou o desejo  que transmitira 	Pg.380 
a muitos dos seusSchindlerjuden  de ser enterrado em Jerusalm. Em duas semanas, o proco franciscano de Jerusalm deu permisso para que Herr Oskar Schindler, um dos filhos menos devotos da Igreja, fosse enterrado no Cemitrio Latino de Jerusalm.
Passou-se mais um ms at o corpo de Oskar ser levado, num pesado atade, pelas ruas repletas da Velha Cidade de Jerusalm para o cemitrio catlico, de onde se descortina o Vale de Hinnom, denominado Gehenna no Novo Testamento. Na foto que a imprensa publicou do cortejo podem ser vistos  entre uma poro de outros judeus Schindler  Itzhak Stern, Moshe Bejski, Helen Hirsch, Jakob Sternberg, Juda Dresner.
Em todos os continentes, sua morte foi recebida com pesar. 
Pg.381 
APNDICE 
Patentes de SS e Seus Equivalentes no Exrcito  
OFICIAIS
Obers-gruppenfhrer ..............	General
Obergruppenfhrer .................	Tenente-General
Gruppenfhrer .......................	General-de-Di viso
Brigadefhrer ........................	General-de-Brigada
Oberfhrer ............................	(sem equivalente no Exrcito)
Standarenfhrer ....................	Coronel
Obersurmbannfhrer ..............	Tenente-Coronel
Sturmbannfhrer ....................	Major
Hauptsurmfhrer ...................	Capito
Obersturmfhrer ....................	Primeiro-Tenene
ntersurmfhrer ...................	Segundo-Tenente
GRADUADOS
Oberscharfhrer .....................	Subofcial
Unerscharfhrer ....................	equivalente a sargento
Rottenfhrer ..........................	equivalente a cabo

Se estiver interessado em receber sem compromisso, e de forma  absolutamente grtis, pelo correio, notcias sobre os novos lanamentos da Record e ofertas especiais dos nossos livros, escreva para RP Record Caixa Postal 23.052 CEP 20922-970, Rio de Janeiro, RJ dando seu nome e endereo completos, para efetuarmos sua incluso imediata no cadastro de Leitores Preferenciais. Seja bem-vindo! Vlido somente no Brasil.
Impresso no Brasil pelo Sistema Cameron da Diviso Grfica da DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171  20921-380 Rio de Janeiro, RJ  TeL: 585-2000








